4.5. BİLECİK MERKEZ İLÇE KIRSALI SUÇ DURUMUNUN ELE ALINMA
4.5.2. Bilecik İlçelerinin Sosyo-Ekonomik Yapılarının İncelenmesi ve Merkez
4.5.2.2. Bilecik İlinde Sanayi, Tarım ve Gelişmişlik Durumu
Como lembra Cardoso de Oliveira (1996), na observação participante é necessário que o pesquisador consiga viabilizar a sua aceitação no campo, de modo a facilitar sua interação. Ainda que se saiba que o pesquisador nunca se tornará exatamente igual aos nativos (WHYTE, 2005), é preciso ser aceito e estabelecer boas relações.
Embora o processo de negociação para entrada no campo seja em geral descrito na literatura como um processo demorado (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1996), o meu processo de negociação com os agentes que pretendia acompanhar, em geral, se deu de forma rápida, facilidade que atribuo ao fato de se tratarem de agentes públicos, em um momento em que se evoca maior transparência do Estado. Muitas vezes recebi como resposta à minha solicitação de pesquisa: “Sou um representante do Estado, tenho que dar liberdade para quem quiser acompanhar o meu trabalho”. E nem sempre foi preciso recorrer a um superior com um pedido formal de autorização (pedidos formais de autorização foram necessários apenas nos casos do CRAS e da UPP Social).
Cabe ressaltar, entretanto, que embora no âmbito formal esse processo tenha sido facilitado, na prática foi preciso um tempo para que alguns dos agentes deixassem de “temer” a minha presença. Principalmente no período inicial, percebi claramente que alguns dos agentes evitavam falar certas coisas na minha frente ou, quando deixavam escapar, em um momento de distração, logo me alertavam “não coloca isso na sua tese não!”.
Aos poucos uma relação de confiança foi sendo construída, e as coisas passaram a ser ditas com um cuidado menor. Em uma das reuniões da UPP, em que eu estava gravando, o
62 sub-comandante fez uma piada e chamaram sua atenção: “Tenente, a Vanessa está gravando!”. Ele respondeu, rindo, “não tem problema, eu confio nela”. Uma gestora do Territórios da Paz declarou diretamente: “sou uma pessoa muito intuitiva, e minha intuição me diz para confiar em você”. A partir daí, até mesmo confissões de sua vida pessoal passaram a ser compartilhadas comigo.
Com o tempo, alguns acontecimentos começaram a me apontar que eu estava conquistando minha aceitação no campo. Alguns moradores começaram a me ligar para avisar sobre eventos que iriam acontecer. Ou quando me encontravam falavam de imediato “vai ter uma reunião na semana que vem que você não pode perder!”. Convites para atividades sociais, para além dos meus objetivos de pesquisa, como “tomar uma cerveja”, também passaram a ser frequentes.
Na favela da zona Norte, fui convidada a participar ativamente da construção do Eco- museu, e a dar aulas em um curso que seria ministrado para os moradores. Fui, ainda, convidada, com direito a acompanhante, para o baile de debutantes que os representantes da UPP estavam organizando para se aproximar dos jovens da favela, e ajudei, com frequência, nos preparativos para a festa. Na favela da zona Sul, também recebi um convite para auxiliar em um curso a ser ministrado para os policiais e um pedido de representar uma gestora do Estado em um evento na favela em que ela não poderia estar presente.
Aos poucos minhas diferenças deixaram de ser tão acentuadas. Em uma ocasião, uma moradora me relatou que uma turista havia sido confrontada pelos “meninos” do tráfico, e atribuiu parcialmente a culpa do acontecimento à forma como ela estava vestida, claramente como alguém de “fora”. E em seguida completou, apontando para a minha roupa: “essas pessoas não se vestem assim como a gente, de calça jeans e All Star”. Nesse momento percebi que estávamos vestidas de forma muito similar e que ela não estava mais me comparando a uma pessoa de “fora”. Mas o acontecimento talvez mais emblemático ocorreu quando uma gestora me chamou a atenção, durante uma conversa: “Não use esse vocabulário na frente dos policiais! Você está usando expressões cunhadas pelo tráfico!”.
As dificuldades passaram a girar em torno de gerenciar as relações criadas, que muitas vezes envolviam desavenças entre os diversos grupos com os quais criei laços. Depois de me inserir em grupos diferenciados, passei a compartilhar das dificuldades relatadas por Whyte (2005) de conciliar interesses e conflitos no campo. Fui aprendendo a circular, seguindo uma regra fundamental da observação participante: evitando influenciar ativamente os eventos (WHYTE, 2005).
63 Senti que com o tempo consegui criar boas relações no campo, e meu trabalho foi facilitado por isso. Os meus próprios sentimentos, de afeição e de carinho, de saudade quando não os via, e a alegria de estar ali, mostraram-me que eu também aceitei o meu campo como parte importante da minha vida, mesmo com as diferenças que ainda se mantinham.
Tendo em vista os fortes vínculos que estabeleci com moradores e com agentes do Estado nas favelas, o processo de saída de campo mostrou-se muito mais difícil do que o esperado. Em um ano de pesquisa, já possuía uma grande quantidade de dados, e em minhas conversas com pesquisadores mais experientes sempre ouvia conselhos no sentido de sair do campo. Pensar em deixar de frequentar as favelas me trazia tamanha angústia, que acabei estendendo a minha pesquisa por mais quatro meses além dos 12 meses inicialmente planejados. Pressionada por prazos e pela grande quantidade de dados, após 1 ano e 4 meses de pesquisa de campo, finalmente, aceitei a minha saída e retornei, de vez, do morro ao asfalto.
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4 SOBRE CAMPOS DE PODER: REINTERPRETANDO ESTADO E FAVELAS
Era uma noite de quarta-feira, quando adentrei o teatro localizado na favela da zona Sul. Naquele dia, a minha ida à campo foi motivada por um evento específico: uma audiência pública convocada com o propósito de discutir problemas da comunidade. Representantes dos mais diversos órgãos públicos mostraram-se presentes e compuseram a mesa que daria início à discussão. A maioria dos rostos ansiosos em cima do palco já me era familiar de minha rotina na favela e pertenciam a pessoas que trabalhavam ali. Contrariando o meu pressuposto inicial de que em favelas não há Estado, àquela altura já não era mais possível negar que o Estado estava presente nas favelas, de forma concreta e objetiva, representado pelas figuras daquelas pessoas que se acomodavam no palco. Com o início do debate, o clima começou a “esquentar”, e os moradores que tiveram a oportunidade de falar ao microfone gritavam as mais diversas queixas e em voz alta tentavam se fazer ouvir. Suas reclamações não eram simples caprichos. Tratava-se de questões básicas, de condições básicas de vida, que iam desde falta de luz, à água contaminada por fezes. Diante do espetáculo, não pude deixar de me questionar: se o Estado está presente na favela, por que demandas tão básicas ainda não foram atendidas?
Um olhar retrospectivo para os meses de pesquisa de campo que já haviam ficado para trás me fez notar que foi aquela a ocasião em que mais me aproximei do encontro de uma entidade, grupo ou organização a qual poderia denominar de Estado: o grupo de pessoas em cima do palco. Pela primeira vez em campo, pude respirar aliviada, direcionar o meu olhar para um único lugar e dizer, com certa tranquilidade, que estava observando o Estado na favela. Quase todos estavam ali.
Entretanto, este foi um momento atípico. Desde que entrei na favela, com o objetivo de acompanhar as ações do Estado, vivi uma angústia constante. O Estado estava em muitos lugares ao mesmo tempo. E o meu olhar, único, não dava conta de observá-lo como um todo. A agonia de ter que escolher para onde olhar acompanhou a minha trajetória em campo e resultou em uma agenda complexa, em minutos contados, em difíceis decisões entre um evento e outro, e em uma pesquisa de campo muito maior do que eu pude antecipar. Mas acima de tudo, em uma frustração: a impossibilidade de encontrar uma unidade que pudesse chamar de Estado, para a qual eu pudesse apontar e dizer com segurança “está ali o que eu vim procurar”.
Em meu esforço de acompanhar cada um deles, em separado ou em parcerias, vi que para além de uma discordância em termos de horários e locais de atuação, as pessoas que se
65 apresentavam na favela como representantes do Estado discordavam em muitos outros aspectos. Críticas diretas ou indiretas, disputas por recursos em geral, omissão de informações, conflitos abertos ou velados, contrapunham-se a ações conjuntas, compartilhamentos de recursos, de ideias ou de angústias, e até relações de amizades. As relações que eu observava em campo me apontavam para o fato de que a entidade que eu vim observar tratava-se, na verdade, de uma rede de relações entre posições: corroborando meus pressupostos iniciais, o Estado parecia ser melhor descrito enquanto um campo de poder.
Antes de voltar-me a responder diretamente às minhas perguntas de pesquisa, tenho como objetivo, neste capítulo, demonstrar como cheguei ao conceito de campo para retratar teoricamente tanto Estado quanto favelas. As noções de campo burocrático do Estado e de campo da favela darão suporte aos capítulos que se seguem e é com base nelas que me proponho a responder às minhas questões de pesquisa. Para tal, este capítulo parte dos dados coletados tanto por meio de entrevistas quanto por meio de observação, no que dizem respeito a moradores e representantes do campo burocrático do Estado, e pautou-se na teoria fundamentada como forma de análise de dados.
Começarei apresentando o Estado enquanto um campo de poder. Depois, mostrarei como o campo burocrático do Estado também sofre influência e é interdependente do campo político. Em seguida, discuto também as favelas enquanto campos.
4.1 Desconstruindo o Estado enquanto “Entidade”: Disputas e Cooperações entre