Apesar desta quase afinidade eletiva entre a “perfídia judaica” e a “loucura sebastianista”, o único exemplo conhecido de um judeu sebastianista que conhecemos é Rosales. Este fato gerou indagações por parte de alguns pesquisadores. João Lúcio de Azevedo levanta a questão nos seguintes termos:
“É singular o vaticinio, proferido pelo judeu encoberto, que dai a anos, circunciso, se assinava Manuel Bocarro Frances Rosales Hebreo (...) Seria curioso indagar como no seu espirito concordavam os achados da astrologia com as profecias da Biblia, a Santa Madre Igreja, por todos os povos reconhecida, e o povo de Israel reunido pelo Messias.” 416
Aqui ela faz um jogo de palavras entre “judeu encoberto” (criptojudeu, Rosales enquanto vivia em Portugal) e o rei encoberto da crença sebastianista. Como se houvesse alguma relação entre estes dois fatos. Numa linha similar, mas pelo lado da negação, segue Israel Salvador Revah. Ao tentar explicar o sebastianismo de Rosales, nos oferece esta explicação:
“Nous sommes en presence d'un cas typique de ce qu'on peut appeler "l'insincerite litteraire des Marranes", a bondamment attestee par ailleurs. Manuel Bocarro Frances n'a du utiliser le "sebastianisme" que pour sa gloire litteraire et
scientifique, et son profit personnel”417
Segundo este autor, tudo o que Rosales escreveu sobre o sebastianismo, toda sua reflexão e empenho neste movimento e toda sua repercussão dentro do mesmo nada mais foi do que resultado de uma “insinceridade literária” de origem criptojudaica ou de um mero instrumento para alcançar sua glória literária.
Cabe aqui, agora, mostrarmos um apanhado geral da influência de Rosales sobre o movimento sebastianista e seu lugar de destaque no mesmo.
Em primeiro lugar, Rosales é o primeiro entre os sebastianistas, e nisso antecipou-se a Vieira, que criou um “sebastianismo sem D. Sebastião”. Ao produzir um deslocamento do mito da figura histórica do rei desaparecido em Alcácer Quibir e substitui-lo por um novo personagem que viria cumprir sua função, no caso D. Teodósio de Bragança418, Rosales conferiu ao
sebastianismo condição de sobreviver ao longo do tempo.
Numa relação de manuscritos sebastianistas que se encontram na Biblioteca Nacional de Lisboa, podemos atestar a presença e importância de Rosales dentro deste movimento.
1. Mss 97 n.7: "Aphorismos de Manuel Bocarro sobre o
417 REVAH, p. 79.
418 LUZ PEQUENA, p.52:”... que el-rei Dom Sebastião não morreu na Batalha de
África (e temos disso demonstrativa certeza) contudo, não esperamos por ele para o domínio de Portugal. Rei temos nele; por el-rei Dom Sebastião, entendemos seu sangue e verdadeiro herdeiro...”. Contudo, não se trata de uma teoria de reencarnação de D. Sebastião, como alega Antônio José Saraiva; SARAIVA, A. J. “Antonio Vieira, Menasseh ben Israel et Cinqueme Empire”. Studia
Rosenthaliana, Vol VI, Number 2, July 1972, pp.25-57. Esta afirmação sobre
Rosales e uma teoria de “reencarnação” encontra-se à p. 31:...cepedant ne serait pas Sébastian lui-même, mais, par une sorte de réincarnation, une person de son sang. Cette théorie sous-tendue de la réincarnation est um élément juif ajouté au cournat bandarriste.“
Juizo que fez do eclipse lunar de setembro do anno 1624".419
2. Cod. 7211: "Aforismos".420
3. Cod. 400: "Vaticinios feitos pelo mathematico no anno 1627".
4. Cod. 551: "Vaticinios que fez o Dr. Manoel Bocarro Francez médico astrólogo Lusitano no anno 1627-Anno 1628- Discurso astrológico no anno de 1629".421
5. Mss 249 n.69: "Profesia de Manoel Bocarro Frances Médico Philózofo Mathemático Luzitano anno 1624".
6. Cod. 627: "Profesias de muitos servos de Deus".422
7. Cod. 125: "Escritos sebastianistas diversos".423
Estes manuscritos são cópias datadas do século XVIII, já que se encontram em meio a documentos produzidos naquele século, e não contêm nenhum texto de punho de Rosales.
Os manuscritos podem ser divididos em algumas categorias:
a. Cópias do Anacephaleoses da Monarchia Lusitana..., como o número “7” acima descrito, talvez até
produzidos após a queima pública do livro em 1774.
419 Trata-se de um eclipse que ocorreu aos 26/09/1624. Ver PILGRAM, Antonio.
Calendarium Chronologicum Medii Potissimum Aevi Monumentis Accommodatum. Viena: Sumptibus Josephi nobilis de Kurzbeck, 1781, p.27 .
420Trataremos com mais atenção deste texto, ao qual já previamente citamos, no
prosseguimento deste trabalho.
421 Encontra-se numa coletânea de escritos sebastianistas do século XVIII
denominado Escritos Sebastianistas, pp. 150-159.
422 Manuscrito do século XVIII com 546 folhas. As profecias de Rosales
encontram-se em fl 62-68 e fl141v-142v
423 Coleção de manuscritos do século XVIII com 432 páginas. Entre as páginas
78-124 cópia de parte do Anacephaleoses da Monarchia Luzitana, de 1624, até a oitava 56.
b. Excertos de textos de Rosales que circulavam por grupos sebastianistas, incluindo profecias diversas ligadas ao eclipse de 1624 e a outros eventos. Alguns destes escritos podem ser de autoria de Rosales, outros podem ser pseudoepígrafos424.
c. Textos que com certeza são pseudoepígrafos, mas que demonstram a importância de Rosales nos círculos sebastianistas. Por exemplo o manuscrito de número “5” na lista acima, que contém uma profecia atribuída a Rosales sobre o terremoto de Lisboa do ano de 1755, indicando que era tido em alta estima entre aqueles que aguardavam o Encoberto.
"Depois de passarem mil E os sete centos voarem Dous cincos verão que acabem Esta máquina impertil
Hum arroto o mais subtil Do mais pesado elemento Fará hum tal movimento
Em seu abalo rotundo Que dara espanto ao mundo
E a Lizia por muito tempo Mais seis passaram aflictos os perversos que ficarem
424 Pode se tratar de excertos do texto referido pelo próprio Rosales, e já referido
Sem nunca se emendarem De seus atrozes delictos Sacerdotes mais peritos Passarão por ignorantes Em mares tam inconstantes Sem que já alguém lhes Valha A morte tudo varalha
Em menos de seis instantes.
Existem mais duas versões deste poema. Um anônimo, e um pouco mais resumido425 e outro de igual teor, atribuído ao Bandarra426. A
presença de textos sebastianistas de Rosales ocorre numa importante coletânea sebastianista denominada Iardim Ameno que também gozou de expurgo por parte das autoridades civis e eclesiásticas.427
Portanto, não há dúvidas, quer por sua própria declaração, quer pela sua presença intelectual no movimento, que Rosales era um sebastianista. Para melhor entendermos sua contribuição e participação neste movimento, iremos agora nos ocupar de seu primeiro livro publicado, o Tratado dos Cometas que Appareceram em Novembro
Passado de 1618. Este livro contém material de cunho científico, do qual
425 Cod. 551, Biblioteca Nacional de Lisboa. 426 Cod. 400. Biblioteca Nacional de Lisboa.
427 ALVELOS, Pedreanes de. Iardim Ameno Monarchia Luzitana Império de
Christo, Propheçias, revelaççoes, vatecínios, Pronosticos e Revelações de muitos Sanctos e Sanctas, Religiosos servos de Deos, varões illustres e Astrologos eminentissimos...,.Coimbra. 1635 (coletânea manuscrita). Contém o Anacephaleoses e também o Luz Pequena. No Edital da Meza Censória esta
coletânea é referida como obra dos jesuítas que “...com a grande cópia de imposturas, que depois colligiram no outro também malicioso, e pernicioso livro, que compuseram com o título de Jardim Ameno(...) no qual se acumularam famosas, e falsas Profecias, Revelações, Vaticínios e Prognósticos, atribuídos a vários Santos, Servos de Deos, Varões Illustres, Astrologos eminentíssimos, Sibillas , e até Homens Pagãos...”. ERMC, fl 1v- 2f
trataremos no momento oportuno.
Embora não tenha conteúdo sebastianista explícito, o livro traz detalhes sobre o método astrológico de previsões empregado por Rosales e também uma amostra dos temas de que se ocupava em seus vaticínios. Em linhas gerais os principais temas abordados neste livro serão retomados nas outras obras astrológicas de Rosales, em especial no