Esse discurso sobre a importância da energia como fator do progresso incorporou, também, um conjunto de idéias como elementos de criação de um imaginário positivo, a exemplo do que fizeram os defensores da modernização de outros setores da nossa economia no decorrer do século XX, sobre as reais possibilidades de se construir, aqui, uma economia desenvolvida. Procurava-se transmitir, à sociedade em geral, a concretude de um renovado sonho, num território prenhe de potencialidades, capaz de fomentar o desenvolvimento de um parque industrial avançado, conquistando-se por essa via a legitimidade política do grupo à frente do Estado e a justificação da adoção de um determinado modelo de modernização. Analisem-se alguns depoimentos sobre esta questão, a seguir.
O presidente da Federação da Indústria do RN, Abelírio Vasconcelos Rocha, em artigo intitulado: “Camaçari mudou a Bahia, Pólo Gás Sal mudará o RN”, ao expor os pontos básicos desse projeto, de forma entusiástica, afirma:
O Pólo Gás Sal fez-se realidade. Dele sairão produtos como barrilha, magnésio metálico, soda e potassa cáustica, PVC, sal refinado, brometo orgânico e inorgânico, vidro e sabão em pó. Estes produtos finais se constituem, por sua vez, em matérias primas a serem destinadas a uma multiplicidade de outras aplicações industriais. O estudo do Plano Diretor de Implantação do Pólo não deixa dúvida. Assim como a Bahia está para Camaçari, dentro de alguns anos o Rio Grande do Norte será referido como antes e depois do Pólo Gás Sal. (ROCHA, 1998, p. 22).
Observa-se, a partir da fala de Rocha que não há mais obstáculos ao pleno funcionamento do Pólo Gás Sal. Ele “fez-se realidade” e impulsionará muitas outras indústrias e com isso alçará a economia do RN aos níveis de desenvolvimento da economia baiana. Rocha abstrai a realidade sócio-econômica daquele Estado ao fazer a comparação entre a criação e implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari nos anos 70 e as condições em que se dava a criação do Pólo Gás Sal, nos anos 90, no Rio Grande do Norte. O sucesso da implantação do Pólo Petroquímico de Camaçari teve como base o capital privado local (capital financeiro e da construção pesada), os investimentos das empresas estatais, subsidiárias da Petrobrás e o capital das empresas multinacionais (Union Carbide, Dow Chemical e Dupont). O empresário baiano tinha, à época, forte representação em cargos de comando nas agências executivas de política industrial e econômica. Vários empresários ocuparam diretorias e presidências de órgãos como o Banco do Brasil, Banco Central, BNDES, ou o comando do Ministério da Indústria e do Comércio. (MELO, 1994). No caso do Pólo Gás Sal a ser implementado no Rio Grande do Norte, nos anos 90, existia apenas dois fatores considerados positivos: a Petrobras e a presença do ex-governador Tarcísio Maia na presidência de uma das suas subsidiárias, a Petroquisa, por pouco tempo. Não existia capital local disponível para participar desse empreendimento, multinacionais verdadeiramente interessadas em investir nesse projeto, nem tão pouco empresários ou políticos locais comandando agências públicas nacionais de planejamento e de fomento ao desenvolvimento.39
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Analise-se o que afirma Airton Paula Torres, ex-secretário da “Secretária Extraordinária para o Desenvolvimento do Pólo Gás Sal”, do governo Garibaldi, em entrevista concedida a Edith Fernandes Souto e Carlos Henrique Cavalcanti Fernandes, publicada no livro “A importância da Indústria Salineira do Rio Grande do Norte para a Economia Brasileira” sobre as condições em que se obteria sucesso na implantação do Pólo Gás Sal. “O setor químico está dividido em três partes: barrilha, produzida com sal, calcário e energia; e o magnésio metálico, produzido com águas-mãe das salinas e energia; e a Soda-Cloro, produzida com sal, energia e um produto retirado do gás natural chamado etileno. O mercado de barrilha é dominado no mercado mundial por um cartel de cinco empresas americanas e uma européia. O de magnésio metálico é de um cartel japonês, americano, judeu e outros. A Soda-Cloro existe no mundo todo, pois não dá para transportar cloro, portanto aonde há necessidade, ela é produzida, assim, há várias empresas envolvidas na produção em todo o mundo, mas termina sendo um cartel. A continuidade
Na mesma direção, o jornalista Agnelo Alves, em artigo publicado na Tribuna do Norte em 19 de março de 1997, desenha um quadro de rasgado otimismo, verdadeiro ufanismo, informando aos seus leitores o surgimento de uma nova realidade na economia potiguar:
A refinaria que a Petrobras vai se comprometer em instalar no Pólo Gás Sal, sexta-feira, na solenidade presidida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, será maior do que a refinaria de Manaus, maior do que a refinaria de Manguinhos, no Estado do Rio, maior do que a refinaria Ipiranga, no Rio Grande do Sul. A refinaria ainda sem nome, compondo o projeto do Pólo Gás Sal, produzirá 1.600 barris por dia de gasolina c + 5 para produção de tintas, vernizes e corantes, mais 4 mil barris por dia de óleo diesel e mais o equivalente a 40 mil botijões de gás liquefeito por dia. O Rio Grande do Norte deixará de ser importador de óleo diesel. A produção da refinaria do Pólo-Gás será equivalente ao consumo hoje do Estado. Mas terá capacidade de expansão. E, no tocante à produção de gás, a refinaria com toda certeza, provocará uma cascata de ocorrência. Além de abastecer a Alcanorte, abastecerá a Usina Termoelétrica com oferta para o que o governador chama de “diferencial” na oferta para atração de indústrias para o Estado. (ALVES, 1997, p. 2)
A narrativa de Agnelo Alves informa que o processo de implantação do Pólo Gás corre sereno. Não há conflitos de interesses a serem resolvidos. Basta que se aguarde a chegada do Presidente Fernando Henrique Cardoso para que as coisas aconteçam. As suas determinações à Petrobras farão deslanchar a produção de gás, gasolina, óleo diesel. Com elas virão as fábricas de tinta, vernizes, corantes, barrilha, tudo em atendimento às políticas previstas. E tem mais, a produção é grandiosa, maior de que em muitos outros lugares. Resta comemorar a modernidade industrial instalada.
Não é diferente o que afirma o governador Garibaldi Alves Filho, nessa mesma perspectiva, ao reforçar essa construção imagética em relação à chegada da modernidade. Os investimentos externos, para ele, já definidos, em relação à retomada do Pólo Gás Sal, causam-lhe incontido entusiasmo:
Os americanos devem investir US$ 140 milhões na Alcanorte e outros US$ 100 milhões na usina termoelétrica que vai gerar energia para a fábrica e todo o Pólo Gás Sal. A Alcanorte deve produzir cerca de 300 mil toneladas de
do Pólo Gás Sal só será realidade quando todos esses cartéis se interessarem”. (SOUTO; FERNANDES, 2005, p. 109). Complicado, não?
barrilha/ano, que representam em torno de 60% do consumo nacional do produto. Sem contar as inúmeras fábricas que surgirão com o advento da barrilha. (ALVES FILHO, 1999, p. 3).
Esse tipo de discurso busca a legitimidade do poder político, pela propagação dos feitos do capitalismo ou pela possibilidade de suas realizações. Eles são divulgados como resultado de ações encetadas pelos dirigentes políticos do momento. E são apresentados como se só pela ação desses grupos pudessem ocorrer. E mais, eles, como divulgados, criam um mundo renovado, modernizado, trazendo benefícios para todos. Na idealização desse novo mundo ninguém é excluído, todos participam. Como se fosse da essência das forças avassaladoras do progresso que, ao se instalar, a modernidade rompesse com o atraso e construísse um mundo desejável. Esse discurso de caráter totalizador leva de embrulho qualquer possibilidade de crítica efetiva, visto que nenhum argumento contrário pode ser construído nesse cenário. Todos têm que ter o mesmo conteúdo, o mesmo sentido político de aclamação, a mesma validade.
9.6.5 E lá se foi Progresso
Os fatos não ocorreram como informado pelos líderes empresariais e pelos políticos locais à sociedade. Os interesses econômicos dos grupos envolvidos nesse projeto geraram conflitos insanáveis diante de uma economia dependente de tecnologia e de capital externos, da existência de uma elite econômica local descapitalizada e de uma elite política frágil e desarticulada, mesmo que ávidas pela conquista de uma economia moderna. O sonho acalentado por mais de três décadas por essas elites, mais uma vez, se desfez, interrompendo um discurso de progresso, de avanço industrial, de conquista da modernidade e de harmonia entre elas, alicerçada na possibilidade de integração econômica, através da conquista de uma indústria química e petroquímica. Seguindo a mesma metodologia de exposição dos tópicos anteriores, serão destacados os motivos apresentados por cada ator de referência sobre o insucesso do Pólo Gás Sal.
Analise-se como Jaime Mariz de Faria identifica os fatores que impediram a concretização do Pólo Gás Sal, especialmente, da vertente química industrial, enunciado com tanta ênfase no decorrer dos anos 90, como vimos nos relatos anteriores. Para esse alto funcionário do governo