• Sonuç bulunamadı

A construção do Corredor Cultural, a partir da urbanização da Avenida Rio Branco, insere-se no contexto de renovação e recuperação de áreas centrais, idealizado, e aplicado, inicialmente, em cidades norte-americanas e europeias a começar nos anos de 1980 e 1990, e que se expande globalmente como movimento novo para o planejamento e gestão urbana (COMPANS, 2004), como já referido em outros momentos deste trabalho. Na cidade de Mossoró, o projeto de renovação é assentado na Lei municipal nº 148/83, que cria a zona especial do Cor- redor Cultural, ainda na gestão do ex-prefeito Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, e que prevê a elaboração de um Plano Básico para operacionalização da referida Lei. A criação da zona especial, denominada de Corredor Cultural, tem por finalidade, de acordo com a Lei supra, três pontos: a) preservar as características arquitetônicas e artísticas das construções já existentes na área; b) recuperar os elementos arquitetônicos, artísticos e decorativos das construções e c) renovar a área central da cidade.

Entretanto, é na gestão da prefeita Rosalba Ciarlini Rosado (1997- 2000/2001-2004) que se inicia o processo de discussão com os diversos segmentos sociais, especialmente com o movimento dos artistas, importante protagonista na luta pelo fortalecimento da cultura na cidade, resultando na elaboração do projeto pela equipe de arquitetos da Prefeitura em torno da renovação, revitalização e aproveitamento da área central de Mossoró, formada pelo espaço ocupado, anteriormente, pela Rede Ferroviária Federal (trem de carga e passageiros que atendia o trecho Areia Branca – Souza, no vizinho estado da Paraíba, e desativada em 1989), apresentando-se como importante via de mobilidade urbana para a cidade em expansão.

Esse projeto é implementado em área situada ao longo da Avenida Rio Branco, uma das mais tradicionais de Mossoró e que no final dos anos de 1980 encontrava-se subutilizada, tendo em vista a desativação da estrada de ferro. Paralela à Av. Alberto Maranhão e à Rua Melo Franco, a área foi cenário de um dos períodos mais significativos da história econômica do município, pois os trilhos da Rede Ferroviária Federal recortava toda a sua extensão, sendo o logradouro escolhido por diversas empresas para se instalarem devido ser o caminho da

estrada de ferro. Assim, ao longo dessa avenida, instalaram-se diversos armazéns de beneficiamento de sal, fábrica de gesso, depósitos de cimento e outras pequenas manufaturas. Logo atrás da estação ferroviária (hoje Estação das Artes), até início da década de 1970, havia uma feira livre, o chamado “buraco do Tatu”, onde se vendia desde gêneros alimentícios para os passageiros do trem, assim como roupas, brinquedos, ferramentas e materiais diversos de uso doméstico. A urbanização afastou tal feira para outros locais. Vale salientar que, na praça da referida estação, funcionou ainda por muitos anos o “vuco-vuco”, um local onde os mais diversos produtos, sejam eles novos ou usados, eram negociados livremente. Com a urbanização da avenida, tal comércio foi transferido para sua extremidade (Praça do Vuco-vuco).

Como uma das principais vias de Mossoró, já que faz a ligação da região central com as regiões Norte, Sul e Oeste da cidade, atravessando os bairros Alto da Conceição, Lagoa do Mato, Centro e Bom Jardim, a execução do projeto de urbanização e renovação urbanística, nessa área, propiciou a ligação com os bairros Belo Horizonte, Estrada da Raiz, Abolição, Santo Antônio e Santa Delmira, e ainda interligando-os à rodovia BR 304 com destino a Fortaleza, no estado do Ceará. No mapa 5, que se segue, tem-se a ilustração desse espaço central da cidade de Mossoró.

Mapa 5 – Avenida Rio Branco e Corredor Cultural – Mossoró/RN

Fonte: IDEMA, 2006; IBGE, 2010. Elaborado por Heloísa Cruz, 2012.

O projeto de urbanização da Avenida Rio Branco, orçado em aproximadamente 30 milhões, recurso viabilizado pela parceria entre Prefeitura municipal sob a gestão da prefeita Maria de Fátima Rosado, através de arrecadação

própria; o governo do estado, na gestão da governadora Wilma de Farias (PSB) e o setor privado, teve como finalidade, conforme o discurso oficial, garantir cultura, esporte e diversão para a população a partir da dinamização e modernização do espaço público formado pelo Corredor Cultural. Conforme atesta reportagem de agosto de 2004 do Jornal de Fato, com o título Av. Rio Branco terá cara nova, “o projeto está inserido em um plano macro de modernização urbana [...] e que apresenta uma concepção ousada, futurista e de embelezamento urbanístico.

Capitaneado pela gestão Rosalba Cialini (PFL), o projeto começa com a restauração do prédio central da Rede Ferroviária, criando, assim, o espaço Estação das Artes Elizeu Ventania, através da Lei municipal 1221/98 e a construção do Teatro Dix-huit Rosado Maia. A continuidade do projeto foi conduzida pela gestora Maria de Fátima Rosado (2005-2008/2009-2012).

O projeto de execução foi divido em 3 (três) etapas, assim, distribuídas: a primeira etapa compreendeu o trecho central, correspondendo ao cruzamento da Rua Prudente de Morais (bairro Santo Antônio) até o cruzamento da Rua Coelho Neto no bairro Boa Vista, onde foram construídas a Praça da Criança, a Praça de Eventos, a da Convivência e a dos Esportes, otimizando, dessa forma, o espaço já renovado com a restauração da Estação das Artes e a construção do Teatro Municipal. A segunda etapa, trecho oeste, consistiu na duplicação da Av. Rio Branco, bem como a pavimentação, iluminação e a instalação de ciclovias. O trecho leste foi contemplado com a restauração de alguns prédios existentes naquela área, bem como pavimentação e iluminação.

O Corredor Cultural construído ao longo dessa área de 10 (dez) quilômetros de extensão, compreende um complexo de lazer cultural formado pelos seguintes equipamentos (PREFEITURA MUNICIPAL DE MOSSORÓ, 2011) e que estão ilustrados nas fotos 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14:

a) Praça da Criança, parque temático que tem como cenário as histórias infantis clássicas, como o Castelo da Cinderela, a Casa da Branca de Neve e os Sete Anões, Navio Pirata de Peter Pan e a Casa de Doces de João e Maria; possui também equipamentos de entretenimento como pula-pula, carrossel, cama elástica, bem como espaço de alimentação;

Fotografia 8 – Praça da Criança – Mossoró-RN

Fonte: Carla Yara S. F. Castro, mar., 2011.

b) Praça de Eventos que compreende o espaço para exposições, feiras, festivais, entre outras finalidades;

Fotografia 9 – Praça de eventos – Mossoró-RN

Fonte: http://www.prefeiturademossoro.com.br/jaimemnt/albumpmm/59/f_811.jpg

c) Estação das Artes Elizeu Ventania, nome em homenagem a um dos mais notórios poetas e repentistas do Rio Grande do Norte. A antiga estação ferroviária, abriga o museu do petróleo e é palco de grandes eventos culturais públicos, como o São João no mês de junho, e da iniciativa privada como o MossoróFest;

Fotografia 10 - Estação das Artes – Mossoró-RN.

d) Teatro Municipal Dix- Huit Rosado, o nome é uma homenagem ao importante político falecido em 1996, Jerônimo Dix-Huit Rosado Maia, ex-senador da República, ex-deputado e ex-prefeito de Mossoró. A obra, iniciada na gestão de Rosalba Ciarlini (2001-2004), mas concluída apenas no governo de Maria de Fátima Rosado, possui uma arquitetura moderna e funcional, tem uma área construída de 2.570 metros quadrados e comporta 740 pessoas no seu interior. Nesse espaço, ocorrem shows musicais e de teatro com artistas regionais e nacionais, bem como o Festival promovido pela Universidade do Estado (FestUERN), que envolve alunos das escolas públicas;

Fotografia 11 - Teatro Municipal Dix-Huit Rosado – Mossoró/RN.

Fonte: Carla Yara S. F. Castro, mar., 2011.

e) Memorial da Resistência, espaço ao ar livre formado por galerias e sistema audiovisual, que se reporta à história da resistência da cidade de Mossoró à invasão de Lampião (considerado um dos mais temidos cangaceiros do Nordeste brasileiro) na década de 1920;

Fotografia 12 – Memorial da Resistência – Mossoró/RN

Fonte: Carla Yara S. F. Castro, mar., 2011.

f) Praça da Convivência, com arquitetura que relembra os antigos casarões do século XIX. É uma área de 6.628,53 metros quadrados, formada por 24 estabelecimentos comerciais de serviços e gastronomia, como restaurantes, sorveterias, bares, lanchonetes e lan house;

Fotografia 13 - Praça da Convivência – Mossoró/RN.

Fonte: Carla Yara S. F. Castro, mar., 2011.

g) Praça de Esportes que compreende um conjunto de equipamentos, como quadras de voleibol, futebol de salão, basquete e tênis.

Fotografia 14 - Praça dos Esportes – Mossoró/RN.

Fonte: Carla Yara S. F. Castro, mar., 2011

As imagens apresentadas ilustram parte do descrito a respeito dos equipamentos presentes no Corredor Cultural, espaço utilizado como estratégia do governo local para consolidar Mossoró como uma cidade voltada ao turismo de eventos, em consonância com o modelo de empreendedorismo urbano que, nas palavras de Harvey (2005), está destinado a viabilizar o projeto de modernização capitalista.

No discurso de inauguração do Corredor Cultural, em maio de 2008 , a pre- feita Maria de Fátima Rosado declara: “decididamente a cultura é a vocação turística de Mossoró”; e continua sua fala afirmando que o corredor “é o palco onde todos os nossos artistas poderão brilhar, expondo sua arte e fazendo um pouco da nossa his- tória”.

Nesse mesmo evento, a prefeita acrescenta: “estamos incrementando o tu- rismo de eventos, que contribuirá para o aquecimento da economia formal e informal do município”. Entretanto, entende-se que a cultura, ou expansão desta, vai além da

dimensão econômica, tendo em vista significar “o conjunto acumulado de símbolos, idéias e produtos materiais associados a um sistema social” (JOHNSON, 1997, p. 59). O pretendido turismo de eventos citado pela prefeita é direcionado para um segmento privilegiado tanto no aspecto financeiro, como cultural, uma vez que os consumidores desses eventos são, em sua maioria, das classes média e alta, com grau de escolaridade de nível superior, conforme dados coletados durante a pesqui- sa de campo e nas observações realizadas in loco, confirmando, assim, a tese le- vantada, já que para ter acesso ao evento e, portanto aos espaços agora reestrutu- rado, o cidadão precisa dispor de uma condição financeira favorável que possibilite esse consumo do espaço.