Como já mencionei, o município de Pelotas é um dos municípios-pólo do Programa do MEC “Educação Inclusiva: direito à diversidade”, cujo objetivo é que as redes atendam com qualidade e incluam nas classes comuns do ensino regular os alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação26. Logo, Pelotas, no momento em que adere a esse programa, assume o compromisso de implementar, em sua rede, um sistema educacional inclusivo e, além disso, como parte do próprio programa, também servir de multiplicador aos municípios de sua área de abrangência, mediante a realização de cursos regionais. A adesão ao programa deu-se no ano de 2004 (LENZI, 2010), um ano após o início do mesmo pelo MEC/SEESP.
Conforme relata Lenzi (2010), a rede municipal de educação de Pelotas já vinha recebendo alunos com necessidades educacionais especiais, antes mesmo de ter um sistema próprio de ensino (o que ocorreu a partir de 2003 com a promulgação da Lei nº 4904/2003, que criou o Sistema Municipal de Ensino de Pelotas) e de ter normatizado aspectos da legislação educacional, visando respeitar definições legais postas na CF/1988, na LDBEN nº 9394/1996, nas Diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e na Resolução CNE/CNB nº 02/2001.
Segundo a autora (idem, p. 03), “o atendimento à legislação que vem orientando a Educação Especial, aconteceu, no município, de forma muito natural com a inclusão de alunos com Síndrome de Down, paralisia cerebral, deficiência intelectual, baixa visão e outros”. Ainda de acordo com Lenzi (ibidem), isso “se deve à ousadia de algumas escolas em atender este público alvo e também a cobrança de pais, que queriam para o seu filho, o direito ao acesso à escola regular, que
26 Fonte: www.mec.gov.br
deveria satisfazer suas necessidades”. É intrigante, nesse relato, quando a autora utiliza o termo ousadia para as escolas que aceitaram inicialmente a matrícula de alunos com necessidades educacionais especiais (NEE). O que deveria ser um direito desses alunos, amparado constitucionalmente, era tido, em determinado período, como algo que necessitasse uma abertura das escolas para isso. Realmente, se considerarmos o contexto sócio-histórico brasileiro, no próprio estado do Rio Grande do Sul, e porque não também na cidade de Pelotas, de alguns anos atrás (e não faz muito tempo isso), cumprir a legislação, no caso da inclusão de alunos com NEE, era considerado verdadeira ousadia.
Lenzi (2010) informa que o movimento de inclusão no município de Pelotas ficou bem demarcado quando no ano de 2001 um grande número de alunos surdos, oriundos de uma escola de ensino fundamental especial, solicitou, por meio da Associação de Surdos da cidade, junto ao departamento pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, a matrícula de nove alunos no Curso de Magistério do Colégio Municipal Pelotense27. A partir desse episódio, “o ingresso de alunos surdos e com diferentes deficiências na rede municipal [...], se deu ininterruptamente, atendendo a uma demanda crescente que buscava matrícula nos diferentes níveis e modalidades de ensino a cada ano” (idem, p. 03). Assim, a Prefeitura Municipal de Pelotas, no ano de 2002, aderiu à Política Nacional de Educação Especial, comprometendo-se com o processo de inclusão em sua rede de ensino (LENZI, 2010).
No mesmo ano da assinatura do termo de adesão do município com o MEC/SEESP para o desenvolvimento do “Programa Educação Inclusiva: direito à diversidade” (2004), é criado no município o CAPTA (Centro de Apoio, Pesquisa e Tecnologias para a Aprendizagem), que nesse primeiro momento tem negado a aprovação de seu regimento pelo Conselho Municipal de Educação (CME). De acordo com Lenzi (2010, p. 04-05):
Ao CAPTA, foi atribuído um serviço de natureza pedagógico-educacional, ao qual competia promover a inclusão social, educacional e tecnológica das pessoas com deficiência nas Salas de Recursos para alunos com
deficiência mental, na Sala de Estudos Surdos para alunos com deficiência auditiva ou surdez, na Sala de Informática Educativa e nas salas de recursos localizadas nas escolas da rede pública municipal de Pelotas.
Apesar da não aprovação de seu regimento pelo CME, o CAPTA permanece em funcionamento, mas com outra proposta, sendo um setor da Secretaria Municipal de Educação, responsável pela Educação Especial, ligado ao Departamento de Políticas Educacionais (LENZI, 2010).
O texto apresentado por Lenzi (2010) apresenta dados quanto ao número de salas de recursos que já se encontram implementadas no município e as que estão para serem efetivadas, capacitações realizadas do ano de 2005 até 2010, bem como dados relativos aos alunos incluídos na rede municipal de Pelotas. Quanto às salas de recursos, hoje se encontram em funcionamento 17 salas, em diferentes escolas do município, que se destinam à realização do atendimento educacional especializado aos alunos incluídos de sua escola e as de seu entorno. A pretensão futura é de que haja uma em cada escola. Segundo Lenzi (2010, p. 10), “para o ano de 2010 já se encontram aprovadas pelo MEC a implantação, neste município, de mais 20 salas de Recursos”. Com relação à formação continuada, Lenzi (idem) apresenta 10 cursos com temáticas ou enfoques diferentes, realizados entre os anos de 2005 e 2010. Conforme a autora (idem, p. 13), “até o presente momento foram realizadas 2591 qualificações incluindo profissionais da rede municipal de ensino de Pelotas e de 24 municípios desta área de abrangência”. Já a respeito dos dados dos alunos com necessidades educacionais especiais incluídos, Lenzi (idem) relata que, no ano de 2010, o CAPTA enviou para as escolas municipais uma planilha com o objetivo de obter maiores informações sobre os alunos com deficiência matriculados na rede. Os dados referentes aos alunos com deficiência (física, visual, auditiva, intelectual e múltipla), incluídos na rede municipal de Pelotas, totalizaram 528 alunos, distribuídos de acordo com a deficiência, conforme registra o gráfico a seguir:
Outro aspecto apresentado por Lenzi (idem) é referente a parcerias que o Município de Pelotas, através da Secretaria de Educação, faz com o MEC/SEESP, a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), a Universidade Católica de Pelotas (UCPEL), o Conselho Municipal de Educação, o Conselho Municipal das Pessoas Portadoras de Deficiência e as Escolas Especiais, no sentido de formar uma rede colaborativa para a efetivação da Política de Educação Inclusiva.
Os aspectos e dados apresentados até aqui visaram poder apresentar o município de Pelotas e a educação e a inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais da/na rede municipal, dando subsídios para compreender a análise das entrevistas com as gestoras e dos documentos das escolas e do CAPTA que serão apresentados no próximo capítulo.