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3.1. Gazzâli DüĢüncesinde Kalb

3.1.1. Kalbin Hakikati

O principense apresenta sete vogais orais que se diferenciam pelos diferentes pontos de ar- ticulação (anteriores, central, posteriores) e graus de altura (altas, médias e baixas), sendo /i/ e /u/ (vogais altas), /E/ e /O/ (vogais médias-baixas); /e/ e /o/ (vogais médias-altas), e a vogal baixa /a/. As vogais do principense são as mesmas da língua de superstrato,

o português. No principense, também encontramos ditongos crescentes e decrescentes, ou seja, vogais na margem do núcleo, como em [ja] burya ‘embrulhar’ e [ew] em janêw ‘janeiro’, respectivamente. As semivogais são representadas com os grafemas <w> e <y>. (1) /a/ ["fja] ‘feira’

/i/ [fi"Zi] ‘fringir’ /O/ ["fOtSi] ‘forte’ /e/ ["detu] ‘direito’ /E/ ["bEtu] ‘aberto’ /o/ [ko"se] ‘consertar’ /u/ [lu"gE] ‘lugar’

2.2.2 Sistema consonantal

O principense possui 20 fonemas consonantais. Estes diferenciam-se quanto ao ponto de articulação, sendo coronais (palatais, alveolares e pós-alveolares), labiais (bilabiais e lábio- dentais), dorsal (velares) e duas velo-labiais, ao modo de articulação (oclusivas, fricativas, líquidas e vibrante) e com relação a vibração das cordas vocais (surdas, sonoras). Há oito consoantes oclusivas (surdas /p/, /t/, /k/, /kp/, sonoras> 1 /b/, /d/, /g/, /gb/), seis> fricativas (as surdas /f/, /s/, /S/ e as sonoras /v/, /z/, /Z/) três líquidas (duas laterais /l/, /L/ e uma vibrante /r/) e três nasais (/m/, /n/, /ñ/), conforme ilustrado na Tabela 2.1:

As oclusivas velo-labiais /kp/ e /> gb/ são uma herança do substrato das línguas do Delta> do Níger (Hagemeijer 2009). Contudo, Günter (1973) apresenta em seu quadro somente a 1Quando as consoantes aparecerem em pares, na Tabela 2.1, a da esquerda é surda e a direita é

breve descrição fonológica do principense 24

Tabela 2.1: Fonemas consonantais

bilabial lábio-dental alveolar pós-alveolar palatal velar velo-labial

oclusiva p b t d k g kp> gb>

fricativa f v s z S Z

nasal m n ñ

lateral l L

vibrante r

oclusiva velo-labial sonora e não considera a velo-labial surda /kp/ como parte do sistema> fonológico do principense. Maurer (2009), por sua vez, sugere que há uma tendência de variação entrs os fonemas velo-labiais /kp/ e /> gb/ e os bilabiais /p/ e /b/, respectivamente,> como em igbê/ibê ‘corpo’ e ukpaka/upaka ‘pele’ (Maurer 2009: 9). É importante notar, contudo, que /gb/ e /b/ e /> kp/ e /p/ são fonemas, como demostram os pares mínimos na> Tabela 2.2.

Tabela 2.2: Oposição velo-labiais/labiais kpa ‘encostar de lado’ pa ‘para’

gba ‘ordenar’ baa ‘queimar’

gbô ‘defecar’ bôn ‘bom’

Apesar de Maurer apresentar a consoante africada [tS] como um fonema da língua, e esta seja transcrita graficamente <tx>, verificamos que este é um alofone, visto que há dados coletados em que falantes ora realizam a consoante palatal [tS] ora a não palatalizada [t].

(2) fi[tS]ixo, fi[t]ixo →‘feiticeiro’ a[tS]i, a[t]i →‘2PS’

2.2.3 Sílaba

A estrutura fonológica da sílaba se constitui pela ordenação de fonemas vocálicos e conso- nantais. A vogal em principense pode aparecer sozinha ou com um elemento consonantal, mas não pode ser omitida na sílaba. A posição de coda é muito restrita e o fonema /S/ é o único que pode ocupar essa posição2. Além de todas as consoantes no onset, o pri- cipense apresenta uma série de onsets completos. As sílabas em principense podem ser constituídas por V, VV, CV, CVV, VCV, CCV, CCCV. Como na maioria dos crioulos de base portuguesa do Golfo da Guiné, o principense apresenta uma preferência pelo padrão silábico CV (não marcado) e por palavras com duas sílabas, sendo que palavras com mais de três sílabas são menos comuns na língua.

(3) e→‘ele/ela’ ee→‘sim’ sa, a →‘estar’ faa.ta→‘falta’ êru→‘erro’ xin.txi.ne.la→‘avião’ xkri.van→‘escrivão’

Em alguns itens lexicais de origem portuguesa, o acento tônico toma como referência a posição do acento na palavra em português.

(4) tã"ze→‘tanger’ ta"ka→‘atacar’

tabala"do→‘trabalhador’

2Embora no sistema gráfico, as consoantes nasais <m> e <n> ocupem a coda da sílaba, fonetica-

breve descrição fonológica do principense 26

"suñu→‘sonho’ "sulu→‘sul’

Entretanto, não há estudos conclusivos sobre tom e acento em principense, principalmente no que diz respeito as palavras de origem não portuguesa. Para alguns detalhes ver Maurer (2009) and Ferraz & Trail (1981).

2.2.4 Tonologia

Günther (1973) trata o principense como língua tonal e argumenta que o tom pode ter sua origem na língua de substrato bini (do Delta do Níger). O autor faz distinção entre três tons: alto, marcado graficamente com um acento agudo), baixo (não marcado) e ascendente, marcado graficamente com um acento circunflexo. Segundo Günther, não há oposição entre o tom baixo e o tom ascendente. Assim, nas palavras de origem portuguesa, os acentos foram interpretados como tom alto e as vogais não acentuadas com tom baixo. Para Günther, não há exemplos de palavras com tons idênticos aos tipos HH ou LL, pelos menos não em português, do qual 90% do léxico do principense é derivado. O tom ascendente, para Günther, existe devido à perda da consoante intervocálica de palavras de origem portuguesa (apud em Maurer: 2009:14)

Ferraz & Traill (1981) afirmam que o principense é uma língua free pitch accent com três pitches: alto, crescente e decrescente e o acento não é completamente ausente. Para os autores, a origem do contraste entre os tons crescentes e decrescentes estão nas sim- plificações durante a pidginização das palavras de origem portuguesa. Os três tons são funcionalmente idênticos e realizados em diferentes contextos. Segundo os autores, em palavras de duas ou mais sílabas, uma delas deve carregar o tom alto, crescente (R, rise, em inglês) ou decrescente (L, de low, em inglês), mas só um deles deve aparecer, nos casos de mais de uma sílaba, aparece o tom baixo. Assim temos os padrões HL, LH, RL, LR,

FL, LF. A justificativa para ser uma língua free pitch accent é que qualquer sílaba pode ser proeminente em termos de pitch.

Maurer (2009), no entanto, rejeita a hipótese sobre a tonicidade do principense apresen- tada em Günther (1973), bem como a de Ferraz & Traill (1981). Segundo ele, o principense tem dois tons: baixo e alto. Assim, palavras dissilábicas podem ser HH, HL, LH e LL. No que diz respeito ao acento, Maurer afirma que propriedades como intensidade podem ser observadas e que as sílabas acentuadas parecem corresponder ao acento original do português. Maurer (2009) apresenta ao final do livro um glossário com aproximadamente 1650 entradas e todas elas com seus respectivos tons lexicais.

A análise apresentada por Maurer, principalmente quando se leva em conta os pares mínimos que o autor utiliza para a contraposição dos tons alto e baixo, revela que em muitos casos, estes podem ser interpretados como acento e não tom propriamente dito, principalmente nas palavras de origem portuguesa em que o acento da palavra, em muitos casos, permanece na mesma sílaba da palavra de origem.

(5) fala[HH] ‘fala’ vs. fala [LL] ‘falar’ konta[HH] ‘conta’ konta [LL] ‘contar’

Posto que os trabalhos sobre o tom em principense não são conclusivos, optamos pela não marcação de tom no dicionário aqui apresentado, seguindo o ALUSTP que não determina marcação tonal.

2.3

Grafia

No início do projeto, optamos por criar um sistema gráfico, uma vez que não havia uma grafia oficial e cada autor apresentava seu próprio sistema grafemático. Assim, a partir de

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exemplo como em (6), seguido por sua transcrição fonética, glosa e tradução para o por- tuguês, poderíamos ter múltiplas formas gráficas, a depender do autor e de seu sistema de notação (Tabela 2.3). Em meados de 2009, um grupo de linguistas reunidos com o Governo de STP decidiu implementar uma grafia padrão para as línguas de São Tomé e Príncipe, a saber, santome, angolar e principense, criando então o Alfabeto Unificado para a escrita das Línguas Nativas das Ilhas de São Tomé e Príncipe (ALUSTP), um alfabeto híbrido de inspiração fonológica. Seu intuito é proporcionar uma escrita econômica, mantendo-se a relação biunívoca entre cada fonema e sua representação gráfica, não apresentar dificul- dades aos aparelhos de suporte à escrita e facilitar a aprendizagem da língua. Contudo, posto que não há sistema gráfico perfeito, alguns pontos apresentam dificuldades e houve uma ou outra adaptação, que será tratada ao longo deste texto.

(6) tSi 2PS ku"me comer piLa pilha igbe"gbe búzio na PREP "kaSi casa se 3POSS ‘Você comeu muitos búzios em sua casa.’

Tabela 2.3: Diferenças ortográficas na literatura Günther (1973) Ci kumé píLa igbegbé na káSi se. Rougé (2004) Txi kume pilya igbêgbê na kaxi se. Mane (2007) Txi kume piLa igbegbe na kaSi se. Maurer (2009) Txi kume pilha igbegbe na kaxi sê. ALUSTP (2009) Txi kumê pilha igbegbe na kaxi sê.

No que diz respeito as vogais, por exemplo, a oposição entre vogais médias-altas e baixas, no ALUSTP, é marcada pelo uso do diacrítico circunflexo nas médias altas [e] e [o]. As médias-baixas [E] e [O] não recebem qualquer marcação, conforme a representação gráfica em (Tabela 2.4).

Tabela 2.4: Ortografia: vogais /i/ → <i> /u/ → <u> /e/ → <ê> /o/ → <ô> /E/ → <e> /O/ → <o>

/a/ → <a>

Segundo Maurer (2009:23), nas palavras de origem portuguesa (caroço>kôôsu e prata>paata) pode-se observar que as vogais longas são resultado da queda de conso- antes. Ferraz & Trail (1981) argumentam que há uma redução no número de sílabas ou mesmo eliminação de certas grupos de consoantes inicial ou médio (cluster, ex. pre.to> peetu).

Segundo o ALUSTP, sempre que houver alongamento de vogal, será marcada com vogal duplicada.

(7) gaa.vi→‘bonito’ ga.ba→‘gabar’ gaan→‘enganar’ gan→‘grão’

De acordo com o ALUSTP, os segmentos consonantais são marcados com os grafemas listados na Tabela 2.5.

No ALUSTP, os fonemas consoantais velo-labiais /kp/ e /> gb/ são representados orto-> graficamente com os símbolos <kp> e <gb>, respectivamente. De acordo com a descrição fonológica, /tS/ não é um fonema da língua, contudo, é representado grafematicamente por <tx>. A adoção do grafema <tx> é parte de uma das concessões feitas no ALUSTP, posto que /tS/ é um alofone e não um fonema. Uma outra concessão feita foi quanto à

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Tabela 2.5: Ortografia: consoantes /b/ → <b> /p/ → <p> /t/ → <t> /d/ → <d> /k/ → <k> /g/ → <g> /gb/ → <gb>> /kp/ → <kp>> /m/ → <m> /n/ → <n> /ñ/ → <nh> /v/ → <v> /f/ → <f> /z/ → <z> /s/ → <s> /Z/ → <j> /S/ → <x> /tS/ → <tx> /r/ → <r> /l/ → <l> /L/ → <lh> /w/ → <w> /j/ → <y>

palavra ˜ua‘um, uma’, outra exceção à simplicidade da escrita por apresentar um diacrítico nasal, sendo o único caso no principense.

Muitas das inconsistências do sistema de escrita português, que geram dificuldades de aprendizagem da escrita da língua e, apesar de o ALUSTP apresentar um sistema gráfico de caráter científico, que teoricamente o distância do padrão da escrita portuguesa, o grupo proponente do ALUSTP acabou por adotar algumas regras da grafia portuguesa, como por exemplo, quanto à representação da nasalidade e o emprego de <m> antes de <p> e <b>, e <n> em demais contextos. Assim, a nasalização vocálica pode ser representada pela vogal seguida por <m> ou <n>, exceto ˜ua.

(8) kampu→‘campo’ bumbun→‘abelha’ alikansa→‘alcançar’ bôdan→‘bordão’

Apesar das diferenças das três línguas faladas nas ilhas de São Tomé e Príncipe, o com- partilhamento de traços gramaticais e lexicais justificam a adoção do alfabeto unificado.

O alfabeto ainda está em fase de experimentação e, após um período de cinco anos, será feita uma avaliação e as reformulações necessárias. Acreditamos que a publicação de dici- onários e outros materiais com a ortografia ALUSTP dará prestígio ao sistema e garantirá sua sobrevivência.

Capítulo 3

Lexicografia

3.1

Introdução

Este capítulo aborda as questões metodológicas da elaboração de um dicionário. Primei- ramente, em 3.2 apresento algumas das definições apresentadas na literatura para obras lexicográficas e propostas para dicionário bilíngue em 3.3 de acordo com a os critérios paresentados em 3.3.1 de funcionalidade, direcionalidade e reciprocidade. Em 3.4 ques- tões pertinentes a dicionários bilíngues e, logo adiante, em 3.4.1.1 e 3.4.1.2, encontram-se aspectos ligados à macro e microestrutura do dicionário bilíngue principense-português.