Bauman (2007) defende que a natureza humana na pós-modernidade (ou modernidade líquida, conforme o autor classifica o período em curso) é marcada tanto pela angústia quanto pelo mal-estar constante, pela consciência de fracasso e pela intensidade do
16 A partir de relatos feitos no Seminário "Mídia e Violência Urbana", realizado na FAPERJ (Fundação de
Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro) nos dias 1º e 2 de julho de 1993. Maiores referências e informações sobre
viver (vetor compatível com a aceleração pós-moderna), entre sujeitos que se conectam a partir de laços frágeis, volúveis e fugazes, cuja máxima noção de identidade é o estilo, e a ideia de eficácia afasta a reflexão moral. De acordo com análise de Bittencourt (2014), tendo como referências leituras de Bauman sobre a liquidez do homem pós-moderno, a humanidade vive hoje a dor da sua finitude de modo tão intenso como aparentemente nunca se foi vivido na história até então. A prova disso está na constatação de que:
Buscamos de todas as maneiras meios de escaparmos das experiências dolorosas e tristes, vislumbrando acima de tudo a aquisição de um utópico estado de prazer eterno. Com efeito, os avanços tecnológicos nos proporcionaram em muitas circunstâncias um aprimoramento da qualidade de vida, favorecendo assim a dinamização do tempo para o seu uso em atividades mais aprazíveis. Porém, será que sabemos fazer uso adequado do tempo livre que dispomos para a realização de atividades que efetivamente ampliam a nossa potência de agir, tornando-nos mais criativos e solidários? Talvez não, e esse é o paradoxo inscrito no seio de nossa sociedade tecnologizada. Simultaneamente ao fato de termos obtido um considerável desenvolvimento material, ao mesmo tempo nos diluímos enquanto pessoas, pois pretendemos adequar todas as nossas interações apenas àquilo que de alguma maneira nos proporcionará vantagens imediatas. (BITTENCOURT, 2014, p.1).
O pensamento de Baitello Jr. (2005) segue o mesmo raciocínio, dialogando com a leitura de Bittencourt sobre proposta de Bauman a respeito do modo pelo qual as novas tecnologias da informação afetam os vínculos sociais:
Quanto mais se aperfeiçoam os recursos, as técnicas e as possibilidades que o homem tem de se comunicar com o mundo, com os outros homens e consigo mesmo, aumentam também, em idêntica proporção, as suas incapacidades, suas lacunas, seu boicote, seus entraves ao mesmo processo, ampliando um território tão antigo quanto esquecido, o território da incomunicação humana. (BAITELLO, 2005, p. 9).
Portanto, pode-se dizer que a era em que se vive hoje é a da liquidez, ou, da modernidade líquida. Para Bauman (2007. p.15), um dos sintomas mais evidentes desta "modernidade líquida" é o modo pelo qual as relações humanas foram afetadas: tanto a subjetividade quanto a singularidade do outro foram esquecidas (no sentido de que o sujeito contemporâneo passou a desenvolver profunda resistência/intolerância) para ser valorizado em seu lugar a maneira que a alteridade se apresenta para este indivíduo. A substituição do "ser" pelo "parecer" representa a incapacidade da sociedade atual de se relacionar com a alteridade de
maneira plena, instaurando, em seu lugar, relacionamentos instáveis, superficiais, descartáveis, marcados pela "utilidade" do momento, e não mais pela cumplicidade e pela entrega.
Seguindo com a reflexão de Bittencourt (2014) sobre o tema, outro ponto a se considerar é a "lógica excludente da neurótica sociedade pós-moderna", cujos valores, extremamente conservadores, impedem que seus indivíduos estejam aptos para interagir com a diversidade de perspectivas. Uma vez que a alteridade não é reconhecida em totalidade, as relações interpessoais apresentam-se cada vez mais empobrecidas. Nessa perspectiva, o outro, quando diferente, é proclamado como inimigo de antemão, e, nesta visão distorcida da diferença, instaura-se o medo crônico de uma sombra ameaçadora que, à priori, nada mais é do que a subjetividade e singularidade da alteridade. Ou, nas palavras de Bauman, "as importantes contradições (...) são falsamente apresentadas como problemas filosóficos e dilemas a serem resolvidos pelo refinamento do raciocínio – em lugar de serem apresentadas como produto dos genuínos conflitos sociais que na realidade são" (2003, p. 68).
[...] talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos”, as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em “conexões”, ou “conectar-se” e “ser conectado”. Em vez de parceiros, preferem falar em “redes”. (BAUMAN, 2004, p.12).
Para o autor, a obliteração do social presencial no social mediático, ou seja, nas redes, é o principal reflexo do esvaziamento dos laços interpessoais, já que os relacionamentos vivenciados a partir dos meios digitais são capazes de evocar o sentimento do pertencer a uma comunidade, sem, no entanto, promover o desconforto do compromisso (BAUMAN, 2003, p. 66). Em continuidade a esta reflexão, Bauman lamenta:
Sentimos falta da comunidade porque sentimos falta de segurança, qualidade fundamental para uma vida feliz, mas que o mundo que habitamos é cada vez menos capaz de oferecer e mais relutante em prometer. Mas a comunidade continua teimosamente em falta, escapa ao nosso alcance ou se desmancha, porque a maneira como o mundo estimula a realizar nossos sonhos de uma vida segura não nos aproxima de sua realização; em lugar de ser mitigada, nossa insegurança aumenta, e assim continuamos sonhando, tentando e fracassando. (Ibid., p. 129).
Lévy (1999, p.128) contribui para a reflexão ao dizer que "conectadas ao universo, as comunidades virtuais constroem e dissolvem constantemente suas micrototalidades dinâmicas, emergentes, imersas, derivando entre as correntes turbilhonantes do novo dilúvio". Nessa esteira, é possível dizer que a realidade virtual, instituída pela comunicação digital, é uma realidade mito, no melhor espírito de ambiguidade barthesiano, trazendo, em sua própria rubrica, a negação antinômica: se é real, pode, ao mesmo tempo, ser virtual? Marilena Chauí responde a esta questão com clareza:
Então o que significa virtual? Para compreendermos este conceito vale à pena mencionar outro conceito com o qual ele tende a ser indevidamente confundido, o conceito de possível. O modo de relação entre o possível e o real, e entre o virtual e o real também não é o mesmo. Na tradição filosófica o possível é aquilo que pode vir a existir se houver um agente ou circunstâncias que o façam passar a existência. O real é o que existe efetivamente. O possível é o que pode vir a existir. Também na tradição filosófica tendia-se a identificar o possível e o virtual. A semente é a árvore virtual. Ou a árvore possível. Isto é, considerava que o possível e o virtual eram simplesmente potencialidades latentes que poderiam vir à existência se houvesse um agente ou condições favoráveis ao acontecimento. Na perspectiva da tradição, uma expressão como realidade virtual é um não senso, pois o virtual, para a tradição, é irreal. É um mero possível e ainda inexistente, algo irreal. A revolução da informática e a cibernética modificaram o conceito de virtual. O virtual já é real e já existe. Ele não se opõe ao real, ele se opõe ao atual. Agora se entende por virtual algo real e existente que aguarda uma atualização. É aquilo que pode ser infinitamente atualizado. O virtual é o que não pode ser determinado por coordenadas espaciais ou temporais porque ele existe sem estar presente em um espaço ou tempo determinados. Ou seja, para o virtual a atopia e a acronia são o seu modo de ser. É o seu modo de existir. A atualização é o modo de relação dos indivíduos humanos como sistemas informacionais. (CHAUÍ, 2010).
Ao ter em vista que a cultura do virtual perpassa a cultura pós-moderna, Levy acrescenta à temática novamente e afirma que: “a virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia" (1996, p. 20).
Em suma, entre os vetores internacionais de articulação do processo social da pós- modernidade, destacam-se a fragmentação, a incerteza estrutural e a precariedade do conteúdo, além do excesso de toda e qualquer produção (tudo nasce excessivo, saturado) e da hipertelia
dos fenômenos (isto é, perda das finalidades, processo civilizatório que não aponta para onde vai) e do retorno da religião (em uma sociedade em que cada um tem seu próprio Deus). Entretanto, os paradigmas acerca das relações interpessoais merecem destaque devido ao foco desta pesquisa, que é o mapeamento das ritualidades contemporâneas no ciberespaço, isto é, desvelar o modo como os vínculos sociais são estabelecidos e mantidos na rede. No intuito de oferecer subsídios teóricos para análise do objeto de pesquisa, a cibercultura e seus impactos na sociedade vigente serão abordados no tópico a seguir.