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Kaldırımlar, Üstgeçitler ve Kaldırım Rampaları

O debate recente sobre os problemas ambientais ganhou nova dimensão desde a reunião da Cúpula da Terra, Rio de Janeiro, em 1992. Um trabalho publicado no ano seguinte aquela reunião, chamava a atenção para que as

54 questões sociais e ambientais de maior significado no futuro necessariamente ocorreriam em áreas de alta densidade econômica e demográfica. Seriam então resolvidas no âmbito dos espaços urbanos, e não em espaços naturais e ou intocados (Martine 1993).

Nem mesmo hoje esta afirmação é consensual entre os estudiosos e militantes da questão, muito menos naquele momento (Torres 1998, Redman e Jones 2005, Newman 2006, Lee 2007). As raízes desse dissenso são profundas.

O movimento ambientalista, ou o “ambientalismo clássico” (Lee 2007), herdou da ciência moderna sua compreensão de natureza e homem como realidades distintas (Atkinson 1991)27. Por extensão, a cultura, e as cidades talvez

a expressão maior da ação humana, não tiveram desde cedo a simpatia dos ambientalistas:

...as cidades são vistas como espaços não naturais, estranhos, opostos e inimigos da natureza. Esta aguda clivagem pode ser percebida (...) nas perspectivas ecológicas radicais [como a] “deep ecology”. Esta perspectiva, além de eleger a vida selvagem como objeto aparentemente único de seu interesse (...), chega a perceber, em algumas versões, a humanidade como uma espécie de aberração (Torres 1998, p. 1645).

A formação de um senso estético peculiar à modernidade, o enfoque sanitarista das cidades e o desenvolvimento compartimentado das ciências também deram sua contribuição para o surgimento de um movimento ambientalista anti-urbano ou que veja nas cidades espaços mortos.

De forma paradoxal, a relação estreita e inevitável, interpenetrada, entre o ambiente construído e a natureza que é a cidade passa despercebida. A natureza está na cidade – montanhas, lençóis freáticos, parques e florestas, animais, praias – assim como a cidade é parte da natureza; está sujeita as suas bênçãos (ar respirável, água potável, alimentos, recursos valoráveis) e as suas intempéries (inundações, deslizamentos de encostas, tremores de terra, erupções) (Torres 1998).

O desconhecimento desta realidade vicia a ação de movimentos e organizações ambientalistas, assim como o planejamento e a gestão urbanos.

27 Esta dualidade é apenas um aspecto da visão dual que ciência moderna construiu da realidade e

55 Apequena a preocupação e ação em questões urbano-ambientais28

enfraquecendo estes movimentos como interlocutores que deveriam se para a gestão eficiente da cidade.

Dentro do planejamento urbano esta visão induz a desatenção ao padrão de uso e ocupação do espaço. Idealiza-o, ao desconsiderar processos incontornáveis da natureza como cheias periódicas de rios e córregos sobre várzeas. Permite a política de gestão de resíduos sólidos por aterramento, o loteamento de áreas de preservação de nascentes, instalação de fábricas e usinas em áreas de ecossistemas frágeis, entre outros processos danosos tanto a população quanto à natureza (Torres 1998).

Estes problemas e limitações de uma compreensão preconceituosa da cidade pelo ambientalismo clássico ou tradicional são mais danosos em um mundo se torna cada vez mais urbano. No início do séc. XIX, Pequim era a única cidade do mundo com mais de um milhão de habitantes. Atualmente, mais da metade dos habitantes do planeta residem atualmente em áreas urbanas, e a previsão é de que quase todo o incremento da população mundial nas décadas vindouras se dê em cidades (Redman e Jones 2005; Martine 2001, 2007). No Brasil não apenas mais de 80% da população residia em área urbana em 2000, mas ainda 30% do total estavam em áreas metropolitanas (Torres 1998, 2002).

Vê-se que a inter-relação cidade-ambiente é inevitável. Não existem ambientes humanos, “livres” de qualquer elemento “natural”, assim como é difícil falar em ambientes “intocados” no planeta. Estes e mesmo que existam, não serão realisticamente o local dos grandes dramas ambientais. “A cidade não representa apenas o palco para a tragédia ambiental. (...) ela é parte essencial do enredo, quando não é a própria trama” (Smolka 1993).

Muitas abordagens em PMA herdaram ou compartilham com o ambientalismo clássico, a visão negativa dos ambientes densamente povoados e das cidades particularmente. Para estes o papel das cidades é estritamente negativo, na medida em que intensificam demasiadamente a demanda por

28 Gestão de água e esgoto, poluição do ar e solo e gestão de resíduos sólidos, transportes

56 recursos e a geração de resíduos e poluentes. A conclusão parece límpida: urbanizar é dilapidar recursos e poluir.

Negar a pressão dos números é impossível. A relação população/meio- ambiente é radicalmente distinta se o planeta abriga cinco ou quinze bilhões de habitantes (Martine 1993). Certamente há também diferença se estes milhões estão ou não em cidades.

É preciso, porém dar atenção a outros aspectos. Constatado o impacto das cidades, a pergunta que não se faz é: “se a população estivesse mais dispersa, a situação, em termos sociais e ambientais, seria significativamente melhor?” (Martine 2001). Não se destaca também que as cidades são desde sua origem, o espaço onde germinaram a reflexão filosófico-científica e as inovações sociais e técnicas que responderam, e continuam a responder, às grandes questões da humanidade (Jacobs 1969, Soja 2000).

Sinergia intelectual e economias de escala e aglomeração são produtos da densidade urbana (Soja 2000, Storper e Venables 2005). Vários dos maiores dilemas ambientais trazidos pelo consumo, desperdício e poluição podem ser vencidos ou atenuados a partir de forças criadas pela cidade. A gestão e uso eficientes, ambiental e não só mercadologicamente, dos recursos e necessidades da população podem ser conduzidos nas cidades, pelas populações urbanas.

O atendimento ao imperativo do transporte de pessoas e cargas, hoje a base de combustíveis fósseis, pode ser minimizado ou substituído por sistemas de transporte público (intra e interurbanos) de grande escala movidos por combustíveis alternativos, reduzindo o transporte particular, poluidor e irracional (Torres 1998). A mesma compreensão é revelada em estudo divulgado em 2001, pela Divisão de População das Nações Unidas:

The larger the city, it is assumed, the greater the per capita environmental costs or damages. However, a number of caveats are in order. Since what ultimately counts is not so much pollution discharged, but rather pollution discharged minus pollution eliminated, it is important to note that, for a number of pollutants (for example, solid waste, water pollution), there are economies of scale in pollution abatement. Also, large cities are generally resource-saving relative to smaller cities; they are usually denser; and they lend themselves better to public transportation usage and include a larger share of apartment buildings, hence they consume less land and less energy per capita. Finally, because transportation flows increase with population

57 dispersion, environmental impacts associated with transportation (for example, fossil fuel consumption, greenhouse gas emissions, air pollution) presumably could be reduced by increased concentration in a few large cities (UN 2001, p. 41)

Além dos efeitos de escala econômica, as cidades são também o lugar onde a luta política pela sustentabilidade pode ser realizada. A ação democrática da sociedade civil é mais viável em escala urbana e local que regional ou nacional. As lutas por justiça social estão arraigadas na história da cidade e a democracia nasceu urbana. Da mesma forma, pode-se pensar que a luta pela sustentabilidade, por uma produção e consumo não destrutivos, seja incorporada na ética de um mundo urbano, como a participação política de certa forma o foi.

A gestão de resíduos sólidos – o lixo, um dos mais usados símbolos e imagem do “caos” e da insustentabilidade urbanos – é ainda mais um exemplo de como os problemas gerados pela concentração urbana só virão a ser solucionados pelas próprias potencialidades da cidade (Calderoni 2003). A construção de cidades sustentáveis passa pela gestão eficiente e responsável daquilo que é o reverso da moeda do bem estar gerado pelo consumo urbano industrial: a geração de resíduos e a poluição do ambiente de maneira geral.

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Benzer Belgeler