5.10. KAÇAKÇILIK OLAYLARI DAĞILIŞI VE ÖZELLİKLERİ
5.10.4. Kaçak Sigara Olayları
O primeiro problema com o qual me deparei em minha pesquisa de tese dizia respeito a como tratar teoricamente o Estado. Embora meus pressupostos teóricos já me aproximassem da noção de campo, buscava me manter fiel aos dados, e procurei olhá-los de forma cuidadosa para corroborar ou refutar empiricamente minha premissa teórica. Este problema passou a ser analisado com mais detalhes após a minha entrada em campo. Os burocratas do Estado que eu fui observar eram muitos, representavam esferas diferentes do governo, disputavam entre si, mas também cooperavam. Uns tinham mais poder e legitimidade do que outros e pareciam seguir uma lógica própria.
Disputas eram frequentes entre vários burocratas. Em geral, representantes da UPP Social e do Territórios da Paz compareciam às mesmas reuniões. Em uma noite de terça feira, saíamos de uma reunião comunitária na favela da zona Sul em que representantes de ambos os programas estavam presentes. Os dois membros da UPP Social, como era de costume, saíram
66 andando mais rápido na frente. Embora todos soubéssemos que estávamos descendo o morro pelo mesmo lugar, e que íamos pegar o mesmo ônibus de volta para casa, eu e o representante do Territórios da Paz fomos andando mais devagar, como quem mantém um distanciamento intencional. Aquela dinâmica que sempre me incomodava, mas que permanecia velada, naquele dia foi posta em palavras pelo membro do Territórios da Paz: “Olha lá! Eles sempre fazem isso, sempre saem correndo na frente!” (Notas de Campo, 29/10/2013), falou em voz baixa ao meu ouvido. Agora um pouco mais afastados dos sujeitos da nossa conversa, ele continuou a reclamar, com um tom de voz um pouco mais alto, que os gestores da UPP Social se afastam porque não gostam de compartilhar informações, acham que suas ideias serão roubadas. Completou que os gestores do programa não são nada colaborativos, que são muito competitivos com o Territórios da Paz.
A disputa entre os dois programas era acirrada. Embora nada fosse dito diretamente, e houvesse uma relação de respeito mútuo entre os gestores dos programas, as reclamações nos bastidores eram constantes. E aconteciam até mesmo disputas entre as demandas dos moradores. Em uma reunião comunitária que tinha por objetivo a construção de projetos da comunidade, os moradores pediram à UPP Social auxílio para digitar os seus projetos. A reação ao ocorrido eu pude ouvir no dia seguinte: “Eles ficam lambendo o cu da UPP Social!” (Notas de Campo, 15/10/2013), reclamou de forma exaltada um representante do Territórios da Paz. E completou que a UPP Social acabou de chegar, e ainda não sabia de nada sobre a comunidade.
A competição entre Territórios da Paz e UPP Social, programas que compartilham tanto em comum e que teriam muitas oportunidades para atuar em parceria, embora bastante emblemática, não era a única. Participei de uma reunião a respeito de um projeto com idosos realizado a partir de uma parceria entre Territórios da Paz, prefeitura e CRAS, em que foi planejado o próximo evento que fariam com os idosos de algumas favelas da zona norte: uma série de palestras sobre idosos que voltavam a trabalhar. Este evento, particularmente, seria coordenado pelo representante do CRAS presente na reunião. Na semana seguinte, ao questionar sobre os preparativos para o evento, a gestora do Territórios da Paz me explicou, meio sem jeito: a presidente do CRAS pediu que seu funcionário se retirasse do projeto, porque acreditava que os demais programas estavam explorando “os idosos do CRAS”.
As relações se complexificavam ainda mais no que dizia respeito à figura da UPP, que ocupava, para os demais representantes do Estado, seu lugar de “inimigo do povo”. E quem é inimigo do povo é também inimigo do restante do Estado, como deixou claro um
67 representante da Clínica da Família: “Com a UPP a gente nem fala, (...), quer distância da UPP, porque se você é amigo da UPP, você é inimigo da comunidade. Porque, cara, não bate, não rola, os caras estão aí. Mas não é..., a gente não fala nem bom dia para eles”.( Representante da Clínica da Família 1, Favela da zona Sul). A UPP Social, por sua vez, lutava para esconder qualquer possível grau de parentesco com a UPP que seu nome denuncia. Seus representantes foram, aos poucos, criando estratégias: apresentam-se aos moradores como IPP ou ONU Habitat, órgão por meio do qual foram contratados. Em conversa informal com um dos gestores da UPP Social, este me relatou, em tom jocoso, que surgiu uma ideia no IPP de que eles andassem uniformizados: “pra andar com o nome da UPP Social é mais fácil eles colocarem logo um alvo na nossa camisa para as pessoas atirarem, né” (Notas de Campo, 21/09/2013).
Os policiais também não davam tratamento especial a quem era representante do Estado, e chegavam a revista-los, ainda que uniformizados, revelando a ausência de relações de confiança entre eles. Durante entrevista, um funcionário da UPP Social me relatou a seguinte situação:
Entrevistado: Uma vez eu estava ajudando o pessoal da Rio Luz a carregar as lâmpadas e a polícia revistou todo mundo, inclusive o pessoal da Rio Luz. (risos)
Vanessa: Revistou o pessoal da Rio Luz?
Entrevistado: revistou o pessoal da Rio Luz. Perguntou o que que a gente estava fazendo. (risos) "Que que estão fazendo aí?" Nem respondi, né.
Vanessa: Mas aí foi, acabou sendo uma situação conflituosa, assim?
Entrevistado: Claro, pô, você está trabalhando, o cara manda você largar a coisa, encostar a mão na parede e tal. Eu nem encostei a mão na parede, eu fiquei virado, virado eu fiquei. Assim, não dei, só larguei a caixa, e o cara veio, eu levantei a mão assim. Mas os caras da Rio Luz, botaram a mão na parede lá. Largaram aquela escada, pesada, botaram a mão na parede (Representante da UPP Social 3, favela da zona Sul).
E para concluir, comentou: “(...) é até bom porque tira totalmente a nossa visão, entendeu, mas uma porrada de morador sendo revistado e a gente passando batido, entendeu. A gente ri da situação depois, entendeu” (Representante da UPP Social 3, favela da zona Sul).
As disputas traziam implicações diretas para a minha pesquisa de campo, e eu era claramente afetada por aquele ambiente conflituoso. A simples escolha de onde sentar em uma reunião em que vários burocratas do Estado estavam presentes era uma grande fonte de tensão. Abraços calorosos recebidos em público, falas de gestores ou policiais em reuniões que demonstravam algum grau de intimidade comigo, ou um simples “boa noite” direcionado de um policial, me causavam constrangimento. Acompanhada dos gestores do Territórios da
68 Paz cruzei com policiais conhecidos e fingi não os ver. Um dos gestores fez um comentário em voz alta: “pra quê tanta arma?! Parece que estamos em guerra!” (Notas de Campo, 21/11/2013). Hesitei em concordar e dei um sorriso sem graça. O cumprimento aos policiais ou a concordância com o gestor seriam sinais de posicionamento – afinal, eu estava do lado de quem?
Tão frequentes quanto as disputas era a ausência de cooperação, mesmo em situações em que a ajuda mútua era simples e bem vinda. Em incontáveis situações os funcionários do PAC, que precisavam com frequência do suporte da Light ou da CEDAE em suas obras, foram “deixados na mão”. A UPP Social que tinha como seu objetivo primeiro o encaminhamento de demandas para outras secretarias chegou ao ponto de ter que se reformular, em face de tamanha negligência dos órgãos acionados. E mesmo os representantes do Estado que não são tão dependentes da cooperação dos demais tem a percepção de falta de parceria, e reconhecem que isso atrapalha o trabalho: “é negativo também no sentido de que as políticas não se conversam. As políticas não andam no mesmo ritmo” (Representante do CRAS 4, Favela da zona Norte).
Os moradores, em seu convívio quase diário com os burocratas do Estado, sempre tentando extrair deles melhorias para a sua comunidade, têm a compreensão de que o individualismo dos representantes do Estado atrapalha a comunidade, e defendem que se houvesse mais cooperação, não seria necessário tanto “Estado” dentro da favela. Este reconhecimento foi expresso por uma frase muito repetida entre os moradores: “Eu acho que é cada um por si e Deus por todos” (Morador 12, Favela da zona Norte). Conforme relata uma moradora:
O Município e o Estado não se falam, continuam, no CRAS, a secretária de saúde não se comunica com a assistência social e ocupa o mesmo espaço. Não se falam, são duas secretárias, não.... Nada.... O Território da Paz detona a UPP Social, porque é Estado e Município, entendeu? E o pessoal vai juntando pra poder, vão fazer, juntar forças e fazer, eles também não facilitam a nossa vida, porque eles mesmos não se falam. Polícia civil e polícia militar não se.... Não sei se já conversam, mas antes era disputa total. [...](Morador 10, Favela da zona Sul).
Mas também foram observadas relações de cooperação. As orientações iniciais aos programas estão em geral direcionadas para o estabelecimento de parcerias, para que práticas conjuntas aconteçam em campo. Ao ingressar nos territórios de favelas, os novos representantes do Estado, em geral, apresentam-se aos demais e acreditam ser importante que os outros representantes do Estado saibam que eles existem e o que eles estão fazendo ali.
69 A importância da cooperação entre os diversos representantes do Estado é reconhecida como fundamental para o sucesso de suas ações: “Porque não dá pra gente ‘fazer acontecer’ sozinhos” (Representante do PAC 4, favela da zona Sul). E as orientações dos superiores acabam se dando neste sentido: “teve uma determinada reunião em que a orientação ‘olha só, precisa se aproximar do PAC e precisa se aproximar da UPP’”.
Entretanto, no dia a dia em campo, estas parcerias não são tão óbvias, e os representantes reconhecem, que não obstante o esforço, as cooperações são exceção e não a regra: “Mas é muito, muito pontual, sabe” (Representante da UPP Social 3, favela da zona Sul).
As relações de cooperação com a UPP parecem ser as mais complicadas, ponto que será discutido posteriormente nesta tese. Com o temor de terem suas imagens afetadas na favela, os demais representantes do Estado evitam o contato, mas participam das reuniões organizadas pela UPP para que se mantenham informados. E muitas vezes os policiais das UPPs nem mesmo sabem quem são os demais burocratas do Estado presentes na favela.
É claro que neste caso também existem algumas exceções. O PAC, por exemplo, não demonstra temor de se ver associado à UPP, e tem uma boa relação com os policiais: “a gente está direto com a UPP, a gente pede muita ajuda a eles, a UPP também nos solicita, trabalhamos juntos que nem irmãos, todo mundo filho do mesmo pai?!”( Representante do PAC 3, Favela da zona Sul).
Outra exceção aparece na relação entre o Territórios da Paz da favela da zona Norte e a UPP local. Ao longo do tempo os gestores e policiais foram construindo uma relação de confiança e passaram a incluir em suas rotinas de trabalho ações conjuntas. A gestora do Territórios da Paz local explicou como se deu este processo:
A gente [na favela da zona Norte] trabalha com a UPP, mas também foi uma coisa que levou bastante tempo. Eu comecei a trabalhar [na favela da zona Norte] no começo de 2012, mas eu levei um bom tempo até fazer alguma parceria com eles, assim. Antes eu ia aos conselhos comunitários, eu conversa com o [comandante], e tal, mas eu não fiz nada.(...). Então já teve reunião que a gente fez, que eu falei para eles, eu não quero que vocês vão, entendeu, não quero. Teve uma coisa que por quê? Eu achei que não ia ser produtivo e aí depois já teve, a partir do momento que eu já tinha uma segurança maior no trabalho dele, achava que não, que eles tinham objetivos que eu considerava interessantes e que eu vi que eles tinham relacionamento com outras pessoas, também, que era positivo com as lideranças, não tinha aquela coisa centralizadora de tentar meio que apagar as lideranças, aí, sim, aí a gente foi começando a trabalhar com eles, (...). Mas esse, mas fora, mas antes da gente ter essa segurança a gente não fazia nada, nossas coisas, nossos projetos,
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nossos projetos. Nossas reuniões, nossas reuniões, entendeu. É mais ou menos assim (Representante do Territórios da Paz 3, Favela da zona Norte).
Possíveis explicações para as exceções mencionadas serão discutidas posteriormente neste capítulo. Mas as minhas observações iniciais já pareciam me apontar para o fato de que o que eu observava era um campo de poder, era um Estado que, como retrata Bourdieu (2014), não se podia tocar com o dedo.