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KANI HEDER EDĐLENLERLE ĐLGĐLĐ GELĐŞMELER

Belgede Mekke'nin fethi (sayfa 62-81)

A constatação de que não há nenhuma “via direta” que conduza, por inferência, de um

explanandum para o seu explanans obrigou Peirce a importantes reformulações não apenas da

sua ideia de abdução, mas também da de indução. Esta última perde o caráter ampliativo ou sintético, anteriormente compartilhado com a abdução, e deixa de ser compreendida como o princípio de construção de leis gerais (empíricas) a partir de alguns casos particulares. Sua função fica restrita ao teste experimental das consequências previamente deduzidas das leis e teorias originalmente geradas e sugeridas hipoteticamente por meio de raciocínios abdutivos.

“Para o Peirce do período tardio, o problema da indução não é o que se pode generalizar a

partir de uma amostra de dados, mas apenas uma determinação quantitativa de algo já

41“There is no direct way – and not even a probabilistic one – from a set of data towards an organizing structure

fornecido pela abdução” (HOFFMANN, 1999, p. 272, grifo do autor, tradução nossa)42. Na verdade, embora a espécie de indução de maior valor científico e que confere maior segurança às suas conclusões seja de fato, para Peirce, aquela que envolve determinações quantitativas, há ainda outras variedades, como a indução qualitativa43. O essencial, em todo caso, é que Peirce passa a incluir sob a rubrica da indução exclusivamente os métodos utilizados no teste experimental de leis e teorias previamente elaboradas44.

Isso, por um lado, permite uma clara “divisão de tarefas” entre o que seriam, para o filósofo norte-americano, as três formas básicas de inferência. Criar leis, teorias, hipóteses inéditas – e mesmo generalizações empíricas – passa a ser incumbência exclusiva da abdução, a única espécie de inferência genuinamente ampliativa, sintética e criativa, “a única operação

lógica que introduz novas ideias” (PEIRCE, CP 5.171, tradução nossa)45

. A prática anterior de caracterizar os tipos de raciocínio por meio de inversões da forma silogística dedutiva é abandonada justamente por confundir essa função criativa da abdução com alguma espécie de relação probabilística entre as premissas e a conclusão. Por outro lado, todavia, o que, do ponto de vista da classificação dos argumentos parece à primeira vista uma vantagem, impõe na verdade uma dificuldade ainda maior para a descrição da estrutura das abduções: afinal, se

não há nenhuma “via direta” ligando as suas supostas premissas e a sua pretendida conclusão,

não é fácil compreender em que medida se pode falar ainda em raciocínio nesses casos.

42“For the later Peirce, the problem of induction is not what can be generalized from a sample of data, but only a

quantitative determination of what is already given by abduction”.

43

Peirce distingue três tipos de indução: quantitativa, qualitativa e crua. Cf., por exemplo, Peirce (CP 2.755- 2.760).

44“Induction takes place when the reasoner already holds a theory more or less problematically […]; and having

reflected that if that theory be true, then under certain conditions certain phenomena ought to appear (the stranger and less antecedently credible the better), proceeds to experiment, that is, to realize those conditions and watch for the predicted phenomena” (PEIRCE, CP 2.775). Como veremos no segundo capítulo, essa nova maneira de conceber a indução implica numa outra abordagem do problema da sua justificação epistêmica. Uma vez que a indução não é mais descrita como uma inferência sintética ou ampliativa, não há porque continuar a buscar um princípio geral de uniformidade da natureza, ou outro que o valha, para legitimar a derivação de casos particulares para uma lei geral. O problema da justificação dos métodos indutivos passa a ser, na nova perspectiva adotada por Peirce, o de determinar quais testes experimentais podem ser feitos (e em que condições eles devem ser feitos) para se confirmar ou refutar uma teoria, algo equivalente ao que Nelson Goodman chamou de novo problema fundamental da indução, interpretado como problema da teoria da confirmação. Isso mostra o quanto os problemas da descrição e da justificação dos modelos de inferência estão imbrincados.

Peirce procurou enfrentar essa dificuldade substituindo o seu anterior critério silogístico de classificação dos argumentos por um critério metodológico, de acordo com o qual os raciocínios seriam definidos a partir do papel específico que eles desempenham no método de investigação científica. Assim, a abdução passou a ser identificada com o momento inicial da pesquisa, quando o cientista, diante de um ou vários fatos inusitados que lhe exigem uma explicação, cria uma hipótese capaz de torná-los compreensíveis. A dedução e a indução entram em cena nas etapas posteriores: aquela é convocada para detalhar as consequências necessárias e prováveis de uma hipótese e esta intervém nos momentos de avaliar se os testes experimentais das consequências previamente deduzidas corroboram ou refutam a hipótese inicialmente gerada. Se eventualmente a aplicação dos métodos indutivos de teste empírico conduzirem à refutação da hipótese inicial, isso dará ensejo à realização de uma nova operação abdutiva. Dessa nova abdução, uma outra hipótese surgirá, suas possíveis consequências serão deduzidas e, mais uma vez, submetidas a testes indutivos, configurando- se assim um processo cíclico e autocorretivo de produção do conhecimento46.

Ao adotar esse critério metodológico de classificação, Peirce não estava apenas fazendo de um contexto específico de uso das inferências, a saber, o da atividade científica, um contexto privilegiado, em relação ao qual todos os outros usos possíveis seriam tratados como derivados. Se a função desempenhada na pesquisa científica por cada tipo de inferência torna- se o princípio a partir do qual elas são classificadas, é porque a referência a um método ou

regra geral constitui-se numa característica fundamental da própria definição peirceana de

inferência. Essa referência a um método ocorre de dois modos. Em primeiro lugar, inferir uma conclusão qualquer C de uma premissa P significa, para Peirce, assumir P como proposição

46

Nota-se neste ponto um claro contraste entre esta compreensão, por assim dizer, dinâmica do conhecimento científico e aquela subjacente ao procedimento de reconstrução racional proposto pelos empiristas lógicos. Peirce teria provavelmente julgado insatisfatória ou incompleta uma análise lógica do conhecimento restrita apenas ao contexto de justificação das teorias. Tal restrição pareceria-lhe o efeito de uma concepção demasiadamente restrita e formalista de inferência, que teria levado alguns filósofos a eleger como peças autênticas de conhecimento científico apenas os sistemas teóricos em suas formulações bem definidas. Com isso eles teriam negligenciado a função metodológica específica dos raciocínios abdutivos e, consequentemente, a dinâmica auto-corretiva do conhecimento resultante da interação entre as três formas básicas de inferência

verdadeira e adotar uma regra que diz: se uma outra proposição semelhante a P for verdadeira, então uma proposição do mesmo tipo de C também o será (PEIRCE, CP 7.536 e 2.462). Em segundo lugar, mesmo a distinção entre validade e invalidade lógica torna-se dependente do método ou princípio subjacente a uma dada inferência, pois “um argumento

válido é aquele cujo princípio orientador é verdadeiro” (PEIRCE, CP 2.463, grifo do autor,

tradução nossa)47 e um “princípio orientador” é verdadeiro quando contribui de algum modo para a realização do objetivo geral de todo e qualquer raciocínio: a aquisição de conhecimento. Ou ainda, para usar as palavras de Peirce,

para ser válido, um argumento ou inferência deve realmente observar o método que ele professa observar e, além disso, esse método deve de fato ter o tipo de virtude que se supõe que ele tenha para produzir a verdade (PEIRCE, CP 2.780, tradução nossa)48.

Essa maneira de definir a validade de argumentos é sem dúvida bastante peculiar. Voltaremos a ela no próximo capítulo, quando tratarmos especificamente dos problemas de justificação do modelo abdutivo. Por ora, é suficiente observar que, ao fazer a validade lógica de um argumento depender da eficácia com que o seu método correspondente contribui para a realização de um fim determinado, Peirce distancia-se claramente da maneira como hoje estamos habituados a compreender os critérios de validade lógica, pelo menos em dois aspectos. Por um lado, ele associa a noção de validade lógica à de eficácia de uma regra, algo completamente estranho ao modo como a verdade de uma proposição é definida na teoria semântica de Alfred Tarski, por exemplo. Por outro lado, ao estabelecer tal vínculo, Peirce precisa postular uma finalidade em relação à qual o método correspondente a um tipo de inferência deve ser eficaz, ou “virtuoso”.

Desse modo, Peirce efetivamente estendeu o conceito de validade para o de

produção da verdade, indo além do ideal dedutivo de preservação da verdade e do

47“a valid argument is one whose leading principle is true”.

48 “in order to be valid the argument or inference must really pursue the method it professes to pursue, and

padrão indutivo de probabilidade (KAPITAN, 1992, p. 5, grifo do autor, tradução nossa)49.

Em que medida a abdução possui as características típicas de uma inferência, de acordo com Peirce? Qual a regra ou princípio metodológico que lhe corresponde? Quais critérios usar para avaliar a contribuição de um argumento abdutivo qualquer – supondo que tal coisa existe

– para a aquisição de conhecimento? Seja qual for a estrutura ou forma lógica desses

argumentos, ela deve ser versátil o bastante para atender a duas tarefas à primeira vista bem distintas: por um lado, a geração ou elaboração de novas conjeturas (leis, teorias, modelos) e, por outro, a pré-seleção daquelas que ditarão os rumos das investigações posteriores50.

Assim, como se já não bastasse a dificuldade em descrever um tipo de argumento no

qual a relação entre premissas e conclusão não se dá nem por “via direta” dedutiva, nem

indutiva, tem-se agora a complicação adicional de associar a ele uma regra capaz de satisfazer a mais de uma função metodológica. Essa dificuldade adicional, porém, tampouco abalou a convicção de Peirce a respeito da existência de uma forma lógica bem definida para a abdução, mesmo que, quase paradoxalmente, ele a reconhecesse como “debilmente contida

por regras lógicas” (PEIRCE, CP 5.188, tradução nossa)51

. Em certa passagem, ele chega a sugerir para ela a seguinte fórmula:

O fato surpreendente C foi observado;

Mas se A fosse verdadeira, C tornaria-se óbvio;

Portanto, há razões para suspeitar que A seja verdadeira (PEIRCE, CP 5.189, tradução nossa)52.

49 “In this way, Peirce effectively extended the concept of validity beyond both the deductive ideal of truth-

preservation and the inductive standard of likelihood, to that of truth-productivity”.

50 “The first starting of a hypothesis and the entertaining of it, whether as a simple interrogation or with any

degree of confidence, is an inferential step which I propose to call abduction. This will include a preference for any one hypothesis over others which would equally explain the facts, so long as this preference is not based upon any previous knowledge bearing upon the truth of the hypotheses, nor on any testing of any of the hypotheses, after having admitted them on probation” (PEIRCE, CP 6.525).

51“very little hampered by logical rules”.

52“The surprising fact, C, is observed; but if A were true, C would be a matter of course. Hence, there is reason

Ora, enquanto descrição das funções metodológicas da abdução no processo de aquisição do conhecimento, essa fórmula é extremamente insatisfatória. Ainda que a

conclusão deixe claro o seu caráter hipotético ou problemático ao falar apenas em “razões para suspeitar” da verdade da conjetura explicativa sugerida, não se vê como esse novo

esquema pode expressar adequadamente aquelas duas atribuições básicas da abdução, a saber, a geração de novas ideias e a sua pré-seleção antes de testes empíricos. Em primeiro lugar, a hipótese A, a ser supostamente gerada como resultado da inferência, não é uma completa novidade anunciada apenas na conclusão – ela aparece já na segunda premissa. Por um lado, não haveria de ser de outro modo. Um raciocínio no qual a conclusão fosse completamente inédita, sem nenhuma menção ao conteúdo das premissas, não passaria de uma reunião arbitrária de proposições desconexas – não poderia sequer ser chamado de raciocínio. Afinal, condição mínima para se ter um argumento é que a conclusão seja a consequência de um conjunto de premissas explicitamente conhecidas. Por outro lado, porém, a satisfação dessa condição mínima para que se possa falar em um ato de inferência parece contrariar explicitamente a prerrogativa de que a abdução não deve partir de nenhum conhecimento prévio a respeito de uma hipótese (PEIRCE, CP 6.525). Em outras palavras, tem-se aqui um dilema que se pode colocar nos seguintes termos: qualquer nova hipótese só é introduzida na pesquisa científica por meio de uma inferência abdutiva, mas, justamente por ser veiculada a partir de uma inferência, essa nova conjetura não pode surgir completamente inédita na conclusão, como resultado puro da transição inferencial; ela deve estar previamente expressa, de algum modo, nas premissas.

Sem uma resposta clara a esse dilema, restará sempre a suspeita de que o esquema da abdução sugerido por Peirce apenas coloca em outros termos, sem resolvê-la, a principal questão que ele deveria esclarecer: de que maneira novas ideias são introduzidas na pesquisa científica? A sua resposta, como veremos brevemente, envolve o reconhecimento de uma

estreita relação entre os raciocínios abdutivos e o que ele chama de juízos perceptivos53

(“perceptual judgments”)54

. Na medida em que esse parece ser um elemento importante da solução dada pelo filósofo norte-americano para o problema geral da possibilidade de raciocínios ampliativos ou sintéticos, cabem-nos algumas considerações a respeito das interações entre abduções e juízos perceptivos, embora ultrapasse os objetivos desta tese um exame dos argumentos específicos sobre a origem e a natureza desses juízos.

Belgede Mekke'nin fethi (sayfa 62-81)

Benzer Belgeler