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A épica medieval, para Carlos Alvar e Manuel Alvar105, tem elemento da épica antiga, grega e romana, isto é, as aspirações da sociedade que representa, por isso os heróis simbolizam a coletividade. Acreditamos que os livros de cavalaria, por outro lado, têm um elemento novo: o indivíduo. Os heróis não se parecem uns com os outros. Lancelote, Artur, Perceval, Gawain, Tristão não são o mesmo personagem. Outro elemento que diferencia os dois gêneros é o caráter oral do primeiro, visto que nos poemas épicos a oralidade é presente, já os romances foram escritos para serem lidos, fato apontado por Paul Zumthor.

O autor de A letra e a voz106 tem uma ideia muito semelhante a de Bakhtin quando este diz que “ao lado dos grandes gêneros, só o romance é mais jovem do que a escritura e os livros, e só ele está organicamente adaptado às novas formas de percepção silenciosa, ou seja, à leitura.” 107 Como o teórico russo assinala,

o romance é o único gênero por se constituir, e ainda inacabado. [...] o nascimento e a formação do gênero romanesco realizam-se sob a plena luz da História. A ossatura do romance enquanto gênero ainda está longe de ser

105

Epica medieval Española. Madrid: Cátedra, 1997.

106

ZUMTHOR, op. cit.

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consolidada, e não podemos prever ainda todas as suas possibilidades plásticas.108

Os românticos, como bons contestadores, também questionaram a poética clássica e a divisão em três grandes gêneros: épica, lírica e drama. Friedrich Schlegel109 é um dos primeiros a teorizar o romance. Para o autor alemão, há duas linhas, uma mais realista feita pelos ingleses Henry Fielding, Samuel Richardson, Oliver Goldsmith, que representam a vida cotidiana; outra mais livre tendo em Jean Paul, Lawrence Sterne e Denis Diderot os mais representativos expoentes. Essas obras têm uma “forma caótica, entremeadas de episódios, digressões, intervenções do autor que interrompem continuamente as convenções da narrativa.”110 De certa maneira, elas são as continuadoras da lição de Cervantes.

Friedrich Schlegel111 considera o início da literatura europeia os romances de cavalaria em verso e prosa, visto que foram produzidos na Idade Média, fato que Auerbach também apontará. Se uma das principais características do Romantismo é a sua busca por originalidade, a narrativa em prosa é a melhor forma para expressar isso, pois “o romance funde o dramático, o lírico, o épico [...] aquilo que constitui o romance enquanto género é a sua a-genericidade, o seu posicionamento sempre fora do género.”112 Sendo assim, para o escritor, a forma do gênero é não ter forma alguma, pois é uma soma de todos os outros gêneros. Exagero à parte, Schlegel tem razão: a narrativa está em constante mudança, tal como Bakhtin perceberá também.

108

BAKHTIN. op cit. p. 397.

109

Um romance é um livro romântico. In: D’ANGELO, Paolo. A estética do Romantismo. Lisboa: Estampa, 1998. p. 141-159. 110 Ibidem, p. 146. 111 Ibidem, p. 149 112

62 Thomas Pavel113 denomina as obras anteriores ao Dom Quixote de pré- modernas, sem explicitar o termo. Adotaremos, portanto, essa designação para as narrativas cavaleirescas escritas antes de Dom Quixote e deter-nos-emos mais nesse termo. Entendemos por romance pré-moderno a produção em prosa ficcional (em oposição à histórica) criada antes ou durante o século XVI, marco para a chamada Idade Moderna. Essa produção tem como base a sociedade feudal europeia em geral, e a da Península Ibérica em particular, pois foi em Espanha que os enormes ciclos romanescos foram produzidos, unindo as antigas histórias da Távola Redonda, a tradição épica, as crônicas históricas, os livros de linhagem, a epistolografia, usando do último veio épico para criar os ciclos de Amadis, Palmeirim e seus descendentes. Não é por acaso que a grande epopeia do Renascimento seja obra também da Península: Os lusíadas. Afinal, só em Portugal havia uma unidade política e histórica para comportar um assunto épico. As outras nações, se é que se pode falar de nações, ainda eram novas: Espanha, Inglaterra, França. Itália e Alemanha não tinham unidade política, pois ainda eram pequenos reinos.

Na medida em que o gênero adota como norma a verossimilhança e busca retratar a vida cotidiana em todas as suas facetas, os romances pré-modernos cheios de idealismo e fantasia tornaram-se obsoletos. A leitura dessas obras não dizia mais nada aos seus leitores, já que a sociedade apresentada era diferente, mais bonita, menos real. Reis, rainhas, príncipes, princesas, cavaleiros em busca de fama, honra, glória, reparadores de injustiças, estabelecedores da ordem não tinham mais sentido no mundo moderno porque o ideal, a aspiração de uma sociedade, não existe mais, o que existe é o sujeito, o indivíduo, a objetividade, o realismo, tal como

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63 proposto por Ian Watt114. Em prol disso, as narrativas pré-modernas foram banidas do cânone e da educação literária de boa parte dos leitores por serem consideradas fantasiosas demais.

Se nas narrativas que analisaremos a passagem da oralidade para a escrita já está completa, em Dom Quixote, entre outras coisas, aparece o jogo com o convencional dessas obras, assim como a inclusão da imprensa e seu papel como difusor delas. Os romances de cavalaria estão entre os primeiros livros impressos e os primeiros best-sellers da era moderna. Eeas já foram escritos para serem lidos, embora ainda haja alguns traços da oralidade das obras que os antecederam. Lembremos que ao lado dessa produção cavaleiresca na Península Ibérica há outras igualmente importantes: o romance pastoril e o picaresco.

Anthony Burgess, ao tratar do romance, elenca sete usos: como expressão de uma interpretação da vida; como distração ou fuga; como propaganda; como reportagem; como agente de mudança na língua e pensamento de uma cultura; como expressão do espírito de sua época; como criador de estilos de vida e árbitro do gosto.115 Francisco López Estrada, ao citar Karl Vossler, chama atenção para princípio da prosa de ficção: a intenção de entreter.116 Sem negar a importância dos outros usos que o gênero possa adquirir, todos os outros decorrem primeiramente desse. Afinal, durante quatro séculos, as histórias de cavaleiros valentes salvando damas em perigo, corrigindo injustiças, fizeram parte do entretenimento da nobreza. Com a imprensa, essas histórias tornaram-se mais populares e disponíveis a um

114

A ascensão do romance. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. p. 13.

115

O Romance. In: FADIMAN, Clifton (ed). O Tesouro da Enciclopédia Britânica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. p. 9-29.

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64 público maior, tal como atestam as 30 edições de Amadis de Gaula impressas entre os anos de 1508 e 1587.117

No século XIII, com A demanda do Santo Graal, surgiu um novo herói: Galaaz, tornando-se modelo de perfeição espiritual. Três séculos depois, Amadis e

Palmeirim tornaram-se o modelo de conduta na Península Ibérica, em meio às

grandes conquistas ultramarinas. Por outro lado, na Itália, país sem tradição de cavalaria ou de feudalismo, O cortesão de Batazar Castiglione é o manual de etiqueta.

A experimentação do Dom Quixote na mescla de estilos: novelas de cavalaria, romance pastoril e picaresco tem sua origem nas obras aqui apresentadas. Amadis, Palmeirim, Clarimundo apontam também a mescla de gêneros. Neles, vemos a crônica histórica, os livros de linhagens, epistolografia, biografia, assim como o fantástico presente no imaginário medieval: anões, gigantes, bruxas, magos, dragões.

A origem do romance está na Idade Média? Não temos certeza, mas que alguns dos seus primeiros modelos foram medievais temos evidência. Se pensarmos no modo como as narrativas dos séculos XII e XIII influenciaram a novela de cavalaria do século XVI na Península Ibérica, que influenciou o Dom Quixote, que influenciou o romance inglês dos séculos XVII e XVIII, que influenciou o romance romântico do início do século XIX, que serviu de contraponto para o romance realista da segunda metade do século XIX, que serviu para o rompimento do romance com todas as regras nos séculos XX e XXI, a que conclusão chegamos? Que de certa forma temos razão em apontar um dos inícios do gênero e alguns de seus primeiros modelos na Idade Média, pois encontramos elementos estruturais que se

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AGUINAGA, Carlos Blanco; PUÉRTOLAS, Julio Rodríguez; ZAVALA, Iris M. Historia Social de La

65 desenvolveram mais nas obras aqui analisadas e que contribuíram para a evolução do gênero, principalmente o uso de recursos tidos como modernos: analepses e prolepses. Reconhecemos também o papel do romance picaresco e do pastoril na formação do gênero, mas não é nosso propósito analisá-los. Contudo, uma pergunta permanece: qual é a essência do gênero?

Tal como Bakhtin e Schlegel salientaram, percebemos a apropriação dos outros gêneros nas obras aqui analisadas, já que há mescla de tudo: genealogia, moral, epistolografia. Logo, há uma herança que o próprio Quixote usa em sua estrutura e forma, e seus herdeiros aperfeiçoaram nos séculos seguintes. Em relação à ligação da burguesia com o romance e o surgimento dele estar ligado a essa classe devido ao aumento do público leitor, lembremos que os romances como

Amadis de Gaula tiveram várias edições. Portanto, no século XVI também havia

leitores ávidos por algo que os fizessem passar o tempo, os entretivessem. Assim sendo, não é só a Inglaterra do século XVIII, como Ian Watt118 afirma, que tem lugar para o gênero.

Se pensarmos na narrativa medieval, ela lida com o fato mais objetivo da ficção: a própria noção de ficcional. Chrétien, Wolfram, Mallory, Joanot Martorell e os escritores anônimos sabiam e diferenciavam a si como narradores e escritores. Assim sendo, algo que a crítica do século XX estudou e fez, já tinha sido feita pelos escritores desde o século XII. Os próprios mecanismos de construção da história são feitos pela técnica do entrelaçamento, o que dá a ideia de simultaneidade no relato. Soma-se a isso o fato de eles terem um narratário ideal, o público ouvinte, os

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66 primeiros leitores. O surgimento do gênero está ligado diretamente à noção de leitura individual ou coletiva, assim como a de prazer.119

Uma hipótese nossa é a de que o heroísmo não entra na composição das histórias literárias, porque elas são escritas por homens com ideais burgueses e o herói épico é um cavaleiro nobre com ideais aristocráticos. Ele morre por Deus, pela pátria, pela mulher amada, pela família, pela honra, pela dignidade, e esses ideais são vistos como ultrapassados.

Benzer Belgeler