II. BÖLÜM
3. AK PARTİ’Lİ YILLAR
3.3. Erdoğan’lı Yıllar
3.3.4. Kürt Sorununda Milat, Diyarbakır Konuşması
Neste capítulo narramos uma parte significativa dos trajetos que empreendemos no bairro de Mãe Luíza. Embora tenhamos como referência, ao longo do texto, o espaço, a intenção posta não é apresentar uma cartografia do bairro de Mãe Luíza, mas dar vez e voz aos sujeitos que transitam nestes espaços. Também não tivemos a preocupação de categorizar os espaços como públicos e privados. Tão somente apontamos os percursos e encontros significativos que tivemos durante um ano que estivemos em campo para a realização da pesquisa. Muitos outros encontros e percursos deixaram de ser narrados.
2.1. A RUA
Partimos do pressuposto de que o espaço da rua é considerado como um dos elementos chaves para a compreensão das práticas sociais ocorrentes no bairro. Afirmamos que a rua é o centro da sociabilidade pública, que permite ver a vida cotidiana e desvendar a dimensão do urbano, das estratégias de vivência.
É a rua que resgata a experiência da diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro entre desconhecidos, a troca entre diferentes, o reconhecimento dos semelhantes, a multiplicidade de usos e olhares – tudo num espaço público e regulado por normas públicas (MAGNANI, 2004).
Assim sendo, a avenida João XXIII traduz esta multiplicidade de referências culturais. É nela que estão situados os espaços religiosos mais importantes do bairro; os mercadinhos; a padaria; os bares; os pontos de ônibus; a praça; as
escolas; o campo de futebol. Assume, ainda, a função de ser uma das vias de integração entre a Via Costeira e o centro urbano, o que a leva a ser também referência para outros moradores da cidade que a utilizam como trajeto para o trabalho. Do ponto de vista antropológico, para citar apenas um exemplo no campo das ciências sociais e humanas, a rua vai além do que tradicionalmente lhe é destinado como papel: o de ser espaço destinado ao fluxo. Ela se transforma noutros espaços: vira ponto de encontro para a juventude; trajeto para os crentes, como para os católicos em dia de procissão; lugar de trabalho para pequenos comerciantes. A insistência da juventude em efetivamente participar da vida nas ruas significa a aposta na possibilidade de que a rua se transforme em um território democrático de convivência de identidades heterogêneas (CARRANO, 2002).
Nesse sentido, consideramos que a Avenida João XXIII constitui-se em uma mancha de lazer, pois ela preenche a função de ser ponto de referência para um número diversificado de freqüentadores. As manchas são ”áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante” (MAGNANI, 2000, p. 40).
“A vida na periferia impõe uma existência marcada pela rotina, com graves limitações às atividades de lazer, seja pelas precárias condições de infra-estrutura das cidades, seja em virtude da falta de dinheiro” (ABRAMOVAY, 2002, p.49). Podemos observar que o bairro de Mãe Luíza não foge a esta realidade. Acompanhamos algumas reuniões dos dirigentes dos times locais de futebol, que expressavam a sua insatisfação com o estado precário do campo de futebol. Por outro lado, acreditamos que esse bloqueio é rompido a partir de uma organização
comunitária, em que a constituição de espaço de lazer seja levada enquanto pauta política para proposição de políticas públicas.
Que atividades desenvolvem os jovens de Mãe Luíza nos seus momentos de lazer? Responder a esta questão pressupõe uma articulação estreita entre o Serviço Social e outros tipos de conhecimento no campo das ciências sociais e humanas. No questionário aplicado apontamos sete atividades, conforme disposto na Tabela 2, abaixo:
Tabela 2 - Atividades que fazem parte do lazer
MASCULINO FEMININO
ATIVIDADES
SIM NÃO SIM NÃO
Conversar com amigos 169 13 173 09
Ouvir música 173 09 173 09 Assistir à TV 162 20 161 21 Ir à praia 155 27 144 38 Praticar esportes 132 50 54 128 Ir à Igreja 102 80 120 62 Namorar/Ficar 145 37 126 56
Concordando com os dados obtidos, os grupos focais revelaram conversar com amigos, ir à praia, jogar, ‘pegar onda’ e assistir à TV como as atividades em que os jovens utilizam prioritariamente o seu tempo quando não estão trabalhando, nem se encontram na escola.
Conversar com amigos, entre ouvir música, assistir à TV, e ir à praia, é a atividade que mais destacamos, pois, conversar com amigos é a que melhor expressa as relações de sociabilidade; ela é uma atividade que se constitui numa relação humana que implica em uma relação de alteridade. Na perspectiva
simmeliana, a conversa é o “suporte mais amplo de toda a coletividade humana” (SIMMEL apud WAIZBORDT, 2000, p.454).
Observamos que a vida social intrabairro, nos bairros habitados pelos segmentos pauperizados é mais acentuada, de forma que o estabelecimento de conversa entre vizinhos é uma prática recorrente. O comportamento de ‘reserva’ para o outro, que é a forma de auto-preservação do homem na cidade moderna, ainda não se constitui num referente importante, no seio da comunidade de Mãe Luíza, conforme observado por ocasião da pesquisa de campo. Os estímulos externos de seus moradores ainda são respondidos sem provocar-lhes uma atomização externa e um ‘estado psíquico inimaginável’. A reserva se faz necessária em virtude dos elementos superficiais da vida metropolitana. O resultado de tudo isso é o desconhecimento de pessoas que estão próximas a nós, como os vizinhos, fato ainda não ocorrente em Mãe Luíza (SIMMEL, 1979).
É interessante notar que a população do bairro de Mãe Luíza no imaginário popular urbano de Natal é conhecida por ‘andar na rua’: - “É engraçado o povo de Mãe Luíza! Parece do interior, o povo é tudo nas calçadas”, comentário registrado por Fernandes (2000), a partir de conversas espontâneas, por pessoas anônimas, não residentes em Mãe Luíza. Entendemos ser esta uma característica das pessoas. Tal modo de apropriação do espaço é visto de forma estigmatizadora por quem está de ‘fora’, conforme podemos observar no depoimento de uma funcionária de órgão público:
O povo de Mãe Luíza é ocioso. Se você passa nas esquinas é um boteco. As ruas são sempre cheias. Se você vem de carro, tem que vir desviando. A maioria já nasce e se acostuma com essa vida. Os homens vão beber, e as mulheres tendo filhos, com 12, 13 anos. Tenho um caso aqui no CD que é a mãe e a filha (assistente social lotada no serviço de saúde)
Nas observações que fizemos, nas ocasiões em que fomos ao bairro, percebemos que a apropriação da rua se dá também através de atividade de caráter comunitário. Tivemos a oportunidade de acompanhar muitos ensaios6 realizados pela “Tribo de Índios Guaracis”, na rua Antônio Félix. Os índios são manifestações folclóricas de bairros populares que desfilam durante o período carnavalesco nas atividades promovidas pelo poder municipal. Eles recebem uma verba por parte da Prefeitura, mas que é insuficiente para a aquisição do cenário e figurino necessários para o desfile.
Os ‘índios’ têm aproximadamente 100 componentes, de diversas faixas etárias, mas predominantemente adolescentes originários de várias ruas do bairro. Atribuímos a presença de pessoas de várias localidades do bairro no grupo ao fato de o mesmo ter sido campeão nestes três últimos anos (2002-2004). Os ensaios foram realizados no horário da noite, entre 20h e 21h, sendo todos prenunciados através do toque dos tambores, funcionando como chamamento aos componentes e expectadores. A rua Antônio Felix é uma rua larga e de intenso fluxo de pessoas, pois se constitui no elo entre a localidade de Aparecida e as ruas adjacentes à principal avenida do bairro. De forma que observamos que durante os ensaios havia um fluxo intenso de pessoas circulando; como também ocorria a circulação de carros, não muitos, uma média de cinco carros por noite. A cada carro que passava as pessoas faziam um corredor, depois rapidamente voltavam ao lugar. Em momento algum ouvimos alguma reclamação por parte dos participantes. Ao contrário, o responsável pelo ensaio servia como orientador, apitando para as pessoas se organizarem e o carro transitar livremente.
6 Estivemos presentes em todo o mês de fevereiro/2004 aos ensaios. A presença constante nos
O dia do desfile foi marcado por uma intensa movimentação e expectativa. Embora o início fosse somente às 21h, quando chegamos, às 17h, na residência do organizador, percebemos que todos já estavam prontos, faltando apenas alguns poucos acessórios. Alguns aspectos nos chamaram bem a atenção. Primeiro, a pintura no rosto era estendida ao corpo. Vale salientar que não havia uma orientação para as pinturas serem todas iguais. Mas, pela quantidade de pessoas, terminava sendo uma produção em série. Aquele momento, para alguns adolescentes, especialmente do sexo feminino, significou a realização do sonho da tatuagem. Com bastante freqüência vimos adolescentes do sexo feminino pedindo que fizessem desenhos – com destaque para a caveira e cobras – em suas barrigas e costas, expressando uma comunicação visual através de inscrições que, mesmo temporariamente, possibilita-lhes mostrarr uma nova corporalidade.
A ênfase na participação de todos foi captada nos diálogos que foram estabelecidos com os participantes nos ensaios: “É bom brincar nos índios, porque ninguém obriga”. Encontra-se implícita a idéia de ‘brincar’, ou seja, uma atividade lúdica comunitária. Nos diálogos que tivemos com o organizador percebemos que em várias ocasiões, ressaltou a diferença do seu estilo em relação ao de seu pai. Argumentava a idéia de ser um líder mais democrático, que abriu para uma maior participação da comunidade e possibilitava aos participantes com maior vivência conduzirem o ensaio.
Logo após os ensaios do “Índios” iniciava na mesma rua o ensaio da Escola de Samba que, conforme observamos, muitos dos componentes eram os mesmos. Isso evidencia que os espaços de socialização não são excludentes, antes se somam, possibilitando uma maior interação social entre os moradores do bairro.
Contraditoriamente, a rua, além de expressar um sentido público, o qual é apropriado pela juventude de Mãe Luíza constitui-se em um espaço de desproteção. Nesta análise, torna-se imprescindível evidenciar outras dimensões do espaço de rua. “A rua é palco de dinâmicas diversas de expressão juvenil que acabam se cruzando na dimensão compactuada da violência” (DIOGÊNES,1998, p.153).
Durante a pesquisa de campo ouvimos vários relatos de assaltos ocorridos dentro do próprio bairro, como também acerca de bala perdida. Quando questionados na pesquisa quantitativa onde mais conviviam com a violência, entre casa, ônibus, escola e rua, 97,3% afirmaram ser a rua o espaço onde convivem com a violência. Portanto, embora a rua possibilite uma sociabilidade pública em que é possível experimentar práticas educadoras; lá também os(as) jovens se sentem mais expostos(as) às balas perdidas, assaltos e outros riscos, que podem ceifar-lhes a vida a qualquer instante.
Percebemos que, embora tenha havido uma associação entre o espaço da rua como espaço de desproteção, no contexto do bairro, a rua não perdeu a sua característica de ponto de encontros e de aventuras, ou de sentido à vida cotidiana.
2.2. A ESCOLA
Durante o período da pesquisa fomos a todas as escolas localizadas no bairro, voltadas às diversas modalidades do ensino. Optamos por realizar visitas mais sistemáticas a uma das escolas que visitamos. Neste estabelecimento escolar realizamos dois grupos focais com adolescentes e jovens do turno noturno, horário em que se concentra o alunado dentro da faixa etária delimitada pela pesquisa, entre 15 aos 24 anos de idade.
A escola integra uma estratégia dos Estados Nacionais, pós-feudalismo, para assumir a função socializadora antes pertencente à família. As principais funções e tarefas da instituição escolar são:
a) Transmissão às novas gerações do saber acumulado e sistematizado; b) transformação do indivíduo em cidadão, em condições de ser membro e de participar na vida societária;
c) preparação para o trabalho;
d) formação moral e ética, desenvolvendo os valores e atitudes considerados necessários para o convívio social (WAISELFISZ, 1998, p.46).
Entretanto, a escola está longe de ter sua especificidade claramente delimitada. Isso advém do fato de que o campo educacional está além do contexto estritamente escolar; ele mantém conexão com o contexto sociocultural e familiar, o qual incide diretamente na definição da função escolar.
De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Juvenil (UNESCO, 2003), a média de anos de estudo dos jovens no Rio Grande do Norte na faixa etária dos 15 aos 24 anos é de 6,6 anos, tempo considerado insuficiente para a conclusão do ensino fundamental. O Rio Grande do Norte está além da média do Nordeste que é de seis anos de estudo, mas aquém de São Paulo, estado que ocupa melhor posição em relação à média de anos de estudo no país, que é de 8,8 anos.
Analisando os anos de estudo é possível ver um nítido recorte de gênero, classe e etnia. São as mulheres que alcançam maiores médias de estudo. No caso especifico do Rio Grande do Norte, elas obtiveram 7,2 anos, em contraposição aos 5,9 anos dos homens. As desigualdades também se expressam quando se diferenciam os anos de estudo entre brancos – 7,5 anos – e preto / pardos – 5,9
anos. Já com relação à renda per capita familiar os dados apontam que quanto maior a renda familiar, maior a média de anos de estudo.
Quando se estabelece a relação entre o nível de escolaridade e a faixa etária dos (as) jovens de Mãe Luíza, encontramos:
Tabela 3 - Distribuição dos(as) entrevistado(as) segundo escolaridade e faixa etária ESTUDA
15 AOS 19 ANOS 20 AOS 24 ANOS
ESCOLARIDADE
Sim Não Sim Não
Ensino Fundamental I 6,5% 13,7% 0,0% 14,7%
Ensino Fundamental II 54,0% 49,0% 25,0% 37,3%
Ensino Médio 39,5% 37,3% 75,0% 48,0%
Ensino Superior 0,0% 0,0% 0,0% 0,0%
No universo pesquisado não foi encontrado um só entrevistado com acesso à formação universitária, fato este também apontado por Miranda (2001), que encontrou um dado insignificante nesse aspecto. Por outro lado, destaca-se o percentual significativo dos jovens que não estudam e têm nível médio de escolarização do Ensino Médio, pois embora não tenha sido precisamente dimensionado na pesquisa, seguramente um percentual significativo destes jovens já concluiu o Ensino Médio, mas não deu prosseguimento aos estudos. Outro dado é a falta de correspondência entre a faixa etária com a escolaridade. São significativos os percentuais dos 25% dos jovens entre os 20 aos 24 anos que ainda estão no Ensino Fundamental, os quais deveriam ter concluído tal ciclo de estudos por volta dos 15 anos.
De acordo com o Relatório de Indicadores Sociais, divulgado pelo IBGE (2004), com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2002 e do Censo 2000, a defasagem entre idade e série escolar cresce com a idade: vai dos 14,4% para as crianças dos sete anos, até 65,7% para as de 14 anos. No Nordeste, 84,1% das crianças de 14 anos estão defasadas, contra 51,8% do Sudeste. Os dados também mostram que estudantes pobres dificilmente chegam ao ensino superior. Na rede pública, apenas 2,3% dos estudantes provinham de famílias do primeiro quinto de rendimento médio per capita, enquanto 59,2% provinham do último quinto.
Contrariando essa exclusão educacional, reveladora das desigualdades sócio-econômicas em que se inserem estes jovens, temos marcos normativos que garantem o direito à educação (artigo 205 – 214 da Constituição Federal de 1988) como um direito público e subjetivo de todo cidadão. A educação é uma estratégia de superação desta situação de exclusão, visando promover um desenvolvimento sustentável da população jovem (UNFPA, 2003).
Os(as) jovens, ao serem questionados(as) sobre o que viam de positivo na sua escola disseram: “Praticamente nada... só as ‘boyzinhas´”; “o lanche”, “os professores acho legais”. Quando construíram o quadro do que não gostavam na escola chamou-nos atenção a ênfase sobre a ausência de professores: “a escola não é muita boa porque faltam professores” (jovem de escola pública); “... têm três, quatro aulas, às vezes só têm duas aulas na verdade, se tiver três é porque é um milagre...” (jovem de escola pública).
A vacância no quadro de professores foi apontada como sendo a causa da escola, hoje, não mais preparar o aluno para se inserir no mercado de trabalho:
Desde de 98 (1998) que o bicho pega, ela já teve capacidade de preparar aluno. Porque, por exemplo, a partir do momento que falta professor isto dificulta na vida do aluno, tá entendendo? Por exemplo, todo dia, aqui tem oito professores, se vier três ou quatro e muito. E os outros alunos que ficam sem aula? Vamos ver quantas salas estão desocupadas? Antigamente tinha o quadro completo, todos os professores dando aula, às vezes tinha aula até no sábado (jovem de escola pública).
A questão abordada encontra-se dentro de um cenário amplo e complexo referente à precariedade das políticas públicas e à fragilidade das redes sociais voltadas aos jovens, especialmente aqueles mais pobres. O problema, contudo, não só se circunscreve ao acesso à escola e às possibilidades reais de lá permanecer, mas também à qual escola e à qualidade do ensino oferecido pela mesma. As suas fragilidades são reveladas pela ausência e a rotatividade de professores em função das formas de contratação e, ainda por cima, pela ausência de um projeto político- pedagógico que atenda às especificidades do meio social em que se encontram os alunos que a freqüentam.
Nas visitas que realizamos às escolas e por ocasião dos grupos focais pudemos apreender melhor esse espaço de sociabilidade a partir de algumas variáveis presentes na vida social. A primeira delas foi a questão da violência. Partimos da premissa de que, embora a escola não se constitua no palco dos eventos mais violentos na sociedade, a violência contribui para o rompimento da imagem historicamente construída do ser escola (ABRAMOVAY, 2002).
A instituição escolar vem enfrentando profundas mudanças, com o aumento das dificuldades cotidianas que provêm tanto dos problemas de gestão e das suas próprias tensões internas quanto da efetiva desorganização da ordem social, que se expressa mediante fenômenos exteriores à escola, como a exclusão social e institucional, a crise e o conflito de valores e desemprego (IBIDEM, p.93).
Assim, algumas escolas deixaram de ser um lugar seguro, protegido, de socialização e integração social para serem um palco de ocorrências violentas. Nos depoimentos colhidos foram freqüentes narrativas sobre ocorrência de situação de violência dentro da escola expressas por: “muitas brigas”, “menina brigando por causa de namorado; homem por causa de mulher”.
Durante a nossa permanência na escola ocorreram duas ‘brigas’ e todas elas decorrentes de relacionamentos afetivos entre adolescentes e jovens de sexo oposto, deixando perceber que a questão da sexualidade entre os jovens está na pauta do dia. Sexualidade é um conceito dependente de seu contexto histórico e da área de conhecimento no qual está sendo abordado. Consideramos ser esta uma das dimensões do ser humano, que envolve orientação sexual, erotismo, envolvimento emocional, reprodução, amor (ABRAMOVAY, 2004).
É na juventude que ocorre a experimentação da sexualidade, a qual permite a estruturação de sua identidade, de forma que os preconceitos e crenças que aí se organizam influirão decisivamente nas possibilidades “sexual-afetivas” dos jovens.
Socialmente, a iniciação sexual tem sido concebida como “rito de passagem”, que propicia a emancipação e autonomia do jovem no tocante ao exercício da sexualidade. A discussão deste tema tem como um dos indicadores mais utilizados a idade da primeira relação sexual. No questionário aplicado com os jovens de Mãe Luíza procuramos saber se já tinham iniciado a vida sexual. Responderam afirmativamente 69,8%; enquanto 30,2% disseram “não”.
Entre os que já mantiveram relações sexuais, os homens representam 79,6% e as mulheres 50,9%, dado que compreendemos ocorrer a partir da pressão social para que a vida sexual dos rapazes ocorra mais cedo, tendo em vista o “discurso da
virilidade”, construído na cultura brasileira. Quando associadas a iniciação sexual com a faixa etária, obtivemos os seguintes resultados:
Gráfico 1: Distribuição dos(as) entrevistados(as) segundo a
faixa etária da iniciação sexual
39,5% 58,5% 2,0% 10 aos 14 anos 15 aos 19 anos 20 aos 24 anos
É significativo o percentual de 39,5% dos jovens que têm a sua iniciação sexual entre os 10 aos 14 anos, faixa etária em que se transita da infância à adolescência e que nos leva a perguntar se a iniciação sexual seria uma forma de afirmação no processo de construção identitária.
Também muito significativo é o percentual de 58,5% dos iniciados sexualmente na faixa etária dos 15 aos 19 anos. Baseando-se em dados da BEMFAM, Abramovay afirma que “a proporção das mulheres de 15 anos que tinha começado sua vida reprodutiva chegava a 55% entre as que não tinham nenhuma escolaridade; 19% entre as que tinham 5 a 8 anos de estudos e menos de 10% entre as que tinham de 9 a 11 anos de estudos” (ABRAMOVAY, 2004, p.131).
A Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE (2004) indica que, em 2002, no Brasil, o percentual de adolescentes de 15 a 17 anos com pelo menos um filho chegou a 6,3%, com variações de 7,5% no Norte e Nordeste e 5,0% no Sudeste e
no Sul. Entre as jovens de 18 a 24 anos, 4,2 milhões (quase 40%) tinham pelo menos um filho. De acordo com o levantamento quantitativo que procedemos no bairro de Mãe Luíza, 20,5% de adolescentes e jovens entre os 15 aos 19 anos e