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Da mesma forma que as relações de mercado envolvendo produção e consumo foram se modificando ao longo do século XX, também a relação do leitor com o livro vem se alterando. Compreendido como instrumento social, não apenas portador de texto, mas ferramenta de lazer, entretenimento e enriquecimento cultural, o livro como produto cultural acompanha a evolução dos diferentes grupos e contextos sociais, assumindo novas formas, e meios de acesso, como o virtual, por exemplo, continuando a acompanhar o leitor na contemporaneidade.

Em relação à produção literária, algumas ações de origem histórica mais antiga concorreram para que o objeto livro e seu conteúdo também fossem adaptados à indústria cultural. Não rompendo com as culturas literárias anteriores, a cultura de massa, pelo contrário, beneficiou-se do processo histórico que acompanha a literatura.

Com o próprio surgimento da imprensa, da tipografia, iniciou-se a popularização e democratização da literatura. O antigo hábito originário da época da Biblioteca Azul15, durante o Antigo Regime na França, de simplificar enredos, diminuir parágrafos, reduzir o número de personagens e modificar expressões gramaticais muito elaboradas, adequando a narrativa a um público leitor imaturo, parece ter encontrado um ambiente propício para sua continuidade na cultura contemporânea.

Sociologicamente, o livro ganhou importância e público em progressão geométrica. O fortalecimento do papel do leitor, a ascensão e a popularização do romance, a valorização feminina como figura leitora, possibilitaram o surgimento de um mercado literário frutífero (em quantidade, não necessariamente em qualidade de produção) e em constante expansão.

A figura do leitor assume maior valorização na modernidade, a partir dos estudos sobre como o texto é transmitido e recebido. Diferentes correntes teóricas passam a falar sobre o leitor, discutir seu papel e questionar a influência da recepção literária na estética e

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Segundo Chartier (2004) a Biblioteca Azul foi um movimento camponês, em que livros eram produzidos e vendidos para a população rural na França, durante o Antigo Regime. Eram livros cujo repertório era composto por ficção divertida, conhecimentos úteis e exercícios devotos. Este repertório não era em si mesmo popular, e sim, composto de textos de origens diversas. Na maioria das vezes, eram textos de tradução erudita, adaptados ao gosto popular. Tratavam também de romances, contos de fadas, utilidades diárias.

nas significações elaboradas sobre o texto. O leitor torna-se colaborador na construção de sentidos literários, o que contribui para um melhor entendimento das práticas de leitura relativas ao passado e ao presente.

Eco (1994) define algumas características do leitor-receptor, afinal, “numa história sempre há um leitor, e esse leitor é um ingrediente fundamental não só do processo de contar uma história, como também da própria história” (ECO, 1994, p.7). Ele situa o ato da leitura no centro do processo literário e faz do leitor a personagem principal, definindo conceitos sobre leitor e autor. Para ele, está atrelado ao leitor o entendimento da obra ou sua frustração, mas isso pode depender das suas escolhas: um texto, assim como um bosque, é um emaranhado de trilhas confusas e infinitas a serem seguidas. No entanto, o leitor precisa fazer “escolhas razoáveis” (ECO, 1994, p.14).

Enquanto o leitor estabeleceu novas formas de relacionamento com o livro, esse se modificou, passando de instrumento perpetuador de ideologias dominantes à ferramenta de cultura e entretenimento. Com esta nova função, aliada à maior participação crítica dos leitores na produção literária e às novas demandas mercadológicas das produções culturais, gêneros narrativos como o romance alcançaram grande popularização.

Ao acompanhar historicamente a evolução de tal gênero literário, encontram-se informações para compreender sua popularidade até nossos dias. Watt (1990) relata que na França do século XVIII, as muitas horas de trabalho diário, o alto preço dos livros e a pouca privacidade encontrada nas moradias superlotadas e mal iluminadas contribuíram para tornar o livro inacessível às classes mais pobres, restringindo o público leitor às classes burguesas e nobres. Enquanto isso, junto às classes mais abastadas, ocorria o abandono de grande parte da sociedade e da própria Igreja aos ideais religiosos e doutrinários, permitindo a produção e distribuição de textos não teológicos e sem fundo moralizante.

Nessa época começa a produção de romances, que falam ao gosto popular, tratando de cavalaria, amores proibidos, aventuras. É possível avaliar e perceber a ascensão do romance a um grau raro de popularidade: o barateamento provocado pela forma de distribuição do texto, muitas vezes em folhetins de baixo custo, ou por capítulos, possibilita que mais leitores, inclusive das camadas sociais operárias, ou que desenvolviam trabalhos servis, pudessem ter acesso a ele.

Além disso, a mulher passa, na Europa do século XVIII, a ser importante figura leitora, auxiliada pela industrialização de diversos produtos, que a deixou com mais tempo livre - além de sua natural não-participação nas atividades masculinas.

Aos poucos, especialmente a partir da instauração do hábito da leitura silenciosa, os livros são transferidos de lugares de acesso público da casa para lugares de mais intimidade, como o quarto do casal, o que diz respeito ao ato de ler antes de dormir, quer solitariamente, quer em cumplicidade de casal. A biblioteca passa a ser lugar de retiro, estudo e meditação solitária.

O objeto “livro” e seus textos foram sendo adaptados e modificados de forma a servirem a um perfil de público leitor, compreendido e definido por diferentes grupos de editores, que segundo seus critérios, alteravam o conteúdo ou a forma dos textos. Além disso, a censura sobre o impresso, que por muito tempo definiu conteúdos textuais, de forma a manter a ordem (religiosa, social, econômica e política) vigente, igualmente concorreu para a heteronomia do leitor. O estabelecimento do ato de leitura silenciosa auxiliou a proporcionar audácias, como a circulação de textos heréticos e a expressão de idéias críticas. Chartier (1991) afirma que historicamente, o perfil do leitor transformou-se, passando este a, gradativamente, estabelecer uma relação primeiramente mais autônoma, e, em um segundo momento, mais crítica dos textos recebidos.

A partir do “refinamento” dos hábitos leitores, consequência de uma evolução social e cultural, surge uma nova espécie de leitura e de leitor. A leitura solitária induz ao abandono, de que o romance é representante, pois “todos os indícios são reunidos para caracterizar a leitura do romance que alimenta sonhos perturbadores, nutre expectativas sentimentais, excita os sentidos” (CHARTIER, 1991, p. 148). O romance está associado à leitura - vista pelos homens do século XVIII como o ato privado por excelência – por parte do público feminino.

A influência da popularização do livro como objeto de entretenimento, da produção cultural de massa, além da democratização do acesso à realidade digital e virtual, podem ser percebidos nos jovens, crianças e adolescentes. O ambiente que torna mais acessível a observação destas manifestações sociais é, certamente, o da escola, onde passam grande parte de seu tempo, construindo vivências sociais e interagindo com seus pares. Os valores que esse ambiente defende, buscando referendar ou contestar a realidade contemporânea, podem ser avaliados através das propostas culturais, incluindo as literárias, que apresenta.

Benzer Belgeler