Tratando sobre a crise do sistema capitalista nos anos 70, Castel (1998) afirma que quaisquer que sejam as causas, o abalo que afeta a sociedade, à época, se manifesta, em primeiro lugar, através da problemática do emprego, ou melhor, do desemprego, que para ele, “é a manifestação mais visível de uma transformação profunda da conjuntura do emprego”. Todavia, além da questão do desemprego, o que é de suma importância é a precarização dos empregos já existentes. “A precarização do trabalho constitui-lhe uma outra característica, menos espetacular porém ainda mais importante, sem dúvida. O contrato por tempo indeterminado está em via de perder sua hegemonia” (CASTEL, 1998, p. 514).
Dessa forma, Castel (1998, p. 526) esclarece que “o problema atual não é apenas o da constituição de uma „periferia precária‟, mas também o da „desestabilização dos estáveis‟”. Essa afirmação é confirmada pelo elevado número de empregos criados na forma de empregos “atípicos”, e pela diminuição dos empregos considerados estáveis, ou seja, aqueles regulados e contratados por tempo indeterminado.
Corroborando Castel (1998), Tavares (2004, p. 19) afirma que “o caráter flexível da informalidade caminha lado a lado com o crescente desaparecimento das regulações que caracterizam o trabalho formal, o que consideramos um forte indício de tendência à generalização do trabalho informal”.
Para Antunes (2011), as recentes crises do capitalismo global fazem presenciar uma constante diminuição dos empregos formalizados e regulamentados, como os existentes em épocas de predomínio da matriz taylorista-fordista, e que esses empregos relativamente
mais formalizados vêm sendo substituídos pelos mais distintos tipos ocupações informais e precárias.
Trata‑se, portanto, de uma destrutividade que se expressa intensamente quando descarta, tornando ainda mais supérflua, parcela significativa da força mundial de trabalho, onde milhões encontram‑se realizando trabalhos parciais, precarizados, na informalidade ou desempregados (ANTUNES, 2011, p. 407).
Antunes (2011) ao tentar fazer uma fenomenologia preliminar dos modos de ser da informalidade relata sobre a ampliação acentuada dos contratos de trabalhos temporários, sem estabilidade, sem registro em carteira, dentro ou fora dos espaços produtivos das empresas, ou até na condição de desempregado.
Tavares (2004, p. 49), por sua vez, acrescenta que o trabalho informal não se trata de assalariamento ilegal, mas de formas de trabalho ditas autônomas, muitas vezes consentidas pelo Estado, beneficiando e sendo subordinado ao capital e fazendo parte dessa organização produtiva. “Neste sentido, toda relação entre capital e trabalho na qual a compra de força de trabalho é dissimulada por mecanismos que descaracterizam a relação formal de assalariamento, dando a impressão de uma relação de compra e venda de mercadoria, é trabalho informal”.
Antunes (2011) identifica três modalidades de trabalhadores informais: os trabalhadores informais tradicionais; os trabalhadores informais assalariados sem registro; os trabalhadores informais por conta própria.
Os primeiros são aqueles “inseridos nas atividades que requerem baixa capitalização, buscando obter uma renda para consumo individual e familiar. Nessa atividade vivem de sua força de trabalho podendo se utilizar do auxílio de trabalho familiar ou de ajudantes temporário” (ALVES; TAVARES, apud ANTUNES, 2011).
Nesse universo se encontram os “menos instáveis” e os “mais instáveis”. Aqueles possuem algum conhecimento profissional e os meios para que possam exercer seu trabalho, como, por exemplo, pedreiros, costureiras, vendedores ambulantes de bens de consumo imediato, e os empregados domésticos. Já os “mais instáveis” são aqueles que exercem trabalhos eventuais, contingencias, baseados na força física e quase sempre em atividade com pouca qualificação, são exemplos, os carroceiros, carregadores, trabalhadores de rua etc. (ALVES; TAVARES apud ANTUNES, 2011).
Antunes (2011) ainda aborda sobre os trabalhadores “ocasionais” ou “temporários”, que são aqueles que estão desempregados, mas que estão fazendo algum trabalho enquanto não voltam para uma ocupação regular, e, para os trabalhos chamados de
“bico”, que são aqueles que funcionam como complemento financeiro ao obtido no trabalho regular, e são geralmente executados em dias de folga ou em horários distintos dos trabalhos principais.
Uma segunda modalidade de trabalho informal apontada por Antunes (2011, p. 410) é a dos trabalhadores informais assalariados sem registro em carteira, que estão, segundo o autor, “ao arrepio da legislação trabalhista, uma vez que perderam o estatuto de contratualidade e que passam da condição de assalariados com carteira assinada para a de assalariados sem carteira, excluindo‑se do acesso das resoluções presentes nos acordos coletivos de sua categoria”. Pode-se incluir também neste grupo aqueles trabalhadores que por algum motivo não conseguiram se inserir no mercado de trabalho formal, e, como não têm alternativa, foram obrigados a exercer atividades na informalidade, por exemplo, aqueles que prestam serviço para as empresas, os que trabalham em domicílio, vendedores ambulantes de rua, entre outros.
A terceira modalidade é a de trabalhadores informais por conta própria, que podem ser definidos como uma variante de produtores simples de produtos e serviços que geralmente não são de maior interesse, e portanto, não são alvo de maiores investimentos por parte das grandes corporações. “Esses trabalhadores adotam essas estratégias porque seus pequenos negócios informais não têm condições de concorrer com as empresas capitalistas, são elas que definem sua forma de inserção no mercado” (ALVES; TAVARES, apud ANTUNES, 2011, p. 411).
Tavares (2004) aponta dois tipos de trabalhadores informais: a) aqueles que não conseguem ingressar no mercado formal e b) trabalhadores que são deslocados do mercado de trabalho formal pelos processos de terceirização, algo muito comum nos dias de hoje. Segundo essa autora, até os anos 80, certas atividades informais eram exercidas primordialmente por idosos, analfabetos, pessoas com baixo nível de escolaridade e qualificação, e migrantes. Hoje esse quadro tem se modificado e não apenas essas pessoas ocupam essas atividades, uma vez que a insuficiência de empregos no mercado formal obriga parcela de trabalhadores qualificados a entrarem na informalidade e se sujeitarem a empregos precários.
No Brasil, assistimos a ampliação da informalidade nos postos de trabalho, principalmente, a partir da década de 1990, quando, a reboque da reestruturação produtiva e da desregulamentação da economia promovida pelos governos neoliberais, houve um aumento significativo dos empregos informais. Nesta década foram abertos somente 11 milhões de postos de trabalho, contra 18,1 milhões na década de 80, sendo que dos 11
milhões, 53,6% não previam remuneração (POCHMANN, 2012). Por isso, Theodoro (2004) afirma que essa informalidade crescente abarca mais da metade dos trabalhadores ocupados no país. Essa precarização das relações de trabalho se alastra pelos diferentes segmentos produtivos e de serviços, continuando um processo que se origina desde o século XIX.
Contemporâneo dessas transformações mais amplas no mundo do trabalho, vivenciou-se um aumento significativo do trabalho feminino, que atingiu, na década passada, mais de 40% da força de trabalho nos países capitalistas avançados (ANTUNES, 2005). No entanto, essa inserção das mulheres no mercado de trabalho tem sido caracterizada por ocupações em trabalhos part-time, flexíveis, precarizados, desregulamentados, marcados por um alto nível de informalidade e jornadas de trabalho prolongadas.
Um reflexo disso é a constatação de que persevera uma desigualdade salarial e de oportunidades de ascensão na carreira ou de mobilidade social entre mulheres e homens, uma vez que estas recebem uma média de 25% a 30% menos do que os salários auferidos pelos homens, ocorrendo o mesmo no que se refere aos direitos e às condições de trabalho. Essa desigualdade pode ser entendida através de um processo de divisão sexual do trabalho, no qual homens e mulheres que trabalham são diferentemente qualificados e capacitados para o ingresso no mercado de trabalho. Ademais, em função de padrões culturais, as mulheres, normalmente encarregadas das atividades relacionadas à reprodução social, assumem o que se convencionou chamar de dupla jornada de trabalho, a da esfera produtiva e a da esfera doméstica, sendo esta última jamais valorizada ou remunerada (ANTUNES, 1999; 2005). Vejamos, então, os condicionantes estruturais da inserção das mulheres no mercado de trabalho, no que constitui o caloroso debate sobre as questões de gênero no trabalho. Isso é significativo na nossa discussão porque as mulheres constituem a maioria absoluta da categoria de trabalhadores objeto do nosso estudo, as trabalhadoras domésticas.