B. Geçiş Ekonomisi Olarak Kırgızistan
1- Kırgızistan Ekonomisinin Gelişimi
Em contraste à tese da separação, encontra-se o agrupamento de posturas teóricas que são enquadradas – muitas vezes a contragosto do autor entabulado nesse grupo– na chamada tese da conexão (Verbindungsthese) entre “Moral” e “Direito”. De acordo com aqueles que se valem dessa classificação, os defensores da tese da conexão afirmam que o “Direito” deve, de modo necessário (e não apenas acidental), incorporar no seu sistema, total ou parcialmente, proposições morais, cuja observância seria uma exigência racional ou, para alguns, representaria uma imposição lógico-dedutiva a ser alcançada a partir de premissas éticas superiores. Assim, de acordo com esta perspectiva, não obstante continue o universo da ordem prática a ser pensado restritivamente (na medida em que formado apenas por dois sistemas proposicionais autônomos e, individualmente, demarcados), reconhece-se que haveria certo conteúdo moral que seria, sim, determinante para a correta formação e compreensão do fenômeno jurídico. Desenvolvem-se dentro dessa corrente, porém, outras duas propostas teóricas que não devem ser confundidas, sendo que a diferença entre essas seria ditada de acordo com a intensidade com que o conteúdo das proposições jurídicas ficaria submetido a uma pré-determinação moral. Diante disso, o chamado “problema da demarcação” poderia também ser respondido ou por meio da chamada tese da conexão forte ou por meio da tese da conexão fraca63. Vejamos, aqui, a primeira alternativa.
Segundo a teoria da conexão forte (starke Verbindungsthese), haveria uma necessária submissão do “Direito” à “Moral”, na medida em que uma proposição somente poderia ser qualificada como, verdadeiramente, jurídica quando essa pudesse ser declarada compatível com a “Moral”64. Isso significa dizer que o conteúdo de uma proposição jurídica somente poderia ser considerado válido quando pudesse ser justificado e explicado, integralmente, em termos morais65, sendo que essa justificação – segundo alguns – exigiria uma demonstração, por meio de juízos dedutivos, que comprovasse que a proposição jurídica não seria outra coisa senão uma derivação de uma proposição moral mais ampla. Assim, de acordo com tal visão, o status
63 ALEXY, Robert. Begriff und Geltung des Rechts. Alemanha: Alber Studienausgabe, 2005.
64 “Eine Norm ist nur dann legal, wenn sie moralisch ist.” (HOERSTER, Norbert. Zur Verteidigung der
rechtspositivistischen Trennungsthese, Apud ALEXY, Robert. Op. cit., p. 83)
65 “…muss jeder Jurist, der eine Norm als Rechtsnorm identifiziert, diese zugleich als moralisch gerechtfertigt
jurídico de um comando ou de regra estaria em total dependência do conteúdo de proposições mais genéricas que pudessem ser classificadas como morais.
Cabe destacar, porém, que a tese da conexão não pressupõe que as proposições jurídicas devam ser vistas como idênticas às proposições morais, mas apenas que o conteúdo de uma norma jurídica deva ser compatível e coerente com as demais regras morais. Nessa esteira, a
“Moral” é vista como um sistema de proposições mais amplo e todo abarcante do sistema
prescritivo subordinado que conhecemos como o “Direito”66. Por outro lado, o “Direito” seria, axiologicamente, inferior à “Moral”, uma vez que os valores ou bens a serem perseguidos por meio do “Direito” somente poderiam ser conhecidos por meio de juízos morais. Haveria, supostamente, uma integração absoluta entre os dois sistemas, inexistindo qualquer proposição jurídica que mantivesse independência do sistema moral e que pudesse ser formulada sem que fosse necessária a sua plena recondução lógica a proposições morais superiores67. Assim, como
ocorre em relação à já mencionada tese da separação, o argumento central da suposta tese da conexão forte é, frequentemente, ilustrado, em termos gráficos, do seguinte modo:
Sabidamente, aqueles que se utilizam dessa visão demarcatória dos fenômenos moral e jurídico, vinculam a tese da conexão forte a posturas teóricas que seguem inspiração cognitivista,
66 “… all moral requirements are also legal requirements”. (COLEMAN and LEITER. Legal Positivism. p. 244,
Apud FINNIS, John. A Grand Tour of Legal Theory. In Philosophy of Law – Collected Essays: Volume IV. Reino Unido: Orxford University Press, 2011 p. 112).
67 Mesmo que textos anteriores pudessem impedir essa qualificação, DWORKIN pode ser enquadrado na corrente
da conexão forte, tendo em vista as teses práticas por ele desenvolvidas no seu livro mais recente, Justice for
Hedgehogs (Estados Unidos da América: Harvard University Press, 2011). Nesse sentido, veja o seguinte excerto
dessa obra: “I describe a conception of law that takes it to be not a rival system of rules that might conflict with
morality but as itself a branch of morality. (…) … law is a branch of morality, which is itself a branch of a more general personal morality, which is in turn a branch of a yet more general theory of what it is to live well.” (Op.
cit., p. 05)
MORAL
mais, especificamente, aquelas que ilustram uma espécie de realismo moral, conforme ficará mais claro a partir dos esclarecimentos conceituais que serão apresentados no capítulo seguinte. Por isso, não deve estranhar o fato de a chamada tese da conexão forte ser sempre atrelada às teorias jurídicas caracterizadas como jusnaturalistas68, em especial àquelas elaboradas por autores qualificados como neotomistas. Importante, porém, destacar que, enquanto a tese da separação é autoimputada, sem qualquer receio, por parte dos autores que a defendem (especificamente autores positivistas), o que é feito, na maior parte das vezes, como forma de facilitar, didaticamente, a exposição do seu argumento central, a tese da conexão forte, por outro lado, raramente, é invocada em defesa própria e tomada como uma correta ilustração do que é defendido por aqueles autores que esclarecem o direito e a moral por meio de uma perspectiva jusnaturalista. Não seria exagero, portanto, caracterizar a tese da separação como um argumento de defesa e a tese da conexão forte como um argumento de crítica de postura rival, sendo que ambas são utilizadas como recurso argumentativo por aqueles que se encontram em um dos polos do debate envolvendo a natureza do nosso universo prático.
Com efeito, pode-se dizer que o aqui denominado “problema da demarcação” não é outra coisa senão instrumento próprio dos defensores de determinadas correntes positivistas, motivo pelo qual esses constroem o ambiente de discussão de modo a melhor acomodar premissas e pressupostos que são compartilhados apenas por uma parte das posturas teóricas que estão em disputa. Em razão disso, frequentemente, inúmeros exageros, inúmeras representações falsas e, inclusive, graves distorções interpretativas são cometidos por aqueles que pretendem enquadrar determinadas posturas teóricas na chamada tese da conexão forte.
Por exemplo, é frequente a vinculação da tese da conexão forte a citações que expressam a ideia de que uma lei que desrespeita determinado comando moral não possa ser caracterizada como verdadeira lei (i.e., uma lei injusta não se adequaria ao sentido pleno de lei). Com base nessa caracterização – quase sempre mal compreendida – é costumeira a atribuição aos defensores dessa postura à visão de que uma lei positiva somente seria, verdadeiramente, válida e legítima (e, segundo esses mesmos autores, dignas de observância por parte dos seus destinatários) quando essa pudesse ser caracterizada também como, perfeitamente, justa69. E seria dentro desse cenário que surgiria a alegação de que, ao se adotar a tese da conexão forte,
68 “Naturrechtstheorien behaupten, dass Rechtsnormen nur solche Normen sein können, die gewissen moralischen
Anforderungen genügen.” (HOERSTER, Norbert. Recht und Moral. Alemanha: Reclams Universal Bibliothek,
2002, p. 11).
estar-se-ia, assumindo o risco de termos uma verdadeira anarquia jurídica, na medida em que leis poderiam ser sempre desrespeitadas ao simples argumento da sua deficiência moral70.
A partir desse tipo de enquadramento, também se identifica – por exemplo, em ALEXY – a leitura de que os defensores da chamada tese da conexão forte, além de pressuporem a possibilidade de uma espécie de dedução lógica do conteúdo das proposições jurídicas a partir de proposições morais, axiologicamente, superiores, também sustentariam que a adequação formal na positivação de uma lei, bem como a sua eficácia social seriam elementos secundários, sem maior importância, tendo em vista que uma proposição jurídica deveria ser analisada, exclusivamente, de acordo com a retidão moral do seu conteúdo71.
Conforme se pretende demonstrar, essa leitura e esse esforço classificatório são, extremamente, simplificadores da postura ética que pode ser caracterizada como jusnaturalista, na medida em que pressupõem que um único esquema representacional (o chamado “problema
da demarcação”) possa dar conta das mais variadas e distantes tradições éticas, as quais, quase
sempre, partem de premissas ontológicas, epistemológicas e, inclusive, históricas diferentes. Exatamente por isso, pretende-se sugerir, a partir do segundo capítulo deste estudo, que, ao invés do problema da demarcação, a questão envolvendo a reconstrução das esferas moral e jurídica é melhor esclarecida quando se parte de uma matriz metaética mais ampla, dentro da qual é possível melhor visualizar as premissas básicas formadoras das mais diferentes tradições éticas – e, por consequência, jurídicas –, fornecendo, assim, um espectro comum que permitirá contrastar e comparar semelhanças e diferenças que existem entre elas72.
70
Se de um lado, a tese da conexão forte é, comumente, criticada pelo suposto risco anárquico que essa tese, supostamente, estaria encampando, não se pode deixar de referir, por outro lado, que a tese da separação também é, frequentemente, criticada por produzir outro tipo de risco naqueles ambientes sociais em que, amplamente, adotada, qual seja, o risco de se instaurar uma atitude geral, absolutamente, acrítica diante das práticas jurídicas consideradas válidas, postura essa que, caso adotada por longo período, acaba suprimindo toda força prescritiva que a moral poderia exercer enquanto critério de direcionamento e de especificação do agir humano correto.
71 “Wer der ordnungsgemässen Gesetztheit und der sozialen Wirksamkeit keinerlei Bedeutung beimisst und
ausschliesslich auf die inhaltliche Richtigkeit abstellt, erhält einen rein natur- oder vernunftrechtlichen Rechtsbegriff.” (ALEXY, Robert. Begriff und Geltung des Rechts. Alemanha: Alber Studienausgabe, 2005, p. 29)
Nesse mesmo sentido, KIRSTE, Stephan. Einfürung in die Rechtsphilosophie. Alemanha: WBG, 2010, p. 108.
72 É evidente que uma completa aproximação das mais diferentes tradições será, não apenas inviável, mas até
indesejável, na medida em que, caso isso fosse, de fato, pretendido, se estaria, por certo, simplificando e mal representando a complexidade do universo em que os discursos ético e jurídico são desenvolvidos.