1.3. Çizgi Romanın Sinemaya Aktarımı
1.3.2. Kahraman Donanımı
A inculcação de um “habitus escolar” realizada pelos pais professores (rotina de estudo, disciplina, interesse pelo conhecimento científico, criticidade, “aprender a pensar”) parece surtir os resultados esperados pelas famílias, pois, no conjunto dos filhos desse grupo, não há nenhum caso de reprovação escolar.
Os pais relatam que os filhos, de um modo geral, não apresentam dificuldades nas diferentes disciplinas escolares. Em apenas um caso, um pai informa que o filho apresentou problema quando cursava o 6º ano submetendo-se a uma recuperação “paralela” (realizada durante o processo, a cada bimestre):
48 A expressão “fábrica de profissionais” é utilizada por Setton ao se referir às instituições de Ensino Superior privadas que funcionam de acordo com a lógica do mercado, preocupando-se com o número cada vez maior de profissionais colocados nesse mercado, sem se ater precisamente à qualidade da formação oferecida.
O R. [filho] teve um pouco de dificuldade no sexto ano. Acho que ele estranhou um pouco a mudança. Ele pegou uma recuperação paralela pela primeira vez, na primeira nota. Então, eu fui na escola e conversei, acho que fui lá umas três vezes e acabamos que chegamos num consenso. Ele estava com uma resistência com o professor de matemática, acho que era o estilo dele, assim mais rígido. Então, eu conversei com a coordenação e com o professor também. Assim, depois eles tiveram um olhar diferenciado pra ele e resolveu. Ele começou a melhorar e não deu mais problema não. (Mãe professora de Ciências e Química, três filhos)
Segundo os depoimentos, aos primeiros sinais de eventuais dificuldades escolares dos filhos — de aprendizagem ou de outro tipo —, a primeira providência dos pais é procurar a escola e os professores. O estreitamento dos contatos com a escola é, na perspectiva deles, uma condição essencial para prevenir possíveis dificuldades dos filhos. No entanto, os canais dos contatos variam conforme os filhos vão progredindo na carreira escolar. Na educação infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, os pais declaram procurar diretamente o professor e, nos anos finais do fundamental, eles optam por procurar a direção ou a coordenação pedagógica.
Esse ano, aconteceu um fato com a professora da C. [filha, oito anos], que não me deixou satisfeita. A C. uma vez chegou com um dever que era assim: quantos pés existem atrás da cortina? Aí, ela contou, e eram quatorze pés. Quantas pessoas tem atrás da cortina? Aí, sete. Então, primeiramente, quatorze pés, segunda pergunta, quantas pessoas, sete. Terceira pergunta: o numero encontrado foi par ou impar? Ela ficou em duvida, se era par ou impar, porque tinha uma resposta que era par e outra resposta que era ímpar. Eu falei pra colocar o que ela achava mais provável e que conversasse com a professora pedindo mais explicações. Quando ela chegou em casa: Mamãe, você me fez errar no dever porque a resposta era par. Aí eu escrevi um bilhetinho pra professora, que a pergunta tinha deixado dúvida, que não estava muito clara, ela queria saber o número de pés ou o número de pessoas? A professora falou com ela [filha] em particular segundo ela. Ela chegou perto da carteira dela, que ela mostrou meu bilhete pra ela. Aí ela chegou perto da C. e falou que a errada era ela porque todos dias chegava atrasada. Que a professora no começo da aula explicava o dever, então quem estava errada era a C. A partir desse dia, meu olhar como professora era diferente a ela. Eu não conseguia olhar pra ela da mesma maneira que olhava antes. Isso me chateou muito, mas eu fui concordar com ela, porque ela chegava mesmo atrasada todos os dias, um pouquinho. Mas a parte pedagógica eu tive que discutir no colégio. Olha bem! Então falei com a coordenação só sobre a parte pedagógica, não falei da postura da professora que achei muito inadequada. É certo que de vez em quando a gente atrasava, e realmente, nisso, ela estava correta. Só que a partir dai eu deixei de almoçar. Eu trago ela. O dia que dá para almoçar é claro que almoço. O dia que não dá, chego, acabo de prepará-la e levo pra escola. E chego antes do horário, antes do sinal bater. Então foi um fato que aconteceu que me deixou extremamente chateada e assim a forma que ela abordou minha filha, não foi uma forma que eu abordaria um aluno. Sem querer, a gente sendo professora compara a postura pedagógica, né? Falar assim: O errado é VOCÊ, porque VOCÊ chega atrasada. Comigo, depois o professora chegou e admitiu o erro, aquela coisa, realmente estava errada mesmo. A pergunta estava meio ilógica, deixou em dúvida. Então, por que ela não admitiu isso na frente da turma toda? Por que não admitiu isso perante minha filha? Não, ela admitiu comigo, sozinha, sem contar nada para minha filha. Então eu falei com a C. depois: Essa questão está realmente mal formulada, mas a partir de hoje, a gente não chega mais atrasada. Falei com ela e
partir daquele dia, a gente tem chegado no horário. (Mãe professora de História, dois filhos)
A L. não tem dificuldades não, graças a Deus. Ela começou a ler com cinco anos. Ela diz que adora português, mas odeia matemática. Mas o legal é que ela é ótima também em matemática. Ela nunca me deu trabalho na escola, não. Os professores sempre elogiam. Somente no princípio no primeiro período ela estava muito agitada, então foi quando foi diagnosticado o TDH. Ela toma medicamento, e fica tudo bem. Eu vou pouco à escola porque agora não precisa mais. Só me lembro recentemente de uma vez que fui porque não concordei com uma atividade do dever. Então eu fui e conversei direto com a professora. A relação é boa. Nunca tive problemas não. Mas tenho liberdade de procurar quando é preciso e conversar, como, por exemplo no caso do dever que te falei. Tinha uma cruzadinha que tinha uma palavra escrita errada. Eu sou professora de Português, não podia deixar de interferir. Então fui falar para a professora. Mas tudo ficou bem. (Mãe professora de Português, uma filha)
Em casos de eventuais dificuldades dos filhos, duas outras estratégias são utilizadas pelas famílias: o recurso a terceiros (aulas particulares, psicólogos, médicos) e um reforço proporcionado pelos próprios pais. Dos pais professores desse grupo, apenas dois esclarecem ter buscado, pelo menos uma vez, o apoio de outros professores para aulas particulares. Nesses casos, os pais declaram que foram ajudas esporádicas, buscadas mais como estratégia de prevenção para evitar dificuldades futuras do que de reparação. Quanto à ajuda especializada de psicólogos ou médicos, dois outros pais mencionam ter sido necessária a orientação especializada: um caso em que a filha foi diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e um outro em que o filho apresentou mudança de comportamento na escola após o nascimento do irmão.
Em relação ao reforço escolar aplicado pelos próprios pais, os relatos demonstram que esse “reforço” geralmente ocorria também como uma estratégia de prevenção.
E eu tento não cobrar muito dela, por exemplo, o boletim dela hoje. É o primeiro ano que ela está tendo notas, em termos de avaliação mesmo. Aí vão as provas e vão as notas. As notas estão ótimas, dez, dez, dez, nove, nove, nove, e tal. Mas, a gente pega a prova e fala: Olha C., a palavrinha, por exemplo “alcance” escrita aqui, era só copiar, você copiou errado. A gente tenta chamar atenção pros erros que foram por falta de atenção. Mas no momento, não é o fato que ela tinha ter tirado dez, não exijo isso dela, não quero isso dela. Eu acho que um oito estaria de bom tamanho, apesar deu não falar isso com elas bem. Mas eu não quero lançar sobre elas essas expectativas de ter um filho perfeito porque é filho de professor, não. Mas, quando assim alguma coisa não vai bem, eu prefiro eu mesmo estudar com ela, dar assim um reforço pra prevenir mesmo. Prevenir é melhor do que remediar, não é? [risos] Mas não é uma coisa assim maçante, não. A gente vai com calma porque a vida delas hoje em dia, por causa da escola mesmo, é uma correria. (Pai professor de espanhol, duas filhas)
Olha, quando o M. tem alguma dificuldade... bom, assim... dificuldade ele não tem, mas uma vez, a matemática do sexto ano assusta um pouco os meninos, né? Então, eu procurei dar um apoio maior na matemática pra passar aquela fase bem tranquila. Não tem sentido, eu, professora de matemática, deixar ele passar aperto. Agora ele tá no sétimo ano, e a matemática é tranquila pra ele. Pois é, eu acho que a gente tem que intervir na hora certa pra evitar problema no futuro. A escola não é pra fazer sofrer, eles precisam ser felizes. Acho que esta é a nossa meta, assim, como pais. (Mãe professora de Matemática, um filho)
A L.[filha, 10 anos] está indo super bem na escola, mas em Português ela é de 7 e 8. [notas]. Então eu procuro deixar ela mais calma, não ficar chateada com as notas. E dá certo, ela já relaxou, sabe que a nota não é tudo. Eu estou fazendo um trabalho com ela de interpretação que é a dificuldade dela, mas é uma coisa bem lúdica pra não deixar assim, ela ansiosa. Brincando...aos poucos ela vai melhorando nisso. Eu penso também que ela tem tantas outras facilidades, que é preferível tirar 8 em português mas ser uma menina bacana, amiga, sensível. Ela é muito criativa também. Então, eu não vou deixar ela ficar com nenhuma insuficiência assim, mas eu vou ajudando, mas sem estressar, sem deixar a L. triste, entende? (Mãe professora de História, uma filha)
Como afirma Singly (2004), a mobilização das famílias em relação à escolarização dos filhos leva sempre em conta os “sinais dados pela escola sobre o rendimento dos filhos”. Entretanto, este estudo demonstra que, nessas famílias, os pais dispõem de conhecimentos necessários para se antecipar a esses sinais. Por fim, no caso das famílias desse grupo, as estratégias adotadas pelos pais parecem satisfazer às suas aspirações.
3.2.2.6 Controle e coordenação no acompanhamento das atividades extraescolares
As estratégias educativas das famílias entrevistadas, no tocante às atividades extraescolares, visam, ao mesmo tempo, oferecer atividades lúdicas e beneficiar a escolarização dos filhos. No caso dos pais do grupo 2, embora essas atividades constituam um “apoio escolar menos direto”, elas são eficazes no desenvolvimento de qualidades como a “autodisciplina”, a responsabilidade, o dinamismo e o esforço, intensamente valorizadas pela cultura escolar (VAN-ZANTEN e DURU-BELLAT, 1999). De um lado, os pais procuram estimular os filhos a desenvolver atividades que também contribuam para o desenvolvimento de seus “talentos” e para a sua realização pessoal.
Eu levo pro balé, eu faço coque pro balé, eu busco do balé, eu levo na natação. É assim. A presença paterna é maior do que a da mãe. Agora, as atividades balé, natação... Nós fazemos questão que elas façam atividades físicas, mas elas é que escolheram, balé e natação. E sobre os estudos de língua estrangeira, computação, essas atividades ainda elas não fazem, não. Estamos esperando a hora certa. Elas estão meio sobrecarregadas por causa do ritmo do colégio. Ela tem uma facilidade de desenho que é muito bonitinho, volto falar da C. por causa da idade, porque a L. adora desenhar, mas, por enquanto, só rabiscos. E a C. adora desenhar, e a cada dia ela desenvolve mais. Como eu disse, eu adoro arte e ela também. Ela fica olhando os meus trabalhos. A gente está pensando em colocar ela também numa escolinha de arte porque vai ser uma atividade que vai dar prazer pra ela. A arte ajuda na construção da personalidade, faz a pessoa mais sensível, eu dou a maior força. (Pai professor de Espanhol, duas filhas)
O M. [filho, 13 anos] gosta de música. Então, ele faz aula de violão toda terça e quinta. Ele faz futebol também. A gente deixou ele escolher o que quer fazer. Assim, mas tem que ocupar o tempo com coisas que gosta também. Isso ajuda a ficar mais tranquilo. Agora, o inglês ele faz também, mas esse nós meio que induzimos ele a fazer. Ele não queria muito não, mas nós mostramos que é importante pra ele, pra formação dele porque o inglês da escola não é suficiente. Agora, pra equilibrar, ele faz o violão que é só alegria! Ele adora! Você precisa ver como ele é habilidoso. E depois que começou com as aulas, ele ficou mais alegre. Acho que ajudou a ficar mais suave porque o ritmo de estudo é pesado no 7º ano. Agora, essas coisas assim ajudam também porque os meninos ficam com mais disciplina, né? Eles ficam mais responsáveis mesmo. (Mãe professora de Matemática, um filho)
A M. faz balé e aula de desenho. Ah! Tem o catecismo também. Como ela só tem 7 anos, deixamos o inglês para o ano que vem, vamos esperar um pouco mais, a gente não quer que ela fique cansada antes da hora. Agora, a aula de desenho foi ela quem quis, o balé também. Ela ama dançar! A gente fica feliz porque ela encontrou uma atividade que ela gosta, que faz bem pra ela, pro corpo e pra alma. (Mãe professora de Ciências, uma filha)
E, por outro, esses genitores buscam assegurar que o tempo livre seja ocupado com atividades que possam beneficiar a vida escolar, exercendo, assim, a exemplo do grupo 1, uma coordenação das atividades escolares e extraescolares. Os relatos indicam que as famílias organizam e controlam o cotidiano dos filhos em torno da realização de atividades extraescolares que contribuam para o desenvolvimento de talentos e habilidades que ampliem seus horizontes e possibilidades futuras (escolar e profissional), realizando um “cultivo orquestrado” da vida da criança (LAREAU, 2007).
O “cultivo orquestrado” no caso desses pais professores pode ser observado também em relação ao controle das atividades de lazer da criança que são geralmente realizadas em família. Mas os pais evidenciam ter o controle das atividades realizadas com os amigos e do tempo despendido (somente aos finais de semana).
Olha, eles pedem para ir ao T. [clube da cidade] sempre. Eles adoram ir lá pra encontrar com os amigos, né? Mas eu marco com eles, pode ir nos fins de semana. Durante a semana, é só no dia da aula de tênis, que é lá no clube. No final de semana, ou a gente deixa eles irem, mas só que eu levo e busco, não deixo ficar solto não, ou vamos pro sítio do meu sogro. Lá também eles gostam, mas querem sempre levar colega. Eu procuro controlar isso, mas não proíbo não. Quando eu posso, levo colega pro sítio também. Eu prefiro que eles levem o colega pra lá do que deixar eles saírem ou ficar em casa de colega. (Mãe professora de Ciências, dois filhos) Eles adoram ficar de frente pra tevê. Eu procuro estimular a fazer outras coisas. Ver tevê é bom, mas não pode ser demais. Agora, pra clube é só no fim de semana, vamos todos as vezes. Durante a semana já tem atividade demais. O M. [filho, 14 anos] já tá querendo sair pra balada, mas eu ainda não deixo não. Nós falamos com ele que é pra esperar mais um pouco. Ele concorda, mas pede pra ir em festinha na casa de colega. Eu não posso proibir, né? Então o que eu faço é levar e buscar, mas eu marco a hora e busco, e também quero saber na casa de quem vai. Se eu não conhecer os pais, aí não deixo não. Agora, eles têm muitos amigos que vêm aqui em casa. Eles gostam de jogar videogame e chamam os colegas. Eu prefiro assim, mas também não dá pra fazer isso sempre. (Mãe professora de Ciências e Química, três filhos)
Em suma, ainda que em relação à escolha da atividade a ser realizada, os pais desse segundo grupo pareçam menos controladores, mais estimuladores do que direcionadores, quando se trata da organização do tempo e das condições em que se dão essas atividades, o controle evidencia-se bastante explícito e rigoroso. Além disso, as atividades realizadas com o grupo de pares também são controladas, através de uma “autoridade negociada”.
Esses pais acreditam que a tevê não deve ser uma atividade dominante na vida das crianças e, por isso, procuram oferecer outras alternativas para minimizar o tempo de exposição a ela. Um tipo de “cultivo orquestrado” parece lhes propiciar a segurança de que os filhos estão engajados em atividades que os ajudam na “construção de si” e que os beneficiam na vida escolar e fora dela.
Ferrand, Imbert e Marry (1999) afirmam que é comum às famílias em ascensão social uma “pedagogização”, não apenas da vida doméstica, como também das atividades extraescolares. Seria plausível pensar que, no casos dos pais professores, essa “pedagogização” seria ainda mais marcante tendo em vista as modalidades de acompanhamento escolar descritas neste capítulo. No caso específico desse grupo, os pais professores — por conhecerem profundamente os riscos que uma forte focalização na escola pode trazer para a vida dos filhos — desejam construir para eles uma educação “equilibrada”, em que o sucesso escolar esteja também apoiado em atividades de outra natureza (lúdicas,
esportivas, artísticas) e que possam contribuir para o desenvolvimento harmonioso de sua personalidade (p. 123).
3.3 Grupo 3: Famílias cujo sucesso escolar depende mais intensamente dos trunfos