Como já apresentado, inicialmente, os sujeitos da pesquisa são gestoras de duas escolas municipais, três de cada escola, representando cada uma um setor da equipe gestora (direção, orientação e coordenação/supervisão escolar) e uma representante da Secretaria Municipal de Educação da cidade de Pelotas/RS, totalizando sete pessoas que foram entrevistadas mediante entrevista semi- estruturada. Essas entrevistas ocorreram no próprio local de trabalho das mesmas, sendo agendadas anteriormente. Num primeiro momento, fui à escola, com uma
Fonte: Lenzi (2010, p. 15).
Gráfico 1: Distribuição e freqüência por tipo de deficiência e número de alunos na Rede Municipal de Pelotas.
carta de autorização do secretário municipal de educação, para me apresentar, bem como também apresentar o projeto de pesquisa de mestrado para o grupo alvo da pesquisa. Após esse primeiro contato, e com a concordância das gestoras em participar da pesquisa, marquei com elas, individualmente, horários para a realização das entrevistas, conforme disponibilidade das mesmas. É interessante ressaltar que estou usando os termos no feminino, visto que todas as pessoas entrevistadas são mulheres. Quanto a esse aspecto, já havia constatado, em pesquisa realizada sobre o estado do conhecimento das políticas de educação inclusiva no grupo de trabalho (GT: 15) da Educação Especial da ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), entre os anos de 2004 a 2008, a incidência maior de mulheres pesquisadoras nessa área de conhecimento (ZWETSCH, 2009). Acredito que isso se deve “pelo fato de historicamente na área da Educação como um todo e em particular na Educação Especial ter a predominância do gênero feminino atuando nestes espaços de pesquisa e campo de trabalho” (idem, p. 680).
A constatação na pesquisa da exclusividade do gênero feminino pode ser reafirmada a partir de um estudo do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) sobre as estatísticas do Censo Escolar da Educação Básica de 2007 que apresenta os seguintes dados:
Nas creches, na pré-escola e nos anos iniciais do ensino fundamental, o universo docente é predominantemente feminino (98%, 96% e 91%, respectivamente). No entanto, a cada etapa do ensino regular amplia-se a participação dos homens, que representam 8,8% nos anos iniciais do ensino fundamental, 25,6% nos anos finais e chegam a 35,6% no ensino médio. Somente na educação profissional encontra-se situação distinta, pois há uma predominância de professores do sexo masculino.
Não obstante, se consideradas todas as etapas e modalidades da educação básica, 81,6% dos professores que estavam em regência de classe são mulheres e somam mais de um milhão e meio de docentes (1.542.925). (2009, p. 22).
Conforme esses dados, fica evidente o número maior de mulheres na Educação Básica, apesar de se observar um crescimento do gênero masculino a cada etapa de ensino comum, destacando-se o ensino profissionalizante, no qual há um predomínio de homens como docentes. A razão dessa tendência talvez se deva ao fato de a maioria desses cursos serem destinados a profissões que historicamente eram masculinas. Contudo, já observarmos o crescente número de
mulheres também em profissões que eram predominantemente masculinas, como técnico em mecânica, elétrica, física, química, hidrologia, entre outros.
Vianna (2001/02, p. 83) reitera os aspectos antes mencionados dizendo que:
Ao longo do século XX, a docência foi assumindo um caráter eminentemente feminino, hoje, em especial na Educação Básica (composta da Educação Infantil, do Ensino Fundamental e do Ensino Médio), é grande a presença de mulheres no exercício do magistério.
Segundo a mesma autora, esse quadro já inicia no século XIX, durante o qual os homens, aos poucos, vão abandonando as salas de aula nos cursos primários, e as escolas normais vão formando cada vez mais mulheres (2001/02). Acrescenta também que:
Essa característica mantém-se por todo o século XX, estimulada, sobretudo, pelas intensas transformações econômicas, demográficas, sociais, culturais e políticas por que passa o país e que acabam por determinar uma grande participação feminina no mercado de trabalho em geral. Tendência, aliás, observada também em muitos outros países, inclusive da América Latina, entre eles Uruguai, Venezuela, México e Brasil (ibidem, p. 85).
Voltando à pesquisa, quanto à formação, todas as sete entrevistadas possuem nível superior (licenciatura) e a maioria têm, também, pós-graduação lato
sensu (especialização). Uma das entrevistadas possui, ainda, pós-graduação stricto sensu (Mestrado em Educação). Do total das entrevistadas, três fizeram o curso de
Magistério. Com relação à graduação, seis das sete entrevistadas licenciaram-se em Pedagogia. Outro aspecto interessante é que das sete entrevistadas, três já atuaram ou atuam, ainda, em Escola Especial filantrópica28.
Para melhor visualização das características das entrevistadas apresento a tabela a seguir:
28 Cabe ressaltar que a secretaria municipal de educação não possui escola especial. Apenas faz
Tabela 2 - Caracterização das entrevistadas quanto à formação29: Cargo
Formação Diretora Coordenadora Pedagógica Orientadora Pedagógica Ed. Especial - SE Coordenadora Profissional Escola 1 - Magistério - Pedagogia: Séries iniciais - Esp. em Metodologia do Ensino - Magistério - Pedagogia - Esp. em: Alfabetização e Letramento; Educação Especial;e, Psicopedagogia. (Atua também em Escola Especial filantrópica) - Pedagogia - Esp. Em: Orientação Educacional; e, Psicopedagogia. - Curso de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em andamento - módulo avançado. (Trabalhou 6 anos em Escola Especial filantrópica.) ___________ Profissional
Escola 2 - Magistério - Pedagogia: Séries iniciais - Esp. em: Gestão Escolar; e Educação Popular. (Atua 10h na EJA (Educação de Jovens e Adultos) – séries iniciais.) - Direito e Pedagogia - Esp. em Formação de Professores - Mestrado em Educação, área de Formação de Professores. (Atua também no 2º ano das séries iniciais, em outra escola.) - Pedagogia: Orientação Pedagógica - Pedagogia: Séries Iniciais ____________ Profissional Secretaria de Educação (SE) _________ ______________ ______________ - Geografia (licenciatura) Esp. em: Psicopedagogia; e, Atendimento Educacional Especializado (AEE), em andamento. - Curso de Formação em Deficiência Intelectual – 420h (Atuou durante 15 em Escola Especial filantrópica).
A partir das descrições apresentadas, referentes ao campo e aos sujeitos da pesquisa, é possível compreender melhor as falas apresentadas e as análises realizadas no próximo capítulo, pois, assim, pode-se tem uma ideia de qual realidade e de quais lugares falam as entrevistadas.
29 Tabela elaborada pela pesquisadora.
4 A POLÍTICA DE EDUCAÇÃO INCLUSIVA PELA VOZ DOS GESTORES: OS