Não é demais relembrar que a experiência da recepção vivida na diversidade das situações concretas ao longo da história precedeu a reflexão teológica acerca de tal fenômeno. Mesmo sem uma sistematização teológica clara, atos de recepção, e consequentemente, de não-recepção, são percebidos por todo o espectro temporal da história cristã. Determinações eclesiásticas, linhas de espiritualidade, liturgia, correntes teológicas, leis canônicas, dificilmente encontraremos um aspecto do cristianismo que não esteja sujeito a esta experiência de recepção. Se enquanto acontecimento, a recepção é uma constante na vida da Igreja, como reflexão sistemática, é um campo de pesquisa recente, impulsionada principalmente pelo Concílio Vaticano II. Apresentaremos em linhas gerais o percurso proposto pelo pesquisador espanhol Javier Otaduy129. Ele apresenta de forma clara o desenvolvimento histórico da reflexão sobre a recepção enquanto categoria teológica.
2.3.1 Década de 1970 - Período da elaboração abstrata do conceito
A história moderna da recepção começa em 1970 com um estudo do Conselho Mundial das Igrejas sobre a recepção do Concílio de Calcedônia por parte das diversas Igrejas
126
Cf. SCHATZ apud PINHO, José Eduardo B. Op. Cit. p.41.
127
Cf. PINHO, José Eduardo B. Op. Cit.
128
Ibid.
129
cristãs130. Neste trabalho não houve uma preocupação em elaborar um conceito abstrato acerca da recepção e sim em estudar concretamente a recepção de um concílio em específico, o de Calcedônia. Otaduy ressalta que esta pesquisa contribuiu ao reunir importante material histórico sobre a recepção. Outros autores que se preocuparam com o aspecto recepcional da doutrina neste período foram Rudolph Sohm e Hans Dombois. O primeiro, com uma posição juridicista muito radical, para Sohm somente a doutrina que repercute entre os fiéis tem validade. Já Dombois apresenta o esboço de uma doutrina recepcional eclesiológica, aplicável não somente aos concílios131.
Apesar destes esforços iniciais, a primeira investigação teológica mais relevante sobre o tema da recepção foi do jesuíta alemão Grillmeier, já citado por nos. Sem dúvida, o autor que mais influenciou Congar, considerado por muitos o pai da recepção132. O padre Grillmeier desenvolveu seus estudos a partir da pesquisa do historiador do direito alemão Franz Wieacker, que buscou explicar como o direito privado alemão recebeu o direito romano. Com este esquema metodológico em mente, afirmou Grillmeier, “se os juristas tem uma larga tradição e um método depurado para verificar e valorar os fenômenos receptivos, tomemos seus exemplos para a ciência teológica”133. É precisamente deste diálogo com a tradição júridica que Grillmeier analisou a realidade dos concílios da Igreja antiga.
Tendo como base de pesquisa este delineamento teológico, Congar134 aprofunda, sistematiza e expande a noção de recepção apresentada por Grillmeier e reintroduz este conceito na teologia católica no início dos anos de 1970.
Em 1972, Congar parte, desenvolve seu pensamento e com seu trabalho canoniza a recepção enquanto categoria teológica135. Diferentemente do jesuíta alemão que aplica o aspecto recepcional somente aos concílios, Congar entende que os processos de recepção podem ser verificados em diferentes situações da Igreja, no canon da Escritura, nas cartas sinodais, na liturgia, nos fenômenos jurídicos, por exemplo136. O que dá a esse conceito um estatuto eclesiológico. Para o dominicano francês, recepção é “o processo pelo qual um corpo eclesiástico faz verdadeiramente sua uma determinação que ele não deu a si próprio,
130
Ibid., p.06
131
Cf. OTADUY, Javier. Op. cit.
132
Borges de Pinho afirma que mesmo o trabalho de Grillmeier ser anterior, a profundidade e extensão da pesquisa de Congar deu-lhe este título.
133
GRILLMEIR apud OTADUY, Javier. Op. cit.,p.09.
134
CONGAR, Yves. A recepção como realiade eclesiológica. In: Revista Concilium, 1972, p. 886-907.
135
Cf. CONGAR, Yves. Op. cit.
136
reconhecendo na medida promulgada, uma regra que lhe convém a vida”137. Ele acentua ainda que este fenômeno não se trata da mera obediência dos escolásticos, “um ato mediante o qual um subordinado regula a sua vontade e a conduta pelo preceito legítimo de um superior, por respeito a autoridade deste último”138. Assim, Congar dá ênfase a recepção como realidade eclesiológica, como princípio interno da teologia. Sesboué, vê a doutrina receptiva de Congar como “um instrumento para dotar de legitimidade a resposta dos fiéis”139, ou seja, a participação dos fieis no discernimento da fé. Pottmeyer ressalta que, “introduzindo o tem da recepção na atualidade teológica, a intenção de Grillmeier e de Congar era de fazer avançar o movimento pós-conciliar de reforma”140, o que coloca a sistematização da teologia da recepção em relação direta com o Concílio Vaticano II.
2.3.2 Década de 1980 - Período do estímulo ecumênico
Os anos de 1980 oitenta foram o período da universalização da doutrina recepcional. Esta difusão do uso da categoria teológica da recepção recebeu importante estímulo a partir do acordo ecumênico Anglicano-Católico em 1981 e do acordo de Lima sobre o Batismo, Eucaristia e Ministério em 1982141, promovido pela Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial das Igrejas. Estes acordos trouxeram a discussão acerca da recepção, pois a pergunta de fundo que emergia a partir de tais convênios entre as cúpulas de diversas Igrejas era de como cada confissão específica acolheria tais determinações eclesiásticas. Num contexto de Igrejas tão plural e heterogêneo, Raush levantava a questão “das condições espirituais e sociais que eram necessárias para o êxito da recepção desses acordos entres os fiéis das distintas confissões,”142 o que colocava o aspecto recepcional da doutrina em evidência.
Além desse impulso ecumênico, um outro fato que impulsionou os estudos acerca da recepção, foi o aniversário de vigésimo ano do Vaticano II. Routhier143 destaca que a análise desse período era principalmente acerca do êxito que o programa conciliar obteve sobre a práxis eclesial, numa abordagem da perspectiva histórica da recepção do Concílio.
137
CONGAR, Yves. Op. cit.,p. 887.
138
CONGAR, Yves. Op. cit.,p. 887.
139
SESBOUÉ apud OTADUY, Javier. Op. cit. p.12.
140
POTTMEYER apud PINHO, José Eduardo B. Op. cit., p.10.
141
Cf, OTADUY, Javier. Op. cit.
142
RAUSH apud OTADUY, Javier. Op. cit., p.13.
143
2.3.3 Década de 1990 - Período da reflexão sistemática
A década de 1990 foi, sem dúvida, a fase de estruturação de uma reflexão sistemática da recepção enquanto categoria teológica. É Javier Otaduy144 quem chama este período de fase da reflexão sistemática, isto em função da quantidade de trabalhos consistentes que apresentam uma sólida fundamentação eclesiológica. Para confirmar sua posição, ele cita três autores cuja síntese doutrinal deram uma maior contribuição ao pensamento teológico sobre este tema: Angel Antón, já citado por nós; Gilles Routhier145, importante teólogo canadense que se empenhou em analisar a recepção do Vaticano II e que esboçou uma teologia recepcional, e Borges de Pinho, téologo da Univerisdade Católica Portuguesa, cuja obra, segundo Otaduy, “é a mais completa e significativa das publicadas”146. Antón ressalta que “com o despontar da década de noventa esta reflexão entrou numa fase nova em que se privilegiam os aspectos epistemológicos e teológico-sistemáticos da recepção na busca de uma noção propriamente teológica da mesma, que pode aplicar-se a processos concretos de recepção”147. A pesquisa de Antón apresenta uma enorme lista de trabalhos científicos produzidos neste período, que indicam o amadurecimento do conceito numa “síntese teológica da realidade da recepção na vida da Igreja e na reflexão eclesiológica”148.
Nesta mesma época acontece a primeira grande reunião cientifica sobre esta temática, o III Colóquio Internacional de Salamanca, em 1996, que se dedicou exclusivamente ao tema da recepção enquanto categoria teológica, reunindo na universidade espanhola os principais pesquisadores da teologia da recepção149. Nesta década, temos de fato uma efetiva recuperação do valor teológico da recepção, insere-se aqui uma nova reflexão eclesiológica que coloca toda a vida da Igreja dentro de uma estrutura receptiva. Tillard chega a afirmar que “a recepção se constui um dos redescobrimentos teológicos mais importantes de nosso século”150.
É interessante registrar também que em nossa investigação encontramos único trabalho sobre a teologia da recepção em publicações brasileiras, o artigo de Agenor
144
Cf. OTADUY, Javier. Op.cit.
145
Cf. ROUTHIER apud OTADUY, Javier. Op. cit.
146
OTADUY, Javier. Op. cit., p17
147
ANTÓN, Angel. La recepcion en la Iglesia y Eclesiologia (I). Revista Gregorianum. Vol 77, 1 1996, p.83
148
Ibid., p.80.
149
H. L EGRAND -J. M ANZANARES -A. G ARCÍA Y G ARCÍA (eds.), La recepción y la comunión entre las Iglesias . Actas del Coloquio Internacional de Salamanca, 8-14 abril 1996, Salamanca 1997.
150
TILLARD apud ANTÓN, Angel. La recepcion en la Iglesia y Eclesiologia (I). Revista Gregorianum. Vol 77, 1996, p.76
Brighenti, de 2002151, o que tínhamos, até em então, eram pesquisas sobre processos concretos de recepção, com ênfase na história da recepção do Concílio Vaticano II numa realidade local. Tudo isto mostra a novidade desta reflexão teológica, indicando um vasto campo a ser explorado, o da análise da Igreja em seu aspecto recepcional. Por isso, interessa- nos agora analisar os fundamentos teológicos desta abordagem que nos ajudará a interpretar não só a repercussão do Vaticano II numa Igreja local, nosso objetivo, mas também qualquer fenômeno eclesial de recepção.