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Como informamos no capítulo anterior, tomaremos como base teórica a Gramática Discursivo-Funcional, organizada por Hengeveld e Mackenzie (2008). Dessa forma, estudaremos a modalidade deôntica dentro do processo comunicativo, e a GDF traz considerável contribuição no que diz respeito ao entendimento de como a modalidade contribui para a realização da intenção do enunciador.

A tipologia de Hengeveld (2004) distingue dois critérios de classificação para a modalidade, que pode ser classificada quanto ao domínio modal e quanto ao alvo de avaliação ou orientação. No que diz respeito ao domínio, o autor categoriza em cinco: facultativo, relacionado às habilidades intrínsecas ou adquiridas; deôntico, relacionado a avaliações morais ou legais; volitivo, relacionado ao desejo; epistêmico, relacionado ao conhecimento sobre o

mundo real; e evidencial, relacionado à fonte da informação apresentada. No que concerne ao alvo de avaliação, Hengeveld (2004) aponta que a modalidade pode ser direcionada ao

participante, ao evento e à proposição.

Os tipos de modalidade resultam do cruzamento entre esses dois critérios, configurando o que Hengeveld nos apresenta como: modalidade inerente, que se refere aos meios linguísticos por meio dos quais um falante pode caracterizar a relação entre um participante em um Estado-de-coisas e a realização potencial desse Estado-de-coisas;

modalidade objetiva, que se refere aos meios linguísticos por meio dos quais um falante pode avaliar a realidade de um Estado-de-coisas em termos de seu conhecimento sobre os Estados- de-coisas possíveis e modalidade epistemológica, que faz referência aos meios linguísticos por meio dos quais um falante pode expressar seu comprometimento com relação à verdade de uma proposição. Com isso, o autor mostra que as diferentes distinções semânticas geralmente classificadas sob o rótulo ‘modalidade’ não parecem representar uma categoria semântica única e coerente.

As modalidades orientadas para o participante podem ser quanto ao domínio, facultativas, deônticas ou volitivas. As modalidades orientadas para o evento podem ser facultativas, deônticas, volitivas e epistêmicas. As modalidades orientadas para a proposição podem ser volitivas, epistêmicas e evidenciais, segundo Hengeveld e Mackenzie (2008).

Na GDF, a modalidade orientada para o Participante, para o Evento ou para a Proposição é expressa por meio de operadores e modificadores no Nível Representacional. As modalidades orientadas para o participante seriam expressas por operadores e modificadores da camada das Propriedades Configuracionais (f); as orientadas para o evento, na camada do Estado-de-Coisas (e); e, por fim, as orientadas para a proposição, na camada do Conteúdo Proposicional (p).

Com base em Hengeveld e Mackenzie (2008), expomos abaixo alguns exemplos dos domínios de modalidade, retirados da GDF:

Modalidade Facultativa:

(1) Você tem de estar apto a nadar (para participar deste curso).7

Modalidade Deôntica:

(2) Eu devo comer.8

Modalidade Volitiva:

(3) Nós queremos sair 9

Modalidade Epistêmica:

(4) Provavelmente, Sheila está doente 10 Modalidade Evidencial:

(5) Aparentemente, é provável que ele está vivendo em Lanarkshire. 11

Os exemplos acima ilustram as modalidades e seu tratamento na GDF. O primeiro exemplo diz respeito à modalidade facultativa e expressa uma capacidade/habilidade de determinado indivíduo para realizar determinada ação. No exemplo (2), a modalidade deôntica é manifestada por meio do modal dever, instaurando uma obrigação no enunciador de comer. No próximo exemplo, o enunciado expressa uma vontade em realizar determinada ação. Em (4), a modalidade epistêmica é manifestada por meio do advérbio provavelmente, indicando uma probabilidade com base numa crença do enunciador. Por último, a modalidade evidencial, manifestada pelo advérbio aparentemente e pelo adjetivo provável, indica que só possível deduzir que ele mora em Lanarkshire pela aparência que o mesmo demonstra, indicando o que leva o falante a ter essa crença. Vale ressaltar que, dentre esses exemplos, a modalidade deôntica, manifestada pelo verbo modal dever (must), assim como em português, manifesta ordens, obrigações.

Outro ponto a ser discutido diz respeito à diferença que se faz entre modalidades objetivas e subjetivas. Tal distinção é sempre vista em abordagens sobre modalidade, até mesmo em Hengeveld (2004) e na própria GDF. As modalidades objetivas, genericamente, fazem referência ao julgamento do falante com relação a um Estado-de-coisas com base no seu

8 I must eat. (Hengeveld e Mackenzie, 2008) 9 We want to leave. (Hengeveld e Mackenzie, 2008)

10 Probably/evidently/hopefully/undoubtedly Sheila is ill. (Hengeveld e Mackenzie, 2008) 11 Apparently, he is probably living in Lanarkshire. (Hengeveld e Mackenzie, 2008)

conhecimento de mundo. As modalidades subjetivas se referem ao posicionamento do falante com relação ao conteúdo da proposição. As modalidades objetivas abrangem as modalidades orientadas para o participante e para o evento, enquanto as modalidades subjetivas abarcam a modalidade orientada para a proposição.

Partindo das ideias expostas sobre modalidade deôntica com base na perspectiva linguística funcionalista, esta categoria condiz com o nível semântico, ou seja, representacional, no entanto, a função interpessoal também se faz necessária para o estudo da compreensão da modalidade deôntica a partir da perspectiva da Gramática Discursivo-Funcional (GDF), visto que há elementos que só são possíveis observar na interação, podendo asseverar ou mitigar a modalidade deôntica e, embora estejamos analisando um corpus escrito, algumas vezes, observamos uma maior proximidade do autor com os leitores, estabelecendo, de fato, uma interação verbal satisfatória.

Na GDF, os subtipos modais são compreendidos como modificadores de conteúdos de vários níveis: alguns recaem sobre o Nível Representacional, incidindo sobre um Estado-de- coisas. Vale ressaltar que alguns verbos plenos, por exemplo, que indica proibição, são núcleos da predicação (de um Estado-de-coisas), como em “O regimento proíbe som alto após as 22 horas”. Vemos no excerto que o verbo proibir é central da predicação. O subtipo modal deôntico, no qual centralizamos aqui especial atenção, refere-se à necessidade e à possibilidade de que os atos sejam executados por agentes é entendido como situado no eixo conceitual da conduta e associado às funções sociais de obrigação e permissão. Tanto na GF quanto na GDF, seu escopo é funcionalmente semântico, pouco pragmático, daí conclui-se que é, funcionalmente, pouco interpessoal. Com isso, a análise da modalidade deôntica está fundamentada na GDF.

3.3 Síntese conclusiva

Este capítulo acima traz algumas considerações acerca da modalidade, fazendo um percurso desde a concepção da modalidade no âmbito da lógica até o âmbito da linguística. No que se refere à lógica, a modalidade é reconhecida como alética ou aristotélica (de origem grega, que significa verdade) e parte das modalidades fundamentais do possível e do necessário, definindo-se pelas suas correspondentes negações. A modalidade linguística, por sua vez, nas

considerações de Givón (2001), codifica a atitude do falante em relação à proposição, expressando o comprometimento do falante com a verdade do que se diz.

Apresentamos alguns tipos de modalidade. Expusemos de forma geral as modalidades epistêmica, alética e deôntica, com base em Lyons (1977). A primeira está no eixo do conhecimento, da crença. A segunda diz respeito à modalidade do ponto de vista da Lógica. A terceira, por sua vez, corresponde à modalidade que se encontra no eixo da conduta, das regras sociais e do que parece ser obrigatório e permitido. Mostramos também que Palmer (1986) classifica a modalidade em epistêmica, deôntica e dinâmica. A epistêmica indica o grau de conhecimento do falante com o que diz, a deôntica se refere ao grau de comprometimento do falante com que diz. A dinâmica, por sua vez, é classificada como a capacidade ou disposição do sujeito.

Na GDF, a modalidade é classificada quanto à orientação em três tipos: a modalidade orientada para o participante, modalidade orientada para o evento e modalidade orientada para a proposição. As modalidades orientadas para o participante podem ser facultativas, deônticas ou volitivas. As modalidades orientadas para o evento podem ser facultativas, deônticas, volitivas e epistêmicas. As modalidades orientadas para a proposição podem ser volitivas, epistêmicas e evidenciais, segundo Hengeveld e Mackenzie (2008).

Mostramos, ainda nesse capítulo, de forma sucinta, a distinção que Hengeveld (2004) faz entre a modalidade objetiva e subjetiva. As modalidades objetivas se referem ao julgamento do falante com relação a um Estado-de-coisas com base no seu conhecimento de mundo, e as modalidades subjetivas se referem ao posicionamento do falante com relação ao conteúdo da proposição. Por fim, mostramos que analisamos a modalidade deôntica na GDF, principalmente quanto ao Nível Representacional, que é entendida como um modificador dos Estado-de-coisas no que se refere às funções sociais de obrigação e permissão.

4 A MODALIDADE DEÔNTICA

Neste capítulo, faremos algumas considerações acerca da modalidade deôntica, discutindo, os aspectos semânticos, sintáticos e pragmáticos relacionados à sua manifestação.

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Benzer Belgeler