I. ARAŞTIRMA
1. GİRİŞ
1.2. Kadının Yaşam Tarzı
Este trabalho teve a finalidade de evidenciar que as obras O Pagador de
Promessas (1959) e O Santo Inquérito (1966) revelam fortes indícios críticos
sobre a situação política e social pela qual o Brasil passava no período das décadas de 1950 e 1960. A relação entre Literatura e Política se mostra de forma alegórica nessas duas peças, já que estas permitem que se destaque, como afirma Fábio Lucas (1985), “o discurso literário (...) permeado por uma intenção de apelo, pois visa a mover o receptor da mensagem e estimulá-lo a
engajar-se em uma prática” (LUCAS: 1985, p. 97) sociopolítica, em busca de
uma sociedade mais justa.
Profundamente marcada pela Política, a dramaturgia nos entornos de 1964 registra a dimensão de questionamentos sociopolíticos frente a um Estado cuja formação era considerada autoritária e que acabava, por isso, tolhendo direitos à cidadania. Nesse sentido, essas duas peças de Dias Gomes representam imbricações literárias e político-sociais que podem ser vistas
como alegorias nacionais da realidade brasileira. Tomando-se o termo alegoria
como“a substituição do pensamento em causa por outro pensamento, que está
ligado, em uma relação de semelhança, a esse mesmo pensamento”, conforme
postula Heinrich Lausberg (LAUSBERG: 1976, p. 283), o presente trabalho discutiu os efeitos estéticos dessas duas peças de Dias Gomes como resposta a um espaço autoritário representado nelas. Ademais, o termo alegoria contempla significados mais específicos que não poderiam deixar de ser levados em consideração quando se consideram questões políticas e ideológicas.
Considerando alegoria, também, como “a abertura do texto a múltiplos significados, a sucessivas reescrituras e sobrescrituras que são geradas
segundo os muitos níveis e interpretações suplementares” (JAMESON: 1992,
p. 26), este trabalho aplicou tal conceito àquelas duas peças como a representação de uma resposta ao sentido problemático da situação sociopolítica dos entornos da década de 1960. Nessa perspectiva, relacionou- se a história de Zé-do-Burro, de O Pagador de Promessas, e a de Branca Dias, de O Santo Inquérito, como alegorias nacionais de um determinado momento
histórico. Em outras palavras, Dias Gomes construiu nessas duas peças um discurso artístico-cultural recontando/ressignificando um momento histórico na História do país.
Assim, realizou-se uma análise dessas obras mediante o estudo estilístico do termo alegoria a partir de uma visão histórica. Essa discussão dialogou diretamente com problemas como autoria, posição ideológica das personagens, construção de conflitos e de ações dramáticas, discurso hegemônico e de resistência alegórica, representados tanto pela obra em si, quanto pelas suas circunstâncias de elaboração externa, como uma obra escrita da perspectiva do “Terceiro Mundo”. Afinal, acredita-se que o texto dramático pode também ser ferramenta para, em uma linguagem literária, denunciar e desmascarar aqueles que utilizam a carência e a falta de perspectiva do outro como formas de exploração e de poder. Nessa perspectiva, essas duas peças de Dias Gomes, quando confrontadas, representam alegorias de um Estado autoritário.
Sem dúvida, um ambiente de instabilidade política e de dominação sobre o povo brasileiro instigou artistas – a partir de sua sensibilidade aguçada – a enviar ‘mensagens’ para a sociedade, com o objetivo de conscientizar e de despertar aqueles que se deixavam levar por um discurso que, sorrateira e intencionalmente, disfarçava o caráter opressor. Parece verdadeira a relação entre opressão e provocação ao ato da criação artística, principalmente quando o autor se vê obrigado a disfarçar, com sutileza poética, as denúncias que se propõe realizar, cosendo-as com uma linguagem alegórica, na qual o povo, geralmente, se vê refletido.
São construídas contestações de escritores e de artistas às estruturas de supremacia, com diferentes estratégias e táticas de ação, seja no teatro, na música, no cinema, na literatura, enfim. Esses artistas enfrentam pressões políticas para adequar seus propósitos à realidade social, desenvolvendo manobras que conciliem ideologia e uma produção alegórica. Essas observações podem ser corroboradas, por exemplo, com a contribuição do teatro, na figura de Dias Gomes, contra as limitações político-sociais impostas pelo golpe de 1964. Em um depoimento publicado pela Revista Civilização Brasileira, em 1968, assim se manifestou o Dramaturgo:
É óbvio que a nossa luta pela liberdade de pensamento insere-se e é parte inalienável da luta pela liberdade do povo brasileiro. Entenda-se aí a palavra liberdade no seu sentido mais amplo. Liberdade individual e coletiva.
(...)
Dentro da estreita faixa de liberdade controlável foram deixados o teatro, o livro e o cinema. Este, apesar de atingir grandes massas, por ser ainda diminuto o número de filmes feitos no Brasil. Os dois primeiros por agirem sobre um público reduzido, pelo menos em sua ação imediata. E o processo de ação mediata do teatro e do livro concede ao Governo tempo suficiente para neutralizá-la no momento oportuno. Foi por isso que ainda em fins de 1964 os primeiros protestos começaram a surgir em cena.
(GOMES: 2012, p.30)
As observações de Dias Gomes demonstram sua consciência no engajamento artístico: para ele, o teatro, a arte é sempre um ato social. Sua concepção artística deixa clara a ideia do envolvimento político do teatro. Lembra, inclusive, o teatro político de Bertolt Brecht, quando este afirma que o mundo atual só pode ser reproduzido para os homens do presente se for descrito como um mundo em transformação. E essa transformação é operada, em 1964, fundamentalmente, por uma iniciativa de grupos teatrais, que emprestam o palco a um momento histórico para refazer a História de um povo. Ademais, essas observações revelam um governo bastante equivocado, por não saber e nem perceber o poder social/coletivo que emana do teatro, do livro e do cinema. Entretanto, esse equívoco ou o que gira em torno dele foi revertido com a imposição de Atos Institucionais, instrumentos de repressão e de controle social, especialmente o Ato n. 5.
“Os soldados armados de fuzis prendiam milhares de pessoas: dirigentes populares, intelectuais, políticos democratas. (...) A ordem era calar a boca de qualquer oposição” (SCHMIDT: 1997, p.328-329). Esses atos representaram exatamente a repressão política. E não era mais a ‘caça’ aos apenas identificados como comunistas. Qualquer um que estivesse dentro das fronteiras do país e sugerisse a mínima ideia de discordância do que era estipulado pelos militares no poder poderia passar por um interrogatório, muitas vezes sinônimo mais de tortura do que de um conjunto de perguntas.
Nesse processo, o Governo se atribuía a tarefa de acabar com a corrupção e, principal e essencialmente, com a subversão, a qualquer custo. Para tanto, usava os inquéritos policial-militares (IPMS), justificados por ser um instrumento para dar fim ao “grande mal” político-social: a subversão. Era tão
fixa essa ideia, que o Governo acreditava, conforme Gaspari, que “perseguir subversivos era tarefa bem mais fácil do que encarcerar corruptos, pois se os primeiros defendiam uma ordem política, os outros aceitavam quaisquer tipos de ordens” (GASPARI: 2006, p.135). Pode-se estimar que centenas de IPMS foram abertos entre 1964 e 1966 e que eles, ainda segundo Gaspari, “apuravam desde a subversão nas universidades até a corrupção no governo federal” (GASPARI: 2011, p.134). Provavelmente, vários dos interrogatórios que aparecem na literatura pós-64 sejam a versão alegórica desses inquéritos. Em O Santo Inquérito, por exemplo, além do título imensamente sugestivo, Dias Gomes abre a peça com um interrogatório que apresenta características cruéis de acusações que não deixam à personagem Branca Dias nenhuma saída. Fazem-se perguntas muito mais afirmativas e acusatórias que propriamente interrogativas. Em outras palavras, a existência do interrogatório
é mais um disfarce da falsa democracia – a qual daria direitos à personagem
Branca Dias de se defender – que exatamente o direito que ela teria de ser ouvida, para depois ser julgada. Branca Dias, nessa perspectiva, já surge em cena com sua condenação instaurada.
Embora haja a sensação de que já se esgotou a discussão acerca de uma ideologia autoritária no Brasil, principalmente com os muitos estudos desenvolvidos na década de 1980, é necessário que essa temática seja revista e observada, visto que a sociedade deve estar atenta às ideologias que a circundam e que a compõem. Sendo assim, é pertinente esta observação de W. Faulkner: “o passado nunca está morto, ele nem mesmo é passado”. Nesse sentido, Ricardo Silva (2001) ressalta ser “provável que a persistente revisitação da história das ideologias políticas e dos conflitos ideológicos no Brasil do século XX resulte num melhor esclarecimento dos problemas políticos e institucionais presentes neste limiar do século XXI” (SILVA: 2001, p. 3). Então, para que melhor se compreenda o contexto sociopolítico atual, revisitar o passado se torna importante veículo de condução de conceitos e de valores neste início de século.
Tomando-se Estado autoritário como o representante de uma ideologia
em que o sistema político é controlado por um indivíduo não eleito que
apresenta um comportamento em que se excede no exercício da autoridade de que dispõe no momento, entende-se que a arte foi, durante o Regime Militar,
principalmente, uma recorrente estratégia de resistência para diversos artistas. O engajamento ideológico dialogava de forma direta com as produções do fim da década de 1950 até 1970, na música, na literatura, no teatro. O desejo reprimido de liberdade e o desejo de denunciar subjaziam e permeavam as
produções artísticas da época, sob uma linguagem alegórica – mais que
necessária naqueles tempos politicamente tão difíceis.
No caso específico do teatro, alguns dramaturgos brasileiros, a exemplo de Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Viana Filho e de Dias Gomes, desenvolveram uma dramaturgia que pode ser relacionada à ideia de uma ação cultural conscientizadora, capaz de desalienar a sociedade. Assim, o teatro se consubstancia como um importante instrumento de força social e política, por suscitar tomadas de consciência e contribuir para que o ponto de vista do cidadão seja, no mínimo, abalado em suas ingênuas certezas. Quanto a essas ideias, Kátia Rodrigues Paranhos (2010) destaca que
A defesa do engajamento, portanto, parte do princípio de que os autores que falam sobre a realidade brasileira (sob diferentes óticas) são engajados. Isso significa dizer que o teatro é uma forma de conhecimento da sociedade. Assim, mesmo quem se autoproclamava não engajado ou apolítico, na verdade, assume uma posição, também, política (PARANHOS: 2010, p. 2).
Nessa perspectiva, o teatro, especialmente, desempenhou um papel fundamental na luta contra a Ditadura brasileira, implantada a partir de 1964. Ou como afirma o próprio Dias Gomes, em artigo publicado em 1968:
o teatro é a única arte (...) que usa a criatura humana como meio de expressão. (...) Este caráter de ato político-social da representação teatral, ato que se realiza naquele momento e com a participação do público, não pode ser esquecido (GOMES: 1968, p. 10).
Para tanto, o uso de uma linguagem repleta de conotações é recurso imprescindível à comunicação de mensagens que a dramaturgia, por exemplo, buscava. Sendo assim, a utilização de elementos alegóricos é estratégia funcional na construção das ações dramáticas e no perfil das personagens,
como Zé-do-Burro e Branca Dias. Como destaca Dias Gomes, “A verdade
processo de criação que resulta na descoberta de aspectos essenciais da
realidade humana, em suma, na obra de arte” (GOMES: 2012, p. 23).
A produção dessa dramaturgia não é apenas importante; revela-se, na verdade, imprescindível para o desenvolvimento da literatura dramática brasileira, já que os autores de hoje dispõem de uma rica bagagem de criação textual para servir como referência. A leitura da dramaturgia de Dias Gomes contribui para se evidenciar a construção de uma consciência desalienante e politizada de parte da sociedade. Para tanto, deve-se chamar a atenção acerca da maneira alegórica como o Dramaturgo construiu as ações dramáticas e as personagens em sua dramaturgia. Estudar as obras O Pagador de Promessas e O Santo Inquérito sob o conceito de alegoria nacional é mais que propor um resgate da memória de nossa dramaturgia. “É, antes de tudo, a necessidade de análise de obras produzidas numa sociedade sujeita ao vigiar constante, às perseguições, ao exílio, à tortura, à censura, enfim, à possibilidade de
retaliações arbitrárias” (BOTELHO: 2007, 12) por que a sociedade vem