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7.PLANLAMA KARARLARI

7.1. NÜFUS KABULLERİ

Armas de fogo (Af)

AT, LE, S, I/G (ISCtec = 2,00)

O uso de armas de fogo é considerado como o mais importante método de caça, uma vez que permite o abate de todas as espécies preferenciais de forma instantânea, efetiva e a longas distâncias. Ainda que diversas comunidades humanas do planeta ainda não tenham acesso a esse tipo de tecnologia, pode-se considerar essa preferência como padrão mundial (Anderson 1985).

No Brasil, o ISCtec dessa técnica atingiu valores máximos, um reflexo

do uso disseminado de espingardas, principalmente na zona rural e silvícola brasileira. Jerozolimski & Peres (2003) afirmam que o uso de armas de fogo é predominante em todo o Neotrópico, inclusive em comunidades indígenas. Embora a legislação e a fiscalização em relação ao porte de arma tenham se tornado mais rígidas nas últimas décadas, elas são encontradas com facilidade em atividades de caça de qualquer região do país (Alves et al. 2009a, Barbosa et al. 2011, Peres 1990, Smith 1976, Peters et al. 2012, Desbiez et al. 2011). Não obstante, como apontando por Alves et al (2009a), o armamento representa a ferramenta básica dos caçadores, ainda que não sejam diretamente usadas para abater uma presa, servindo como defesa contra qualquer imprevisto que possa ocorrer durante as atividades cinegéticas.

Ainda que haja a utilização esporádica de revólveres por parte de alguns caçadores, indubitavelmente a espingarda ocupa a totalidade da preferência de uso dentre as armas de fogo (Figuras 6A, 6B). A mais utilizada é a do tipo cartucheira, também chamada de retrocarga ou de fogo central, inventada pelo engenheiro bélico belga Berminmolin, que havia adaptado um protótipo da marca Lefauchex, em 1852. Como o advento das duas Grandes Guerras, em 1914 e 1945, esse tipo de armamento ganhou ampla disseminação no mundo.

A retrocarga é dividida entre cano, báscula e coronha. A qualidade de uma dessas armas pode ser determinada por diversos fatores, como uma perfuração corretamente esmerada do cano, que pode ser aferida através de

uma estrutura de espessamento chamada choke; uma báscula resistente que abrigue sistemas de ejeção automática do cartucho e travas de segurança e uma coronha que possua formato e ergonomia compatíveis com o caçador. Há dois tipos principais de espingarda cartucheira: as de cães exteriores e a hammerless, também denominada mocha, a qual pode ser subcategorizada nas de canos laterais e canos superpostos.

Quanto aos calibres, há seis tipos principais. Os mais comumente utilizados são, em ordem decrescente de potencial bélico, a 12, 16, 20, 24, 28, 32, 36 e 40, sendo os dois primeiros quase que exclusivamente dedicados à caça de espécies de médio e grande porte. Já sobre os chumbos, a escolha de cada tipo, o qual varia de acordo com o diâmetro e é inversamente proporcional ao número de série, depende do tamanho do grupo cinegético a ser abatido. Por exemplo, chumbos finos (entre 10 a 8) são comumente utilizados para aves de pequeno porte, enquanto os de numero 7 e 6 são empregados para a caça de aves pouco maiores, como tinamídeos, os de número 5 e 4 para espécies de médio porte como pacas e cutias e os de 3 a 1 para animais de grande porte (Santos 1950, Buys 1934, Castro 1925).

Outro tipo de espingarda comum, sobretudo no Nordeste brasileiro (Souto 2014, Fernandes-Ferreira et al. 2012) é a de antecarga, também chamada de “socadeira”, “bate-chumbo”, “espalha-chumbo” ou “pica-pau”, que geralmente não ultrapassa o calibre 24. Não necessita da aplicação de cartuchos, portanto pólvora e chumbo são inseridos na abertura superior do cano e prensados com uma vareta de metal, embora haja métodos artesanais de confecção de invólucros que possam simular um cartucho. Possui a vantagem de poder abater vários indivíduos, porém, esse tipo de armamento apresenta diversos pontos negativos em relação à cartucheira, principalmente quanto à limitação do poder de tiro e de precisão, morosidade de tempo para recarga e produção elevada de fumaça. Além disso, as cartucheiras possuem dispositivos de segurança mais efetivos. Não é difícil também encontrar armas de fabricação artesanal, algumas de manufaturação muito simples e sem qualquer estrutura refinada em relação à segurança e precisão (Figura 6C).

Há também o uso de armas de “alma raiada”, ou seja, que possuem estrias na parte interna do cano que provocam a rotação do projétil, promovendo maior precisão e distância em relação às espingardas de “alma

lisa”, sem estrias. As de cano curto são chamadas carabinas e as de cano longo rifles ou fuzis (Chase 2003). O preço elevado e a dificuldade de compra restringem o uso dessas armas a caçadores mais abastados, principalmente os esportivos.

Em relação às técnicas de tiro, há também uma forte correlação com o alvo cinegético e seu respetivo comportamento. Posição do corpo e da arma, direcionamento da mira e momento do disparo podem mudar de acordo com a direção do voo ou da corrida da presa em relação ao caçador, bem como com as características do ambiente (mata fechada, campo aberto, corpos d’água), presença de cães e outros caçadores, entre diversas outras particularidades. As principais partes do corpo para garantir um abate ideal das presas são a regiões auricular, escapular e craniana frontal (Santos 1950, Buys 1934, Castro 1925).

Embora a legislação brasileira permita o registro e o porte de armas de fogo (Leis Federais no 10.826/2003 e 5.123/2004), cabe ressaltar que a realidade dos caçadores brasileiros é geralmente realizar suas atividades em total ilegalidade. Para driblar esse obstáculo, alguns entrevistados afirmaram optar pelo uso de espingardas de pressão 4.5 ou 5.5, que podem ser efetivas para o abate de espécies de pequeno porte.

Estilingue, baladeira, fisga, atiradeira (At) AT, LE, S, I (ISCtec = 0,16)

O estilingue é a arma cinegética de fabricação mais simples do país, consiste no uso de um pequeno colchão de lançamento amarrado com duas ligas de borracha de tamanho igual, cujas pontas são amarradas em cada ramificação superior de uma vara de madeira bifurcada e resistente (Figura 7C). Serve para disparar projéteis pequenos e pesados, como pedras ou objetos metálicos.

É encontrado principalmente nas mãos de crianças e adolescentes e pode ser considerado como o instrumento de iniciação à caça. Altamente nocivo, pois a prática é bem disseminada em todas as regiões e geralmente é realizada sem qualquer grau de seletividade, abrangendo qualquer espécie que sirva para satisfazer treinos e brincadeiras de pontaria.

Zagaia / Azagaia / Lança / Arpão (Zg) AT, LE, S, I (ISCtec = 0,02)

No que concerne aos instrumentos perfurocortantes, as lanças são as principais técnicas utilizadas para a caça de animais silvestres. Em tribos indígenas, é arma reportada desde os primeiros viajantes e consiste em uma longa estrutura de madeira com uma das extremidades afiadas ou dotadas de pontas metálicas ou pétreas. No Pantanal, a lança de metal é denominada zagaia ou azagaia e é item da cultura tradicional local. Os “zagaieiros” eram figuras destacadamente corajosas e desbravadoras, pois eram reconhecidos por enfrentar animais perigosos, principalmente a onça pintada (P. onca), em uma situação de extremo contato.

Com o auxílio de cães, o caçador localizava a onça, colocava-se na frente do animal em fúria, posicionando a zagaia firmemente apoiada ao solo, com a ponta inclinada em aproximadamente 50o. Era preciso muita destreza para mudar a posição da flecha conforme a onça mudava sua posição de ataque. O abate era realizado quando o felino atacava o caçador, elevando-se sobre as patas traseiras. O próprio peso do carnívoro fazia com que a zagaia penetrasse seu ventre. Comumente, vários cães e caçadores morriam na empreitada (Silva 1898, Cunha 1919, Aguirre 1945, Simel 1953).

No período auge do comércio de peles, era um método preferencial, porque garantia que a região dorsal do couro, de maior valoração, permanecesse intacta. Com a proibição da caça e desse tipo de comércio e também com a disseminação das armas de fogo no país no período pós 2ª Guerra, a zagaia praticamente caiu em desuso.

Além da zagaia, uma lança típica para a captura de répteis e mamíferos de hábito semiaquático também foi documentada. Ela possui uma ponta de metal destacável da estrutura de madeira e presa por uma longa corda, para que, após a deflagração da arma, mesmo que o animal fuja para a água, a captura esteja segura (Santos 1950).

Laçada / laço de peão / laço ativo (Lp) AT, NL, S, I (ISCtec = 0,04)

Técnica ativa que consiste na captura de animais de grande porte através do lançamento de cordas com nós preparados para o enforque. Muito comum no Centro Oeste, Sudeste e principalmente no Nordeste brasileiro para a contenção de gado bovino e caprino, é somente no Pantanal que a técnica é direcionada em larga escala para a caça de fauna silvestre, como antas, veados, porcos silvestres e principalmente o porco monteiro (Sus scrofa), como pontuam Desbiez et al. (2011) (Figura 7B).

Arco e flecha (Ac)

AT, LE, S, I (ISCtec = 0,0008)

Técnica renomada de origem indígena, consiste em um filete maciço de madeira flexível, que pode chegar a mais de dois metros de comprimento, curvado através de uma corda amarrada nas extremidades, tornando-o um disparador poderoso de projéteis cilíndricos, longos e finos, feitos geralmente de madeira, cujas pontas podem ser afiadas a partir da própria estrutura ou então manufaturadas em um pedaço independente de madeira ou metal e adicionadas à flecha (Figura 7A). Dificilmente seu uso é relatado fora de um contexto indígena tradicional, o que justifica o baixo ISCmed apresentado, já que

o presente trabalho abordou somente populações não-indígena, apesar de alguns caçadores caboclos ou com ascendência indireta ainda utilizarem o arco em algumas comunidades na Amazônia (nesse trabalho, por exemplo, documentamos dois caçadores não indígenas que utilizavam esporadicamente esse método na zona rural de Porto Velho, Rondônia). Considerada a principal técnica de caça e de guerra por inúmeros viajantes e naturalistas antigamente (ex. Sousa 1957, Anchieta 1933, Daniel 1976), caiu em desuso inclusive em diversas tribos indígenas, devido à substituição pelas armas de fogo (Jerozolimski & Peres 2003).

Borduna / Porrete / Tacape (Bd) AT, LE, S, I (ISCtec = 0,004)

Arma branca manufaturada com madeira ou metal maciço para abate por esfacelamento craniano. O tacape simples está em total depauperação na caça rural brasileira, apesar do seu uso ter sido documentado Pantanal, para a captura de jacarés no período do comércio de peles até o início da década de 80, de acordo com dois informantes. Contudo, na Amazônia, tanto na AOc como na AOr, o uso de um tacape com pregos incrustrados na extremidade ainda hoje é utilizado para uma melhor fixação no casco de quelônios aquáticos de grande porte (Podocnemidae).

Laço de bola / Boleadeira (Bo) AT, NL, S, I (ISCtec = 0,009)

Consiste em duas bolas feitas de pedras polidas, madeira ou metal, unidas por uma corda ou barbante, para ser lançada nas patas de mamíferos de grande porte e principalmente de emas (Rhea americana). O uso dessa técnica na literatura esteve geralmente relacionado aos indígenas e comunidades rurais da Região Sul (Silva 1898, Santos 1950), onde, até hoje, é possível encontrar nos campos vestígios dessa arma, que caiu em desuso pela população, apesar de relatos mencionarem o uso por poucas pessoas com a intenção de resgatar a cultura cinegética local (Felipe Peters, com. pess.).

Rede (Rd)

AT, NL, S, G (ISCtec = 0,10)

Usada também para a captura passiva de aves. Como aponta Aguirre (1964), essa malha de fios pode ser lançada ativamente contra espécies ribeirinhas, como capivaras, jacarés e aves aquáticas, de acordo com caçadores da Amazônia, Pantanal e Caatinga. Essa técnica apresenta a vantagem da captura não-letal de diversos indivíduos, que poderiam dispersar diante de um tiro que abateria somente um.

Manual (Mn)

AT, NL, S, G (ISCtec = 0,31)

A captura manual pode ser direcionada para indivíduos adultos de algumas espécies da herpetofauna como lagartos, serpentes, quelônios e anfíbios; da avifauna, como columbídeos e psitacídeos, principalmente quando associada à técnica de facheamento, além da mastofauna, como por exemplo os dasipodídeos (Figura 7D). Além disso, no Pantanal, há caçadores que se lançam de seus cavalos sobre porcos asselvajados (S. scrofa) para contê-los (Desbiez et al. 2011). Porém, esse tipo de método é empregado primordialmente na coleta de ovos e filhotes de aves para o consumo alimentar e principalmente para o tráfico de animais silvestres (Fernandes-Ferreira et al. 2012).

Incêndio (In) AT, LE/NL, R, G

O incêndio é uma prática principalmente indígena que, no Brasil, envolve diversos fins, como manejo de paisagens e de plantas nativas para fins alimentares e de confecção artesanal (Coutinho 1990, Anderson 1999). Quanto a sua relação nas atividades de caça, pode ser empregado para duas finalidades: 1) primariamente, afugentar animais para uma determinada direção, onde estarão sendo aguardados com armas e armadilhas e 2) de forma secundária, capturar herbívoros ungulados, sobretudo antas e cervídeos, que posteriormente visitam áreas queimadas durante o nascimento das plântulas em regeneração, uma vez que o fogo é um fator de alto estímulo para a floração de herbáceas e subarbustivas, além de sincronizar a produção de flores e a polinização cruzada (Melo & Saito 2011)

Por se tratar de uma técnica que não envolve qualquer seletividade, não foi possível apontar os valores de ISC dessa técnica para cada grupo de fauna, tornando assim impossível a determinação de seu ISCtec. Essa prática sempre

foi condenada pela literatura cinegética esportiva, bem como por diversos estudos conservacionistas devido ao grave potencial de impacto, que abrange desde espécies preferenciais como não preferencias em números muito

elevados (Santos 1950, Varnhagen 1860, Leewenberg et al. 2000). Contudo, alguns especialistas apontam diversas estratégias de manejo entre comunidades indígenas no Cerrado, que fazem uso tradicional dessa técnica em uma frequência muito baixa, como por exemplo uma vez a cada dois anos por área de caça (Melo & Saito 2011). Esses autores chegam a afirmar que seria a diminuição da fauna que estaria ocasionando maior esforço de caça com o uso de fogo e não o inverso.

Veneno / tingui / timbó (Vn) AT, LE/NL, R, G

Consiste no uso de compostos químicos naturais ou artificiais para a coleta ou eliminação de animais silvestres (Figura 8). Pelos mesmos motivos das técnicas de incêndio, não foi possível determinar seu ISCtec.

Quanto aos venenos artificiais, sua utilização está fortemente relacionada ao controle populacional de espécies predadoras de animais domésticos ou de lavouras. Os mais comuns são os organofosforados denominados popularmente de “chumbinho” e alcaloides como a estricnina. Ambos possuem venda proibida no Brasil, embora sejam facilmente comercializados (Silva et al. 2014).

Não obstante, a América do Sul abriga diversas comunidades humanas que fazem uso tradicional de plantas nativas para a produção de substâncias tóxicas utilizadas para fins cinegéticos e pesqueiros. No Brasil, os vegetais mais relacionados a essa prática são Paullinia spp., Serjania spp. (Sapindaceae), Tephrosia toxicaria, Enterolobium timbouva, Derris eliptica (Fabaceae), Palicourea marcgravii (Rubiaceae), Mascagnia rigida (Malpighiaceae) e Manihot spp (Euphorbiaceae). Após um processo de maceração que é geralmente realizado na beira de um corpo d’água, os vegetais são lançados e acabam contaminando peixes e outras espécies de vertebrados como aves e répteis aquáticos e mamíferos semi-aquáticos. Os princípios ativos são a rotenona, glucosídeos cardiácos, alcaloides, cianogênicos, ictioterol, taninos e saponáceos. A depender da concentração de químicos na água, o resultado pode ser o enfraquecimento desses animais ou mesmo uma mortandade indiscriminada. Essa técnica é conhecida como tingui

ou timbó, nomenclatura geralmente homônima às plantas relacionadas (Heizer 1986, Pezzuti & Chaves 2009, Tokarnia et al. 2000, Pereira 1974).

Benzer Belgeler