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Kâr Payı Dağıtım Politikasını Belirleyen Etmenler

1.3. KÂR PAYI POLİTİKASININ ÖNEMİ

1.3.2. Kâr Payı Dağıtım Politikasını Belirleyen Etmenler

Como já dito no primeiro capítulo, para dar conta do que as práticas profissionalizantes não deram no combate à delinquência juvenil, da combinação entre médicos, higienistas e juristas da época, surge, em 1927, a primeira lei específica para a infância e a adolescência: o Código de Menores.

Até o início do século XX, no Brasil, o termo “menor” referia-se a todos os que não tinham atingido a maioridade. Com a vigência do Código de Menores, o termo passa a ser institucionalizado e incorporado ao nosso vocabulário em referência à criança e ao adolescente pobres, englobando dois focos: o carente desassistido, que precisa de proteção, e o delinquente que requer vigilância e controle. Ambos vinculam a criança e o adolescente à ____________

90 atenção especial do Estado, enquanto ao “não-menor”, ou seja, crianças e adolescentes favorecidos socialmente estão ligadas às instituições família e escola. Para os menores, conforme Pinheiro (2006) o Estado constrói um conjunto de medidas de “proteção” para garantir que estarão sob sua tutela, longe das possibilidades de se “desviarem”.

Inicia-se a era do isolamento, da retirada do convívio social de crianças e adolescentes a quem se atribuía o cometimento de atos considerados infracionais. É o uso da punição como instrumento de correção, pela exclusão da vida social, uma forma de neutralizar a ameaça que esses adolescentes representavam para a sociedade (PINHEIRO, 2006, p. 61).

Segundo Pinheiro (2006), este conjunto de práticas é sustentado pelos discursos que engendram uma infância e uma adolescência como objetos de repressão. Embora as práticas de institucionalização não tenham permanecido, na prática, a autora lembra que tal concepção continua a fazer parte do imaginário social brasileiro.

O Novo Código de Menores é instituído, em 1979, e os termos “menor abandonado” e “delinquente” são substituídos pela formação “situação irregular”, mas as crianças e os adolescentes pobres continuam legitimados pelo Estado, inseridos no terreno da imoralidade e da anormalidade.

A partir dos anos 70, com os movimentos de luta pela redemocratização do país e pela garantia dos direitos humanos no Brasil (após a opressão do regime militar), emerge socialmente uma construção discursiva acerca da criança e do adolescente como sujeitos de direitos. Uma série de práticas que se contrapõem à institucionalização, voltadas para a inserção da criança e do adolescente na comunidade, mais abertas ao diálogo com as próprias crianças e adolescentes e suas famílias, assinala essa mudança de paradigma (PINHEIRO, 2006).

Legalmente, o conjunto de dispositivos que sustenta essa concepção tem amparo na Constituição Federal de 1988 e sua lei complementar, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Todo o texto do ECA tem como princípio norteador a garantia da cidadania. O ponto talvez mais subjacente a esse princípio foi a substituição do termo menor por criança e adolescente. O ECA tenta, portanto, romper com a lógica menorista e punitiva do Código de Menores, evidenciando um processo de rarefação do enunciado, assim como aconteceu com relação à transformação da loucura em doença mental. Nesse caso, no entanto, o que ocorre são rupturas no discurso, a separação entre a loucura e a doença mental. No caso do discurso jurídico, o que parece se operar é a continuidade. Embora o enunciado tenha perdido força, a rarefação não ocorreu de todo. A construção discursiva do menor, como o pobre, seja carente ou delinquente, está tão arraigada culturalmente que, mesmo com a substituição, o “menor”

91 continua a ser visto de forma depreciativa, estigmatizada. Além disso, a substituição do vocabulário não garante que a lógica menorista tenha desaparecido. Isto porque não só o termo, mas todo o conjunto de políticas públicas voltado para a adolescência, histórica e culturalmente, parece restrito a um segmento, o menos favorecido. A gestão das questões relacionadas à infância e adolescência sempre ficou a cargo do Estado, por meio de programas biopolíticos de assistência médica e social, enquanto as intervenções voltadas ao público mais favorecido tinham caráter doméstico e familiar.

Mesmo que juridicamente os dispositivos de amparo e proteção à infância e adolescência sejam universalistas, como por exemplo, o ECA, eles acabam se constituindo como direcionado ao segmento pobre. A discussão em pauta no contexto atual a respeito da redução da maioridade penal, por exemplo, circula na mídia, nos discursos político-partidários, e atravessa o senso comum carregada de um único significado: punir os adolescentes (pobres) que ultrapassarem a linha divisória entre ricos e pobres na prática de uma infração.

Coimbra, Bocco e Nascimento (2005) ratificam a importância do ECA como “instrumento de contraposição às campanhas conservadoras que pregam o endurecimento de penas, a redução da idade penal e a implantação de uma política de tolerância zero” (p. 5), ou seja, como um diferencial com relação às leis que o antecedem no que diz respeito ao fortalecimento da cidadania. No entanto, as autoras também colocam em análise o fato de que o texto da lei tem como base uma concepção desenvolvimentista da adolescência, carregada dos significados já discutidos no tópico anterior, especialmente o caráter universal, normativo e essencialista. É inclusive o enunciado sobre os adolescentes como sujeitos em desenvolvimento que respalda a defesa da manutenção da maioridade penal aos dezoito (18) anos.

O texto analisado em referência ao discurso jurídico foram os artigos 1º ao 4º do Título I (Das Disposições Preliminares), do Livro I (Parte Geral) do ECA, (conforme Anexo D):

Ao mostrar o texto e solicitar que se posicionassem com relação a ele, deparei-me com o total desconhecimento do grupo de qual era a fonte daquelas palavras. Mesmo quando identifiquei, afirmaram não conhecer a lei, mas se posicionaram, em sua maioria, afirmando que concordam parcialmente. Apesar desse desconhecimento ou, ao contrário, por causa disso, quando expliquei que o foco da lei é garantir os direitos de crianças e adolescentes (e não, por exemplo, a questão do intervalo etário, sobre a qual queriam discutir), os argumentos denotam um atravessamento em suas falas de toda a história de construção das práticas de biopolítica, ou seja, a de que ele é direcionado ao segmento menos favorecido, embora também tenham reconhecido que a falha desse dispositivo jurídico seja exatamente sua

92 aplicabilidade na garantia de direitos aos que mais precisam. Quando questionei sobre o público de quem ou para quem trata a lei, responderam:

“Não é para todos, porque nem todos os adolescentes têm seus direitos respeitados” (Eduardo).

“Eu acho que (todos) têm direito, mas não necessariamente acontece” (Amanda). “Eu acho que quando fala em melhorar a vida, é dos mais necessitados” (Amanda). “Hoje a gente não precisa, mas no futuro pode ser que sim” (Laura).

“Eu concordo com a lei e acho que é assim que devem funcionar as coisas. As crianças e adolescentes merecem ter seus direitos e deveres, e eles merecem e devem ser cumpridos, mas infelizmente isso não funciona pra todos os adolescentes e crianças, digo isso por que muitos adolescentes e crianças não são assegurados de todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade. Muitas crianças e adolescentes também não têm com absoluta prioridade, ou sequer de forma alguma a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, ao respeito, à dignidade, à liberdade e à conveniência familiar e comunitária” (Glauber – postagem Facebook).

Embora sem entender muito o que é esse ECA, parece que a noção do que é ou não direito é clara para os membros do grupo. O Estatuto não apareceu no discurso deles, por exemplo, como um dispositivo fracassado porque não pune os adolescentes infratores. Ou seja, suas falas não estão na mesma formação discursiva menorista, há uma descontinuidade. O objeto de seus enunciados não é o menor, mas o adolescente como sujeito de direitos, embora eles mesmos não ocupem este lugar. Não pensam em si como sujeitos que precisam recorrer à lei para garantir seus direitos. Pelo menos não hoje. Para estes adolescentes que não entendem de leis, que nem conhecem os antecedentes do Estatuto, ele constitui um dispositivo que marca uma diferenciação entre as adolescências – os que precisam e os que não precisam do amparo legal.