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Apresentadas as básicas acepções acerca da psicografia, da mediunidade como instrumento do qual decorre a escrita psicográfica, bem como dos tipos de médiuns e a forma

como manifestam os pensamentos das chamadas “almas desencarnadas”, busca-se agora uma

análise acerca do viés científico da psicografia.

Estudiosos do Espiritismo, bem como juristas em consonância com os entendimentos propostos pela doutrina espírita, justificam a inserção dos documentos psicografados na ciência do Direito provando a sua natureza científica. Tal demonstração se dá, em primeiro lugar, apresentando um histórico do fenômeno mediúnico e como foram estudados pelas mais diversas áreas da ciência; em seguida, pela utilização da perícia grafotécnica como meio de comprovação desta cientificidade.

3.3.1. Breve histórico

A psicografia, como já mencionado, decorre do fenômeno da mediunidade, sendo a forma como os médiuns transmitem os pensamentos que recebem dos Espíritos. Observe-se,

43 contudo, que a mediunidade não é uma criação do Espiritismo na ocasião em que foi decodificado por Allan Kardec, em 1857. Edvaldo Kulcheski assim esclarece:

Certas pessoas consideram, sem razão, a mediunidade um fenômeno peculiar aos tempos atuais, outras acreditam ter sido inventada pelo Espiritismo. A fenomenologia mediúnica, entretanto, é de todos os tempos e de todos os países e religiões, pois desde as idades mais remotas existiram relações entre a humanidade terrena e o mundo dos Espíritos. 78

Por sua vez, Kardec elucida:

O dom da mediunidade é tão antigo quanto o mundo. Os profetas eram médiuns. Os mistérios de Elêusis se fundavam na mediunidade. Os Caldeus, os Assírios tinham médiuns. Sócrates era dirigido por um Espírito que lhe inspirava os admiráveis princípios da sua filosofia; ele lhe ouvia a voz. Todos os povos tiveram seus

médiuns e as inspirações de Joana d’Arc não eram mais do que vozes de Espíritos

benfazejos que a dirigiam. 79

Adiante, pesquisadores relatam que o fenômeno mediúnico já ocorria na Grécia Antiga, onde havia a figura dos pítons, que proferiam oráculos, evocando espíritos para comunicação com os vivos.

Na Idade Média, o mundo espírita reverencia Joana D’Arc que, após muito tempo

ouvindo vozes ordenando sua ida à França para salvá-la da guerra que então ocorria, seguiria ao seu país e contribuiria com a expulsão dos estrangeiros de sua pátria.

Na Idade Moderna, tem-se a figura do então renomado pedagogo francês Hippolyte León Denizard Rivail que, ao se deparar com uma série fenômenos paranormais, decidiu estudá-los a fundo e, como consequência, conheceu o vasto mundo dos Espíritos,

passando a escrever inúmeros livros com as “revelações” que lhes eram transmitidas. Rivail,

então, adotou o codinome de Allan Kardec e codificou o que hoje se conhece como a Doutrina Espírita, com suas bases científicas, filosóficas e religiosas.

Importante ressaltar, ainda acerca dos estudos realizados por Allan Kardec, que somente após aprofundadas experiências é que foi possível a “descoberta” dos Espíritos e,

78 KULCHESKI, Edvaldo. Curso mediunidade sem preconceitos. Disponível em: <

http://bvespirita.com/Curso%20Mediunidade%20Sem%20Preconceitos%20(Edvaldo%20Kulcheski).pdf>. Acesso em: 15 de out. de 2014.

44 consequentemente, o alcance às suas lições de filosofia, cristandade, dentre outros ensinamentos religiosos.

Ainda na Idade Moderna, o professor Miguel Reale Júnior 80 cita a figura de Cesare Lombroso. Inigualável cientista, o pai da Antropologia Criminal inicialmente negava- se aceitar os fenômenos mediúnicos. Entretanto, após debruçar-se sobre tais fenômenos e sem abandonar sua formação científica, comprovou que a mediunidade é ciência e não fruto de crenças, tendo escrito uma de suas mais importantes obras, Hipnotismo e Mediunidade.

Adiante, mencionam-se ainda a figura de estudiosos que desenvolveram trabalhos relacionados à comprovação da veracidade dos fenômenos mediúnicos, tais como Camile Flamarion, Paul Gabier, Charles Richet e, ainda, William Crookes.

No Brasil, destacam-se Divaldo Pereira Franco, psicógrafo baiano que já publicou mais de 250 livros em diversos idiomas e, principalmente, Chico Xavier, médium que publicou mais de 451 livros, além de ter psicografado 15 mil cartas consoladoras.

Ressalte-se que as obras de ambos os médiuns acima chamam atenção não apenas pela quantidade de publicações, mas, sobretudo no caso de Chico Xavier, pela diversidade literária, tendo escrito poesias, romances, textos filosóficos, ainda que sem ter concluído sua vida escolar.

Conclui-se, a partir desse breve relato do histórico do fenômeno mediúnico e, paralelamente, da psicografia, que a mediunidade não é propriamente um termo criado pela Doutrina Espírita. Ademais, vê-se que, além de presente em toda história da humanidade, foi estudada por diversos cientistas, sendo comprovado não ser apenas um elemento de cunho eminente religioso, mas também que pode ser estudada pela ciência.

Saliente-se que somente a partir da experiência científica dos fatos mediúnicos foi possível se deparar com seu cunho filosófico e religioso, pois somente com a crença de que não se tratava de mera alucinação permitiu-se uma melhor compreensão das mensagens recebidas.

3.3.2. A perícia grafotécnica e a psicografia

Demonstrado um breve relato a respeito da ocorrência da mediunidade durante a história da humanidade, adentra-se no assunto relacionado à perícia grafotécnica, considerado

80 REALE JÚNIOR, Miguel. Razão e religião. Disponível em: <http://arquivoetc.blogspot.com.br/2009/01/razo-e- religio-miguel-reale-jnior.html>. Acesso em: 25 out. 2014.

45 o principal meio para a análise da autenticidade da psicografia e a comprovação de sua licitude.

Considerada uma ciência forense, a grafoscopia se presta a identificar a autoria de determinado documento, reconhecendo o responsável pelo escrito, o que se faz por comparação de letras. 81 É o exame que busca certificar, admitindo como certo, por comparação, que a letra, inserida em determinado escrito, pertence à pessoa investigada. 82

Quanto ao tema em apreço, merece destaque o trabalho do prestigiado professor Carlos Augusto Perandréa, perito judiciário em documentoscopia há cinco décadas e que realizou aprofundado trabalho de averiguação da autenticidade de diversas mensagens psicografadas, desvinculado de qualquer religião, com atenção especial para as escritas pelo

médium Francisco Cândido Xavier. Como resultado desse trabalho, publicou o livro “A Psicografia à Luz da Grafoscopia”, obra de grande valia para a comprovação do aspecto

científico da psicografia.

O professor assim define a grafoscopia:

É um conjunto de conhecimentos norteadores dos exames gráficos, que verifica as causas feradoras e modificadoras da escrita, através da metodologia apropriada, para a determinação de autenticidade gráfica e da autoria gráfica. 83

Perandréa realizou exame grafoscópico em cerca de 400 (quatrocentas) mensagens psicografas por Chico Xavier, comprovando sua autenticidade quando comparada com as letras das pessoas enquanto vivas. Dessas mensagens, cerca de 99,5% foram confirmas por outros peritos, corroborando sua confiabilidade e veracidade.

Destarte, alguns pontos devem ser observados a respeito dos exames grafotécnicos. Qualquer elemento escrito apresenta uma diversidade de informações que devem ser atentamente investigadas. Deve ser considerada também a mutabilidade da escrita, tendo em vista que depende de diversos fatores e varia de pessoa para pessoa.

Outrossim, é fundamental notar as diversas causas modificativas da escrita. Causas internas, como o uso de álcool ou drogas, e mesmo causas externas – o calor, o tipo de papel – devem ser levados em consideração na ocasião do exame da escrita. Assim, o perito,

81 TÁVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Op. cit., p. 422. 82

NUCCI, Guilherme de Souza.Op. cit., p. 524.

83 PERANDRÉA, Carlos Augusto. A Psicografia à Luz da Grafoscopia. São Paulo: Editora Jornalística Fé, 1991, p.

46 ao realizar a análise grafoscópica, deverá levar em conta todos esses fenômenos que podem deformar a grafia. 84

Um dos casos mais importantes em que Perandréa trabalhou como perito de cartas deste gênero foi o realizado com as mensagens psicografadas por Chico Xavier, no ano de 1978, e que foram atribuídas à Ilda Mascaro Saulo, italiana, falecida em Roma, no ano anterior.

Na ocasião, o especialista analisou a caligrafia de um bilhete que o médium escrevera em italiano, língua que não conhecia. Após dedicada apreciação, em que confrontou o referido bilhete com outro documento escrito pela mesma autora quando vida, constatou que a mensagem teria sido escrita pelo espírito de Ilda. Assim atestou o laudo:

A mensagem psicografa por Francisco Cândido Xavier, em 22 de julho de 1978,

atribuída a Ilda Mascaro Saulo, contém em “número” e “qualidade”, consideráveis e

irrefutáveis características de gênese gráfica suficientes para a revelação e identificação de Ilda Mascaro Saulo como autora da mensagem. 85

Ressalte-se, porém, que não é toda espécie de psicografia que pode ser submetida à perícia grafotécnica. Como já descrito em tópicos anteriores, a manifestação mediúnica pela escrita pode se dar de diversas maneiras. Cumpre à grafoscopia a análise das escritas realizadas por médiuns mecânicos ou semimecânicos, em virtude de sua natureza, sendo o médium, ainda que conscientemente, guiado por um Espírito que lhe influencia.

Logo, conclui-se que a possibilidade de realização dos referidos exames grafotécnicos em documentos psicografados, objetivando-se atestar a sua autenticidade, bem como identificar sua autoria, e, além disso, cumprir com sua finalidade de forma eficiente, reveste a psicografia de cientificidade, abrindo-lhe caminho para sua utilização na ciência do Direito.

84

PERANDRÉA, Carlos Augusto. Op. cit., p. 27.

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Benzer Belgeler