Na psique reside o imaginário de cada um de nós, que se produz como realidade psíquica manifestando-se sob a forma da representação. Castoriadis o designa “imaginário radical”.
Despossuída de índices do real, indiferente à verdade ou à ficção alucinatória, a realidade psíquica nunca desliga representação, intenção inconsciente e carga afetiva. Os processos inconscientes não diferenciam em camadas a representação, a intenção e o afeto; antes, é na indistinção que tudo se passa. Esta realidade indiferente ao real, ao se fazer existir sob a forma de representação, é condição de tudo que para nós existe. “A imaginação radical se faz existir, faz existir o que não existe em lugar algum fora do inconsciente, o que não existe, e que é para nós condição” do que possa existir (CASTORIADIS, 1995, p. 334). O imaginário radical é, portanto, o modo de ser da realidade psíquica, ao mesmo tempo em que é constitutivo do indivíduo social.
A psique enquanto existência psíquica em isolamento – a “mônada psíquica” castoriadiana, o gérmen do que virá a ser um sujeito – é a antítese do modo de ser do indivíduo em sociedade. O desejo inconsciente “é um monstro, anti-social e mesmo a-social” (CASTORIADIS, 2002, p. 108), ele põe a representação psíquica que o satisfaz, independentemente de considerações biológicas, funcionais e racionais. O caso da criança anoréxica é exemplar: a resposta canônica à necessidade somática, à fome, “é a alucinação e a satisfação fantástica, que se faz na imaginação e de maneira indeterminada”, o desejo manifesta-se na contramão da vida, o bebê anoréxico morre por causa de sua imaginação (CASTORIADIS, 1995, p. 345).
O indivíduo nunca existiria no isolamento, ele é fabricação social. A psique, que lhe é nuclear, é irredutível à sociedade, e sobrevive ao sofrer o processo de socialização: imposição do social que constrói “as camadas sucessivas do que será, na sua face externa, o individuo. A socialização é obra da instituição que é, evidentemente, a cada vez mediatizada por indivíduos já socializados” (CASTORIADIS, 1992, p. 274).
A psique é estranha às necessidades relativas à sobrevivência humana, tanto biológica quanto social; em vista dessa irresponsabilidade é imperativo que ela seja socializada. A socialização da psique envolve algo como “uma ruptura forçada da clausura da mônada psíquica”, cujo
sentido não é apenas o de adaptar “o ser humano a tal ou qual tipo de sociedade, ela é o que torna o ser humano capaz de viver...” (CASTORIADIS, 2002, p. 109). Sendo a psique destituída dos índices de realidade necessários à sobrevivência, a instituição social e a própria sociedade aparecem como invenções humanas relacionadas tanto ao ser biológico quanto ao ser social-histórico do homem.
O ser biológico não é simples determinação natural, mas resultado da porosidade do mundo ao que é humano. Castoriadis designa “primeiro estrato natural” à parte do mundo que corresponde à existência animal do homem, organização natural-biológica análoga à sua própria organização enquanto simples ser vivo. O primeiro estrato natural não poderá jamais ser transgredido ou ignorado sob pena do homem se fazer desaparecer; a instituição da sociedade está apoiada sobre esta organização que de modo algum a determina, mas lhe apresenta “uma série de condições, pontos de apoio e de incitação, de marcos e de obstáculos” (CASTORIADIS, 1995, p. 273).
O estrato natural participa da instituição imaginaria da sociedade porque as sociedades conhecem algo do mundo natural, pelo menos aquilo que lhes garante a sobrevivência. A implicação disto é, ao menos em certos aspectos, o mundo “se deixar conhecer, ser conhecível, prestar-se a algum conhecimento”. O modo como isto ocorre não é evidentemente determinado, mas posto pela instituição social. “As sociedades constroem, a cada vez, o seu mundo – mas isso acarreta a existência de alguma coisa que possui em si mesma essa qualidade, independentemente de toda construção: ser construtível (em parte, certamente)” (CASTORIADIS, 1992, p. 276).
Esta condição implica a impossibilidade de esgotar as construções do mundo por um simples motivo: em última análise, não estamos em condições “de separar inteiramente e desligar rigorosamente o que nessas construções se origina no sujeito construtor – nesse caso particular, na sociedade – e o que pertence ao mundo em si, ao que está presente” (CASTORIADIS, 1992, p. 277). O esforço de separar essas camadas não é irrelevante ou sem sentido, mas está fadado a ser interminável.
O ser social vincula-se ao modo de ser da psique, pois “a verdadeira polaridade não é aquela entre indivíduo e sociedade, mas entre psique e sociedade” (CASTORIADIS, 1992, p. 274). A socialização da psique está na origem da fabricação social do indivíduo e implica uma ruptura
violenta da mônada psíquica. A instituição social é responsável por isso, pela emergência da separação, para o indivíduo, entre um mundo privado e um mundo público. Não há passagem tranqüila da psique à sociedade, o indivíduo “não é um fruto da natureza, mesmo tropical, ele é criação e instituição social” (CASTORIADIS, 1995, p. 355).
A sublimação é o processo que força a psique a substituir seus “objetos próprios” por “objetos que valem na e pela instituição social”:
Isso implica, de um lado, a psique como imaginação, a saber, como possibilidade de estabelecer isto por aquilo, no lugar daquilo (quid pro quo); por outro lado, o social-histórico como imaginário social, a saber, posição na e pela instituição, de formas e de significações que a psique como tal está na impossibilidade absoluta de fazer ser. (CASTORIADIS, 1995, p. 356).
O que está em jogo na sublimação é a instauração da intersecção entre mundo privado e público, que se opera na especificidade de uma dada instituição social. Ligam-se “imaginário radical” e “imaginário social” à medida que o indivíduo social se produz na e pela instituição. O contexto social-histórico tem aqui papel crucial, o que se torna evidente ao se pensar no processo de socialização da psique, comparando-se um servo da gleba e um proletário, um senhor feudal e um capitalista. Pode-se afirmar que os deslocamentos do imaginário radical (da psique) em direção ao imaginário social (do coletivo) são orientados pelo social-histórico e impensáveis fora dele. Ao mesmo tempo, quando se pensa na passagem do feudalismo ao capitalismo pode-se antever o abismo e a ponte, separando e unindo imaginário radical e imaginário social, e se alcançar a dimensão da noção de criação social-histórica proposta por Castoriadis:
Sociedade e psique são inseparáveis e irredutíveis uma à outra... A constituição do indivíduo social não elimina, e não pode eliminar a criatividade da psique, sua auto-alteração perpétua, o fluxo representativo como emergência contínua de representações diferentes. (CASTORIADIS, 1995, p. 364).
Imaginário radical e imaginário social são sempre referências à posição, criação e fazer-ser, dimensões centrais do pensamento castoriadiano, relacionadas à atividade humana instituinte. Imaginário social e/ou sociedade instituinte designam aquilo que no social-histórico é posição, criação e fazer-ser. Imaginário radical é aquilo que é posição, criação e fazer-ser na
e para a psique. Castoriadis utiliza também o termo imaginário radical numa acepção ampla, referenciado a toda e qualquer atividade instituinte, individual ou coletiva: no social-histórico o termo referencia a “corrente do coletivo anônimo”, na psique referencia o “fluxo representativo-afetivo-intencional” (CASTORIADIS, 1995, p. 414).