Persuasão
Assumir uma postura reflexiva, pensante;Incentivar as professoras no retorno dos trabalhos desenvolvidos; Estar sensível às suas dificuldades;
Investir no planejamento como um espaço privilegiado de trabalho;
Incentivar e oportunizar espaço para a socialização de trabalhos desenvolvidos; Trabalhar “a consciência” das professores;
Valorizar as professoras;
Incentivar a troca, a socialização e o trabalho em grupo.
Controle direto
Estar presente em momentos em que o grupo de professoras está reunido; Negociar com as professoras;
Realizar reuniões semanalmente com as professoras; Avaliar as provas e atividades elaboradas;
Avaliar os cadernos dos alunos;
Observação participativa
Realizar dinâmicas de grupos com alunos;
Trabalhar em parceria com a psicóloga, atendendo alunos; Visitar as salas de aulas;
Reunir-se com os alunos, para ouvi-los;
Relação amigável
Zelar por uma aproximação contante no dia- a -dia; Ser amiga das professoras;
Mediação na relação –família escola:
Ouvir os pais em suas queixas e/ ou elogios; Quando necessário, orientar pais e professores;
Incentivar uma boa relação com os alunos e as famílias; Participar do encontro das professoras com os pais.
Analisando um pouco mais esse conjunto de procedimentos estratégicos das pedagogas para o desenvolvimento do currículo oficial, vê-se que elas utilizam da proximidade com as professoras como um importante recurso de trabalho. Assim, elas conseguem acompanhar o trabalho desenvolvido, tendo “permissão” para tal, e tornando sua presença menos ameaçadora. Compartilham os mesmos espaços, observam o desempenho e interferem , quando julgam necessário. Supõe-se que as pedagogas , com
exceção de Júlia , investem numa relação amistosa, companheira, até mesmo por acreditarem que esse é o caminho mais favorável à realização do seu trabalho. As quatro sugerem possuir um estilo de gestão que pressupõe a participação, a negociação, a cooperação; manifestam, inclusive um movimento de “colocar-se no lugar” da professora, compreendendo-a melhor.
Tal proximidade e cordialidade nas relações não significa simplesmente que as relações são estabelecidas horizontalmente, que não há tensões entre esses profissionais. Ocorre que, mesmo colocando-se próximas, não é possível para as pedagogas falarem por. Elas falam de um outro lugar . Sendo assim, a cordialidade pode representar uma das mais fortes estratégias para alcançar-se o objetivo desejado: a adequação do trabalho desenvolvido ao currículo oficial, a qualidade do ensino, responsabilidade, em maior instância, das pedagogas.
Sobressai também, nos procedimentos e posturas adotados como estratégia de controle direto, a socialização das práticas, especificamente as práticas bem sucedidas. Percebe- se que as pedagogas vêem, nesse recurso, um meio motivador para as demais professoras, no momento em que uma delas, ou até mesmo várias da mesma equipe, socializa um trabalho que obteve um bom resultado, tornando-o público e manifestando a sua satisfação e o seu reconhecimento.
Além de motivadoras, seriam as pedagogas, no seu próprio entendimento, as mediadoras em uma formação de um juízo crítico e um pensamento reflexivo. Estando fora das salas de aula, mas participando desse espaço sempre que têm oportunidade, as pedagogas estariam também se dedicando a provocar reflexões e análise crítica da prática, investindo no que Shon chama reflexão na acao, buscando desenvolver uma
supervisão reflexiva, que visa estimular os professores a utilizarem o seu próprio ensino
como forma de investigação destinada às mudanças de suas práticas (Zeichner,1995:126). Talvez inconscientemente, esse termo não foi citado em nenhuma das entrevistas realizadas- as pedagogas estariam utilizando , por intuição ou aprendizagem pela experiência, o que hoje é amplamente defendido em termos de formação inicial do professor e formação continuada: a formação do profissional reflexivo.
Devido à natureza de nossa pesquisa, não investigamos qual o modelo de reflexão incentivado pelas pedagogas, quais os referenciais, quais os focos de análise: adaptação metodológica, valores e princípios, concepções de ensino ?Qual a abrangência da reflexão: a cultura escolar estabelecida na instituição, as formas e meios para organização do trabalho, questões referentes à profissionalidade dos professores? Concluímos, somente, que elas vêem, nos processos reflexivos, um importante recurso para a construção curricular pelas professoras.
Gomez( 1995:102) afirma que o professor intervém num meio ecológico complexo, num cenário psicossocial vivo e mutável, definido pela interação simultânea de múltiplos fatores e condições. Nesse ecossistema, o professor enfrenta problemas de natureza prioritariamente prática, que, quer se refiram a situações individuais de aprendizagem, quer a formas de comportamentos de grupos, requerem um tratamento singular, na medida em que se encontram fortemente determinados pelas características situacionais do contexto e pela própria história de vida como grupo social.
As pedagogas, sempre que têm oportunidade, participam, em sala de aula, das atividades e/ ou orientações que estão sendo realizadas pelas professoras. Esse é, segundo as pedagogas, um forte momento de intervenção e avaliação do trabalho que está sendo realizado. Oportuniza a elas conhecimento do trabalho das professoras, acompanhamento da produção dos alunos, bem como a qualidade das relações ali estabelecidas. A forma como esta participação fortuita acontece certamente impactua nos processos e decisões didáticas das professoras. A presença, orientações, observações e avaliações realizadas, mesmo que, conforme a maioria delas preferiu afirmar: “sou amiga das professoras” , “ estou sempre ao lado delas”, constituem ,ao nosso ver, um outro campo de forças bem demarcado, um “espaço” bem delimitado, com suas “operações” próprias. Constituem o que Bourdieu chama de poder simbólico (Bordieu ,2001 :14),
“como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário.”