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1. KÜRESEL VERGİ REKABETİ: KAVRAM VE ÖZELLİKLERİ

1.1.1. Küreselleşme Kavramı

Resta-nos apontar a ligação da Gèlèdé com a Ogboni e Egungun, porém ao longo de nossa escrita falamos da atuação das Erelú e a Ìyálóde na sociedade Ogboni, na qual possuíam funções destacadas em seus conselhos e representatividade junto ao aparelho do Estado; pois bem, em África esta sociedade originou-se no Reino de Ketu, na cidade de Ilobi, formada por membros da realeza Mefu, expandindo mais tarde por toda região ocidental do reino Iyorubá. O seu festival em homenagem às forças cósmicas e aos poderes femininos de fecundação, em terras africanas, embora pudesse variar conforme o lugar, iniciava-se no final do verão ou início do inverno, fato que pode ser relacionado com o início das festividades no Brasil da Irmandade da Boa Morte, uma vez que em maio as responsáveis pela festa anual fazem o

traslado de Nossa Senhora da casa da provedora da festa para a capela da Irmandade; fato este não divulgado nem notificado pela imprensa.

Apesar do festival da Gèlèdé manter seu caráter sagrado na cidade de Ketu, foi em Uidá que ele ganhou feições espetaculares e profanas, com o propósito apenas de entretenimento. Não obstante a espetacularização desse festival, ele atravessou as fronteiras transatlânticas para elevar a memória das divindades femininas do panteão Iyorubá, as Iyá-Mi – grandes mães, ancestrais de todo o povo, guardiãs da terra, das águas e dos saberes esotéricos (SILVEIRA, 2006,p. 433). Segundo este autor, a palavra Gèlèdé, quando analisada separadamente, significa: Gè quer dizer aplacar ou afagar, já èlè refere-se às partes íntimas da mulher, simbolizando seus segredos e poderes de dar a vida, e dé é o mesmo que realizar algo com cuidado ou gentileza. Deste modo, ressaltar a importância dos seres femininos, em especial da mulher, como a representação da continuidade da vida. Dentro do religioso, a Gèlèdé dedica-se quase que exclusivamente aos orixás responsáveis pela fecundidade, sobretudo Odudua, representação coletiva dos ancestrais femininos. Outro fato que pode ser corroborado é a relação dessa sociedade com os orixás, que são cultuados ou homenageados na Boa Morte, tais como Nanã, Oxum, Obaluaiyê, Oxalá, dentre outros.

Como as demais sociedades secretas, a Gèlèdé é uma associação composta por homens e mulheres, porém ao seu núcleo mais consistente e aos ritos mais secretos só as mulheres têm acesso; entretanto, na parte visível do festival, são os homens que mais aparecem com proeminência, cabendo a especificidade de apenas eles portarem as máscaras que tanto podem representar personagens masculinos ou femininos. Além disso, cabe aos homens a consulta a Ifá antes dos festivais, o esculpimento das máscaras e outros símbolos, a percussão, a composição das cantigas e a declamação das histórias ou itan ali representados, quando sempre narram os grandes feitos dos personagens mais ilustres do culto; podem possuir os cargos de Babalaxê, chefes das máscaras, ou Alabê, chefes dos tambores; porém a autoridade máxima é feminina, denominada Iyalaxê.

Em contrapartida, as mulheres, além de se ocuparem das iniciações individuais e secretas, são responsáveis pela coleta de fundos, preparação e organização dos alimentos; como acontece no culto aos ancestrais, ao feminino cabe também responder em coro as cantigas que são entoadas pelos homens. Segundo Margaret e John Drewal (1990), o festival pode dividir-se em dois momentos: diurno, associado à carnavalização, sátira e grande espetacularização, com ricos figurinos, coreografias, máscaras, atraindo um número grande de expectadores. Já a parte noturna é considerada mais solene, com a realização de ritos mais internos. É uma produção muito rica, tanto do ponto de vista visual, teatral, quanto em

conexão simbólica, sobretudo a dupla função do referido festival. Como no candomblé, a primeira máscara a sair representa a figura de Exu, outras lembram ancestrais ou Eguns, orixás e até personalidades daquela e de outras sociedades; no entanto, a grande expectativa gira em torno da máscara Èfè56(vide figura 19), dedicada às forças e obscuridades da noite. A máscara na cabeça leva um pássaro de madeira com um longo bico, simbolizando os poderes mágicos da grande mãe – Ìyánla. O final do festival da Gèlèdé na África era marcado por consulta a Ifá e oferendas às divindades, geralmente em árvores sagradas.

Figura 19 – Principal máscara da Sociedade Gèlèdé, denominada Èfè Fonte: http://africasaberesepraticas.blogspot.com/2009/11/mascaras-geledes.html

Alguns procedimentos praticados na África parecem existir na Boa Morte; o seu término é marcado, sem muito alarde, por oferendas depositadas em lugares específicos na cidade de Cachoeira, como a Pedra da Baleia que recebe as oferendas para Oxum, Iyemanjá, Nanã e outras divindades femininas ligadas às águas. Como em qualquer associação, as

56 Grandes interpretações existem acerca dessa máscara, a mais corrente é que ela também pode simbolizar a união e equilíbrio entre o poder feminino e masculino. Em conversa informal com o Babalaô Sérgio Barbosa do Terreiro Ẹran Opê Oluwô, vulgarmente conhecido como Viva Deus, a disposição dos joelhos e cotovelos mostram que a idade avançada de uma sacerdotisa pode inseri-la em ritos aos quais uma mulher com pouca idade não teria acesso, portanto a identidade dos indivíduos não está cristalizada. Dessa forma, a estrutura da máscara pode nos informar acerca do mistério que permeia o universo do homem e da mulher, mas que subjaz àharmonia entre os sexos, biologicamente falando.

sociedades secretas tinham a função de prezar pela coesão social, contudo tanto Babá Egun quanto Gèlèdé eram ou ainda são depositárias da moralidade pública e ordem social, cujo objetivo era neutralizar as oposições que a vida em sociedade inevitavelmente instaura, acalmando os ânimos de toda população, ao tempo em que promovia uma convivência pacífica (SILVEIRA, 2006). Apesar de estarem assentados em uma base comum, Gélèdé se preocupa com a neutralização das oposições existentes na vida em sociedade, já Babá está relacionado à harmonia entre as forças sobrenaturais e a vida cotidiana. Tendo essas funções sociais de harmonizar e promover a coesão social, as sociedades secretas, sobretudo, Gèlèdé e Egungun passaram a ser enxergadas pelas religiões dominantes, como o cristianismo e o islamismo, como subversivas, diabólicas e destruidoras, deturpando o verdadeiro objetivo, restringindo-se a cultos maléficos, culto às bruxas, cultos antissociais. É desta forma que a maioria das pessoas refere-se a esses dois cultos no Brasil. Sobre os Ogbonis em terras brasileiras, apesar de não ter nenhuma documentação que ateste a sua presença, Lody, em 1985, no catálogo das coleções afro-brasileiras do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, registra alguns edans e os identifica como pertencentes à sociedade Ogboni (SILVEIRA, 2006). Contudo, não se pode afirmar que essa sociedade tenha tido uma filial na Bahia ou se os objetos apreendidos pela polícia no início do século XX era um relicário de alguns de seus membros que chegaram aqui como escravizados. Porém, Deoscóredes M. dos Santos (1988), conhecido como Mestre Didi, traz alguns indícios dos Ogbonis em Salvador, no reduto da Barroquinha, identificando Aramefá – que na verdade era Ìwarèfà –, conselho de seis ministros que formavam a direção da Ogboni, sendo outros lembrados pela oralidade dos primeiros candomblés da Bahia, como os Êssa Oburô, Kayodê, Assiká, Ajadi, Adirô e Akessan, os mesmos tendo aproximação espiritual com os dirigentes dos terreiros de Egun amplamente localizados na Ilha de Itaparica.

Quanto à Boa Morte há uma profusão de equívocos em relação à sua fundação, visto que ela está ligada à Irmandade Bom Jesus dos Martírios, como uma extensão, já que ela nunca se constituiu, na cidade de Salvador, como Irmandade e sim como devoção, tendo ido parte do grupo de Salvador para Cachoeira. Segundo Luiz Cláudio Nascimento e Isidoro (1988), a Boa Morte, em Cachoeira, se reestruturou a partir da Casa Estrela, aparecendo como personagens principais um grupo de ganhadeiras libertas, conhecidas por “negras do Partido Alto”, liderado por Maria Niceta, tendo como sucessoras D. Santinha e Tutuzinha. Segundo Gaiaku Luiza, essas últimas eram filhas de Júlia, que pode ser a Maria Júlia Figueiredo, a Erelu. Embora do ponto de vista oficial não pudesse ser considerada Irmandade, a Boa Morte reestrutura-se seguindo os mesmos critérios, e sua atuação, segundo Nascimento e Isidoro (1988) era uma

forma de acobertar o candomblé Jeje-mahim Zoogodô Bogun Malê Seja Hundê; o referido candomblé teria sido concretizado no ano de 1860. Para Silveira (2006, p. 448),

[...] a devoção nos seus primórdios era a fachada para mascarar o culto dos orixás ligados à fertilidade, à terra e às águas, jamais possuindo compromisso nem se vinculou a nenhuma igreja, tendo sido, desde sua origem, uma entidade exclusivamente feminina, não tendo portanto nem perfil de uma irmandade católica leiga, nem o da Sociedade Gèlèdé.

Acerca da afirmativa de Silveira, tendemos a discordar, pois apesar de não possuir todos os pré-requisitos da Sociedade Gèlèdé, que supostamente existiu em Salvador, acreditamos que os rituais realizados ainda hoje, em homenagem aos orixás relacionados à fertilidade, às águas e à terra, pela Boa Morte em Cachoeira, aludem à sociedade das Iyá-Mi, bem como alguns de seus rituais. Isto fica mais evidente se relacionarmos às comidas votivas servidas durante a parte pública da festa. Também é notório que no segundo dia de festa pública é realizada a vigília, na qual apenas as integrantes mais velhas têm acesso, os animais são sacrificados, são apresentadas oferendas, presentes nas águas; portanto não se pode descartar a possibilidade de fazerem rituais ligados às Gèlèdés. Ademais, o candomblé Zoogodô Bogum Malê Seja Hundê foi fundado em data incerta, por uma africana, conhecida como Gaiaku Ludovina Pessoa que era também uma das primeiras integrantes da Boa Morte, portanto poderia ser uma conhecedora dos rituais das Gèlèdés.

Durante uma entrevista57 com uma das integrantes da Boa Morte, ficamos sabendo que alguns animais são sacrificados, dentre eles, um porco que também é distribuído à população carente, assim como parte da ceia branca e da grande feijoada são reservadas aos detentos, porém a entrevistada não fez nenhuma associação às Gèlèdés. Mas, no candomblé, o porco é associado ao orixá Obaluaiyê que está veiculado aos rituais mortuários e dentro do seu habitat natural fica boa parte da vida na lama; podemos supor que exista um forte vínculo com Nanã Osorongá – Odudua ou a representação da Iyá-Mi e Exu que simbolizam, respectivamente, o princípio progenitor feminino e o elemento-símbolo daquilo que é procriado; ambos associam-se à terra e à fertilidade, dentro dos eboras de esquerda. A lama, em alguns mitos, aparece como sendo o elemento utilizado por Olorun para criar o ser humano, portanto é uma matéria-prima que pode ser aludida à fecundidade e à reprodução.

Sabe-se que as sociedades secretas desde África eram discriminadas e marginalizadas; deste modo, é possível que, assim como a Ogboni tenha existido na Barroquinha de forma compacta também é presumível que a Boa Morte tenha suprimido a parte pública do festival,

restando apenas os rituais secretos, pois assim não despertaria a atenção das autoridades policiais que se encarregavam de reprimi-la. Talvez a lápide encontrada no Cemitério Nagô, em Cachoeira, com o nome de Maria Júlia Figueiredo em conexão com o depoimento de Gaiaku Luiza, a que se refere Dona Santinha e Tutuzinha como filhas de Júlia, sejam indícios de que ao menos uma das sacerdotisas da Gèlèdé de Salvador tenha residido em Cachoeira. Silveira (2006) comenta que Mãe Menininha em depoimento a Waldeloir Rego, afirma que Maria Júlia Figueiredo, Sacerdotisa do terreiro Ile Ase Iya Naso, era uma das personagens ilustres, que além de ostentar o título de Iyalodê, assumia o nome de Erelu na Sociedade Gèlèdé, mas nada afirma sobre a sua habitação em Cachoeira. Esta personagem aparece como uma das últimas provedoras da Boa Morte na Barroquinha. Pelos fatos expostos, não refutamos a ideia de que a Boa Morte ainda hoje presta homenagem às grandes mães Iyá-Mi.