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Para Ian Watt, o romance surge na Inglaterra do século XVIII com os livros de Daniel Defoe, Samuel Richardson e Henry Fielding. Para ele, o que é novo nas obras desses autores “não está na vida apresentada e sim na maneira como a apresenta.”89 E o que há de novo na maneira como eles apresentam a vida? Segundo o crítico inglês, eles apresentam um indivíduo, e o nascimento dessa individualidade dá-se num contexto específico. A epopeia clássica e a renascentista representavam uma coletividade, o novo gênero representa o indivíduo. Grandes escritores do passado, como Geoffrey Chaucer, William Shakespeare, Edmund Spenser, John Milton, tiraram os seus enredos da tradição bíblica, histórica, mítica ou lendária; os romancistas modernos tiraram da vida cotidiana. Essa passa a ser a principal diferença, que Watt chama de realismo, sem a conotação da escola literária da segunda metade do século XIX. O realismo literário seria a representação da “experiência individual”90, e a função da narrativa é apresentar isso de maneira que seja mais parecido com essa experiência.

88

BAKHTIN, op cit. p. 270.

89

WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. p. 13.

90

56 O surgimento de um público leitor de jornais e de obras literárias em prosa na Inglaterra do século XVIII é fruto do aumento de uma audiência capaz de ler devido ao acesso à instrução, ou, no caso inglês, à “capacidade de ler e escrever a língua materna.”91 A criação de bibliotecas circulantes destaca-se dentre os vários fatores que ajudaram na formação do hábito de ler por parte desse público constituído na maior parte por mulheres e em número inferior por homens. Ressaltamos que a elite intelectual, essa sim composta majoritariamente por homens, não apreciava esse gênero, relegando-o ao segundo plano.

Como inglês, Ian Watt provavelmente quer para a sua pátria a paternidade do novo gênero. Consequentemente, ele analisa só obras inglesas e trata do crescimento do público leitor na Inglaterra. Acertadamente, ele fala do surgimento do romance moderno, cuja origem é realmente na sua nação, visto o modo de retratar a vida e os indivíduos, mas deixa para trás a herança dos romances pré-modernos.

Outro é o caminho feito por Michael Mckeon92. Para chegar às origens do romance inglês, o teórico trata dos precursores: o iluminismo grego e a renascença do século XII. O teórico inglês também analisa Dom Quixote para mostrar a ligação de Cervantes com os romancistas subsequentes. Os autores analisados por ele são os mesmos de Ian Watt: Daniel Defoe, Samuel Richardson e Henry Fielding. A grande surpresa da obra é a inclusão de The Pilgrim’s Progress, de John Bunyan, considerada por muitos como uma alegoria religiosa93.

Entretanto, McKeon atribui à obra de Cervantes um papel importante na construção do romance como gênero, considerando-a o primeiro antirromance da

91

Ibidem, p. 36.

92

The origins of the English novel 1600-1740. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2002.

93

BURGESS, Anthony. A Literatura Inglesa. São Paulo: Ática, 1996. p. 156-157. DRABBLE, Margaret. (ed.) Oxford Companion to English Literature. Oxford: Oxford University Press, 1996. p. 775-776.

57 Europa moderna.94 Para o autor, “uma das implicações clarividentes de Dom

Quixote é que o moderno desencantamento do mundo requer não a erradicação do

encantamento, mas sua transformação, sua secularização.”95 Esse mundo de encantamento dos romances pré-modernos não mais existe, talvez nunca tenha existido fora dos livros.

O autor aponta como uma das grandes conquistas cervantinas a mudança que se dá entre as duas partes da obra. Na primeira há o manuscrito encontrado, escrito por Cid Hamet Benengeli, historiador árabe, recurso típico no gênero. Todo autor atribui seu livro a um manuscrito ou a um livro anterior. Aliás, como Italo Calvino já disse muito bem, a cavalaria talvez só tenha existido nos livros de cavalaria.96 Entretanto, na segunda parte, o narrador refere-se à continuação apócrifa de Dom Quixote, escrita por Alonso Fernandez de Avellaneda em 1614:

Valha-me Deus, com que gana deves estar esperando agora, leitor ilustre, ou mesmo plebeu, este prólogo, crendo achar nele vinganças, vitupérios contra o autor do segundo Dom Quixote, isto é, daquele que dizem se gerou em Tordesilhas e nasceu em Tarragona! Em verdade, porém, não te hei de dar tal alegria;97

Sabemos que apesar de prometer não fazer nada contra o continuador da história de Cervantes, há referências algumas vezes à obra e todas de modo crítico. Devido a sua sagacidade, nenhuma das censuras é feita pelo narrador, mas pelos próprios personagens, sendo que um deles chega a pedir que a obra apócrifa seja metida “nas profundezas dos infernos” porque é tão ruim “que, se eu mesmo de propósito tentasse fazê-lo pior, não o conseguiria.”98 Além do julgamento, temos também a intertextualidade, já presente na referência aos livros de cavalaria.

94

MCKEON, op. cit. p. 273.

95

MCKEON, op. cit. p. 282. (tradução nossa)

96

Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 62.

97

CERVANTES, op. cit. p. 18. Volume 2

98

58 A narrativa analisada e tratada por Ian Watt representa a sociedade moderna, surgida depois do século XVI, porém a estrutura interna do gênero ainda é a mesma. Tudo nos é relatado desde o nascimento até a morte, se assim for o desfecho. O crítico ingês pergunta: “com seus valores e ideais, pode a cavalaria, em alguma ocasião, ser uma força operativa no mundo real?”99 Uma possível resposta é não, pois o problema de Quixote é não perceber a mudança do seu mundo. Os ideais não são mais compatíveis com o presente, porque são sempre melhores do que a realidade. O que o narrador nos mostra é um mundo desconcertado como Camões já tinha dito alguns anos antes. Ao tentar concertá-lo, isto é, pô-lo em harmonia, Quixote perde-se. Várias perguntas permanecem na obra de Cervantes, assim como outras são respondidas. Thomas Pavel afirma que o autor espanhol mostra como absurda e ridícula é a crença de que um homem e a ação desse indivíduo podem mudar a ordem do mundo. Afinal, “o ordem humana não é suscetível de ser modificada (e menos ainda fundada!) pela ação individual, sobretudo quando esta se inspira em ideais que nada tem a ver com a prática habitual.”100

A Europa feudal era bélica e a louvação dos ideais cavaleirescos foi muito importante nesse período. Ao longo dos séculos XVI e XVII, esses ideais ficaram para trás, como algo impossível. O próprio Renascimento, que é italiano e não feudal, iniciou a recriminação desses ideais. O século XVIII foi o grande paradigma para o mundo contemporâneo com os seus acontecimentos, a Revolução Francesa, a Independência dos Estados Unidos da América e o surgimento de uma nova estética: o Romantismo.

99

Mitos do individualismo moderno: Fausto, Dom Quixote, Dom Juan, Robinson Crusoe. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. P 68-69.

100

Representar la existencia: El pensamiento de la novela. Barcelona: Crítica, 2005. p. 84 - 85. (tradução nossa)

59 Se considerarmos o romance como descendente da épica, tal como Bakhtin e Lukács, o seu estudo já está presente na antiguidade clássica, desde Aristóteles, passando por Horácio e Longino101. Sabemos, contudo, que a forma estudada a partir do século XVIII é aquela concebida por Julia Kristeva como

a narrativa pós-épica que acabou de constituir-se na Europa, em fins da Idade Média, com a dissolução da última comunidade européia, a saber, a unidade medieval baseada na economia natural fechada e dominada pelo cristianismo.102

Assim como a teórica búlgara, os autores de O universo do romance103 brevemente apontam um histórico do romance, tendo como o seu início a Idade Média: “o século XII viu, em França, um primeiro grande florescimento romanesco, com Perceval, Le Chevalier de la charrette de Chrétien de Troyes, Le Roman de

Tristan de Béroul”.104

Entretanto, se essa forma surgiu no final da Idade Média, por que poucos teóricos apontam essa época como a do início do gênero? Uma resposta possível é o fato de esse período ter sido ignorado pela historiografia até o século XVIII. Depois, os românticos o idealizaram, ao passo que os positivistas supervalorizaram o Renascimento em detrimento da Idade Média. Somente a partir do século XX, com os estudos realizados pela chamada História Nova, pudemos compreender melhor a época medieval de forma menos abstrata e emocional, revelando as suas várias facetas, mas principalmente acabando com a noção de idade das trevas, devido às obras de Georges Duby e Jacques Le Goff, entre outros estudiosos do período medieval.

101

A Poética clássica. São Paulo: Cultrix, 1997.

102

O texto do romance. Lisboa: Horizonte, 1984. p. 16.

103

BORNEUF, Roland & OUELLET, Réal. Coimbra: Almedina, 1976. p. 5-9.

104

60 Não obstante, a historiografia literária, com algumas exceções, não se deu ao trabalho de analisar os textos medievais e a sua influência ou não para a subsequente formação do romance. Poucos teóricos analisam a narrativa medieval, sendo que uns nem sequer citam ou fazem referência à literatura do período, e se o fazem, é quando tratam de Dom Quixote. Entretanto, alguns, entre eles Auerbach, Bakhtin e Menendes y Pelayo apontam uma série de méritos no gênero.

Benzer Belgeler