As desigualdades de gênero e raça/cor são percebidas em vários aspectos, mas para o contexto deste trabalho serão enfatizadas principalmente aquelas referentes a i) qualidade dos empregos das mulheres, que continuam sendo segmentados em setores de baixo status, precários, part-time, menos qualificados, além da forte presença no mercado de
trabalho informal (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007; POSTHUMA, 1998; HIRATA, 2001/2002; ABRAMO, 2007); ii) ao nível de rendimentos das mulheres, em sua grande maioria inferiores aos dos homens, mesmo quando ocupam os mesmos cargos (QUADROS, 2004; ROSA, 2009; MATOS; MACHADO, 2006; BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007; FIGUEIREDO SANTOS, 2009); iii) assim como, às questões relativas ao uso do tempo, mais especificamente ao uso do tempo em afazeres domésticos e cuidados da família (RAMOS, 2011).
Como já foi destacado anteriormente por Hirata (2001/2002) e Abramo (2007), existe uma desigualdade de gênero em relação à qualidade das ocupações no mercado de trabalho em nível global. As mulheres estão inseridas em empregos mais precários, com menores direitos assegurados, part-time, por tempo determinado, mais instáveis, com alta informalidade, assim, exercendo cargos de menor status, mais rotineiros, que exigem pouca qualificação, ou seja, facilmente substituíveis.
O reflexo disso pode ser visto na inserção das mulheres no mercado de trabalho aqui no Brasil. “Em 2002 nada menos que 34% da força de trabalho feminina (ou 9 milhões de mulheres) situavam-se em nichos precários, ou de menor qualidade, do mercado de trabalho (...)”. O desfavorecimento dessa colocação (precária) feminina fica ainda mais claro quando se compara com a percentagem de homens nas mesmas condições, que era de 9%, em 2002 (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007, p. 68).
Em contraste com o que acontece nos países da OCDE, aonde a precarização do trabalho feminino vem acontecendo no setor formal (POSTHUMA, 1998), dados do IBGE (2012) apontam que, no Brasil, o setor informal ainda é o grande campo de trabalho das mulheres, já que a participação feminina na categoria empregado com carteira de trabalho assinada era de apenas 34,7%, em 2011. O trabalho informal ainda é mais forte entre as jovens e idosas, já que, em 2009, entre as jovens de 16 a 24 anos, 69,2% das ocupadas estavam em trabalhos informais, enquanto entre as mulheres de 60 anos ou mais, a taxa era de 82,2% (IBGE, 2010a).
Outra diferença significativa surge quando se compara as mulheres que exercem atividades “não remuneradas” e aquelas “trabalhadoras na produção para o próprio consumo”, que, por suas características, não possuem os direitos e garantias dos trabalhadores assalariados. Enquanto a percentagem delas nessas atividades é, respectivamente, de 4,8% e 5,1%, a dos homens é de 2,4% e 3,2% (IBGE, 2012). O mesmo ocorre com a taxa de sindicalização, que em 2009 era de 19,1% entre os homens e, 16,9% entre as mulheres (GUIMARÃES, 2012).
Quando se passa a considerar, além do gênero, a raça/cor das trabalhadoras, os dados são ainda mais expressivos. Como afirmam Bruschini e Lombardi (2007), a população brasileira dessa etnia tem sido vítima de uma exclusão social histórica, que lhe ofereceu as piores condições de vida e trabalho. Assim, as mulheres negras sofrem o que Figueiredo Santos (2009) chama de „dupla desvantagem‟, já que a mulher não branca sofreria a soma da desvantagem plena associada aos dois tipos de status subordinados. E, é nesse contexto de desvantagem, exclusão social e de falta de oportunidades que está inserida a categoria estudada neste trabalho – as empregadas domésticas.
As diferenças começam já na composição da PEA feminina, na qual 50,9% são mulheres brancas, e 47,4% mulheres pretas e pardas. O número de mulheres ocupadas reforça a desigualdade, já que, mesmo sendo inferiores em quantidade de pessoas no total, as brancas (52,1%) estão mais ocupadas do que as negras e pardas (46,2%) (IBGE, 2010).
Tabela 4 - Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por cor ou raça, segundo o sexo – Brasil – 2010
Cor ou Raça
Pessoas de 10 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência Sexo Homens Mulheres Branca 24.136,196 19.040,402 Preta 4.279,369 2.772,518 Amarela 524.060 465.162 Parda 20.712,722 14.131,642 Indígena 170.860 120.646 Sem declaração 105 158 TOTAL 49.823,312 36.530,527
Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.
Além do nível inferior de ocupação, as negras e pardas parecem estar inseridas nas piores ocupações: “entre as de cor branca, cerca de 44,0% estavam na informalidade; percentual que era de 54,1% entre as pretas e de 60,0% entre as pardas” (IBGE, 2010a).
Outra constatação é a associação da pobreza com os domicílios chefiados por mulheres e por afrodescendentes:
Em 2002, enquanto a média da renda domiciliar per capita encontrada em domicílios chefiados por mulheres afrodescendentes era R$ 202,00 e naqueles chefiados por homens da mesma etnia era R$ 209,00, nos domicílios cujas chefes eram brancas atingia R$ 481,00 e naqueles com chefia masculina branca era R$ 482,00 (REDE FEMINISTA DE SAÚDE, apud BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007, p. 54).
Relatório do IPEA (2008, p. 8) afirma que a entrada no mercado de trabalho acontece mais cedo para os negros, e estes são os últimos a saírem, ou seja, estes trabalham
durante mais tempo ao longo da vida. “Entre a população negra com 60 anos ou mais, 34,7% encontravam-se ocupados ou desocupados em 2006, comparados a 29,3% da população branca na mesma faixa etária”. Essa característica pode ser explicada pela falta de alternativas e pela necessidade de obtenção de alguma renda por parte dos jovens negros, assim como pela falta de proteção social oferecida aos negros mais velhos, geralmente por estarem nas ocupações menos regulamentadas do mercado de trabalho.
Ao se analisar o desemprego, percebe-se tanto a desigualdades de gênero quanto a de raça/cor, pois são as mulheres e os negros (as) os que apresentam os maiores níveis de desemprego (IPEA, 2008; BRUSCHINI, LOMBARDI, 2007; MARQUES; SANCHES, 2010). Segundo relatório do IPEA (2008), em 2006, as mulheres apresentavam taxa de desocupação de 11,0%, contra 6,4% dos homens; a desocupação dos negros era 7,1%, e dos brancos 5,7%. De modo semelhante se apresentava a taxa de sindicalização, (19,1%) entre os homens, ante (16,9%) entre as mulheres; entre os trabalhadores brancos era de 19,6%, e para os negros 16,7%.
Apesar de relativa melhora, no período entre 1992 e 2006, os níveis de informalidade corroboram as desigualdades de gênero e raça/cor no mercado de trabalho brasileiro, sendo as mulheres e, principalmente, as negras as mais atingidas, uma vez que estas apresentam a menor proporção no conjunto dos trabalhadores com carteira de trabalho assinada: “enquanto 38,5% dos homens brancos ocupados possuíam carteira assinada em 2006, isso ocorria com apenas 22% das mulheres negras” (MARQUES; SANCHES, 2010).
No que se referem às desigualdades nos rendimentos do trabalho, alguns autores afirmam que há uma clara diferença entre os rendimentos de brancos e negros, assim como entre homens e mulheres, sendo os homens brancos os mais bem remunerados. Dessa forma existiria uma espécie de continuum decrescente de rendimentos: os homens brancos vêm em primeiro lugar, seguidos das mulheres brancas, dos homens negros e, finalmente, das mulheres negras. Portanto, percebe-se a situação desfavorável dos trabalhadores de raça negra no mercado de trabalho, e, principalmente, a posição duplamente desfavorável das mulheres negras. (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007, ROSA, 2009; MATOS; MACHADO, 2006; QUADROS, 2004).
Quadros (2004) mostra que em 2002 as mulheres negras e pardas obtinham apenas 31% dos rendimentos dos homens brancos (não negros); os homens negros, 47%; e as mulheres brancas, 62%, conforme a tabela 5.
Tabela 5 - Média de rendimentos totais por sexo e raça/cor, em 1992 e 2002 Segmentos
sociais 1992 Rendimentos reais (R$) 2002 Rendimentos relativos (%) 1992 2002 Homens brancos (não negros) 934,4 1.102,9 100,0 100,0 Mulheres brancas 492,6 686,4 52,7 62,2 Homens negros e pardos 430,5 521,1 46,1 47,2 Mulheres negras 252,7 342,5 27,0 31,1 Total 575,6 700,4 - - Fonte: Quadros (2004)
Em seu estudo, Quadros (2004) divide os grupos ocupacionais em cinco níveis de rendimentos (superior, médio, baixo, inferior, ínfimo). Segundo este autor, muito dessa grande diferença salarial, apresentada na tabela anterior, explica-se pela maneira de como estão distribuídos os diferentes segmentos sociais pelos vários níveis de rendimento. No ano de 2002, 47% dos homens brancos encontravam-se nos níveis mais baixos de rendimento (inferior e ínfimo); essa proporção subia para 65% entre as mulheres brancas; 71% entre os homens negros; e atingia a marca de 85% entre as mulheres negras, ou seja, de cada 100 mulheres negras, 85 estava situada nos mais baixos níveis de remuneração. Dessa forma, Quadros (2004) defende que a desigualdade, entre gênero e raça/cor no mercado de trabalho, origina-se, sobretudo, no acesso diferenciado aos níveis de rendimento mais elevados.
Waldemir Rosa (2009) apresenta dados dos rendimentos médios, na ocupação principal, de homens e mulheres, brancos (as) e negros (as), compreendendo o período entre 1996 e 2007, conforme tabela 6. Segundo o autor, a renda média de homens brancos em 2007 foi de R$ 1.278,00. As mulheres brancas apresentaram média de R$ 797,00, o que significava que elas ganhavam 1,60 vezes menos que os homens brancos. Essa diferença, no entanto, representou uma redução da desigualdade na ordem de 0,16 no período de 11 anos, uma vez que em 1996 elas ganhavam 1,76 vezes menos que eles. Seguindo o mesmo raciocínio, em 2007 os homens negros tinham média de aproximadamente R$ 649,00, ou seja, 1,97 vezes menor que a renda dos homens brancos, e uma redução da desigualdade na ordem de 0,25. Por fim, as mulheres negras apresentaram média de R$ 436,00, aproximadamente 2,92 vezes menor que a dos homens brancos, e uma redução das desigualdades na ordem de 0,78 no período de 11 anos.
Tabela 6 - Média da renda na ocupação principal por sexo, segundo cor/raça, nos anos de 1996 e 2007 Cor/Raça Masculino 1996 2007 Branca Negra 1.326,1 599,0 1.278,3 649,0 Feminino Branca Negra 753,3 357,9 797,1 436,5 Fonte: Adaptado de Rosa (2009).
Portanto, se percebe que as desigualdades entre os grupos se alteram muito lentamente, uma vez que no período de 11 anos, as mulheres negras não conseguiram sequer atingir o nível de renda média da ocupação principal dos homens negros referente ao ano de 1996, que já era o terceiro grupo com pior renda média. “Nesses termos, temos uma realidade em que os valores ligados à branquidade e à masculinidade conferem supremacia aos homens brancos, cabendo aos demais grupos posições subalternizadas” (ROSA, 2009, p. 893).
Um fator de extrema importância para a melhora nos rendimentos dos trabalhadores no Brasil é a formalidade do vínculo empregatício. Além do fato de o trabalhador com carteira assinada ter todos os direitos trabalhistas e benefícios da seguridade social assegurados, como férias, décimo terceiro salário, seguro-desemprego etc., o empregado com carteira tem muito mais chances de obter melhores remunerações no trabalho, assim como capacidade de negociação, algo que os informais não possuem (ROSA, 2009).
Tabela 7 - Média da renda na ocupação principal por sexo, formalidade de vínculo empregatício e cor/raça, nos anos de 1996 e 2007
Cor/Raça Masculino
1996 2007 Branca
Empregado com carteira Empregado ser carteira Negra
Empregado com carteira Empregado sem carteira
1.371,4 686,2 764,3 386,6 1.238,5 745,9 786,1 440,0 Feminino Branca
Empregada com carteira Empregada sem carteira Negra
Empregada com carteira Empregada sem carteira
987,5 585,6 581,4 344,4 933,7 615,0 632,9 420,7 Fonte: Adaptado de Rosa (2009)
Observando-se a tabela anterior, percebe-se uma diferença de aproximadamente 56% nos rendimentos dos homens negros com carteira e sem carteira assinada, no ano de 2007. Essa diferença é ainda maior (66%) entre as mulheres da mesma raça/cor, que têm e que não têm carteira de trabalho assinada, em 2007. Percebe-se, entretanto, que essa não é uma questão ligada apenas à raça/cor dos trabalhadores, já que entre os homens brancos a diferença também é bastante significativa (60%), assim como entre as mulheres brancas (65%), no ano de 2007.
Quando se considera o rendimento de homens e mulheres de acordo com o número de horas trabalhadas, mais uma vez se constata a desigualdade, já que mesmo trabalhando igual número de horas, as mulheres continuam ganhando menos que os homens. Da mesma forma acontece quando se compara o rendimento com o número de anos de estudo, uma vez que as mulheres precisam de maior escolaridade para se inserirem no mercado de trabalho, auferindo os mesmos, ou até, menores salários (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007; QUADROS, 2004).
Dados mais recentes apontam que pouca coisa tem mudado em relação à situação acima relatada. A última Pnad mostra que, em 2011, o rendimento médio mensal real de trabalho dos homens foi de R$ 1.417,00 e das mulheres R$ 997,00, isto é 70,4% do rendimento de trabalho dos homens. Além disso, enquanto a taxa de homens que recebiam até um salário mínimo, em 2011, era de 19,3%, a de mulheres era de 27,6%; mais de um a dois salários mínimos, as taxas eram, respectivamente, 24,8% e 20,3%, o que mostra a tendência de salários mais baixos em empregos ocupados por mulheres.
Tabela 8 - Rendimento mensal de homens e mulheres no Brasil, em 2011.
Rendimento mensal Homens (em %) Mulheres (em %)
Até 1 salário mínimo 19,3 27,6
Mais de 1 a 2 salários mínimos 24,8 20,3
Mais de 2 a 3 salários mínimos 12,2 6,1
Mais de 3 a 5 salários mínimos 8,0 4,0
Fonte: IBGE/Pnad (2012)
Por fim, aborda-se sobre as desigualdades referentes ao tempo de trabalho dedicado aos afazeres domésticos e cuidados da família, ou seja, aquele trabalho não remunerado exercido pelas mulheres em seu âmbito intradomiciliar. Este tipo de trabalho realizado por mulheres é majoritariamente explicado pela forma como se dividiu as relações de gênero a partir da divisão sexual do trabalho, a qual reserva ao homem o trabalho remunerado no mercado e, à mulher, as atividades domésticas da esfera privada (RAMOS, 2011; HIRATA; KERGOAT, 2007).
É importante ressaltar que em geral o conceito de trabalho é baseado em uma definição de atividade econômica que não abarca esse conjunto de atividades realizadas por mulheres no dia-dia. Sendo assim, muitas trabalhadoras são enquadradas na condição de economicamente inativas. “Em virtude dessa „invisibilidade do trabalho feminino‟, um significativo aporte laboral e produtivo das mulheres é subestimado e não se reflete na taxa de participação” (GUIMARÃES, 2012, p. 58).
No Brasil, isso parece ser bem claro, uma vez que o perfil das trabalhadoras aponta para duas direções: de um lado elas se tornam mais velhas, casadas e mães; de outro, permanecem como responsáveis pelas atividades domésticas e pelos cuidados dos filhos e de outros membros da família, o que indica a continuidade de modelos familiares tradicionais (BRUSCHINI; LOMBARDI, 2007) e da, também tradicional, divisão sexual do trabalho (HIRATA; KERGOAT, 2007).
Estudo de Figueiredo (1980, apud BRUSCHINI, 2006), realizado nos anos 80 em uma comunidade pesqueira na Bahia, mostrou que, somando suas atividades remuneradas e não remuneradas, as mulheres chefes de famílias trabalhavam em média 95 horas por semana. Já Bruschini (2006) cita dados de uma pesquisa realizada por ela em 1990, que mostrava que, mesmo nas camadas médias da sociedade paulistana, as tarefas domésticas eram caracterizadas pela simultaneidade, multiplicidade e fragmentação e por consumir grande parte do trabalho feminino.
Lima et al (2010) atentam para a questão das diferenças entre as mulheres de classes sociais distintas. Enquanto as mulheres da classe burguesa ou média transferem as responsabilidades de seus domicílios para as empregadas domésticas, ficando livres para se inserirem no mercado de trabalho produtivo – ou para usarem seu tempo como desejarem – as empregadas domésticas, por sua vez, enfrentam a chamada dupla jornada, sendo exploradas duas vezes, pois além de venderem sua força de trabalho para seus patrões, ainda tem que dar conta de suas atividades como donas-de-casa (LIMA et al 2010; RAMOS, 2011).
As desigualdades de gênero e raça/cor referentes ao tempo gasto nos afazeres domésticos foram tratadas por Bruschini e Lombardi (2007). Estas autoras mostraram que o tempo semanal médio gasto com afazeres domésticos no Brasil era de 30 horas, variando segundo sexo – 36 horas para as mulheres, ante 14 horas para os homens –, idade, cor, instrução. Há maior dedicação aos afazeres domésticos com o aumento da idade; mulheres pretas e pardas gastam neles mais tempo do que brancas; mulheres com melhor escolaridade (doze anos ou mais) trabalham em média 28 horas semanais, ante 37 horas das menos escolarizadas (de quatro a sete anos de estudo).
Portanto, o que se verifica é um quadro de clara desigualdade entre homens e mulheres, brancos (as) e negros (as), que vão desde diferenças nas ocupações que esses diferentes grupos exercem no mercado de trabalho; passando por diferenças nos rendimentos médios obtidos; até nos tempos médios gastos em atividades domésticas – sendo que estas são apenas algumas das faces da desigualdade escolhidas para análise nesse estudo.
Pode-se dizer que essas desigualdades segmentam o mercado de trabalho brasileiro em diferentes extremos, nos quais os homens brancos são os privilegiados, cabendo aos demais grupos posições subalternizadas. “Nessa lógica, o sistema discriminatório operaria orientado pela „ausência‟ de branquidade e de masculinidade como marcadores restritivos das possibilidades de ascensão dos grupos situados nessas „escalas de subalternidade‟” (ROSA, 2009. p. 893).
Entre os dois extremos existiria um jogo de ausência e presença desses dois valores (branquidade e masculinidade), como no caso de mulheres brancas e homens negros, que apresentam características inferiores, mas distintas, ao dos homens brancos – mulheres brancas têm melhores rendimentos que os homens negros, e estes apresentam melhores taxas de ocupação formal que as mulheres. No extremo oposto ao dos homens brancos, estão as mulheres negras, que apresentam uma posição mais inferiorizada nessa “escala de subalternidade”, e é neste grupo que estão, predominantemente, inseridos os sujeitos desse estudo – as empregadas domésticas. “Elas apresentariam menor possibilidade de negociação de sua alteridade no campo das relações sociais, o que resultaria num menor acesso a outras redes de relações em que poderiam se apoiar para a ascensão social” (ROSA, 2009. p. 893).
Além das desigualdades acima relatadas, é necessário apontar aquelas percebidas entre as diferentes regiões do Brasil, pois, como se sabe, as condições de trabalho e emprego na região Sudeste, por exemplo, são bem diferentes das apresentadas na região Nordeste, campo de pesquisa deste estudo.