• Sonuç bulunamadı

Kılavuz ve Maske Katmanlarıyla Çalışmak

3. GRAFİK ARAÇLARINI KULLANMAK

3.6. Katmanlar Üzerinde Grafik İşlemleri Gerçekleştirmek

3.6.3. Kılavuz ve Maske Katmanlarıyla Çalışmak

No que diz respeito ao tema do poder, Foucault, em seu curso Em defesa da

sociedade, lecionado no Collège de France, de 7 de janeiro a 17 de março de 1976, exatamente entre a publicação de Vigiar e punir em fevereiro de 1975 e A vontade de saber,

432 ARENDT, Hannah. O que é política, p. 133. 433 Ibidem.

434 Ibidem.

435 Idem. Sobre a Violência, p. 24.

436 "Nenhum Estado que esteja em guerra com outro deverá permitir-se o uso de hostilidades que impossibilitem a recíproca confiança na paz futura [...]". KANT, Immanuel. A paz perpétua. Rio de janeiro: Editora Vecchi, 1944, p. 24.

volume I de História da Sexualidade em outubro de 1976, tenta encerrar uma série de pesquisas genealógicas que fizera nos anos precedentes, análises nas quais havia proximidades sobre os dispositivos de poder, mas que não chegaram a "formar um conjunto coerente nem uma continuidade"438.

[E]ram pesquisas fragmentárias, nenhuma das quais chegou finalmente a seu termo, e que nem sequer tinham sequência; pesquisas dispersas e, ao mesmo tempo, muito repetitivas, que caíam no mesmo ramerrão, nos mesmos temas, nos mesmos conceitos"439.

O que estaria em jogo nessas pesquisas genealógicas fragmentadas é a questão sobre "o que é esse poder, cuja irrupção, cuja força, cuja contundência, cujo absurdo apareceram concretamente no decorrer destes últimos quarenta anos, ao mesmo tempo na linha de desmoronamento do nazismo e na linha de recuo sobre o stalinismo"440. Assim, sua intenção, no tocante ao poder, é definir quais são, "em seus mecanismos , em seus efeitos, em suas relações, esses diferentes dispositivos de poder que se exercem, em níveis diferentes da sociedade, em campos e com extensões variadas"441. Portanto, trata-se não de uma questão teórica, o que é o poder?, mas do como do poder, suas relações e efeitos. Desta maneira, em suas investigações críticas da temática do poder, Foucault, tenta fugir de um ponto comum entre o marxismo e a "concepção jurídica e, digamos, liberal do poder político"442, referida por ele de "economismo" [économisme].443 Para fugir da ordem da isomorfia formal ou de uma subordinação funcional entre economia e política e analisar o poder de outra forma,

438 FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade, p. 6. 439 Ibidem.

440 Ibidem, p. 19. 441 Ibidem. 442 Ibidem.

443 Nesse sentido, Foucault diz o seguinte: "no caso da teoria jurídica clássica do poder, o poder é considerado um direito do qual se seria possuidor como de um bem, e que se poderia, em consequência, transferir ou alienar, de uma forma total ou parcial, mediante um ato jurídico ou um ato fundador de direito - pouco importa por ora - que seria da ordem da cessão ou do contrato. O poder é aquele, concreto, que todo indivíduo detém e que viria a ceder, total ou parcialmente para constituir um poder, uma soberania política. A constituição do poder político se faz, portanto, nessa série, nesse conjunto teórico a que me refiro, com base no modelo de uma operação jurídica que seria da ordem da troca contratual. Analogia, por conseguinte, manifesta. e que corre ao longo de todas essas teorias, entre o poder e os bens. o poder e a riqueza.

No outro caso, claro, eu penso na concepção marxista geral do poder: nada disso, é evidente. Mas vocês têm nessa concepção marxista algo diferente, que se poderia chamar de "funcionalidade econômica" do poder. "Funcionalidade econômica", na medida em que o papel essencial de poder seria manter relações de produção e, ao mesmo tempo, conduzir uma dominação de classe que o desenvolvimento e as modalidades próprias da apropriação das forças produtivas tornaram possível. Neste caso, o poder político encontraria na economia sua razão de ser histórica. Em linhas gerais , se preferirem, num caso, tem-se um poder político que encontraria, no procedimento da troca, na economia da circulação dos bens, seu modelo formal; e, no outro caso, o poder político teria na economia sua razão de ser histórica, e o princípio de sua forma concreta e de seu funcionamento

Foucault, trata de afirmar que dispomos de pouca coisa. Essa "pouca coisa" significa que o poder tem existência apenas em ato , "não se dá, nem se troca, nem se retoma"444, e também significa que o ato se dá através de uma relação de força, primeiramente; o poder, em sua instância primária, não é manutenção e recondução das relações econômicas.

Com efeito, Foucault toma posição como princípio eventual de análise do poder, em seu exercício e sua mecânica, a partir do modelo da guerra 445, invertendo a famosa afirmação de Carl von Clausewitz e dizendo que "o poder é a guerra, é a guerra continuada por outros meios. E, neste momento, inverteríamos a proposição de Clausewitz e diríamos que a política é a guerra continuada por outros meios"446. De tal modo que, a análise colocada dessa maneira, significaria três coisas.

Em primeiro lugar, quer dizer que em nossa sociedade as relações de poder se dão por meio de relações de força estabelecidas na guerra e pela guerra, em conjunturas históricas precisáveis. E mesmo que o poder político pare a guerra, o objetivo não é suspender seus efeitos ou equacionar o desequilíbrio manifestado na batalhas para daí reinar a paz definitiva.

O poder político, nessa hipótese, teria como função reinserir perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie de guerra silenciosa, e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros. Seria pois, o primeiro sentido a dar a esta inversão de Clausewitz: a política é a guerra continuada por outros meios; isto é, a política é a sanção e a recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra.447

444 FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade, p. 21.

445 Hipótese que aventou de maneira incipiente em Vigiar e Punir no fim do primeiro capítulo da terceira parte do livro, em que trata das disciplinas, em que debatia sobre a composição das forças: "É possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política. Mas não se deve esquecer que a "política" foi concebida como a continuação senão exata e diretamente da guerra, pelo menos do modelo militar como meio fundamental para prevenir o distúrbio civil. A política, como técnica da paz e da ordem internas, procurou pôr em funcionamento o dispositivo do exército perfeito, da massa disciplinada, da tropa dócil e útil, do regimento no acampamento e nos campos, na manobra e no exercício. Nos grandes Estados do século XVIII, o exército garante a paz civil sem dúvida porque é uma força real, uma espada sempre ameaçadora, mas também porque é uma técnica e um saber que podem projetar seu esquema sobre o corpo social. Se há uma série guerra-política que passa pela estratégia, há uma série exército-política que passa pela tática. É a estratégia que permite compreender a guerra como uma maneira de conduzir a guerra entre os Estados; é a tática que permite compreender o exército como um princípio para manter a ausência de guerra na sociedade civil. A era clássica viu nascer a grande estratégia política e militar segundo a qual as nações defrontam suas forças econômicas e demográficas; mas viu nascer também a minuciosa tática militar e política pela qual se exerce nos Estados o controle dos corpos e das forças individuais. "O" militar— a instituição militar, o personagem do militar, a ciência militar, tão diferentes do que caracterizava antes o "homem de guerra" — se especifica, durante esse período, no ponto de junção entre a guerra e os ruídos da batalha por um lado, a ordem e o silêncio obediente da paz por outro". Idem. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. 38ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 141-142.

446 Idem. op. cit., p. 22. 447 Ibidem, p. 23.

Em segundo lugar, no interior de uma pseudopaz civil, e cessada em alguma medida a guerra, em torno do sistema político tudo deveria ser interpretado como a continuação da guerra (como seus episódios, deslocamentos, fragmentações): "as lutas políticas, os enfrentamentos a propósito do poder, com o poder, pelo poder, as modificações das relações de força"448. Segundo Foucault, nesse sentido, "sempre se escreveria a história dessa mesma guerra, mesmo quando se escrevesse a história da paz e de suas instituições."449

Por último, a inversão do aforismo de Clausewitz, significaria que no fim das contas é a força, e consequentemente a força provada pelos instrumentos armamentícios, que decide tudo; e o acabamento do político seria, enfim, a última batalha de todas, a suspender a continuação de qualquer modo da guerra.

a decisão final só pode vir da guerra, ou seja, de uma prova de força em que as armas, finalmente, deverão ser juízes. O fim do político seria a derradeira batalha, isto é, a derradeira batalha suspenderia afinal, e afinal somente, o exercício do poder como guerra continuada.450

O projeto geral do autor acena para tentativa de desvencilhar a análise do poder de um tríplice primitivismo do modelo jurídico da soberania em que há a corrente do sujeito que deve ser sujeitado, da unidade do poder que deve ser fundamentada e da legitimidade fundamental que deve ser respeitada451, e ressaltar, de modo empírico e histórico, as relações e os operadores de dominação.

Tratar-se-ia, portanto, de analisar a (e a partir da) própria efetividade dos fatos da relação de poder "e de ver como é essa própria relação que determina os elementos sobre o qual incide"452, em vez de partir do sujeito e daquilo que é preliminar e localizável na relação. Tratar-se-ia não de procurar a fonte do poder, mas de "mostrar como os diferentes operadores de dominação se apoiam uns nos outros, remetem uns aos outros, em certo número de casos

448 FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade, p. 23. 449 Ibidem.

450 Ibidem.

451 "Parece-me, de fato - resumindo tudo isso em algumas palavras, três palavras exatamente -, que a teoria da soberania tenta necessariamente constituir o que eu chamaria de um ciclo, o ciclo do sujeito ao sujeito, mostrar como um sujeito - entendido como indivíduo dotado, naturalmente ou por natureza), de direitos, de capacidades. etc. - pode e deve se tornar sujeito, mas entendido desta vez como elemento sujeitado numa relação de poder... Em segundo lugar, parece-me que a teoria da soberania se confere, no início, uma multiplicidade de poderes que não são poderes no sentido político do termo, mas são capacidades, possibilidades, potências, e que ela só pode constituí-los como poderes, no sentido político do termo, com a condição de ter, entrementes. estabelecido, entre as possibilidades e os poderes, um momento de unidade fundamental e fundadora, que é a unidade do poder... Enfim, em terceiro lugar, parece-me que a teoria da soberania mostra, tenta mostrar, como um poder pode constituir-se não exatamente segundo a lei, mas segundo uma certa legitimidade fundamental, mais fundamental do que todas as leis, que é um tipo de geral de todas as leis e pode permitir às diferentes leis funcionarem como leis". Ibidem, p. 49-59.

se fortalecem e convergem, noutros casos se negam ou tendem a anular-se"453. Tratar-se-ia, também, não de procurar a fonte da legitimidade fundamental do poder, mas de procurar os instrumentos técnicos que permitem garantir as relações de dominação.

Foucault admite que tal princípio de análise apresenta-se como limite ao confundir relações de força e relações de guerra:"tomarei isso simplesmente como um [caso] extremo, na medida em que a guerra pode passar por ponto de tensão máxima, pela nudez mesma das relações de força"454. Contudo, ainda na primeira lição, o autor, dá sinais de hesitação pelo princípio eventual da guerra como análise do poder, proposição que ele denominou de "hipótese Nietzsche", pois ela seria conciliável e até verossimilhante à "hipótese Reich", análise que comportaria o mecanismo do poder como repressão (sendo assim, também, libertada dos esquemas econômicos de análise do poder).

De um lado, teríamos o sistema da soberania, que se encontra entre os filósofos do século XVIII, constituída pelo direito original através do poder cedido no contrato, que quando extrapola a si mesmo torna-se opressão, assim esquema contrato-opressão. Do outro lado, analisando o poder através dos próprios operadores de dominação, tendo a guerra como referência, temos o simples efeito e prosseguimento da relação; logo, repressão, e não opressão vinda do abuso do poder, assim esquema guerra-repressão. "A repressão nada mais seria que o emprego, no interior dessa pseudopaz solapada por uma guerra contínua, de uma relação de força perpétua"455. Portanto, ao invés do esquema jurídico em que a oposição se faz entre o legítimo e o ilegítimo, teríamos a oposição luta e submissão.

Ocorre que, sobre a questão da repressão, Foucault, em suas pesquisas genealógicas até então elaboradas e, posteriormente, também, em A vontade de saber, desconfia desta noção: "tentei mostrar a vocês [...], a propósito da história do direito penal, do poder psiquiátrico, do controle da sexualidade infantil, etc., que os mecanismos empregados nessas formações de poder eram algo muito diferente da repressão; em todo caso era bem mais que ela"456. Assim, já questiona em um primeiro momento esse esquema de análise:

Ora, à medida que eu o aplicava, fui levado mesmo assim a reconsiderá-lo; ao mesmo tempo, claro, porque numa porção de pontos ele ainda está insuficientemente elaborado — eu diria mesmo que está totalmente inelaborado — e também porque creio que as duas noções, de "repressão" e de "guerra", devem ser consideravelmente modificadas, quando não, talvez, no limite, abandonadas. Em todo caso, é preciso olhar de perto essas duas

453 FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade, p. 51. 454 Ibidem, p. 53.

455 Ibidem, p. 24. 456 Ibidem.

noções, "repressão" e "guerra", ou, se preferirem, olhar um pouco mais de perto a hipótese de que os mecanismos de poder seriam essencialmente mecanismos de repressão, e a outra hipótese de que, sob o poder político, o que paira e o que funciona é essencialmente e acima de tudo uma relação belicosa.457

Todavia, em A vontade de saber, Foucault, ao sugerir que temos que ser nominalistas, pois "o poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada"458, continua com o questionamento inicial, logo antes de elencar certas proposições quanto ao seu método de análise dos dispositivos de poder (neste caso especialmente dedicado ao dispositivo de sexualidade) :

Seria, então, preciso inverter a fórmula e dizer que a política é a guerra prolongada por outros meios? Talvez, se ainda quisermos manter alguma distinção entre guerra e política, devemos afirmar, antes, que essa multiplicidade de correlações de força pode ser codificada — em parte, jamais totalmente — seja na forma de "guerra", seja na forma de "política" seriam duas estratégias diferentes (mas prontas a se transformarem uma na outra) para integrar essas correlações de força desequilibradas, heterogêneas, instáveis, tensas.459

Em seu método, tal como exposto no livro supra citado, falar, portanto, sobre o poder não corresponde a uma teoria (nem a uma metodologia, num sentido rigoroso), analisar o poder não significa falar sobre “o” Poder, mas sim analisar “a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem”460e constituem sua organização; (“pesquisar o que pode haver de mais escondido nas relações de poder; apreendê-las até nas infra- estruturas econômicas; segui-las em suas formas não somente estatais mas infra-estatais ou para-estatais; reencontrá-las em seu jogo material”461),

o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte, os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que isolam entre si; enfim as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais.462

457 FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade, p. 25. 458 Idem. História da Sexualidade I: A vontade de saber, p.103. 459 Ibidem, p. 103, 104.

460 Ibidem, p. 102.

461 Idem. Não ao sexo rei In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, pp. 229-242, p. 237. 462

Diante disso, o poder é onipresente porque é produzido a todo momento, em toda relação existente, em meio a relações desiguais e móveis, e não porque englobe tudo, sendo imanente a estas relações e não tendo papel de exterioridade a elas, possui um papel produtivo. E naquilo em que ele se mantém inerte, permanente e auto-reprodutor só demonstra o efeito de conjunto possível que se esboça nessas mobilidades.

As relações de poder não supõem oposição global entre dominadores e dominados, o que se inscreve nesse cálculo são correlações de força múltiplas que se exercem capilarmente em afrontamentos locais atuando nos aparelhos de produção, nas famílias, nas instituições, “servem de suporte a amplos efeitos de clivagem que atravessam o conjunto do corpo social”463.

Assim, de uma forma um pouco mais sistemática, Foucault, introduz algumas proposições: (i) o poder provém de uma multiplicidades de fontes, não é substância; (ii) o poder, ou melhor, os efeitos de poder, são produzidos pelas partilhas desiguais das relações, as relações de poder têm um caráter de produtor e perpetuador; (iii) nas relações de poder não há a dicotomia dominadores e dominados, se elas existem não é por princípio; (iv) a racionalidade do poder pressupõe táticas explícitas a nível local, no entanto quando se engendram em dispositivos de conjunto, apesar de manter sua lógica, não encontra individualmente sua concepção; por fim, (v) "que lá onde há poder há resistência e, no entanto (ou melhor, por isso mesmo) esta nunca se encontra em posição de exterioridade em relação ao poder"464.

Essa perspectiva decorre da maneira como Foucault interroga a questão do poder, perguntando-se sobre o "como" do poder. Para ele, este modo de tratar a questão não significa um fatalismo ao evitar tratar das causas e da natureza do poder. Sua intenção é antes de tudo pensar o conjunto de realidades complexas existentes nas relações do poder para daí ser possível e legítimo interrogar de maneira ontológica ou metafísica o poder, pensar seu quê, e seu porquê.

Em 1977, na entrevista O olho do poder465 Foucault novamente deu sinais de sua hesitação sobre seu princípio eventual de análise, mas agora flagrantemente mais convicto:

Uma coisa me impressiona: utiliza-se muito, em certos discursos políticos, o vocabulário das relações de força; a palavra "luta" é uma das que aparecem com mais freqüência. Ora, parece-me que se hesita às vezes em tirar as conseqüências disto, ou mesmo em colocar o problema que está

463 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber, p. 104. 464 Ibidem, p. 105.

subentendido neste vocabulário: isto é, é preciso analisar estas "lutas" como as peripécias de uma guerra, é preciso decifrá-las por um código que seria o da estratégia e o da tática? A relação de forças na ordem da política é urna relação de guerra? Pessoalmente, no momento não me sinto pronto para responder afirmativa ou negativamente de forma definitiva. Só acho que a pura e simples afirmação de uma "luta" não pode servir de explicação primeira e última para a análise das relações de poder. Este tema da luta só se torna operatório se for estabelecido concretamente, e em relação a cada caso, quem está em luta, a respeito de que, como se desen-rola a luta, em que lugar, com quais instrumentos e segundo que racionalidade. Em outras palavras, se o objetivo for levar a sério a afirmação de que a luta está no centro das relações de poder, é preciso perceber que a brava e velha "lógica" da contradição não é de forma alguma suficiente para elucidar os processos reais.466

No que corresponde a essa investigação crítica sobre a temática do poder, em um texto de 1982467 (O Sujeito e o Poder), Foucault ensaia através de quatro pontos fundamentais, de modo geral, sobre o exercício do poder: i) como se exerce o poder, ii) em que consiste a especificidade das relações de poder, iii) como se analisa a relação de poder, e iv) sobre relações de poder e relações estratégicas. Pontos que, em grande medida,