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BÖLÜM 4: AFGANİSTAN’DA TİCARET

4.1. Kâbil’deki Ticaret

“A mais abjeta nostalgia esconde a nostalgia do paraíso.” 

 

  É  preciso  fazer  uma  pausa  para  pensar  um  pouco  sobre  o  papel  e  o  significado  do  simbolismo  mágico,  mitológico  e  religioso  na  construção  de  uma  visão de mundo, pois por mais díspares que sejam suas formas concretas adquiridas  em  cada  cultura  humana  pelo  mundo,  elas  são  sempre  fundamentalmente  expressões  da  mesma  coisa.  E  isso,  desde  que  o  Homo  sapiens  é  Homo  sapiens.  Eliade  (1991)  considera  o  simbolismo  como  “um modo autônomo de conhecimento  (…)  que  foi  geral  na  Europa  até  o  século  XVIII.”28  Curiosamente,  ele  aponta  uma 

retomada  na  elevação  do  status  do  conhecimento  simbólico  nas  sociedades  ocidentais  durante  o  século  XX,  segundo  ele,  uma  “reação contra o racionalismo, o 

substância  da  vida  espiritual”,  eles  podem  ser  mutilados,  camuflados,  degradados,  mas não podem ser apagados, pois são constituintes do ser humano. O pensamento  simbólico  é  mais  primitivo  e  precede  a  linguagem  e  a  razão  discursiva,  e  por  isso  desafia  qualquer  outro  meio  de  conhecimento.  Segundo  Ele,  os  mitos  e  seus  símbolos respondem a uma necessidade e cumprem uma função – “revelar as mais 

secretas  modalidades  do  ser.”  A  vida  inconsciente  é  mais  filosófica,  mais  mítica  e 

mais poética do que a vida consciente ‐ elas se realizam respectivamente, por meio  da  existência  de  um  homem  a‐histórico  (mítico,  arquetípico)  e  de  um  homem  histórico (o indivíduo biográfico). E é através do símbolo e do simbolismo que, de  acordo com ele, o homem histórico se deixa reintegrar ao mundo mítico primordial  do  homem  arquetípico  a‐histórico.  “A mais pálida existência individual está repleta 

de  símbolos,  o  homem  mais  realista  vive  de  imagens  (…)  os  símbolos  jamais  desapareceram da atualidade psíquica: eles podem mudar de aspecto, mas sua função  continua a mesma. (…) A mais abjeta nostalgia esconde a nostalgia do paraíso”.29  A 

função do simbolismo, como da linguagem, é a de aproximar os homens de maneira  eficaz. E nisso Eliade e Berger se encontram num argumento comum, para Eliade, “se 

existe uma solidariedade total do gênero humano, ela só pode ser sentida e atuada no  nível  das  imagens.”  E  aí  está  a  importância  do  universo  simbólico  como  conceito 

proposto  por  BERGER  e  LUCKMANN  (1973),  pois  durante  o  estabelecimento  das  instituições  culturais  humanas  somente  o  estabelecimento  de  um  universo  simbólico  coerente  e  compartilhado  permite  a  criação  da  solidariedade  necessária  para a existência de um sentimento de pertencimento a um grupo. 

 

  A dessacralização da vida do homem moderno alterou o conteúdo de sua vida  espiritual,  30  mas  não  rompeu  com  a  matriz  de  sua  imaginação,  “todo  um  refugo 

mitológico  sobrevive  em  zonas  mal  controladas.”  A  vida  do  homem  moderno  está 

cheia  de  “mitos  esquecidos”,  “símbolos  abandonados”  e  “hierofanias  decadentes”.  A  espiritualidade  foi  laicizada  e  maquiada,  “mas  continua  presente  no  fluxo  semi 

consciente  da  mais  material  das  existências.”  O  homem  moderno  desconhece  as 

mitologias  e  teologias,  embora  continue  se  alimentando  de  “mitos  decadentes”  e  “imagens degradadas”. “Toda essa porção essencial e imprescritível do homem, que é 

a sua imaginação, está imersa em pleno simbolismo e continua a viver dos mitos e das  mitologias  arcaicas  e  teologias.”  A  imaginação,  que  etimologicamente  provém  de  imago  –  imagem,  representação  ou  imitação  –  imita  modelos  exemplares, 

reproduzindo‐os,  reatualizando‐os,  repentindo‐os  infinitamente.  “As imagens tem o 

poder e a missão de mostrar tudo o que permanece refratário ao conceito.” Os mitos 

se  degradam  e  os  símbolos  se  secularizam,  mas  não  desaparecem  nem  na  mais  positivista  das  civilizações.  Em  seu  livro  Imagens  e  Símbolos,  Eliade,  depois  de  discorrer  sobre  os  mitos  do  centro  do  mundo,  da  árvore  ou  da  escada,  do  tempo  infinito e cíclico, dos nós e das amarrações, e apresentar algumas de suas inúmeras  variantes históricas, aponta para o fato de que a morfologia e o simbolismo desses  mitos  ultrapassa  muito  essas  relações  históricas,  apresentando  um  caráter  muito  mais universal e a‐histórico no seu cerne – algo não constituído, mas constituinte.     

Contentemo‐nos  em  concluir  que  estamos  tratando  de  questões  a‐históricas  de  um  mesmo  simbolismo  arquetípico  que  se  manifesta  de  maneira  coerente  e  sistemática  tanto  no  plano  do  inconsciente  (sonho,  alucinação  e  devaneio),  como  no  do  transconsciente  e  do  consciente  (visões  estéticas,  rituais,  mitologia,  philosophenoumena). (ELIADE, 1991, p. 89)  

 

Para  mostrar  a  durabilidade  e  a  degradação  de  um  símbolo,  a  história  da  pérola  é  um  bom  exemplo  ‐  com  sua  transformação  de  um  símbolo  cosmológico  sagrado  em  adornos  de  valor  puramente  estético  e  econômico.  Durante  toda  a  história da medicina, tanto ocidental como oriental, a pérola sempre desempenhou  um papel importante: em Takkur, na Índia, no século XIII, era usada como remédio  em casos de hemorragia e icterícia, assim como para casos de possessão e loucura;  em  Narahari,  também  na  Índia,  era  remédio  contra  envenenamento,  tuberculose,  problemas de visão, assim como era considerada um símbolo de força e saúde; tanto  a  medicina  chinesa  como  a  árabe  reconheciam  as  virtudes  da  pérola  e  as  usavam  para tratamento de problemas de visão. Por volta do século VIII já existem  indícios  que  mostram  o  uso  medicinal  da  pérola  na  medicina  européia.  O  médico  alemão 

Malachias Geiger (1637)31, quatrocentos anos depois dos médicos hindus, ocupava‐

se  do  uso  medicinal  da  pérola,  usando‐a  para  tratamentos  de  epilepsia,  loucura  e  melancolia,  e  Francis  Bacon  (1562‐1626)  defendeu  a  pérola  como  droga  que  propiciava  a  longevidade  (uma  das  principais  virtudes  originais  das  pérolas).  O  papel exercido pela pérola em tantas e tão diferentes medicinas é, segundo Eliade,  fruto de seu valor mágico e religioso arquetípico primordial. “Por ter sido emblema 

da  força  aquática  geradora  a  pérola  tornou‐se,  posteriormente,  tônico  geral,  afrodisíaco e remédio contra a loucura e a melancolia (doenças de influência lunar).”  (ELIADE, 1991, p. 144.). Embora a memória do significado cosmológico original das  pérolas tenha se perdido e se corrompido, seu valor como objeto não foi perdido, ele  mudou de atribuição e passou a se definir por meio de outros parâmetros, é possível  que Weber sugerisse que se trata de um caso da adequação de uma ideia ao destino  de sua comunidade portadora, de modo que elas mudam ou evoluem sempre tendo  os interesses dessas comunidades, à qual dão suporte, como norte.      Como bem observa Eliade, há uma categoria de símbolos que são universais e  acompanham a humanidade desde seu início, embora ao longo da história tenham  continuamente se alterado (alguns diriam evoluído, outros degenerado) de acordo  com  a  conjuntura  social  específica  de  cada  sociedade.  Poderíamos  também  usar  o  termo  ‘se  adaptado’  pois  sugere  que  os  símbolos  se  alteram  em  função  de  alguma  coisa – e essa coisa, nesse caso, é a sociedade. A adaptação histórica das simbologias,  embora  possa  mudar  o  caráter  original  dos  símbolos,  nunca  os  desliga  definitivamente  de  sua  fonte  original,  quer  dizer,  de  uma  forma  ou  de  outra,  sua  adaptação é perceptível e se pode traçar o caminho que leva aos modelos originais.  Das  mitologias  dos  povos  de  caçadores  e  agricultores  (que  se  baseavam  principalmente no modelo dos ciclos naturais dos astros, das estações e dos vegetais  ‐  e  portanto  mitologias  animistas  e  panteístas),  o  cristianismo  primitivo  se  apropriou  de  muitos  símbolos.  Teófilo  de  Antioquia32  (186),  argumentando  com 

aqueles que negavam a ressurreição dos mortos, apela para os ritmos vegetais: “Não 

há uma ressurreição para as sementes e para os frutos?”33 E Clemente de Roma (35‐

noite deita‐se, o dia levanta‐se; o dia vai a noite chega.”35  Esse  simbolismo  já  chega 

aos cristãos carregado de significados mitológicos pré‐cristãos e eles interpretaram  estes significados sagrados atribuídos aos ritmos cósmicos a partir da revelação e da 

fé,  que  “não  destruía  as  significações  pré‐cristãs  dos  símbolos,  adicionava‐lhes  simplesmente um valor novo.”36 Da mesma forma, o simbolismo aquático arcaico, em 

que a água é símbolo de fertilidade e da vida, assume no cristianismo uma adaptação  na simbologia do batismo, em que o batizado está nascendo/renascendo para Deus.  O  que  estas  relações  parecem  sugerir,  é  que  a  nova  orientação  dada  aos  símbolos  antigos acaba condicionada pela estrutura original dos próprios símbolos, de forma  que  eles  nunca  acabam  completamente  descaracterizados,  pois,  essencialmente,  mesmo  que  por  meio  de  diferentes  manifestações  culturais,  eles  expressam  fundamentalmente  a  mesma  coisa.  Afinal,  a  hierofania  da  água  será  sempre  essencialmente  a  mesma  coisa,  esteja  ela  dando  suporte  ao  batismo  de  um  bebê  cristão no século XX, ou a um banho de fertilização ritual de uma mulher  de uma  tribo  nômade  do  paleolítico  superior,  será  sempre,  essencialmente,  uma  manifestação  do  sagrado  através  do  uso  ritual  da  água  (curiosamente,  sempre  associado  às  intenções  de  purificação,  regeneração,  fertilidade  e  nascimento  ou  renascimento). 

   

Benzer Belgeler