BÖLÜM 3: DİNİ HAYAT VE EĞİTİM
3.5. Afganlarda Eğitim, Dil ve Öğrenme
3.5.1. Afganlarda Eğitim
“In certis unitas, In dubiis libertas In omnibus charitas” Para analisar o Organon*1 da Arte de Curar, escolhemos uma edição italiana1
(da sexta edição atualizada por Hahnemann), dada a grande importância histórica da Itália na divulgação desta doutrina (diga‐se de passagem, foi lá que Jules Benoit Mure, o principal introdutor da Homeopatia no Brasil, tomou contato com ela pela primeira vez). Mas não só por isso. A Itália continua atualmente um importante centro de divulgação da doutrina homeopática e possui bons comentaristas desta obra capital da Homeopatia, alguns dos quais prefaciam e comentam esta edição (fac‐simile da edição de 1941 da Casa Editrice Libraria A. Salvatore Belluno). Traduzida diretamente do alemão para o italiano pelo médico Giuseppe Riccamboni (e prefaciada por ele), esta tradução é considerada A tradução clássica da sexta edição de Hahnemann para a língua italiana, principalmente por tratar‐se de uma tradução reconhecidamente escrupulosa e fiel ao texto original e não se dar a adaptações, atualizações e interpretações como é comum à muitas “traduções” do
Organon.
A versão do Organon usada atualmente por praticamente todos os homeopatas é a sexta edição revisada por Hahnemann, cuja redação, executada até julho de 1843 (ano de sua morte) só acabou vindo a público em 1921 na Alemanha (e 1922 nos E.U.A) com 291 parágrafos. Diferente das edições anteriores, a sexta edição traz um prólogo onde Hahnemann comenta as cinco edições precedentes e expõe as alterações introduzidas na 6ª edição.
* Do latim, “A Ferramenta”.
A primeira edição, de 1810, 2 trazia um título um pouco diferente: Organon
da Medicina Racional [Organon der rationellen Heilkunde] (e possuia 271
parágrafos). De fato, esse título expressa uma característica marcante de Hahnemann ‐ seu empirismo experimental e suas observações meticulosas.3 O que
não podemos deixar de apontar, e que comentaremos mais detidamente um pouco à frente, é o significado que tinham para Hahnemann as palavras ciência e racional, palavras que modernamente suscitam ideias um tanto diferentes daquelas associadas à elas nos tempos de Hahnemann. Por hora, basta ressaltar que no prefácio desta primeira edição Hahnemann sublinha que não há nenhuma atividade humana mais universalmente reconhecida como arte conjectural, desde o fim da antiguidade, do que a arte de curar, por isso, afirma ele, mais do que nenhuma outra arte, a arte da cura não pode prescindir de uma profunda auto crítica, ou seja, do exame crítico de seus próprios valores fundamentais. Ele se considerava, dentre todos os seus contemporâneos (e afirma isso nesse prefácio), o único que havia sido capaz de fazer essa auto crítica sem preconceitos ou concessões, chegando à conclusão de que a verdadeira arte da cura era regida pelo princípio dos semelhantes.
Esta primeira edição do Organon foi resultado de um período de estudos que Hahnemann iniciou com a tradução da obra de William Cullen (1710‐1790) Tratado
sobre Materia Medica (1789). É nessa obra que ele estabelece seu princípio
norteador “similia similibus curantur”4 – o princípio da similitude ou da cura pelos
semelhantes que, em poucas palavras, pode ser resumido (muito sucintamente) como: a cura se dá pela administração de substâncias que em pessoas saudáveis, causam os mesmos sintomas que se observam nas pessoas doente5. Aparentemente,
de acordo com seus biógrafos, seu primeiro insight sobre a questão da similitude se deu estudando o quinino (Chincona officinalis), quando ele notou que a sua administração num organismo saudável (Hahnemann experimentava as substâncias em si mesmo), causava efeitos similares aos sintomas da malária. Ao perceber que
malária em um organismo são, teve, aparentemente, o primeiro insight sobre o princípio da cura pelos semelhantes. 6 Em 1819 vem à público a segunda edição do Organon, já com o novo título, pelo qual ficou conhecido: Organon da Arte de Curar. Essa mudança parece indicar que Hahnemann considerava o termo Arte de Curar mais apropriado para descrever a essência de seu trabalho do que propriamente o termo ciência médica racional. Essa edição vem acrescida de 47 novos parágrafos (318 ao todo) com novas observações e insights suscitados por suas contínuas pesquisas. Na terceira edição de 1824 (320 parágrafos), Hahnemann nos dá mostras, por meio de comentários do prefácio, de estar ciente da boa difusão de sua doutrina e do aumento do seu número de adeptos. Assim, ele diz no mesmo prefácio, “não é necessário aplaudir a causa da Homeopatia”, pois seus resultados falam a seu favor e o tempo nada fará além de confirmá‐los. Isso nos dá uma amostra não só do tamanho de sua auto confiança, como também do caráter altamente empírico de suas pesquisas e seu elevado apreço pelas evidências. Ele termina o prefácio anunciando e comemorando a tradução francesa do Organon pelo Barão E.G. Von Brunnow.
A quarta edição é de 1829, e traz em seu prefácio um curioso conjunto de afirmações que parecem mostrar que Hahnemann já está respondendo às primeiras críticas elaboradas pelos médicos contra a Homeopatia. Um dos argumentos usados por críticos de sua época, que acusavam a Homeopatia de ser inócua, era de que os resultados obtidos pelos tratamentos homeopáticos eram devidos à natura
medicatrix, ou seja ao fato de que as doenças se curavam naturalmente (por meio
desse princípio, que possui a natureza, de curar por si mesma ferimentos e doenças). Como veremos mais adiante, este é um ancestral (não direto, mas um homólogo) do moderno argumento dos críticos da Homeopatia que atribuem seus resultados ao efeito placebo. Hahnemann sustenta, nesse prefácio, que a natureza “é cega, privada de inteligência e instinto”, e que quando a saúde de um organismo sofre um distúrbio só a Homeopatia e sua proposta terapêutica podem verdadeiramente auxiliá‐lo em sua recuperação. Então, ele traça um grande quadro
da medicina de sua época, fazendo uma análise das tradições médicas desde a antiguidade. Hahnemann também cita uma série de exemplos do que ele chamou de “curas homeopáticas involuntárias” praticadas por médicos das antigas escolas, e traçou as diferenças fundamentais entre a nova arte de curar preconizada por ele e a velha arte de curar que ele considerava ultrapassada e perigosa. Essa edição tem 28 parágrafos a menos que a anterior (292), e mostra que houveram importantes reformulações, sobretudo entre os parágrafos 70 e 75, em que ele introduz sua recém criada teoria da natureza das doenças crônicas (elaborada em 1828 em seu
Tratado sobre a Natureza e Cura das Doenças Crônicas).
A quinta edição do Organon é de 1833 e, por já se haver difundido largamente pela Europa adquirindo novos adeptos, também adquiriu novos adversários. Assim, ao sair do prelo, a quinta edição já veio à público com uma severa crítica formada pelo establishment de seus opositores médicos. Por isso, no prefácio desta edição Hahnemann faz uma crítica contundente aos procedimentos terapêuticos da “alopatia”, “esta arte funesta” 7, alegando serem seus métodos
brutais, sem fundamentação, coerência ou comprovação experimental e impermeáveis aos argumentos da razão – e com isso, causavam em seus pacientes mais malefícios do que as próprias doenças (no que ele certamente tinha razão em se tratando da medicina praticada na Europa durante os séculos XVIII e XIX) 8. À este
modelo, ele opõe o modelo homeopático, o qual, ele esclarece, evidencia a propriedade de cada um dos medicamentos utilizados e os administra de acordo com princípios claros e fundamentados na observação experimental.
Nesta edição aparece pela primeira vez um elemento que será uma constante ne relação entre Homeopatia e Medicina Oficial ‐ a crítica aos homeopatas que “misturam a prática incompleta da alopatia aos seus pretensos tratamentos
homeopáticos”. Esta é uma crítica que também será feita pelo lado da Medicina
Oficial, contra os médicos que misturam as duas práticas. Porém, apesar das críticas forjadas por ambos os lados, a prática de misturar tratamentos homeopáticos com tratamentos médicos se intensificou e poderíamos dizer que se tornou corrente e,
até mesmo, institucional. Outra importantíssima mudança ocorrida nesta edição, se dá entre os parágrafos 9 e 12, onde ele introduz seu conceito de Força Vital, uma inovação de central importância para a fundamentação teórica da doutrina homeopática.
A sexta edição, que analisaremos aqui, inicia‐se com uma nota (do ano de 2013) dos editores que não deve passar desapercebida por quem pretende entender a prática da Homeopatia nos dias de hoje. Diz ela:
Se é verdade, como foi calculado, que nos últimos dez anos, 50% de todo o conhecimento médico adquirido perdeu a validade, pode parecer paradoxal apresentar hoje, como atual, uma obra médica escrita a quase duzentos anos. Ainda assim, por parte de médicos e estudiosos ainda se faz recurso ao Organon de Hahnemann, não como tributo formal de reconhecimento ao fundador da Homeopatia e escritor de sua obra capital, mas como autêntica obra de referência operacional e conceitual vivida cotidianamente na prática profissional.
Sem dúvida são inumeráveis e amplos os novos conhecimentos devidos à moderna pesquisa médica e, por isso mesmo, é extraordinária a durabilidade temporal deste livro, que continua sendo, para milhares de médicos de diversos países e tradições culturais, um sólido fundamento para a pesquisa e para o exercício da arte médica homeopática. (HAHNEMANN, 2013, p. 5) 9
Trata‐se, de fato, de uma observação muito pertinente esta de sublinhar esse
aparente paradoxo entre a moderna dinâmica de produção de conhecimento
(descartável, temporário e atualizável) e um conhecimento da virada do século XVIII para o XIX usado em sua forma original ainda nos dias de hoje (portanto, estático e imutável, praticamente um manual de conhecimento tradicional). Há, porém, um contexto que precisa ser delineado aqui, que é o fato desta observação estar sendo usada com o intuito, não de estabelecer os possíveis reais motivos pelos quais esta
obra tem uma grande durabilidade temporal, mas para enaltecer a obra como ‘atualíssimo manual de pesquisa e prática terapêutica’, subentendendo que um conhecimento com tal antiguidade que não sofreu mudanças significativas deve, de fato, revelar verdades incontestáveis.10
O que se pretende com uma análise do Organon, é mostrar quais as bases do conhecimento homeopático e como elas foram estabelecidas por Hahnemann, para depois ressaltar as características que consideramos as mais importantes para a compreensão do universo simbólico que a legitima (dando‐lhe significado) e a estabelece como instituição permanente. Para tanto, selecionamos alguns parágrafos que consideramos os mais significativos e vamos comentá‐los individualmente. (Todos os textos transcritos abaixo, foram traduzidos do italiano pelo autor, todas as numerações das notas do texto original estão entre parênteses, e todas elas são apresentadas logo após a transcrição do parágrafo.) § 1. O objetivo principal e único do médico é o de trazer o doente à saúde, ou, como se diz, curá‐lo. (1) Nota (1) / § 1. E não conjecturar e erigir (como muitos médicos, por desejo de fama, dispendendo tempo e forças) sistemas vazios de ideias e hipóteses sobre a íntima essência dos processos vitais e sobre a origem das doenças na invisibilidade interior do nosso corpo, ou então as incontáveis tentativas de explicar as manifestações das doenças e suas causas precípuas, sempre escondidas (…) com termos ininteligíveis e com frases pomposas e abstratas – tudo para iludir os ignorantes, enquanto o mundo gemedor dos doentes clama, em vão, por auxílio.
Destas fantasmagorias eruditas – à que chamamos medicina teórica e que possui até algumas cátedras – já estamos fartos e já é
tempo de acabar com essa medicina que engana com palavrórios a pobre humanidade e começar realmente a agir, ajudar, curar.
Não é preciso muito esforço para notar que no parágrafo inaugural de sua obra, suas primeiras palavras são destinadas à uma feroz crítica à Medicina Oficial. No parágrafo em que ele abre a sua obra e define o objetivo principal do médico e da medicina como sendo a cura dos doentes, ele usa uma nota de rodapé (praticamente como uma continuação do parágrafo) para tecer sua devastadora crítica à Medicina Oficial, que ele começa acusando de ser puro discurso vazio, escolástico, incoerente e de má fé, e termina por clamar que se acabe com ela definitivamente. Ele afirma que os médicos não curam e não cumprem sua função médica. Fica claro, desde o início, que Hahnemann não é somente um médico dedicado e incansável pesquisador, é também um grande divulgador de sua doutrina ‐ que entrou de corpo e alma na batalha pela promoção da Homeopatia (como foi característica de muitos discípulos seus, tal como é o caso de Jules Benoit Mure). Por isso mesmo, por esse caráter político daqueles que pretendem implantar uma grande mudança
fundamental na sociedade, sua obra tem um certo sabor de manifesto e seu trabalho
tem uma clara aura de missão.
§ 2.
A cura ideal é a restauração rápida, doce e duradoura da saúde, ou seja, a remoção do mal em sua totalidade da forma mais rápida, mais segura e inócua, o que por si é evidente.
§ 3.
se o médico entende a doença – quer dizer, se ele sabe o que deve ser curado em cada caso particular de doença = reconhecimento da doença, indicação; se o médico sabe claramente, aquilo que no medicamento, em cada um dos medicamentos, cura = conhecimento do poder dos medicamentos; se sabe adaptar, de maneira fundamentada, o poder medicamentoso dos remédios àquilo que de
seguramente patológico foi reconhecido no doente, de modo a levar à cura, seja pela exatidão na indicação do medicamento = escolha medicamentosa mais oportuna e correspondente ao caso, por seu meio de ação, seja pela exatidão na preparação das quantidades (=dose justa) e de sua repetição; se, finalmente, conhece os obstáculos à cura em cada caso e sabe removê‐los até obter uma cura definitiva, então ele age de maneira útil e radical e trata‐se de um verdadeiro terapeuta.
O segundo parágrafo revela duas coisas, a primeira é a aparição da palavra
totalidade que, veremos, tem uma grande importância no corpo do conhecimento
homeopático, por conta de sua filosofia holística11, a segunda, menos evidente,
contém mais uma vez um recado, aqui indireto, à Medicina Oficial, sugerindo que uma cura verdadeira, por motivos evidentes, tem que ser segura (para a vida dos pacientes) e inócua, ou seja não causar mais mal ao doente do que a própria doença.
O terceiro parágrafo, expõe o que ele considera que são os fatores essenciais da boa prática médica, que não parecerão estranhos a nenhum médico moderno, mas que para os médicos do século XVIII e XIX não pareciam muito evidentes. A receita parece simples, o primeiro passo é identificar a doença (e veremos como isso se dá nos próximos parágrafos), então, deve‐se conhecer o funcionamento de cada medicamento e saber selecioná‐los, prepará‐los e aplicá‐los em cada caso particular, então, os medicamentos, aplicados com critério, removem os obstáculos da cura (os sintomas) e ela se dá por completo. Isso é ser médico, conclui ele.
Se atentarmos para a forma como ele se exprime em relação à ação do remédio, podemos entender seu papel dentro dos conceitos terapêuticos da Homeopatia ‐ ele não cura diretamente a doença, ele remove os obstáculos que impedem o organismo de retomar a saúde, e esse é um ponto importante da Homeopatia, pois o indivíduo tem papel central no seu processo de cura (é o próprio organismo que retorna ao equilíbrio), o medicamento só combate os sintomas da
doença, que não são a doença em si, mas são os indícios que permitem a constatação da patologia, portanto não são a doença, mas representam a doença. Hahnemann é um inovador, e um inovador influenciado pelas bases da Nova Filosofia Natural, por
isso essa preocupação com a racionalidade dos procedimentos e com os meios usados para construir uma arte baseada na estrita observação dos fatos e organização sistemática das informações.
§ 4.
Ele também é um higienista, se conhece as causas que disturbam a saúde e determinam e mantém a doença, e sabe delas preservar o homem são
§ 5.
Os dados relativos à causa mais provável da doença aguda, assim como os momentos mais importantes da doença crônica, deduzidos de toda a história nosológica, servem de auxílio ao médico, para estabelecer as causas fundamentais da doença, que geralmente é devido a um miasma(1) crônico.
Assim, também se deve conhecer a constituição física do doente (especialmente o crônico), o seu caráter afetivo e psíquico, sua ocupação, seus modos de vida, seus hábitos, as condições sociais e familiares, sua idade, suas funções sexuais etc.
Nota (1) / § 5. (nota do tradutor)
Tenha‐se em mente que com o termo “miasma”, Hahnemann entendia tanto os fatores diatésicos e constitucionais, como os agentes microbianos e parasitários dos nossos dias.
O observador imparcial, que sabe que repertórios fantásticos, que não podem ser demonstrados, não tem nenhum valor, não vê na doença nada senão alterações do corpo e do espírito apreensíveis pelos sentidos (sintomas), ou seja os desvios do estado da boa saúde, pré‐existentes no indivíduo agora doente, desvios advertidos pelo próprio doente, notados pelos que com ele convivem e constatados pelo médico.
Todos estes sinais observáveis constituem a doença na sua total complexidade, quer dizer, constituem a verdadeira e única forma mórbida concebível (2).
Nota (2) / § 6.
Portanto, não posso conceber como fosse possível – ao pé do leito do doente, sem atentar acuradamente aos sintomas para a partir deles produzir uma cura – pensar que se deve procurar e encontrar aquilo que é curável em uma doença somente no interior secreto e invisível do organismo e – com o pretexto vaidoso e ridículo de conhecer as alterações do interior invisível sem atentar aos sintomas – reconduzir à boa saúde com medicamentos de ação desconhecida. Como é possível chamar a este procedimento de ‘cura radical e racional’?
O repertório de sinais, apresentados pelo doente e apreendidos pelos sentidos, não constituem, eles mesmos, para o médico, a própria doença? Ele, de fato, nunca pode ver a essência espiritual que produz a doença, tampouco a força vital, o que ele vê são as manifestações mórbidas e é a partir delas que ele deve aprender a curar os males. Que coisa quer a escola oficial pesquisar de diferente como “prima causa morbi” escondida no organismo? Por que refutar e desprezar completamente, como meio de cura, a representação da doença constatável pelos sentidos? O que há para ser curado senão isto?
No 4º parágrafo, ao afirmar que o médico deve ser um higienista e tratar as doenças de forma preventiva (conhecendo as causas das doenças e preservando o estado da boa saúde), Hahnemann nos oferece mais um elemento que evidencia o
caráter holístico de sua doutrina. Da mesma forma, o 5º parágrafo também trata da
importância de uma apreensão holística do problema do doente e enumera os elementos necessários para a real compreensão de uma doença: hábitos, preferências pessoais, histórico de saúde, ambiente familiar, ocupação profissional, vida afetiva, constituição física, etc. Praticamente todos os fatores orgânicos e extra‐ físicos (não sintomáticos) do doente. É neste 5º parágrafo, que aparece pela primeira vez uma referência à teoria dos miasmas (que o tradutor se apressou em explicar em uma nota de rodapé, sucintamente, ‘atualizando’ a explicação do termo para um léxico moderno dos anos 1940).
O 6º parágrafo, mais uma vez, se inicia com uma crítica indireta para a Medicina Oficial, taxando‐a de repertório fantástico de coisas indemonstráveis e dizendo que aqueles que não pensam dessa maneira (como pensam os médicos seus contemporâneos), veem a doença como alterações do corpo e do espírito, atendo‐se ao estritamente observável e constatável. E define a doença como a constelação de sintomas observáveis na complexidade da vida geral do doente. O que se pode ver claramente, com as colocações de Hahnemann nesse parágrafo, é que a) há em seu trabalho uma grande preocupação com a observação metódica empregada em seus procedimentos terapêuticos e com a apreensão racional da doença e b) sua concepção de totalidade (apreensão holística) do doente e sua doença é central na sua proposta terapêutica.12
A nota que segue o parágrafo é tão ou mais importante do que ele, na medida em que torna claríssima sua concepção espiritualista e vitalista (e portanto metafísica) de saúde, doença e terapêutica médica. Diz ele, na sua definição de doença ‐ o médico não pode ver a essência espiritual da doença, nem o estado da
força vital do paciente, pode ver apenas a manifestação dos sintomas do mal e são