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Desde o surgimento do satélite, experimentações remotas já eram testadas no campo da performance, movimento que se intensificou com o uso aberto da Internet. No entanto, não apenas o intercâmbio audiovisual foi possível como também modificações feitas a partir de traduções e recombinações de códigos que fluem de uma localidade a outra. Um dos mais

emblemáticos exemplos veio da companhia norte-americana Troika Ranch, que - inspirada no livro homônimo do The Critical Art Ensemble, The Electronic Disturbance (1996) - conectou as cidades de Nova York, San Francisco e Santa Fe por meio de projeções de cada local realizadas pela rede. A dinâmica fez com que os participantes de cada cidade atuassem como um único grupo, tendo a rede como verdadeiro espaço de diálogo e execução. Além da conexão telecomunicacional, a via sensorial era um outro canal de vínculo entre os performers: dispositivos interativos ativavem sons e movimentos realizados por um artista em determinado local para controlar elementos em outra cidade. A iluminação em Nova York, por exemplo, era modulada pelas oscilações vocais de um cantor em Santa Fe. Além disso, espectadores podiam participar enviando mensagens de texto pela Internet, as quais eram “lidas” em cena por uma voz computadorizada. Neste sentido, além de uma existência distribuída do performer, tornou-se possível criar interações orgânicas por meio de manipulações, distorções, traduções e reconstruções de códigos e mensagens. O remoto promove uma releitura do local e altera, em tempo real, a perspectiva do “global” em que a obra consiste.

Soma-se à Troika Ranch a australiana Company in Space. Fundada em Melbourne em 1992, por Hellen Sky e John McCormick, a companhia tem desenvolvido sua proposta com base na articulação entre tecnologia e movimento, uma vez que, para o coletivo, tais recursos promovem uma ampliação dos movimentos da dança – ao contrário de anulá-los ou pervertê-los. Considerada uma das que melhor aproveitam os recursos da telemática na dança, tem como destaques os trabalhos Trial by Video, de 1998, que ligou Melbourne e Londres, e Escape Velocity, de 2000. Ambas as montagens trazem uma visão orgânica da integração entre performers e projeções, que constituem uma poética de fusão entre presença e ausência. Efeitos digitais em tempo real também ajudam a compor a força dramática das apresentações.

Em uma teleperformance criada no IDAT, a australiana Company in Space encenou Escape Velocity como um duento entre dois bailarinos, duas cameras e dois projetores ligados diretamente pela internet, unindo o Web Café, na Universidade do Arizona, e um espaço performático em Melbourne. O mix ao vivo efetivamente misturou os dois dançarinos, criando camadas de coreografias e corpos, em uma simetria de transparência ao longo de um vasto espaço e um abismo temporal (BIRRINGER in MEDEIROS, 2002, p. 176-7).

Na vertente em que se misturam discursos, códigos e recursos, o grupo norte-americano The Gertrude Stein Repertory Theatre, fundado em 1990, tem como principal meta promover e

apoiar a inovação nas artes performáticas a partir do trabalho com teatro ao vivo. Sobretudo após 1993, quando emergiram as facilidades de acesso à Internet e às tecnologias de videoconferência, abriram-se as portas para uma “quebra de isolamento cultural”, de modo a unir tradições performáticas ao redor do mundo. Perceberam que o impacto das tecnologias não afetava apenas o processo de ensaios, mas a fundação geral da linguagem teatral. O objetivo do grupo fundou-se em usar tais recursos para moldar um novo corpo de literatura teatral, desenvolvendo novas técnicas performáticas, de modo a ampliar o alcance de público do gênero. Este ambiente permitiu o surgimento do que chamam de “digital puppetry”, ou seja, personagens que combinam elementos animados, digitais e ao vivo. O primeiro experimento neste sentido ocorreu em 1998, com The UBU Project. Defendem que muitos escritos do século XIX e XX foram tão prodigiosos que não tinham disponíveis os recursos necessários para representar toda a complexidade que tinham. Por isso, é importante que sejam novamente explorados com base nas novas tecnologias disponíveis. Para eles, somente é possível globalizar a arte no contexto do século XXI se os processos de criação forem revisitados e potencializados – justamente um dos pontos centrais na série Play on Earth, em cujos espetáculos a fase de desenvolvimento foi essencial para a compreensão dos resultados estéticos de suas apresentações.

The UBU Project, produzido entre 1998 e 1999, foi um espetáculo seminal na trajetória do grupo ao congregar videoconferência, projeções e VRML por entre locais situados em Nova York, São Petersburgo e Tóquio, combinando projeções simultâneas entre as três localidades. Os personagens das videoconferências incluíam “puppets digitais” derivados das tradições japonesas do Ningyo Buri e Bunraku. Em uma das adaptações de tais estéticas para o espetáculo, a imagem de um performer de Butoh em Tóquio foi projetada no espaço teatral de Nova York e, diretamente, sobre o corpo de um performer da Ópera da China, cujos movimentos eram identicamente coreografados em relação ao seu parceiro, criando um duplo formado por composição de imagem-carne.

Outro coletivo contemporâneo de grande expressão em torno das questões existenciais advindas das novas relações ente indivíduos e tecnologias é o The Builders Association, de Nova York. Fundado em 1994 por Marianne Weems, a companhia tem como objeto de pesquisa a vida pós-moderna. Segundo o grupo, o objetivo da combinação de novas e velhas tecnologias é “expandir as fronteiras do teatro” (THE BUILDERS ASSOCIATION, 2010). Em suas obras,

mesclam performances no palco, texto, vídeo, som e arquitetura para descrever a experiência humana no século XXI.

Embora use recursos semelhantes aos de George Coates, o objetivo da companhia é o de reanimar o teatro para um público contemporâneo, usando novas ferramentas para interpretar velhas formas. Em Jump Cut (Faust), de 1997, três telas gigantes, juntas, esticam a largura do palco, que esta acima dos performers. O efeito acentua a separação entre atores e projeções, sendo muito semelhante ao obtido no primeiro espetáculo de Play on Earth, que se contrapõe à imersividade de What’s Wrong with the World. Ao intensificar tal cisão, promove-se um distanciamento que evita uma relação de maior fluidez entre carne e máquina, em uma abordagem semelhante ao também norte-americano The Wooster Group.

O espetáculo Continuous City, de 2007, versa sobre como as experiências humanas de locação e deslocamento fazem com que os indivíduos transportem sua dimensão existencial para a rede, de modo a ocupar múltiplos lugares simultaneamente. É uma história de um pai viajante e sua filha em casa amarrados e transformados pela velocidade, hipermodernidade e celulares que falham. Em cidade por onde passa a montagem, há uma abordagem por meio de um site participativo e filmagens. Estas possibilidades de interação reforçam outro ponto também caro à telemática: progressivamente, a constituição do global depende dos discursos estéticos locais para fazer-se valer.

O grupo The Gertrude Stein, por sua vez, na obra Dr. Faustus Lights the Lights partiu dos recursos disponíveis no software Person to Person, da IBM, para que quatro atores em um palco físico de Nova York interpretassem, três Faustos e um Mefisto, e assim interagissem com dois atores representando Anabelle e Marguerite no Ópera de Paris, os quais apareciam ao vivo em uma janela de videoconferência em uma tela de projeção atrás da cena em Nova York. Um cão e um garoto gerados por computador entravam em cena, enquanto que um personagem – talvez “a própria Stein” – aparecia em uma janela de chat também projetada.

Nem sempre a imagem pode protagonizar, contudo, a integração de diferentes locais por meio de uma conexão remota em tempo real. Broadhurst (2006, p.127-8) destaca o espetáculo Optik – In presence of people, de 2000, uma série de performances realizadas presencialmente por um grupo no Brasil. Simon Edgoose, percussionista do coletivo, ficou num estúdio em Londres junto a um público de 50 pessoas, aproximadamente. O restante estava em São Paulo apresentando-se ao vivo. O som “inglês” era transmitido por um link via Internet entre as duas

cidades, em mão dupla. Havia também um vídeo link, mas sem muita relação com a montagem. Foi o que o grupo chamou de “live electronic sound”.

Benzer Belgeler