Se na etapa inicial da investigação, desenvolvida por meio de um survey online, a exigência de empatia já foi necessária para a “conquista” dos sujeitos que teriam que informar dados pessoais a alguém que não conheciam, nos momentos seguintes, que implicaram
contato mais direto para a realização de entrevistas, o estabelecimento de relações de confiança se intensificou.
Segundo Norbert Elias (1994), para se penetrar nos mistérios da vida social há de se levar em conta que a maior parte dos fenômenos sociais é acessível apenas à compreensão. Nesse sentido, ao traçar os percursos metodológicos para um estudo que visa conhecer um campo complexo como o da formação artística, inspirações epistemológicas e metodológicas abertas e processuais, como a bricolage, de Kincheloe e Berry (2007), são importantes para garantir flexibilidade, criatividade e dialogia no processo de pesquisa.
Para a etapa de contato mais próximo com os jovens participantes da investigação, busquei tomar algumas precauções iniciais. Quando se desenvolve pesquisa com jovens, o pesquisador muitas vezes se depara com as tensões inerentes aos contatos intergeracionais e aos estereótipos que marcam as representações sobre o ser jovem. Esses elementos favorecem resistências ao ato de conhecer, constituindo aquilo que Ardoino, Barbier e Giust-Desprairies (1998, p. 68) denominam de negatricidade, que seria “a capacidade que o outro possui sempre de poder desmantelar com suas próprias contraestratégias aquelas [estratégias] das quais se sente objeto”.
As referências positivas que os egressos selecionados construíram em relação às instituições profissionalizantes contribuíram para a existência de um clima favorável aos encontros e para se falar sobre as experiências formativas. Na maioria das entrevistas, o tema mais “delicado” foi a questão da remuneração, embora não tenha havido recusas a abordar o assunto. Em algumas situações, era evidente a dificuldade de realizar os cálculos de composição das rendas, muitas vezes provindas de fontes variadas e intermitentes, o que também constituiu um importante dado de pesquisa.
As entrevistas foram realizadas em duas etapas distintas: a primeira aconteceu de janeiro a setembro de 2015, e tinha como referência o roteiro de entrevista (Apêndice B). Os encontros tiveram duração entre 1h 30min e 3h, e, em alguns casos, foi necessário dividi-los em dois momentos, para que não se tornassem cansativos para os entrevistados. A segunda etapa de entrevistas foi realizada em novembro de 2016 e tinha como objetivo obter esclarecimentos sobre eventuais contradições ou lacunas encontradas nos depoimentos e, principalmente, saber que mudanças ocorreram em suas vidas desde os primeiros contatos até a etapa final da investigação.
A tabulação dos dados quantitativos, feita na etapa anterior, permitiu a construção de um panorama geral do conjunto da amostra. A partir daí, dentre os 209 sujeitos da pesquisa, foram pré-selecionados 15 sujeitos que tivessem inseridos de modo mais direto em suas áreas
de formação, mas que também tivessem construído diferentes trajetórias de formação artística (na escola, na família, em projetos sociais ou em igrejas) e inserção profissional (como artistas, técnicos, professores, produtores etc.), garantindo assim uma diversidade de percursos.
Buscou-se estabelecer uma relativa paridade de gênero, mesmo considerando que apenas o curso de música possuiu mais estudantes do sexo masculino do que feminino. No entanto, justamente nesse segmento não foi possível entrevistar uma mulher. Dentre as poucas jovens formadas pelo CEEP, e do ainda menor número daquelas que investiram na carreira artística, só foi possível contatar duas musicistas, mas que por diferentes razões não puderam participar do estudo.
Dentre os pré-selecionados, 12 deles foram contatados diretamente, mas alguns não puderam participar do estudo por não terem disponibilidade de tempo ou estarem fora de Salvador no período estipulado. Efetivamente foram entrevistados 9 jovens, sendo 4 do sexo masculino e 5 do sexo feminino. Considerou-se que os mesmos seriam capazes de apresentar minimamente uma diversidade de trajetórias de formação e trabalho, devotando maior atenção à exemplaridade dos casos do que à sua representatividade em relação ao todo.
Para essa etapa da investigação foi construído um roteiro de entrevista de caráter semiestruturado (Apêndice B), organizado em blocos temáticos, articulando perguntas disparadoras, seguidas de questões de aprofundamento que seriam utilizadas dependendo da necessidade e do fluxo da interação com os entrevistados.
O roteiro de entrevista foi pensado com o propósito de auxiliar a condução do trabalho em dois momentos distintos: o primeiro focado nas experiências de formação, e o segundo, nas de trabalho. A primeira etapa compreendeu seis blocos temáticos de perguntas sobre: 1) apresentação e caracterização geral dos participantes; 2) origem do interesse pela arte; 3) experiências de socialização artística na família; 4) papel da educação formal; 5) papel dos espaços de educação não formal (igreja, bairro, projetos sociais); e 6) a profissionalização artística. A segunda etapa, contou com quatro blocos de perguntas: 7) a inserção profissional; 8) experiências e condições do trabalho artístico; 9) relações com as artes; e 10) perspectivas de futuro.
Nesse estudo, a construção de um roteiro semiestruturado relativamente extenso e aparentemente marcado por uma linearidade cronológica dos temas e eventos não reflete a forma bastante livre que caracterizou a condução das entrevistas, a partir da emergência de temáticas de interesses dos sujeitos da pesquisa. Concordando com Veiga e Gondim (2001, p. 5), “a entrevista em profundidade tem um caráter subjetivo, o que torna necessário que toda
interpretação deva levar em consideração a perspectiva da pessoa analisada”. Ainda assim, durante os contatos, buscou-se, de maneira dialógica, localizar nos depoimentos os principais suportes com que contavam, as provas e momentos críticos que constituíram seus processos de formação e inserção profissional.
Embora não haja um consenso acerca das características definidoras desse tipo de entrevista, existe uma concordância geral acerca do seu caráter discursivo e duração mais prolongada em relação à maioria das outras modalidades. Silva (2005, p. 71) entende que
[...] a técnica de entrevista em profundidade deve ser iniciada com perguntas de caráter mais concreto, fatuais e relacionadas às experiências cotidianas dos sujeitos, para gradativamente passar a perguntas que envolvam reflexões mais abstratas e julgamentos. As perguntas são formuladas exatamente para irem além da espontaneidade em direção ao que, por várias razões, não é comumente dito.
Nesse sentido, a condução das interações com os entrevistados também tomou como inspiração a proposta de “entrevista compreensiva” (FERREIRA, 2014), que busca combinar algumas técnicas dos modalidades semiestruturadas com outras de caráter mais aberto e não- diretivo, mas sem tratar o entrevistado como mero informante. Segundo Ferreira (2014, p. 986), “o entrevistador tem o papel de fazer entrever e fazer emergir o ponto de vista a partir do qual o entrevistado, ele próprio, se coloca perante determinados tópicos”.
Para realização das entrevistas, os contatos foram feitos inicialmente pelo Facebook ou por e-mail, buscando conciliar o tempo necessário para os encontros nas agendas dos participantes. Em alguns casos, os encontros tiveram que ser remarcados mais de uma vez, devido ao surgimento de demandas de trabalho para os entrevistados.
As entrevistas foram realizadas em espaços públicos (bibliotecas, universidades, escolas), à exceção de uma delas, que ocorreu na área externa da residência do participante. Os encontros aconteceram em duas etapas, sendo a primeira realizada no período de janeiro a setembro de 2015, com o objetivo de contemplar as questões previstas nos dois blocos do roteiro, relacionadas à formação e à inserção profissional dos jovens. Em alguns casos, foi necessário dividir o processo em dois momentos, a fim de evitar o cansaço dos entrevistados. Para cada jovem, a duração das entrevistas variou entre 1h45min e 3h05min. A segunda etapa foi realizada já nos momentos finais de análise de dados e escrita da tese, no mês de novembro de 2016, com objetivo de complementar lacunas e esclarecer eventuais dúvidas e contradições identificadas nos primeiros depoimentos, além de permitir fazer um balanço sobre as mudanças ocorridas em seus percursos de vida após as entrevistas iniciais.
No intervalo entre as duas etapas, foi mantido contato com a maioria dos entrevistados, além de acompanhá-los nas redes sociais e assistir alguns espetáculos, vídeos e mostras artísticas que produziram ou participaram.
As conversas foram registradas com o uso de gravadores digitais e posteriormente transcritas integralmente pelo investigador e por mais um profissional da área. Buscou-se manter a máxima fidelidade às falas originais, realizando apenas pequenos ajustes nos textos transcritos, excluindo expressões repetidas ou redundantes, que não tivessem sentido de ênfase às ideias, e corrigindo algumas palavras ou expressões que, quando discordantes da norma culta, pudessem estereotipar os discursos dos sujeitos.
Após leitura intensiva das transcrições, foram construídas categorias analíticas que retratassem as temáticas contidas no roteiro de entrevista, mas que também incluíssem outras questões que emergiram durante as conversas.
A organização das informações qualitativas obtidas nessa etapa de estudo foi feita seguindo dois procedimentos principais; um de caráter mais longitudinal e outro, transversal. No primeiro, de cunho mais biográfico, buscou-se construir perfis sociográficos dos entrevistados (vide seção 3) que retratassem suas trajetórias, entendidas como uma “série de posições sucessivamente ocupada por um mesmo agente (ou mesmo grupo) num espaço que é ele próprio um devir, estando sujeito a incessantes transformações” (BOURDIEU, 2006, p. 189).
No entanto, para conhecer uma trajetória é preciso levar em consideração os estados do campo em que ela se desenrolou (agentes, regras, configurações etc.) (BOURDIEU, 2006). Essa contextualização é apresentada na seção 2, que aborda a estruturação dos setores artísticos na cidade de Salvador, em termos de indicadores socioeconômicos, políticas públicas de cultura e de educação e dos mercados de trabalho. Com isso, foi possível estabelecer uma relação dialógica entre contextos estruturais e de vida.
A partir daí, o desenho dos perfis foi feito mediante um processo de “edição” dos diferentes momentos e eventos da vida de cada um dos nove entrevistados, com destaque para aquelas situações relacionadas às experiências de socialização artística nos âmbitos da família, do bairro, da igreja, da escola, de projetos sociais, de instituições de formação artística e de trabalho, além dos processos de inserção profissional. Com isso, fica explícito não se tratar de uma história de vida pelo caráter sintético e temático que foi impresso na construção dos perfis.
Do ponto de vista teórico e metodológico, a abordagem dos retratos sociológicos (LAHIRE, 2004) foi uma inspiração, muito embora a construção dos perfis se basearam em
entrevistas menos exaustivas do que as propostas por Lahire. Da proposição desenvolvida pelo autor, foram incorporados elementos como o cuidado na delimitação dos universos de socialização e das pessoas e práticas que compuseram estes, a atenção às atividades de sociabilidade e ao caráter dinâmico das disposições, que podem ser inibidas, ativadas ou transformadas, especialmente em momentos de crise ou de provação.
Um segundo procedimento metodológico contribuiu para o desenho dos perfis, mas foi fundamental, sobretudo, para a construção das análises transversais procedidas nas seções 4 e 5, sobre as experiências de socialização artística e de trabalho. Essa etapa consistiu na criação de uma Unidade Hermenêutica no software Atlas Ti, com todas as entrevistas transcritas e as categorias criadas. Estas foram associadas a códigos, permitindo a indexação de trechos dos depoimentos aos indicadores previamente criados. Por fim, foram gerados relatórios de citações organizados por categorias, o que possibilitou a realização de análises transversais dos temas abordados em cada um dos perfis de entrevistados selecionados.