Da “sociologia à escala dos indivíduos” de Martuccelli (2007b) são tomadas, especialmente, duas ferramentas analíticas de grande valor heurístico para compreender os processos de individuação: as noções de suporte e de prova.
Os suportes são elementos sociais (sujeitos, instituições, redes de significado) que têm a função ativa de amparar os seres e proporcionar-lhes condições de individualização. Dada a fragilidade biológica e a condição original de dependência, os seres humanos enfrentam desde cedo o desafio de “sustentar-se frente ao mundo”. Desde a Modernidade, “[...] o indivíduo tem que sustentar-se desde o interior. É o que nos assinalam os termos autonomia, independência, autocontrole, expressão” (MARTUCCELLI, 2007b, p. 39, tradução nossa). Nesse sentido, os suportes têm um papel ativo de sustentação social.
Martuccelli (2007a) buscou inspiração no existencialismo para construir essa dimensão da sua “Gramática dos indivíduos”, compreendendo os suportes como aquilo que permite que existamos enquanto indivíduos e respondamos ao “peso da existência”. Podem ser constituídos de relações, de ideias, de produtos, sejam eles de natureza material, social ou simbólica, incluindo aí suportes imaginários.14 Para um workaholic, o trabalho pode ser o suporte mais fundamental para sua existência, assim como um imaginário de sucesso pode sê- lo para um artista ou esportista em início de carreira, normalmente marcada por inúmeras dificuldades.
14 Os suportes não são unicamente materiais, podendo ser constituídos por crenças, projeções ou, ainda, por idealizações sobre si mesmos ou sobre os virtuais recursos com os quais os indivíduos supostamente contariam.
Do ponto de vista empírico, Martuccelli (2007b) salienta que não é possível estudar os suportes de forma totalmente objetiva, pois não são totalmente instrumentalizáveis como recursos ou capitais, dependendo de uma configuração ou ecologia pessoal a qual um conjunto específico de suportes se insere e se articula. Não são inteiramente objetivos, controlados e perceptíveis, existindo no meio de um “claro-escuro” – de alguma forma semiconscientes – e atuando de forma oblíqua e indireta.
No caso do campo artístico, tem-se um universo constituído por uma série de atividades que muitas vezes não são comercialmente sustentáveis, remunerações e vínculos profissionais precários e por um histórico de elitismo nos processos de educação e certificação profissional. De modo geral, a construção de suportes institucionais e familiares é decisiva para se constituírem enquanto indivíduos artistas.
Além de diversificados e difusos a uma primeira mirada, os suportes possuem legitimidade social diferente (por exemplo, o domínio da linguagem oral ou escrita; a inserção nos domínios das artes eruditas ou popular).
Muitas pessoas, por privilégios sociais e culturais, têm suportes tão legítimos que parecem invisíveis e naturais. Segundo Martuccelli (2007, p. 44, tradução nossa), “um sentimento constantemente validado socialmente reforça uma autoilusão”. Assim, uma maior dependência de auxílios públicos (serviços, benefícios sociais etc.) torna mais explícitos os elementos que os suportam. No entanto, paradoxalmente, os mais “necessitados” são os que mais se sustentam “desde o interior”, ou seja, apesar de demandarem apoio em maior quantidade, têm maior déficit de suportes.
Para os jovens artistas de origem popular que compõem o público aqui investigado – mais dependentes de apoio público na forma de instituições formadoras, patrocínios e projetos de fomento –, o papel dos suportes é bastante explícito e fundamental para a qualificação, inserção e permanência nesse incerto campo.
A outra dimensão central para o estudo também advém de uma tradição existencial de pensamento e traz a marca de uma tensão e de uma preparação para grandes desafios estruturais. Para Martuccelli (2007a, p. 148, tradução nossa), “todos os atores são confrontados com um sistema estandardizado de provas próprio da sociedade em que vivem”, sendo a vida, em si, uma grande prova.
Segundo Martuccelli (2007b, p. 83, tradução nossa), as provas seriam “desafios históricos, socialmente produzidos, culturalmente representados, desigualmente distribuídos que os indivíduos estão obrigados a enfrentar no seio de um processo estrutural de individuação”. Se a noção de prova é vista como um conjunto estrutural de desafios relativo a
cada momento histórico e social, as respostas a tais desafios é que definirão que tipo de indivíduo será constituído. As provas oferecem um operador analítico que permite compreender a diversidade de experiências sociais e as tensões decorrentes dos muitos pertencimentos de idade, classe, gênero, raça, culturais e simbólicos e, principalmente, uma ligação entre o micro e o macro, entre a subjetividade e a estrutura.
As provas possuem algumas características fundamentais. A primeira delas é a sua dimensão narrativa, ou seja, “como os indivíduos percebem suas vidas submetidas a desafios e problemas específicos” (MARTUCCELLI, 2007b). A segunda característica aponta que uma prova pressupõe um tipo de indivíduo que se encontra obrigado, por razões estruturais, a enfrentar estes desafios (escolares, laborais, relacionais e de reputação). Por fim, as provas têm um caráter avaliativo e seletivo, que implica as possibilidades de falhar ou ter êxito diante delas.
Existem provas de ao menos dois grandes grupos: o daquelas ligadas às instituições que modelam os atores sociais (escolares, familiares, trabalho) e de outras relacionadas com a história, relações com os coletivos, com os outros e consigo mesmo.
As sociedades têm um número mais ou menos estandardizado de provas nos processos de individuação, com diferentes graus de formalização, das mais formalizadoras (ou formais) (escolares e laborais) até as menos (familiares), até outras de natureza intersubjetivas e existenciais (MARTUCCELLI, 2007b).
Martuccelli (2007b) propõe a seleção de um número relativamente reduzido, porém significativo de provas para se compreender contextualmente os modos de individuação uma sociedade. Através do trabalho de interpretação é possível se dar conta dos eventos singulares que tem o status de prova e a dimensão estrutural presente em depoimentos. Alguns “eventos ou momentos choque” permitem identificar (pelos indivíduos) até que ponto suas vidas e eventos foram condicionados por oportunidades estruturais.
Para fins deste estudo, serão abordadas sobretudo as provas familiares, escolares e laborais, decisivas para os processos de individuação da juventude. Nas provas familiares vive-se a tensão entre a obrigação moral para com os parentes e a fidelidade ética a si mesmo, envolvendo um jogo de negociações e confrontos entre valores e expectativas. As escolhas profissionais, ou mesmo os estilos de vida presentes no campo artístico, não raramente são fonte de tensão entre jovens e familiares. Diferentes estereótipos associam a vida artística à boemia, liberalidade excessiva, mas também à precariedade, imagens que tensionam aspirações e projeções de segurança e/ou sucesso frequentemente construídas pelas famílias para seus filhos.
Uma prova escolar é o resultado de uma tensão entre os processos de seleção social operado pela escola e a confiança institucional que a instituição transmite ou não para os atores. Num contexto de democratização do acesso ao ensino – tendendo à universalização das etapas iniciais – e de prolongamento das experiências de escolarização em diversos níveis, as provas escolares operam um processo de triagem social que não se restringe às certificações oficiais (diplomas). Estabelece-se nas atividades desenvolvidas (estudos, práticas, exames) e nas relações interpessoais cotidianas um complexo jogo que envolve a confirmação de “talentos” e habilidades, projeções de continuidade de estudos e de obtenção de trabalho.
Nas experiências educativas de nível médio, profissionalizante e superior, os processos de seleção são ainda mais tensos por participarem mais diretamente das transições para o mundo do trabalho e a mediação da pretendida inserção do jovem no “mundo adulto”.
Os estágios, audições, processos seletivos para ingresso em grupos e instituições ou submissões de projetos a editais são recorrentes entre jovens que experimentam o desafio da inserção profissional. As provas laborais, embora comumente marcantes, não são as únicas experimentadas no mundo do trabalho artístico, que também podem expor permanentemente seus profissionais ao crivo do público, da crítica, de educandos e educadores, além dos próprios pares, constituindo um constante jogo de avaliações decisivo para a construção de reputações e de redes de relações e reconhecimento.
Abordagens como as do “curso de vida” (life course perspectives) se interessam por temas como trajetórias, transições e pontos de viragem (turning points) (TERUYA; HSER, 2010; VINKEN, 2007),15 priorizando eventos regulares e/ou previsíveis como o casamento, a saída da casa dos pais, o ingresso no emprego etc., muitas vezes relacionados a normas de grupos etários ou sociais específicos. Outras pesquisas de cunho biográfico (THOMSON et al, 2002) preferem o termo critical moments (momentos críticos) para se referir a eventos e momentos também decisivos num percurso de vida, mas incluindo acontecimentos mais fortuitos como doenças e perdas familiares, envolvimento com drogas, gravidez inesperada, bullying, assunção de uma identidade sexual não hegemônica etc.
Nas pesquisas sobre curso de vida, um turning point é visto como uma mudança objetiva nos eventos de um percurso esperado, enquanto em pesquisas de cunho biográfico
15Turning point “é um conceito-chave da abordagem desenvolvimental do curso de vida, distinguindo-se de uma mudança temporária ou de mera flutuação nos comportamentos” (TERUYA; HSER, 2010, p. 190, tradução nossa). Ele se refere a eventos que redirecionem uma trajetória de vida.
tais mudanças são mais complexas e subjetivas, relacionando-se a reinterpretações e transformações identitárias (REIMER, 2014).
Além disso, para muitos indivíduos, as situações críticas ou de mudança podem ser produto de uma sucessão de pequenos eventos e dos efeitos de uns sobre os outros, sem que correspondam exatamente àqueles momentos mais previsíveis e padronizados, como será possível perceber em algumas das trajetórias dos jovens entrevistados para este estudo.
Embora ambas as noções (pontos de viragem e momentos críticos) ofereçam um importante suporte para compreender a tensão entre regularidades e singularidades em percursos de vida, indicando alguns pontos de partida que podem orientar o fluxo de uma investigação no emaranhado de eventos que constituem uma biografia, Carrigan (2013, tradução nossa) atenta para o fato de que há uma “tendência para a diversificação de a experiência individual dar origem a uma autocompreensão individualizada de suas causas subjacentes”. Nesse caso, a busca por articular contextos de vida e contextos estruturais é assumida como uma referência essencial para o curso da investigação.