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Kalibrasyon Yapacak Laboratuvarlarda Aranan Şartlar

4. KALİBRASYON

4.8. Kalibrasyon Yapacak Laboratuvarlarda Aranan Şartlar

A língua como fenômeno discursivo é plurissignificativa e comporta as mais variadas formas. As manifestações discursivas são híbridas, estão povoadas de outras vozes, de outros textos que se intercruzam. E esses enunciados são produzidos a partir de outros discursos, mantendo uma inter-relação discursiva.

No texto, O olho de vidro do meu avô, há uma rica inter-relação discursiva, a partir da própria figurativização do olho, que se relaciona, por exemplo, com ciclope, remetendo à Odisseia de Homero:

Ele amava as histórias dos ciclopes. Antes do sono chegar, eu me assentava ao seu lado direito. Ele, amoroso, me falava desses seres imensos, que possuíam apenas um olho redondo no meio da testa. Alguns diziam, em poesia, que eram muito fortes [...]. Outros, que eles passeavam pelos campos pastoreando ovelhas com uma delicadeza maior que suas forças. Conduziam animais entre sons de flauta e cantigas de acordar. (QUEIRÓS, 2004a, p. 38).

Há uma relação interdiscursiva também com piratas, associados a muitas histórias marítimas. Quando num carnaval a mãe do enunciador o fantasiou de pirata, ele afirmou: “Com um olho eu via o baile, as máscaras, os disfarces. Com o outro eu invadia caravelas, assaltava navios, vencia mares, me assustava com os tesouros.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 11-12).

Um texto vai sendo construído a partir de outros textos, orais ou escritos, sem perder a característica de originalidade, visto haver necessidades desse intercruzamento, tanto de linguagens, quanto de temáticas ou figuras, em que um discurso se apropria de outro discurso previamente manifesto, para prosseguir, legitimamente. A este diálogo entre textos, deu-se o nome de intertextualidade, sendo possível falar ainda de interdiscursividade e polifonia, termos

que se diferem uns dos outros, mas mantêm a característica comum de versarem sobre o dialogismo entre textos ou vozes discursivas.

Há relações interdiscursivas do texto O olho de vidro do meu avô com os contos de fadas, em que aparecem bruxas que envenenam as coisas, como as maçãs, visto, por exemplo, na história de A Branca de Neve: “Nas histórias que me contavam havia sempre bruxas zarolhas. Com o olhar elas infernavam tudo. Viajavam pelo mundo envenenando caminhos, transformando o bem em mau, o direito em esquerdo, ratos em morcegos.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 12).

Entrecruzam o texto diferentes efeitos de linguagem, não verbais, como as músicas, e verbais, como os adágios populares. A ciranda é uma expressão cultural que pertence ao universo infantil, e o enunciador faz menção a essa brincadeira, quando vê uma formiga pequena passeando sobre o olho de vidro do avô, pelo que afirma: “É possível que ela tenha encontrado doçura naquele vidro liso e frio. Ela andava acompanhando o círculo da pupila como se brincasse de ciranda ou comesse um olho-de-sogra pelas beiradas.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 18).

Greimas afirma que o fenômeno da intertextualidade “implica, com efeito, a existência de semióticas (ou de ‘discursos’) autônomos no interior das quais se sucedem processos de construção, de reprodução ou de transformação de modelos, mais ou menos implícitos.” (GREIMAS; COURTÉS, 2016, p. 272).

A expressão “intertextualidade” é considerada bakhtiniana e ganhou prestígio no mundo acadêmico, por ser muito utilizada em análises de obras literárias. Embora o termo não apareça expresso na produção de Bakhtin (BRAIT, 2010), sua obra tematiza a abordagem intertextual, voltada principalmente para questões de gêneros textuais. Foi Júlia Kristeva que assinalou a expressão, em 1967 (BRAIT, 2010), ao publicar estudos sobre as teorias bakhtinianas. A partir de então, a palavra passou a ser amplamente utilizada no meio acadêmico, recurso recorrente em análises literárias.

De acordo com Faiclough (2001, p. 114), intertextualidade é “a propriedade que têm os textos de serem cheios de fragmentos de outros textos, que podem ser delimitados explicitamente ou mesclados e que o texto pode assimilar, contradizer, e ecoar ironicamente, e assim por diante”.

Existem, no livro O olho do meu avô, fragmentos de outros textos, como os ditados populares. As expressões aparecem dentro de um contexto completamente apropriado, como olho gordo, olho de peixe-morto e olho por olho, dente por dente. Esse último remete à Lei de Talião,

que consistia na rigorosa reciprocidade do crime e da pena, ou seja, a retaliação. Essa lei, a mais antiga registrada na forma escrita, foi encontrada no código de Hamurábi, mil setecentos e oitenta a.C. A lei de Talião ficou comumente conhecida como olho por olho, dente por dente, e foi referenciada no Antigo Testamento como comportamento adotado para compensação de atos danosos. Já “olho gordo” tem como significado a inveja.

Esses adágios aparecem na sequência, atribuindo sentido ao texto: “Não era um olhar ameaçador, de olho por olho e dente por dente. Se não parecia um olhar de peixe-morto, também deixava de ser um olho-gordo ou um olho raso d’água.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 13-14). Como são expressões partilhadas coletivamente, o enunciador vai situando o enunciatário, jogando discursivamente com as palavras, visto que comungam com a mesma zona de interação, como afirma Maingueneau: “O pertencimento comum ao conjunto dos discursos constituintes apresenta assim a vantagem de estabelecer pontos, zonas de interpenetração.” (MAINGUENEAU, 2014, p. 67). Por serem expressões populares, todos participam do conjunto do contexto discursivo.

Os adágios populares também contribuem com uma ligação intimista entre enunciador e enunciatário, sempre bem conectadas com o discurso narrativo, como “cego é aquele que não quer ver. Ele via muito. Tudo no mundo é, em parte, uma verdade e, por outra parte, uma mentira.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 7). Outro exemplo de adágio que atravessa o texto: “Ele jamais acreditou que, em terra de cego, quem tem um olho é rei” (QUEIRÓS, 2004a, p. 7). Tais construções enunciativas reforçam verdades do senso comum e estão sempre ligadas ao fio condutor da narrativa, que é o olho/olhar.

Outra definição dada por Brait (2012, p. 165 apud FAICLOUGH, 2001, p. 114), diz que intertextualidade é “Qualquer referência ao outro, tomando como posição discursiva: paródias, alusões, estilizações, citações, ressonâncias, repetições, reproduções de modelos, de situações narrativas, de personagens, variantes linguísticas, lugares comuns, etc.”

O texto em análise também dialoga com textos religiosos e crenças, como a hagiografia de santa Luzia, que consiste no relato descritivo da vida de alguma pessoa santificada pela igreja católica. Santa Luzia, nome relacionado à luz, é considerada a protetora dos olhos, em virtude de ter arrancado os próprios olhos, antes de ser morta por se recusar a casar. No livro O olho de vidro do meu avô, o enunciador dialoga com a hagiografia de santa Luzia:

Havia no altar lateral uma imagem de Santa Luzia. Ela segurava um pratinho com dois olhos. Sempre achei que meu avô gostaria de roubar o olho esquerdo. Assim, passaria a

acreditar em milagre. Era uma Santa antiga, mas o olho direito é que estava solto no pires, e fácil de levar para casa. (QUEIRÓS, 2004a, p. 40).

Partindo dos conceitos apresentados sobre intertextualidade, ao produzir um texto, o autor pode dialogar com outros anteriores, reconstruindo, ou tomando por base em diferentes perspectivas, mas é a maneira de se apropriar que vai caracterizá-lo como original e como produto de arte, do contrário, se configura como plágio. Para Foucault (1972, p. 98, apud Fairclough, 2001, p. 133), “não pode haver enunciado que de uma maneira ou de outra não reatualize outros”. Há uma inter-relação entre os textos, seja de forma explícita ou implícita, mas eles se dialogam em variados níveis.

Há uma relação interdiscursiva entre a personagem Lavínia, avó do enunciador, e Penélope, da Odisseia de Homero. Ambas se perderam do esposo, esta, em virtude da guerra de Tróia e aquela porque ele deixou de amá-la. Esperando o amado, as duas teciam suas dores. Penélope era filha de Icarius, mãe de Telêmaco e esperou o esposo Ulisses por vinte anos. Sua dor era ter que casar com outro. Para isso, combinou com o pai que casaria quando terminasse uma colcha, a qual tecia durante o dia e desmanchava de noite. Lavínia esperava o amado voltar da casa da amante:

Com agulha na mão ela bordava. Com um dedal de prata protegia os dedos. O sangue mancharia as flores. Tecia em cores suas dores. Não perdia o sorriso de quem sabia ter passado sua vez. Meu avô apontava no fim da rua. Ela dobrava o bordado, mesmo parando no meio das pétalas. (QUEIRÓS, 2004a, p. 33).

No entanto, houve um dia em que ele não veio. Não viria mais. E Lavínia continuava bordando as suas dores: “Em cada ponto amarrava uma disfarçada melancolia. Eram pontos de cruz, ponto-atrás, ponto cadeia.” (QUEIRÓS, 2004a, p. 42). Nota-se que os tipos de pontos utilizados como recurso discursivo reforçam a dor da personagem, em disjunção com o amor e em conjunção com o sofrimento.