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Há muito tempo os produtos de origem natural são utilizados no mundo inteiro pela terapêutica alternativa. Estima-se que as comunidades locais utilizam cerca de 10% das plantas nativas com fins terapêuticos. Entretanto,

apenas 1% dos produtos utilizados ganha reconhecimento científico (KHAN et al., 2009).

Sartorato et al. (2004) destacam que o uso de plantas medicinais é uma prática rotineira nos países em desenvolvimento, especialmente na África, Ásia e América Latina, onde existe uma necessidade de utilização da medicina popular com solução alternativa para problemas de saúde.

Considerando a perspectiva de obtenção de novos fármacos, os produtos naturais se diferenciam dos sintéticos sob o aspecto da diversidade molecular. Sabe-se que a diversidade molecular dos produtos de origem natural é muito superior àquela derivada dos processos de síntese, que, apesar dos avanços consideráveis, é ainda limitada. Isso proporciona a elaboração de diversos novos fármacos com funções terapêuticas diversificadas (NISBET; MOORE, 1997).

No Brasil, país com vasta biodiversidade, experiências atreladas ao conhecimento popular aproximam a utilização de produtos naturais aos recursos terapêuticos disponíveis, sendo, inclusive, esta prática recomendada pelo poder público (ALBUQUERQUE; HANAZAKI, 2006). Em 3 de maio de 2006, o Ministério da Saúde, através da Portaria nº 971, aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2006).

Em 2007, O Ministério da Saúde do governo brasileiro lançou a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), que visa garantir à população brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, e tem como alguns dos seus objetivos: inserir plantas medicinais, fitoterápicos e serviços relacionados à fitoterapia no SUS, desenvolver instrumentos de fomento à pesquisa, desenvolvimento de tecnologias e inovações em plantas medicinais e fitoterápicos, nas diversas fases da cadeia produtiva, promover e reconhecer as práticas populares e tradicionais de uso de plantas medicinais, fitoterápicos e remédios caseiros, bem como estabelecer uma política intersetorial para o desenvolvimento socioeconômico na área de plantas medicinais e fitoterápicos (BRASIL, 2007).

O documento supracitado apresenta como diretriz o incentivo a formação e a capacitação de recursos humanos para o desenvolvimento de pesquisas, tecnologias e inovação em plantas medicinais e fitoterápicos. Para tanto, reconhece-se a importância do apoio a qualificação técnica dos profissionais da saúde, e demais envolvidos na produção e uso desses produtos (BRASIL, 2007).

Essa política de atuação governamental visa enfrentar os empecilhos para a utilização dos produtos naturais apontados por Oliveira, Oliveira e Diniz (1997), que levantaram a problemática do desconhecimento dos profissionais de saúde sobre as indicações e cuidados no uso de plantas medicinais. Do ponto de vista dos usuários dos serviços de saúde, Ness, Sherman e Pan (1999) retratam que as plantas medicinais são vistas apenas como uma alternativa aos elevados custos dos medicamentos convencionais e não como opção terapêutica devido às suas propriedades curativas das plantas.

Para Borba e Macedo (2006), existe uma clara necessidade de minimizar a distância entre a técnica e pesquisas científicas das tradições e crenças populares, proporcionando uma valorização dos conhecimentos populares, agregando-lhes comprovação científica e, permitindo, assim, divulgação à população em geral de conhecimentos úteis, antes utilizados apenas in loco, valorizando tanto a cultura quanto a ciência de um povo.

A escolha da planta para utilização em estudos que avaliam suas propriedades farmacológicas é feita considerando o uso terapêutico, o estudo etnobotânico, a presença de determinadas substâncias ou de acordo com a sua disponibilidade (MACIEL; PINTO; VIEGA, 2002). A abordagem etnofarmacológica consiste em associar informações obtidas junto as comunidades locais que utilizam a flora medicinal com estudos químicos e farmacológicos desenvolvidos em laboratórios especializados (ELISABETSKY; SOUZA, 2007).

Em pesquisa realizada na cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil, com o objetivo de realizar um estudo etnobotânico sobre a indicação de plantas medicinais para tratamento de patologias bucais feita por raizeros e usuários

dos serviços odontológicos do serviço público, foi verificado que, na maioria dos casos, as plantas utilizadas são nativas da flora regional, sendo a Punica granatum L. (Romã) a mais citada (SANTOS et al., 2009).

Em outro estudo realizado na cidade de Santa Cruz, Mato Grosso, Brasil, Borba e Maciel (2006) verificaram que, para tratamento e prevenção de afecções bucais, os habitantes locais citaram 87 espécies nativas do bioma nativo, estando a Matricaria chamomilla (camomila), Crocus sativus (açafrão) e Brickelia brasiliensis (arnica-da-serra), entre as lembradas.

Alguns extratos de plantas e metabólitos secundários possuem efeitos inibitórios e letais dose-dependentes sobre diferentes microrganismos (SMITH- PALMER; STEWART; FYFE, 1998). Dentre as substâncias extraídas, tomam destaque os óleos voláteis, que em sua maioria evidencia forte atividade antibacteriana e antifúngica, atribuídas a presença de monoterpenos, que representam cerca de 90% dos compostos presentes (POZZATI, 2007; SIMÕES et al., 2007).

Do ponto de vista das funções biológicas dos óleos essenciais, Harbone (1993) aponta a existência de funções ecológicas, especialmente como inibidores da germinação, na proteção contra predadores, na atração de polinizadores, na proteção contra aumento de temperatura, entre outras. Em relação às atividades farmacológicas, destacam-se a ação carminativa, antiespasmódica, estimulante sobre secreções do aparelho digestivo, ação cardiovascular (aumento do ritmo cardíaco), atividade secretora do epitélio respiratório, ações sobre o SNC (estimulantes ou depressoras), ação anestésica local, antiinflamatória e anti-séptica (SIMÕES et al., 2007).

Como reportado anteriormente, a literatura tem evidenciado que os óleos essenciais apresentam expressiva atividade antifúngica (CHAMI et al., 2004; GIORDANI et al., 2004; DUARTE et al., 2005; PEREIRA, 2009; CASTRO; OLIVEIRA, 2010). Palmeira-de-Oliveira et al. (2009) realizaram ampla revisão da literatura e observaram que a atividade anti-Candida de óleos essenciais vem sendo extensivamente investigada na tentativa de disponibilizar alternativas terapêuticas para o tratamento da candidíase. Entretanto, os

mecanismos de ação desses compostos e seus constituintes não estão totalmente elucidados. Especula-se que a maioria dos óleos essenciais exerça sua atividade antimicrobiana através de modificações na estrutura da parede celular do microrganismo, aumentando a permeabilidade da membrana citoplasmática, promovendo a deterioração de processos essenciais à sobrevivência da célula. Sugere-se também que o rompimento da parede celular deva-se ao caráter lipofílico (presença de monoterpenos) dos óleos essenciais, que se acumulam nas membranas (COWAN, 1999; DORMAN; DEANS, 2000; LAMBERT et al., 2001). Pozzatti (2007) refere-se, ainda, que a ação antimicrobiana dessas substâncias pode ocorre devido à inativação de algumas enzimas, incluindo as envolvidas na produção de energia e síntese de componentes estruturais.

Diante do exposto, evidencia-se que novas pesquisas para avaliar a atividade antifúngica de óleos essenciais apresentam perspectivas positivas, representando possibilidades de obtenção de novos fármacos que sejam utilizados no tratamento contra agentes infecciosos ou outras doenças.

Benzer Belgeler