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As mudanças observadas no âmbito do domínio romano durante as Guerras Púnicas são mudanças de escala. De governantes locais, da Península Itálica, os romanos tornam-se representantes da maior potência do Mediterrâneo. As razões e os meios pelos quais os romanos alcançaram essa preponderância durante a República têm sido analisados e comentados por vários autores. Não procuramos explicar essa expansão, mas sim mudanças de conceitos, na apreensão da realidade, observadas na sociedade romana no período das Guerras Púnicas. Para tanto, analisamos as inter-relações entre romanos e cartagineses, e os resultados dessas interações, em termos da produção da identidade e da representação romanas de domínio durante aquelas guerras, ou seja, durante os primórdios do que viria a se tornar o Império Romano. Cartago foi a grande inimiga de Roma durante mais de cem anos, caracterizando-se assim como objeto e foco principal e direto para as definições e categorizações de pertencimento e de alteridade que vão definir as representações romanas do mundo.
Escolhemos trabalhar com a obra Histórias, de Políbio, por ser o texto mais antigo, contemporâneo e que trata daquelas guerras que chegou até nossos dias. O tema das Histórias é a ascendência dos romanos ao poder no Mediterrâneo, tema que nos permitiu analisar a obra a partir das transcrições de Políbio das atitudes, do comportamento e dos discursos dos personagens durante essa ascendência. Se um grupo – ou indivíduo pertencente ao grupo – percebe a realidade de certa maneira, suas expressões, as formas pelas quais esse grupo se comunica, externam suas intenções, decisões, idéias, pensamentos, indefinições e receios, ou seja, traduzem essa percepção. Políbio procura não omitir as impressões, os efeitos causados pelos atos e discursos, o que nos permite o acesso a cenas de importância para a análise histórica a partir da perspectiva das trocas simbólicas. Suas opiniões e conclusões são fruto do que viu, ouviu, observou e leu. São, portanto, opiniões e conclusões compartilhadas513.
513 Cícero o denomina de “nosso excelente Políbio” (Da República, II,27) e, no início de seu discurso
sobre o que consiste a República – discurso proferido por seu personagem principal, Cipião Emiliano, o qual Cícero posiciona acima de todos os gregos na sapiência sobre os assuntos de Estado (Da República, I,35-37) –, comenta que Cipião Emiliano costumava “debater com Panécio, na companhia de Políbio, talvez os dois gregos mais conhecedores de questões políticas” (I,34). Em outra passagem, que citamos em nota anterior, Cícero comenta um dito de Catão: “a constituição do <nosso> Estado não foi obra de um só tempo ou de um só homem” (Da República, II,37), uma idéia externada igualmente por Políbio (VI,10.12-10.14).
Assim, a leitura das Histórias nos permitiu observar mudanças nas estruturas conceituais da sociedade romana, a produção de novas representação e identidade de dominadores durante as inter-relações com os cartagineses. Mas essa produção deu-se por meio da marcação da alteridade com relação aos cartagineses. A imagem do “grande inimigo” se constrói no mesmo período, reificada em Aníbal, e é formativa da nova identidade romana.
A análise do texto de Políbio descortina dois padrões distintos nas atitudes e nos discursos romanos, observáveis, respectivamente, nos períodos até a Segunda Guerra Púnica e posterior a essa guerra. Se o primeiro período é caracterizado pela simetria nas relações diplomáticas com os cartagineses, ou não revela diferenças significativas entre os discursos romanos e os de representantes de outros Estados, o segundo período é marcado pela imposição romana de ordens e decisões a qualquer Estado, mesmo quando em contato pela primeira vez. Logo, essas diferenças fundamentais são indícios de que, durante a Segunda Guerra Púnica, ocorre uma mudança nas estruturas simbólicas com as quais a aristocracia romana construía a sua experiência. O que se percebe ao longo da narrativa de Políbio sobre essa guerra é a instauração de uma crise profunda no sistema de domínio romano na Península Itálica. A presença do exército cartaginês significou a possibilidade real de falência do que os romanos entendiam como República: uma estrutura político-administrativa – institucional, religiosa, social – formada por comunidades associadas pela cidadania romana, em níveis diferentes, reforçada por outras comunidades de direito latino, cujo centro, Roma, exercia o domínio sobre esses e também sobre comunidades aliadas. Como pivô da crise, e igualado à mesma, desponta Aníbal, representado nas Histórias – assim como por Fábio Pictor e, portanto, por seus contemporâneos – como o responsável pela guerra, o opositor que vagueia entre a imagem do grande general e do pior inimigo – matador de romanos, benevolente com os aliados romanos –, cuja intenção, revelada por ele mesmo, é a dissolução daquela estrutura de dominação. Aníbal é mitificado, torna-se a representação do “grande inimigo”, a reificação da cidade púnica no interior da Itália. Aníbal é a crise, e sua remoção para a Líbia significou o fim da crise. Vencido na Líbia, e terminada a guerra, suprimiu-se o “grande inimigo”. Assim, a produção da identidade romana de domínio durante os embates armados com Cartago só pode ser compreendida frente à produção concomitante da alteridade como o oponente cartaginês, observando que a contraposição “nós”-“eles” – romanos-cartagineses – torna-se maximizada com a crise na Segunda Guerra Púnica.
É essa estrutura de significados transformados em símbolos – pensamentos e idéias compartilhadas –, construídos durante as inter-relações entre os grupos em conflito ao longo de vários anos, que foi responsável pela produção da identidade e da representação romanas de domínio sobre o mundo. Uma vez suprimido o “grande inimigo”, o único opositor percebido como semelhante, o mundo se descortina como subjugado. É importante notar que essa percepção da submissão do mundo não pressupunha, necessariamente, a busca do domínio pela conquista territorial, mas sim a idéia de que todos os povos deviam sujeição obrigatória a toda e qualquer injunção romana. Existem no mundo, a partir da Segunda Guerra Púnica, duas visões possíveis: a romana e a contrária aos romanos.
Paralelamente, outra imagem começa a se formar: a dos cartagineses não confiáveis. A interpretação romana da letra dos tratados – distinta da cartaginesa, como no caso do tratado do Ebro –, unida aos eventos que levaram ao que Políbio denominou de “renovação” da Segunda Guerra Púnica, quando Cipião Africano estava na Líbia – a retomada das hostilidades após uma trégua e a discussão de um tratado firmado por escrito –, levou às primeiras concepções do que seria denominado posteriormente, provavelmente a partir do início do século I a.C., de fides punica. Essa imagem comporá então, no futuro, junto com a representação produzida do “grande inimigo”, a representação negativa romana dos cartagineses.
Verificamos, assim, a produção de novas identidade e representação romanas e a mudança do paradigma romano de domínio514. Porém, essa mudança no discurso, nas atitudes romanas, só pode ser observada em sua plenitude nas suas relações com outros Estados, não com o cartaginês. Este foi alvo, sempre, de um receio cujo significado só pode ser compreendido quando entendemos que a percepção da realidade de domínio mundial foi construída historicamente pelas inter-relações entre Cartago e Roma e que, portanto, Cartago continuou representando, embora enfraquecida, o “grande inimigo”. A força de Cartago a partir do final da Segunda Guerra Púnica era percebida como algo em estado de latência, dissimulada como eram dissimulados os cartagineses. Uma das formas em que a reação a essa força se manifestou, ou uma das estratégias romanas de execução do poder contra os cartagineses, portanto, foi o conjunto das ações romanas direcionadas para enfraquecer o domínio cartaginês na Líbia, através do apoio aos movimentos de conquista númidas do território cartaginês. Os comentários de Políbio a
514 Para essa análise precisamos confrontar todas as situações de relação entre romanos e representantes
respeito dos decretos do Senado em favor dos númidas, no intervalo entre a Segunda e a Terceira Guerra Púnica, nos permitem inferir apenas que, apesar dos romanos arbitrarem contra os cartagineses, essas resoluções baseavam-se nas condições do último tratado, não em uma concepção pura de domínio. A necessidade última de eliminação total do “grande inimigo”, evidenciada pela “camisa-de-força” a que os romanos sujeitaram os cartagineses até obrigá-los a uma reação, traduz a idéia romana da força imanente de Cartago. Se o bellum iustum representou um motivo moral e não sacrílego para a Terceira Guerra Púnica perante os outros Estados – e, talvez, perante os próprios romanos, pois significados religiosos não devem ser descartados, principalmente frente a uma representação tão poderosa –, a imanência da força cartaginesa no imaginário romano é que gerou a “solução final”, a qual, segundo Políbio, há tempos fazia parte das discussões políticas romanas – e, portanto, da forma como percebiam a presença de Cartago em sua representação do mundo como dominado. Cartago não podia compartilhar a experiência de pertencimento – mesmo submissa – ao mundo dominado pelos romanos justamente porque, na percepção romana, era a adversária à dominação do mundo. A progressiva intensidade com que o discurso impositivo romano é apresentado nas Histórias nos permite interpretar que essa percepção, com o passar do tempo, levou à necessidade, também na percepção romana, da destruição de Cartago – não apenas da diminuição de sua força.
Pensando agora em contextos mais gerais, se os tratados firmados entre romanos e cartagineses demonstram o crescimento do domínio romano a oeste do Mediterrâneo, e evidenciam mudanças nas esferas desse domínio, expressas nas limitações, incluídas nos tratados pelos cartagineses até a Primeira Guerra Púnica, a narrativa de Políbio demonstra a continuação do crescimento a partir dessa última guerra. Da mesma forma, se Políbio nos mostra que antes da Segunda Guerra Púnica o crescimento do domínio romano era voltado para o Mediterrâneo Ocidental e limitado pela geopolítica cartaginesa, nosso autor nos fornece as evidências de que a estratégia romana de defesa no leste do Mediterrâneo configura, aos poucos, a percepção romana da geopolítica nessa região. Portanto, de forma a melhor observarmos – e expormos – os contextos em que as mudanças simbólicas ocorreram, tivemos que comentar as relações entre os romanos e os Estados helenísticos do Mediterrâneo Oriental. Essas relações forneceram os insumos para a percepção e definição da geopolítica e das diretrizes da política externa romanas com relação àqueles Estados. Ou seja, apesar de perceberem o mundo
como seu domínio, as estratégias de execução do poder levaram em consideração essa geopolítica, e foram direcionadas para o fortalecimento dos Estados aliados e ao enfraquecimento dos opositores, de acordo com aqueles insumos.
Quanto à política interna romana, a produção da identidade de dominadores do mundo foi, tudo indica, imediatamente seguida pela reedição da competição interna à nobilitas, o que demonstra que os grupos sociais podem apresentar identidades diferentes, contanto que as mesmas não sejam excludentes mutuamente515. Além disso, só podemos compreender a identidade romana de dominadores do mundo frente à representação romana de todos os outros Estados – o “mundo” – como dominados, ou seja, entendendo que são, ambas, necessariamente complementares: produções de alteridade e de identidade são processos complementares e dependentes um do outro. Portanto, o surgimento – ou ressurgimento – de grupos opostos, ou factiones, que através de lideranças carismáticas passam a fazer prevalecer suas preferências em termos de ação política em Roma, da forma como o compreendemos, está conectado às mudanças nas estruturas conceituais da sociedade romana. A produção da identidade e da representação de domínio sobre o mundo, gerando as relações de imposição entre a aristocracia romana e seus interlocutores estrangeiros, provocou o surgimento dessas disputas. Contudo, não foi o único motivo do reaparecimento das factiones. A possibilidade de enriquecimento no leste do Mediterrâneo foi, com toda possibilidade, outra razão – e também a obtenção de honos, laus, gloria, dignitas, auctoritas e clientes poderosos no estrangeiro. Um dos indícios que apóiam essa interpretação é a constante recalcitrância, de indivíduos em idade militar, quanto a servir nas legiões que atuavam no teatro do Mediterrâneo Ocidental, contra os povos da Península Ibérica: a probabilidade de acumular bens e riquezas nessa região era muito menor.
Observar a sociedade da Roma republicana retratada por Políbio é observar cenas da auto-afirmação romana. Desde os comentários sobre a determinação, a inflexibilidade ou o uso da força em todas as empresas (I,20.11-20.12, 37.7-37.10), passando pela descrição dos funerais aristocráticos (VI,53.1-54.2)516, até a narrativa das atitudes posteriores ao estabelecimento da percepção da própria força sobre os outros
515 Por exemplo, podemos apresentar uma identidade nacional – brasileiros – e outras identidades de
grupo, como, por exemplo, pertencentes a uma classe social, a um partido, a uma cidade natal, etc.
516 Políbio exclama, ao descrever os funerais da nobreza romana: “Que espetáculo poderia ser mais
povos, o que se descortina são transcrições de como aquela sociedade glorificava, louvava o próprio etos. Porém, essas últimas atitudes, pós-apreensão do papel de dominadores do mundo, manifestam um salto de escala nos significados: enquanto as outras são demonstrações de louvação aos antepassados – objetivando ganhos na política interna – ou de autoconfiança, o comportamento que aflora após a Segunda Guerra Púnica revela uma nova conceituação do que é ser romano. A República é o centro, que impõe uma nova ordem aos povos mediterrânicos.
Políbio escreve que, após a guerra contra Pirro, os romanos atacaram o sul da Itália como se lhes pertencesse (I,6.6), e que, após a Segunda Guerra Púnica, resolveram “estender suas mãos [...] para a Grécia e para os territórios da Ásia” (I,3.6), visões semelhantes de dois contextos bastante diversos. Em nossa discussão do Capítulo III mostramos que a concepção romana de um mundo dominado só se traduz no discurso e nas atitudes romanas posteriores à Segunda Guerra Púnica. Antes o mundo – ou melhor, o Mediterrâneo Ocidental – era percebido como a arena dos conflitos entre Roma e Cartago. Devemos nos lembrar que Políbio, ao ser enviado à Itália em 167 a.C., chegou à Roma dos senhores do mundo, à República que havia batido Cartago duas vezes, a Macedônia três vezes e o reino selêucida uma vez, e ditava ordens a todos os povos com os quais entrava em contato. A sua tentativa de explicar o crescimento do domínio romano como algo entre intencionalidade racional e desígnio de týkhe demonstra sua incompreensão de que esse crescimento aconteceu gradualmente, em diferentes contextos históricos, por razões distintas, e que os romanos que conheceu já percebiam o mundo como romano. Tanto as estratégias de conquista e domínio foram diferentes – na Itália e no restante do mundo mediterrânico –, quanto os conceitos romanos sobre o significado de mundo, as formas de perceber o mundo, foram distintas. Se antes, durante as conquistas na Península Itálica, concederam a cidadania a certas comunidades ou nobrezas, posteriormente todos os povos – de fora da Itália, mas também alguns da Península – são tratados como submetidos, como súditos, a quem só resta a obediência a uma nova ordem, a da República – ou melhor, de sua nobreza. E essa mudança fundamental deveu-se à produção da identidade e da representação de domínio sobre o mundo, que aflora após a Segunda Guerra Púnica.
As procissões, para o Senado, de enviados e embaixadores, e mesmo reis, como Prúsias, da Bitínia – que se prostra na porta da Cúria517 (XXX,18.1 = Tito Lívio,
517 Prúsias, no limiar da porta da Cúria, coloca as mãos no chão e baixa a cabeça até o solo, dizendo:
XLV,44.19) –, ou filhos de reis – como Demétrio, filho de Felipe, rei da Macedônia (XXIII,1.1 e ss. = Tito Lívio, XXXIX,46.6) –, traduzem, de forma indubitável, onde está o centro do mundo. É uma simbologia, exposta no ritual, que expressa a realização, a efetivação da representação e da identidade de domínio: tanto essas recepções no Senado, quanto os decretos concedendo ganho de causa aos númidas em detrimento dos cartagineses, as comissões para arbitragem de assuntos de outros Estados, a proclamação da “liberdade dos gregos”, o círculo feito em torno de Antíoco pelo comissionado romano, tudo comunica essas representação e identidade. São atos, padrões de comportamento, discursos e decretos que exprimem as intenções, as motivações, a forma como a realidade era percebida pelos romanos: expressam os significados, os conceitos compartilhados pela nobilitas, resultado da identidade e da representação produzidas durante e devido à vitória na guerra contra o “grande inimigo”.
Se esse domínio era aceito – ou o foi, com o passar do tempo –, pelos opositores ou pelos aliados, o texto de Políbio nos informa que freqüentemente sim, mesmo que existissem ações contrárias – pois a dominação não pressupõe aceitação incondicional. O exercício do poder pelos romanos incluiu meios diversos, desde a imposição a decisões de acordo com os decretos do Senado, até a fragmentação política do opositor – como no caso da dissolução da Liga Aquéia e de outras Ligas, limitando a capacidade política das cidades-Estado que a elas pertenciam à inocuidade – ou a eliminação pela guerra. Afinal, a representação do mundo como dominado é uma visão da realidade do ponto de vista de um grupo, o dominador – o ponto de vista do dominado pode ser bastante diferente. Porém, essa representação não surgiu, mas foi historicamente construída. Foi produzida em uma sociedade previamente acostumada ao domínio, na qual, contudo, a concepção de dominação total, em que a oposição era percebida como impossível, não fazia parte dos significados compartilhados até o final do século III a.C. Essa concepção foi produzida durante um período de guerra e crise que durou muitos anos, crise que representou a quase extinção de seu sistema de governo na Península Itálica – extinção do que os romanos compreendiam como República e que Políbio traduz quando comenta a constituição romana –, e que foi superada com a vitória sobre
vestido como um liberto, “[...] com sua cabeça raspada e vestindo um chapéu branco e uma toga e sapatos [...]”, e diz: “Em mim [...] vocês vêem seu liberto, que quer fazer-se estimar e imitar tudo o que é romano”. Para Políbio, esta foi “[...] uma frase tão humilhante quanto se pode conceber”, e as atitudes de Prúsias tornaram “[...] impossível para qualquer um, após ele mesmo, sobrepujá-lo em efeminação [...] e servidão” (XXX,18.1 = Tito Lívio, XLV,44.19).
o contendor que era – e continuou sendo, com a transmissão do significado de “grande inimigo” – representado como o único capaz de confrontar a República. Logo, o significado – e seus símbolos – estava vinculado a um processo de superação de crise e de associação da crise com um conceito particular e fundamental: a única oposição, o “grande inimigo”, contra o qual duas guerras que demandaram enormes perdas, longas – vinte e três e dezesseis anos –, foram travadas518. Portanto, voltando à aceitação do domínio, entre o perceber e o dominar existiram necessariamente diversas táticas de execução do poder, diferentes meios políticos – sempre com o reforço do recurso às armas. Dessa forma, conceitos morais, antigos e novos (os quais traduziam também formas de exercício do poder), foram apreendidos em um novo sistema de símbolos: por exemplo, se o bellum iustum explicava a correção das ações agressivas, a “libertação” contribuía para a própria aceitação do domínio e da idéia da justiça de outras guerras. Para aqueles aos quais a força desses conceitos não era acolhida como medida suficiente, a medida foi a supressão do que percebiam como sua própria força: dissolução das Ligas, um círculo em torno do rei – como no caso de Antíoco – ou a transformação do caráter do Estado – como a Macedônia. De qualquer maneira, foi uma nova estrutura de significados que permitiu que imposições fossem transmitidas desde Roma para todo o Mediterrâneo.
518 As guerras romanas contra os Estados helenizados foram guerras curtas, normalmente durando menos
de quatro anos – algumas apenas meses. As da Península Ibérica duraram muito tempo, mas tiveram o agravante da falta de motivação dos próprios romanos – frente às possibilidades de enriquecimento no Mediterrâneo Oriental, conforme comentamos.