• Sonuç bulunamadı

5. KALIP HAZIRLAMA

5.5. Kalıp Ayırma Çizgisi Oluşturma ( Parting Lines )

Platão afirma, em “A República”, que as ações justas derivam da ideia de bem: aquilo que é belo e bom. O filósofo mostra que, enquanto para a maioria das pessoas o bem era equivalente ao prazer, para Sócrates o bem correspondia à inteligência266, consistindo na causa da ciência e da verdade267 e em tudo o que salva e auxilia268.

Aristóteles, iniciando o Livro I de “Ética a Nicômaco”, avalia que toda investigação e decisão dirigem-se para um certo bem, sendo bem “aquilo por que tudo anseia”269. O bem é, por assim dizer, tanto um fim em si mesmo quanto a finalidade de todas as ações270. O

filósofo adverte que, embora a noção de coisa boa, por influência das opiniões, esteja sujeita a erro271, sobre a noção de bem paira o consenso de correspondência à ideia de felicidade272. Mas o que é, então, a felicidade?

265 BALERA, Wagner. Noções preliminares de direito previdenciário. 2ª edição revista e ampliada. São Paulo:

Qcuartier Latin, 2010, p. 13.

266 PLATÃO. A república (ou sobre a justiça, diálogo político). Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida

Prado. Revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes - selo Martins Fontes (Paideia), 2014, p. 254, XVI “505 a e b”.

267 Ibid., p. 260, XIX “508 e”. 268 Ibid., p. 401, IX “608 e”.

269 ARISTÓTELES. Ética a nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora

Atlas, 2009, p. 17.

270 Ibid., p. 18: “Se, por conseguinte, entre os fins das ações a serem levadas a cabo há um pelo qual ansiamos

por causa de si próprio, e os outros fins são fins, mas apenas em vista desse; se, por outro lado, nem tudo é escolhido em vista de qualquer outra coisa (porque, desse modo, prosseguir-se-ia até ao infinito, de tal sorte que tal intenção seria vazia e vã), é evidente, então, que esse fim será o bem e, na verdade, o bem supremo”.

271 Ibid., p. 19: “As manifestações de nobreza e o sentido de justiça nas ações humanas, sentidos visados pela

perícia política, envolvem uma grande diferença de opinião e muita margem para erro, tanto que parecem existir apenas por convenção e não por natureza. Uma mesma margem de erro parece envolver o que se possa entender por ‘coisas boas’, por delas resultarem perdas e danos para muitos”.

Primeiramente, Aristóteles examina o tema pensando em três possibilidades de se viver a vida: a primeira, considerada mais vulgar, dá-se na busca do prazer e da fruição; a segunda é a dedicação da vida à política; e a terceira consiste no entregar-se à atividade contemplativa273; juntando, depois, ao seu exame, uma outra forma de viver a vida: a dedicação à obtenção da riqueza274. Por fim, o filósofo conclui que a felicidade é um fim em si mesma e é sempre buscada por si própria275, podendo ser definida como “uma certa atividade em exercício de acordo com a excelência”276. Em outras palavras, é a excelência ética – que só pode ser apreendida na medida em que é praticada277 – que leva à felicidade278.

As excelências são disposições de caráter e estão sempre ligadas ao que é do meio, que fica entre os extremos. Assim, conforme ensina Aristóteles, escalonando a virtude ou excelência da coragem, ela é situada como o meio-termo entre a audácia, que é seu excesso, e a covardia, que é seu defeito (sua ausência, por assim dizer). Em “Ética a Nicômaco”, vemos

272 ARISTÓTELES. Ética a nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora

Atlas, 2009, p. 20: “Retomando, procuremos compreender, agora - uma vez que todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam -, o que dissemos sobre a perícia política e o que ela visa atingir bem como sobre qual será o mais extremo dos bens suscetível de ser obtido pela ação humana. Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, porque supõem que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, acerca do que possa ser a felicidade estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreendem os sábios”.

273 Ibid., p. 21.

274 Ibid., p. 22: “A vida dedicada à obtenção de riqueza é de certa forma uma violência e a riqueza não será

manifestamente o bem de que estamos à procura, porque é meramente útil, portanto, enquanto útil, existe apenas em vista de outra coisa diferente de si. Por isso que os fins mencionados primeiramente suponham ser mais propriamente fins, porque são queridos por si próprios. Mas nem esses parecem ser o bem de que se está à procura, ainda que já se tivessem produzido muitos argumentos em seu favor. Deixemos-nos, por ora, ficar por aqui”.

275 Ibid., p. 26: “Na verdade, simplesmente completo é aquele fim que é sempre segundo si próprio e nunca como

meio em vista de qualquer outro. Um fim deste gênero parece ser, em absoluto, a felicidade. De fato, nós escolhemos sempre a felicidade por causa dela mesma, e nunca em vista de outro fim para além dela. Escolhemos também a honra e o prazer, o poder da compreensão e toda a excelência. Em primeiro lugar, em vista de si próprios (isto é, não escolhemos cada um desses fins por causa de nada que daí possa resultar); em segundo lugar, em vista da própria felicidade, porque supomos que, uma vez obtida, seremos felizes. Mas ninguém escolhe a felicidade em vista daqueles fins, nem, em geral, em vista de qualquer outro fim, seja ele qual for”.

276 Ibid., p. 29: “O sentido da felicidade é uma certa atividade em exercício de acordo com a excelência. Isto é,

não é pequena a diferença entre um bem supremo que existe como mera possibilidade e um bem supremo que está efetivamente em uso. Tal como não se trata de uma diferença sem importância aquela que há entre o que existe como mera disposição e o que está em atividade”.

277 Ibid., p. 41. 278 Ibid., p. 33.

que esse mesmo modelo de que a excelência pertence ao caminho do meio vale para todas as virtudes279.

Assim, no pensamento de Aristóteles, a felicidade é o fim da natureza humana e, diferentemente de todas as demais virtudes, jamais pode ser escolhida como meio para alguma coisa, mas tão somente como fim: “a felicidade não consiste, pois, em tais formas de passar o tempo, mas nas atividades que se produzem de acordo com a excelência”280.

Essa mesma definição, que podemos adotar para a ideia de bem, explica o disposto no inciso IV, do Artigo 3º, da Constituição de 1988, que estabelece como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a promoção do bem de todos, sem discriminação281.

Resgatando o pensamento de Jacques Maritain, é preciso destacar que o bem comum, finalidade da sociedade humana, não pode ser confundido com a proteção egoísta do bem individual, que termina com a opressão dos mais poderosos contra os mais fracos. O bem comum deve ser o resultado do equilíbrio garantido pela fraternidade, ideia-chave em nossa pesquisa282. O melhor para a sociedade, de acordo com o pensador, é unir esforços para o bem-estar de todos os seus membros, isto é, de todos os homens: “assim aparece um primeiro caráter essencial do bem comum: ele implica uma redistribuição, deve ser redistribuído às pessoas e ajudar o seu desenvolvimento”283. Maritain associa o bem comum à justiça, pontuando que, ao lado da retidão, ela não somente deve nortear toda a vida em sociedade,

279 ARISTÓTELES. Ética a nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora

Atlas, 2009, p. 53.

280 Ibid., p. 232, 234.

281 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm>, conforme consulta em 24 de fevereiro de 2015: “Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: […]

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

282 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio

Editora, 1967, p. 20: “Não asseveremos que o fim da sociedade é o bem individual ou a simples coleção dos bens individuais de cada uma das pessoas que a constituem. Tal fórmula dissolveria a sociedade em benefício de suas partes e levaria à “anarquia dos átomos”: ela volveria, ou a uma concepção francamente anarquista, ou à velha concepção anarquista-mascarada do materialismo burguês, segundo a qual toda função da cidade é velar pelo respeito da liberdade de cada qual, o que redunda em os fortes oprimirem livremente os fracos.

O fim da sociedade é o seu bem comum, o bem comum do corpo social. Sem se compreender, porém, que este bem do corpo social é um bem comum de pessoas humanas, do mesmo como o próprio corpo social é um todo de pessoas humanas, esta fórmula, por sua vez, conduziria a outros erros, de tipo estatista ou coletivista”

como também deve constituir uma obrigação de conduta para todo homem e uma obrigação de exigência para toda lei284.

2.3 A noção de justiça

Explicando o fundamento dos direitos humanos na obra “Rumo à justiça”, Fábio Konder Comparato lembra que, na sociedade da época de Jesus Cristo, o direito e a religião eram inseparáveis e a mensagem do divino Mestre sobre o amor universal veio substituir a noção de justiça que se tinha àquele tempo e comenta: “ou melhor, é sempre a exigência de amor que faz avançar a justiça”285. Seguindo esse pensamento, começaremos o estudo sobre o

que é justiça, para, então, investigarmos a fraternidade, ideia que lhe parece afim.

2.3.1 Platão

Na obra “A República”, Platão narra o discurso de Sócrates sobre justiça, que será nosso ponto de partida para compreensão do sentido filosófico do tema. Durante as festividades de uma determinada deusa, Sócrates reúne-se com Gláucon, Polemarco, Adimanto e outros. Persuadido a visitar a casa de Polemarco, encontra Céfalo, pai de Polemarco, com quem inicia o diálogo sobre o que é justiça, questionando se “em si a justiça é simplesmente dizer a verdade e devolver o que se tiver recebido de outrem”286. Como Céfalo estava de partida, foi Polemarco, seu filho, quem “herdou” a discussão.

284284 MARITAIN, Jacques. Os direitos do homem e a lei natural. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José

Olympio Editora, 1967, p. 22: “a moralidade intrínseca do bem comum que não é somente um conjunto de vantagens e utilidades, mas essencialmente retidão de vida, boa e íntegra vida humana da multidão. A justiça e a retidão moral são assim essenciais ao bem comum. É por isso que o bem comum exige o desenvolvimento das virtudes na massa dos cidadãos, e é por isto que qualquer ato político injusto e imoral é por natureza injurioso ao bem comum e politicamente mau. Vemos assim qual erro radical do maquiavelismo. E vemos também como, pelo fato de que o bem comum é o fundamento da autoridade, esta falha à sua própria essência política se for injusta. Uma lei não é lei se é injusta”.

285 COMPARATO, Fábio Konder. Rumo à justiça. 2ª edição. São Paulo: Saraiva, 2013, p. 57.

286 PLATÃO. A república (ou sobre a justiça, diálogo político). Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida

Prado. Revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes - selo Martins Fontes (Paideia), 2014, p. 8, V “331c”.

Sócrates explicava a Polemarco que a origem da definição de justiça como “dar a cada um o que lhe é devido” vinha do poeta Simônides, que, provavelmente, pensava que “justo é dar a cada um o que lhe convém”287, sutil diferença que, no entanto, mudava sobremaneira o sentido da sentença. Como Polemarco tinha para si que justiça consistia em ajudar os amigos e tratar mal os inimigos288, Sócrates esclareceu o erro de sua definição, demonstrando que o homem justo não prejudicava ninguém, pois essa não seria uma ação justa289. Contudo, embora o filósofo tenha dito o que não era justiça, ainda não dizia qual era o sentido verdadeiro do termo.

Após a fala de Sócrates, Trasímaco da Calcedônia, muito zangado, insurgiu-se contra a proposição do filósofo, afirmando que “o justo não é senão o vantajoso para o mais forte”290. Sócrates, com muito custo, conseguiu convencê-lo de que o homem justo é bom e

sábio e de que o injusto é ignorante e mau291, e que, portanto, justiça é virtude e sabedoria292.

Pensando nas cidades, a injustiça também se mostra insustentável por despertar o ódio de todos contra todos, tornando a cooperação pelo bem comum impossível, ao contrário da justiça, que propicia concórdia e amizade293.

Depois de cativar Trasímaco, Sócrates foi confrontado por Gláucon, para que explicasse, afinal, o que era a justiça. O filósofo primeiramente apontou a justiça como um bem do homem, que deve ser amado por todo aquele que quer ser feliz, tanto pela justiça em si mesma, quanto pelo que dela decorre294. A fim de argumentar, Gláucon sustentava que a prática da injustiça era popularmente tida como uma alegria; ao passo que sofrer uma

287 PLATÃO. A república (ou sobre a justiça, diálogo político). Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida

Prado. Revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes - selo Martins Fontes (Paideia), 2014, p. 10, VII “332 c”.

288 Ibid., p. 16, IX “355 d”. 289 Ibid., p. 16, IX “355 d e e”. 290 Ibid., p. 19, XII “338 c”. 291 Ibid., p. 37 XXI “350 c”. 292 Ibid., p. 37, XXII “350 d”.

293 Ibid., p. 39, XXIII “351 d”: “- É que, de certa forma, Trasímaco, a injustiça propicia rebeliões, ódio e lutas de

uns contra outros, e a justiça, concórdia e amizade. Ou não?

Suponhamos que sim… disse ele. Não quero criar divergências contigo…

Mas tu, excelentíssimo, estás sendo muito gentil… Dize-me o seguinte… Se da injustiça é próprio suscitar ódio onde quer que exista, será que, vindo a existir entre homens livres e escravos, não os fará odiarem-se uns aos outros, rebelarem-se e serem incapazes de agir em comum?

- Fará, sim”.

injustiça, uma tristeza; e, para pouparem-se de sofrer injustiças, os homens estabeleceram suas leis295.

Em “A República”, dividida em dez capítulos, é apenas no de número IV que Platão traz a definição do que é justiça para Sócrates: “cada um cumprir a tarefa que é a sua”296. Para o filósofo, a justiça dá capacidade para existir a temperança, a coragem e a sabedoria, virtudes essenciais para a cidade297 que, no diálogo, Sócrates imaginava fundar com seus discípulos298. Dialogando sobre a função dos juízes nessa cidade, o filósofo também conclui que “justiça é cada um possuir o que é seu e realizar o que lhe cabe”299. A justiça, além das ações exteriores, também produzia efeitos no íntimo do homem, “em referência a ele próprio e ao que é seu”300. Em outras palavras, a justiça

Não permite que cada uma das partes que há nele faça o que lhe compete, nem que os três princípios de sua alma interfiram uns nas funções dos outros, mas, ao contrário, manda que ele disponha bem o que é dele, mantenha o comando sobre si mesmo e ponha em harmonia as três partes de sua alma como se nada mais fossem que os termos de escala musical, o mais agudo, o mais grave e o médio e todos os termos intermediários que possam existir e, ligando todos esses elementos, de múltiplo que ele era, torne-se uno, temperante e pleno em harmonia301.

A justiça reflete-se nas ações justas e belas, preserva o estado de harmonia da alma e é baseada na sabedoria, enquanto a injustiça reflete-se na ignorância, é destrutiva e, no lugar da sabedoria, é presidida apenas pela opinião302.

295 PLATÃO. A república (ou sobre a justiça, diálogo político). Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida

Prado. Revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes - selo Martins Fontes (Paideia), 2014, p. 49, II “359 a”.

296 Ibid., p. 154/155, X “433 b”.

297 Ibid., p. 155, X “433 b e c”: “Examinadas a temperança, a coragem e a sabedoria, disse eu, parece que na

cidade mos resta aquilo que a elas todas dá a capacidade para existir e, depois que nascem, as mantém a salvo, enquanto nelas subsiste. Ora, afirmamos que o que restasse, depois que descobríssemos as outras três, seria a justiça”.

298 Ibid., p. 62, X e XI “369 a, b e c”. 299 Ibid., p. 156, X “434 a”.

300 Ibid., 2014, p. 170, XVII “443 d”. 301 Ibid., p. 170/171, XVII “443 d e e”. 302 Ibid., p. 171, XVII “444 a”.

2.3.2 Aristóteles

Em “Ética a Nicômaco”, Aristóteles explica que a justiça é o que faz os homens agirem justamente e ansiar pelo que é justo303. O problema é que, sendo a justiça o oposto da injustiça, há grande equívoco nas interpretações do que é justo ou injusto.

O filósofo destaca que a lei é justa sempre que corretamente disposta pelo legislador. Assim, age justamente quem observa a lei e respeita a igualdade, porque a justiça é uma virtude, uma excelência, que se dá sempre em relação com o outro, caracterizando-se como uma virtude ou excelência completa304: “é por esta razão, então, que a justiça é a única das

excelências que parece também ser um bem que pertence a outrem, porque, efetivamente, envolve uma relação com outrem, isto é, produz pela sua ação o que é de interesse para outrem, seja esse alguém um superior ou um igual”305.

Após comentar sobre a ampla noção de justiça, Aristóteles dá início ao exame do tema em círculos mais restritos: a justiça distributiva e a justiça corretiva, ambas ligadas à ideia de igualdade.

Começando o percurso pela justiça distributiva, o filósofo explica que ela consiste na distribuição em partes, pelos membros da comunidade, da honra, da riqueza e de tudo aquilo quanto possa ser partilhado306. A distribuição justa deve fazer com que o número de partes corresponda ao número de coisas partilhadas, para que os iguais não partilhem partes desiguais entre si, e também para que os desiguais não façam partilha de partes iguais307. Por essa razão, Aristóteles afirma que “a justiça é, portanto, uma espécie de proporção. A proporção não existe apenas como relação peculiar entre a unidade numérica (formal), mas é própria da quantidade numérica em geral”308. Assim, podemos compreender justiça distributiva como a distribuição proporcional das coisas309.

303 ARISTÓTELES. Ética a nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora

Atlas, 2009, p. 103. 304 Ibid., p. 104/105. 305 Ibid., p. 106. 306 Ibid., p. 108. 307 Ibid., p. 108/109. 308 Ibid., p. 109. 309 Ibid., p. 110.

A justiça corretiva se expressa nas transações particulares e também está profundamente ligada à noção de igualdade. Explicando a justiça corretiva pelo seu oposto, no sentido de que “a injustiça é de tal sorte iniquidade que o juiz tenta repará-la”310, Aristóteles esclarece que a correção é como deve proceder o juiz para que haja justiça, elegendo o meio-termo entre perdas e danos311.

Em suas ponderações, o filósofo explica que a justiça retributiva equivale à retaliação, noção aceita entre os pitagóricos, “eles definiam o sentido de justiça como sendo simplesmente fazer alguém passar pelo sofrimento que infligiu a outrem”312.

A justiça também pode ser compreendida como política, dividindo-se entre natural, que é igual em toda parte e não se altera; e convencional, que varia não apenas em termos de formulação, mas também de conteúdo: enquanto em uma parte o justo é sacrificar uma cabra; em outra, o justo é sacrificar duas ovelhas313.

Ainda, Aristóteles destaca a relação da justiça com a equidade, afirmando que, embora as noções sejam equivalentes, a equidade não se apoia na lei, “mas na medida em que tem uma função retificadora da justiça legal”314. O equitativo, dessa maneira, não procura a justiça a todo custo, pois tem capacidade de perdoar315.

2.3.3 John Rawls

Em “Uma teoria da justiça”, John Rawls afirma que “a justiça é a virtude primeira das instituições sociais, assim como a verdade o é dos sistemas de pensamentos” e que “cada

310 ARISTÓTELES. Ética a nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. São Paulo: Editora

Atlas, 2009, p. 110.

311 Ibid., p. 111: “Assim como o igual é o meio-termo entre o mais e o menos, o ganho e a perda são o mais e o

menos, mas de modo oposto. Enquanto mais de bem e menos de mal é um ganho; o contrário (menos de bem e mais de mal) é perda. O igual, que nós dizíamos ser a justiça, é o meio entre aqueles extremos, de tal sorte que a justiça corretiva é o meio-termo entre os extremos perda e ganho”.

312 Ibid., p. 112. 313 Ibid., p. 117. 314 Ibid., p. 124/125 315 Ibid., p. 141.

pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem o bem-estar de toda a sociedade pode desconsiderar”316.

O filósofo norte-americano explica que a realização da justiça depende da atuação das principais instituições sociais, de como “distribuem os direitos e os deveres fundamentais e determinam a divisão das vantagens decorrentes da cooperação social”, apontando que essas decisões ecoam profundamente na vida das pessoas, tanto em seus projetos de vida quanto “no que podem esperar vir a ser e no grau de bem-estar a que podem almejar”317.

O que seriam, então, as instituições sociais? Rawls aponta que as mais importantes são, na verdade, os próprios direitos ligados à liberdade da pessoa, tais como a liberdade de pensamento, de consciência, a possibilidade de os mercados serem competitivos, a propriedade privada dos meios de produção e a família318. Trabalhando com a ideia de que

pessoas nascidas em posições diferentes têm expectativas diferentes quanto à vida, o filósofo aponta que as coisas são assim “tanto pelo sistema político quanto pelas circunstâncias econômicas e sociais”319.

Ao traçar sua própria teoria do contrato social, o pensador coloca os princípios de

Benzer Belgeler