O percurso teórico-metodológico desta dissertação viabilizou apreender que a efetividade da legislação de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) é relativizada em razão das condições objetivas alusivas ao modo de produção capitalista.
Esse contexto evidencia que o capitalismo, em sua lógica ambígua e destrutiva, ao passo que precisa recorrentemente apropriar-se da energia humana, necessária à criação do conteúdo material da riqueza socialmente produzida, provoca a degradação da saúde dos trabalhadores.
Essa contradição expressa o abismo entre os dispositivos legais e as práticas efetivas, dada a incongruência existente para que o capitalista viabilize a efetivação da legislação de SST, através de discursos e condutas que mascaram a perversão da sua aplicabilidade.
Ao se inserirem nas organizações do trabalho, os trabalhadores são conduzidos a introjetar discursos falaciosos de parceria, voltados a bloquear faculdades mentais para a percepção da lógica predatória permeada por direcionamentos centrados na redução de custos, que culminam no comprometimento da sua saúde.
No tocante ao referencial teórico utilizado, este contribuiu para a apreensão do objeto e para evidenciar que esse direcionamento é mais expressivo em organizações do trabalho que competem em âmbito nacional e internacional, como era o caso do supermercado mencionado nas sentenças condenatórias e laudos periciais que foram analisados.
Nesse contexto, é pertinente evidenciar que o percurso teórico-metodológico viabilizou depreender que as estratégias dos dirigentes organizacionais, decorrentes das condicionalidades do capital, para que se mantenham num cenário competitivo, voltam-se a subsumir os trabalhadores a padrões de intensificação, diante do que análises de custo x beneficio sobrepõem-se e põem em xeque os dispositivos legais de SST.
Por conseguinte, da forma de utilização coisificante e/ou mercadológica, decorre um complexo de repercussões: perda de produtividade, absenteísmos, afastamentos por motivos inerentes a adoecimentos, custeio de indenizações
reparatórias, fatores que refletem contradições estruturais e ideológicas alusivas ao processo de acumulação capitalista.
Considerando o exposto, embora este trabalho apresente a limitação de corresponder a um recorte de uma pesquisa mais ampla, que, inclusive, incorpora dados de outros segmentos laborais, foram possíveis de apreender e relacionar outros aspectos contraditórios no tocante ao cumprimento da legislação de SST, no supermercado que apresentou a maior ocorrência de violações legais reconhecidas pela Justiça do Trabalho do Rio Grande do Norte, no período compreendido entre 2006 e 2008.
Nesse sentido, as contradições apreendidas, a partir da literatura utilizada, das sentenças e dos laudos que subsidiaram a análise, explicam as dificuldades para o cumprimento da legislação nas situações analisadas, tendo-se depreendido que os casos de Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT´s) apresentaram-se diretamente relacionados ao alcance de metas do supermercado. Isto é, os objetivos da empresa, em confronto com a perspectiva de programas preventivos, e de aplicação das normas referentes à ergonomia, impeliram os trabalhadores a ultrapassarem os limites psicofisiológicos, estabelecendo a “naturalização” do desenvolvimento dos DORT´s.
Apreendeu-se, ainda, a contradição no que diz respeito às normas de prevenção e promoção da saúde ocupacional e a sua concretização, quando um trabalhador tem a sua saúde afetada em razão de fatores relacionados ao trabalho, e requer indenização por esse bem que é inalienável e passa a ser monetarizado, numa tentativa de minimizar as possibilidades negativas decorrentes de um acidente do trabalho, a exemplo das percepções de danos moral e material concernentes a dificuldades para reinserção no mercado de trabalho, que tende a envolver implicações econômicas, psicológicas e sociais.
Faz-se alusão aqui ao fato de Marx ter evidenciado que os capitalistas costumam centrar a relação capital x trabalho concebendo a força de trabalho como mercadoria e, como tal, pressupõem um valor monetário, teoricamente à ela equivalente, que viabiliza a apropriação indevida de parcela significativa da riqueza socialmente produzida.
Ao se conceber que essa constitui uma estratégia utilizada pelos capitalistas para se apropriarem do que não lhes pertence, o posicionamento adotado neste trabalho é de que há, nesses casos, como ocorre com as mercadorias, uma “troca”.
Nessa relação, há a “troca” de um direito por outro, não se depreendendo, a partir da literatura utilizada e das análises realizadas tratarem-se de equivalentes, pois, embora haja a efetivação de normas legais, valor monetário algum há de reparar as perdas da saúde ocasionadas no ambiente laboral.
Considera-se que a análise das sentenças trabalhistas ajudaram na explicitação de um dos objetivos que consistia na identificação de violações ao direcionamento protetivo das normas de SST, diante do que se tomou conhecimento da existência de casos de DORT‟s.
Desse modo, estabeleceu-se a relação com informações apresentadas pelo FEPMAT acerca do crescente registro desses distúrbios na cidade de Natal/RN, o que evidenciou as tendências de eficácia relativa nesta cidade, no que tange à legislação de SST no referido ramo de atividades, aos programas de prevenção a ela relacionados e mais especificamente à 17ª Norma Regulamentadora (NR).
Isso porque comprometimentos relacionados aos DORT‟s revelam entraves no tocante a conquistas legais, à proposição de ações preventivas, definidas nos programas de prevenção denominados de Programa de Prevenção de Risco Ambiental (PPRA) e no PCMSO (Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional), chamando a atenção para efetivas limitações concernentes à operacionalização dessas ações.
Essa afirmação decorre do fato de a legislação de SST contemplar medidas protetivas, dentre as quais as alusivas à NR-17, norma específica voltada a apresentar direcionamentos concernentes à adaptação psicofisiológica entre o trabalho e o homem. Para isso, numa sociabilidade capitalista, faz-se necessário definir estratégias para a realização de atividades que considerem as exigências as quais o trabalhador estão sendo submetidos com a perspectiva de preservar a saúde dele. Isso requer ponderar acerca de rebatimentos alusivos à polivalência requerida, a pressões vivenciadas por trabalhadores, dentre outros fatores que possam desencadear desequilíbrios psicofisiológicos, direcionamentos que, de acordo com os dados analisados, apresentaram limitações no tocante ao alcance.
As sentenças contribuíram ainda para a análise da relação dos danos à saúde dos trabalhadores com o suposto reconhecimento de direitos, diante do que a constatação pericial dos DORT´s culminou na percepção de danos morais e materiais.
Alguns dos aspectos relacionados ao desenvolvimento de DORT, apreendidos através da pesquisa, revelaram tendências concernentes a dificuldades de reinserção no mercado de trabalho, tais como o preconceito a que se sujeitam, sentimentos de rejeição experienciados, ou seja, rebatimentos nas esferas psicofisiológica, social e financeira.
Uma das sentenças evidenciou que, apesar de ter sido indenizada por dano moral e material, a trabalhadora, ex-operadora de caixa, diagnosticada como tendo perdido a capacidade para realizar a função mencionada, não conseguiu se reinserir no mercado de trabalho, encontrando-se desempregada, diante do que se infere essas indenizações como algo que alcança um significado expressivamente simbólico, haja vista ser limitada e nem sempre ocorrer.
Isso porque, considerando o contexto societário atual, em que, embora a qualificação figure como pré-requisito significativo para ingresso junto ao mercado de trabalho, a recorrência de trabalhos precários e o esfacelamento da proteção social evidenciam que, para o capitalista, o mais importante não é a formação do trabalhador, mas o “custo” que este representa.
Essa assertiva considera o fato de que, em se tratando de alguém que fica impossibilitado de continuar a exercer atividades com as quais havia tido experiência/ desenvolvido habilidades, numa situação desse tipo, possivelmente será requerido tempo de investimento no desenvolvimento de outras habilidades.
Por vezes, os resultados não são satisfatórios, diante do que o indivíduo afetado é sujeitado a arcar com as conseqüências decorrentes, o que se infere, inclusive, servir para adentrar na informalidade que, embora continue a atender aos interesses da sociedade capitalista, do ponto de vista social, representa uma perda expressiva, no que tange ao retraimento de possibilidades de realização pessoal.
Levando em conta esses fatores, entende-se que, na seara da condenação judicial, o caráter simbólico tem-se sobreposto ao caráter pedagógico. Isso porque as indenizações estabelecidas pelo judiciário, consubstanciadas em laudos periciais que expressam o estudo dos fatores desencadeadores do adoecimento, não vem provocando a imediata supressão da condição geradora do adoecimento, corroborando com o entendimento de que as medidas de prevenção constituem a melhor forma de proteção social. Infere-se, nesse sentido, que essa medida também poderia ser significativa para a redução das ações individuais, em razão de poderem abarcar necessidades que envolvem demandas da coletividade dos trabalhadores, o
que figuraria uma ação mais incisiva do judiciário trabalhista no que é atinente às causas recorrentes dos processos que adentram as Varas de Trabalho (VT‟s).
O caráter pedagógico das condenações judiciais aqui estaria, portanto, refletido no fato de que a supressão dessas medidas, ao chegarem ao conhecimento do empresariado, fossem tomadas como exemplo e até entendidas como podendo contribuir para que evitassem ter a imagem da empresa afetada, o que, associado à perspectiva do Fator Acidentário Previdenciário (FAP), às ações reparatórias regressivas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), às ações do MPT e de demais instâncias envolvidas na proteção à saúde dos trabalhadores, poderiam expressar um efetivo retraimento desses adoecimentos e uma aproximação mais significativa de atender a direcionamentos voltados a prevenir acidentes do trabalho, de modo que o direcionamento protetivo viesse a se aproximar mais significativamente das conquistas histórico-legais.
A correlação entre as infrações inerentes à legislação de SST aos impactos sobre a saúde dos trabalhadores, a partir de dados constantes em laudos periciais tornou evidente alguns aspectos da organização do trabalho intrínsecos ao desenvolvimento dos DORT´s.
Nesse sentido, entende-se como pertinente ressaltar que, conforme evidenciado, a caracterização do DORT estabelece relação com a organização do trabalho, a entraves concernentes à aplicabilidade de dispositivos legais preventivos, relacionados mais diretamente à NR-17. Isso porque as perspectivas de antecipar, monitorar e avaliar os riscos, previstas pelos programas, passam a ser entendidas como comprometidas, a exemplo do que fora identificado no decorrer da análise, em que, diante do afastamento de um empregado que desenvolveu DORT, outro seria colocado no lugar, o que conduz a inferir que tem início um novo ciclo de adoecimento, ainda mais considerando a continuidade das tendências de intensificação.
Nessa direção, os laudos expressaram, ainda, que os operadores de caixa, ao realizarem atividades repetitivas, têm a saúde comprometida, quando desrespeitadas as pausas previstas pela NR-17, ainda que haja orientação de fisioterapeutas, visto que orientações são invalidadas quando o funcionamento da organização do trabalho coloca em xeque, e/ou em segundo plano, direcionamentos voltados ao atendimento das necessidades psicofisiológicas.
Depreendeu-se que a ultrapassagem dessas necessidades está associada a exigências que envolvem tempo, ritmo, pressão, multifuncionalidade, a exemplo de habituais acúmulos de funções que não são recomendáveis conforme a NR-17. Inclusive, esse direcionamento pautou uma das requisições realizadas pela COVISA associada à PRT da 21ª Região, no que é atinente às proposições que apresentaram para que fosse evitado o desenvolvimento de mais casos de DORT no setor supermercadista da cidade de Natal/RN, no que diz respeito à constatação de operadores de caixa também assumirem funções de embaladores.
A tendência ao acúmulo de funções e a caracterização de horas extras foram depreendidas como relacionadas a uma cultura organizacional compatível com condutas de intensificação e/ou de máxima exploração possível da força de trabalho, no caso, de operadores de caixa, e, considerando que as atividades desenvolvidas por esses trabalhadores requer cuidados ergonômicos constantes, a constatação dos DORT‟s, no universo de sentenças analisadas, expressou descuidos alusivos ao desenho ergonômico da função, retratando recorrentes infrações à mencionada NR- 17 e a programas preventivos já elucidados.
O percurso metodológico, que envolveu a participação em eventos relacionados à temática, viabilizou também relacionar que os casos de DORT‟s do supermercado delimitado para análise, considerado o lapso temporal entre 2006 e 2008, constitui expressão de uma preocupação que ainda tem feito parte da agenda do FEPMAT nos dias atuais, a exemplo do que foi possível acompanhar, no ano de 2010, e de palestra realizada no ano corrente junto ao INSS, por ocasião do “Dia internacional de prevenção de LER/DORTs”.
Desse modo, tornou-se inquestionável o entendimento de que esse distúrbio tem-se constituído como um problema atual e relevante e, para além da análise documental do supermercado delimitado, que o DORT figura como um problema expressivo, no que tange ao setor supermercadista da cidade de Natal/RN.
O reconhecimento judicial aos trabalhadores que adentraram à Justiça do Trabalho, associado a esses dados, evidenciou a ofensa aos direitos constitucionais sociais deles, bem como a postura utilitarista e desumanizante dos representantes do capital e, conseqüentemente, a eficácia relativa da legislação de SST, uma vez que, dadas as condicionalidades as quais os empresários também têm de se sujeitar, decorrem rebatimentos expressivos sobre a saúde dos trabalhadores, expressando a fratura existente entre os dispositivos legais e as práticas efetivas.
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