assinadas por Gastão.
As sacadas poderiam se remeter às curvas da última fase wrightiana. Fujioka (2003) demonstra que desde os anos 30, Wright vinha investigando a questão da forma circular associando o círculo à idéia de plasticidade, unidade e continuidade, conceitos que perseguiu a vida toda e que permearam seus discursos.
O projeto do São Carlos Clube é marcado pelas aberturas generosas, pelo jogo dinâmico de recuos e projeções em balanço, pela fluidez do espaço interno e pela modulação quadriculada de 6x6m que regula aberturas e estrutura.
Uma linha horizontal marcante intercepta os dois pavimentos. Nove sacadas circulares dão ritmo à fachada e são interceptadas por outros volumes circulares que abrigam as caixas de escada.
Numa aproximação à Artigas, Gastão retoma em nova escala o conceito de arquitetura como abrigo. O grande salão de pé direito duplo é ladeado pelo mezanino envidraçado que se abre à varanda de frente para a piscina. Uma escada lateral descolada do corpo principal interliga as áreas avarandadas.
A cobertura se desenvolve com telhas de fibrocimento em sete águas rasas com calhas intermediárias que seguem a mesma modulação estrutural, conduzindo a água pluvial através dos pilares. Os pergolados surgem em alguns momentos, trazendo luz aos ambientes inferiores ou criando espaços transitórios entre interior e exterior.
Alguns projetos seguintes foram elaborados pela empresa Línea, com a participação de outros professores dentre eles, Celso Novaes e Roberto Luiz de Arruda Barbatto, que participaram inclusive dos cálculos estruturais do São Carlos Clube.
Após alguns trabalhos posteriores, a empresa se desfaz. Gastão estaria igualmente envolvido em compromissos com a docência que demandaram uma maior dedicação à Universidade. Um curto período de cerca de um ano seria dedicado à UNB, época em que se transfere para Brasília, deixando a família em São Carlos. Os anos que sucederam o período vivido na UNB estariam voltados ao ensino e à pesquisa de doutorado. Nesse período se implantava o mestrado na EESC e se estruturava o curso da ECA.
Sede Social São Carlos Clube. Cortes. Fonte: Acervo. São Carlos Clube
Breves passagens: UNB e a ECA
Em outubro de 1968, Luiz Gastão vai ao Distrito Federal como representante da FAU no Seminário de Re-estruturação do Instituto Central de Artes de Brasília, período em que a UNB passava por momentos delicados. Havia sido invadida em agosto, quando tropas do governo
teriam agredido alunos, professores e
parlamentares. Este ato precedeu o AI-5 e instaurou um clima ainda mais tenso no país.
Gastão havia sido eleito representante dos Instrutores da USP no Conselho Universitário para o triênio 1968-1970, no entanto em 1969, pede exoneração da Escola de Engenharia de São Carlos, prendendo-se ao fato de estar em vias de assinar contrato em regime de dedicação exclusiva com a UNB, como professor titular do Instituto Central de Artes da Universidade. Muito provavelmente, por razões políticas, Gastão ficaria em Brasília por pouquíssimo tempo. A situação dentro da Universidade na época da ditadura era algo que o entristecia profundamente e o clima na capital federal certamente era bem mais severo e tenso que no interior de São Paulo.
Voltando de Brasília, Gastão retoma suas funções na FAU e inicia um igualmente curto período como docente na recém criada Escola de Comunicações Culturais da USP, que acabava de incluir em seu currículo os cursos de Artes Plásticas e Música, passando a se chamar Escola de Comunicação e Artes (ECA).
Criada no contexto pós-golpe militar, num país com um plano político e econômico a ser viabilizado e um nacionalismo a ser silenciado, a escola
nasceu com características muito mais ligadas à comunicação que às artes. Na época, tanto o Teatro como o Cinema não eram vistos como manifestações artísticas simplesmente, mas como meios de comunicação de massa.
Os primeiros professores foram contratados ainda em 66 através de um concurso público de títulos. Vindos das mais diversas áreas, trataram de desviar o curso do modelo inicial que obedecia à ideologia estabelecida pela ditadura militar.
(...) O projeto de criação da Escola de Comunicações Culturais da Universidade de São Paulo foi um projeto autoritário, dentro de um sistema autoritário (...)
Em 1968, o currículo original foi reformulado, incorporando as críticas e sugestões dos alunos, bem como as sugestões dos professores, no sentido de fugir aos padrões estrangeiros e adaptar mais o curso à realidade brasileira que incluía várias manifestações culturais como o Cinema Novo, os grupos do Arena e do Oficina,a Tropicália, o Pasquim, etc 5
O ano de1969 inicia sob forte pressão do AI-5 nas universidades. No ano seguinte, o Conselho Federal de Educação (CFE) impõe o currículo mínimo para todas as escolas de Comunicação Social. A partir desse momento, a Escola perde
autonomia curricular e passa a cumprir
determinações do CFE. A Reforma Universitária vem em seguida, criando os departamentos.
Em março deste mesmo ano, Luiz Gastão é aprovado em concurso de títulos para exercer o cargo de professor colaborador na disciplina Artes
5 Maria Helena Pires Martins. In A Escola de Comunicação e Artes e sua história. In
Visuais junto ao Departamento de Cinema, Teatro, Rádio e Televisão (CTR) da ECA. Exerceria as funções de professor colaborador do departamento, cumulativamente ao cargo que mantinha na FAU.
Na ECA, teria sob sua responsabilidade promover atividades didáticas junto à disciplina Artes Visuais e Criatividade Visual. De acordo com o plano de trabalho que Gastão apresentou à Escola, todas as aulas deveriam ter caráter prático, havendo para cada conjunto de três semanas, uma aula de desenvolvimento teórico da matéria. Nesta ocasião, vinha desenvolvendo trabalhos de pesquisa e levantamento de dados para execução de sua tese de doutoramento e realizando pesquisas na área de Comunicação Visual, visando objetivamente os meios de comunicação coletiva (televisão, teatro e cinema). O objetivo central de sua pesquisa se embasava no desenvolvimento e aprimoramento das linguagens áudio-visuais dos meios de comunicação coletiva e o recebimento destas no plano da tecnologia do ensino. Gastão pretendia colaborar com os setores de televisão e cinema no tocante aos trabalhos de gravação de aulas e instruções, através das técnicas de vídeo- tape, tecnologia que vinha surgindo na época.
Embora este trabalho tenha sido considerado de grande relevância dentro do plano de ensino das
diversas unidades da Universidade, não
localizamos nenhuma gravação que mencionasse o trabalho de Luiz Gastão. Logo no início das atividades da Escola foram criadas várias instituições, dentre elas, o Museu da Imprensa. O museu abrigou toda sorte de material gráfico e
áudio visual produzido pela comunidade
acadêmica. Durante a década de 70, muitos documentos da ECA e todo acervo do museu foram
apreendidos e destruídos pela força repressiva da Ditadura.
Trata-se de mais um triste capítulo dos anos de chumbo. O Museu da Imprensa, idealizado pelo Prof. Marques de Melo, foi extinto e destruído em 1974, quando começava uma série de cassações de professores no Departamento de Jornalismo. Os responsáveis por esta execução achavam que o Museu abrigava material subversivo e decidiram exterminar tudo. O material nunca mais poderia ser recuperado. 6
Gastão ficaria vinculado à Escola até maio de 1971, quando pede rescisão de contrato. A exemplo do fechamento do Museu, os anos seguintes seriam marcados por inúmeras medidas disciplinares, processos, sindicâncias, denúncias, reprovações em exames e cassações brancas. Em meio a greves e visitas militares, a ECA, assim como inúmeras outras Faculdades no país, andaram sob pressão até 75 sofrendo seus efeitos ainda nos últimos anos da década.7
6 Bruder, Carsten. Forças e esforços: a criação do Departamento de jornalismo na ECA-USP 7 Maria Helena Pires Martins. In A Escola de Comunicação e Artes e sua história. In
A organização de uma metodologia de trabalho e ensino
Raras vezes se deu conta de que os professores universitários estavam à míngua de conhecimentos capazes de estabelecer uma ponte que os ligasse à comunidade estudantil. (...) Fizemos parte - de assistente a instrutor e depois de auxiliar de ensino da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo- daquele elenco inteiramente despreparado para o ensino de arquitetura. Ensino cabalístico de uma escola de tradição, esclerosante quanto às origens, que de repente passou para um excesso de aberturas quanto aos objetivos.
Anos a fio oscilamos entre os atrativos da dedicação exclusiva e os encantos da atividade profissional.
chegamos, mesmo, a convencer-nos
de que o bom professor é o bom profissional liberal.
Era uma ilusão.8
Gastão continua, dizendo que sua experiência como educador mostrou-lhe que os únicos departamentos que foram capazes de estruturar bem seus cursos vincularam o corpo docente à dedicação exclusiva e à pesquisa voltada para a especialização com disciplinas pedagógicas. Isso não aconteceu na FAU, que tinha poucos professores exclusivamente ligados à Instituição. Estes, na sua grande maioria, dividiam-se entre as atividades didáticas e o trabalho de projeto em escritório de arquitetura. O empirismo marcou a estruturação das disciplinas oferecidas mesmo após a reforma do ensino em 1962. Segundo ele,
8 Declaração de Luiz Gastão em LIMA, Luiz Gastão de Castro. Comunicação Visual e
Metodologia para o ensino do desenho. Tese de doutorado. FAU-USP. São Paulo, 1973.
Trabalho de um aluno da EESC. Fonte: LIMA, Luiz Gastão de Castro.
Comunicação Visual e Metodologia para o ensino do desenho. Tese de Doutorado. FAU-USP, 1973
houve um estudo intenso, individual e coletivo, que se aventurou na experimentação e foi marcado pela ausência de métodos de trabalho voltados para o ensino.
Buscávamos a biblioteca da Escola- verdadeiro paraíso onde engolíamos as obras e as palavras de algumas figuras exponenciais, tentando depois impingi-las aos alunos, através de fraca metodologia.
Claro está que com tal atitude, obtivemos evidente progresso: as idéias colhidas lá e cá transformaram-se em sedimento válido.
O que nos faltou foi uma digestão que tirasse a antropofagia necessária do estágio de indigestão bibliográfica.
Muitas vezes nossa formação foi “aprimorada” pela experiência das propostas dos escritórios e alimentada com a leitura apressada de revistas profissionais que mostravam o denier cri da moda arquitetônica internacional. 9
Na altura em que a qualificação docente no nível de pós-graduação se torna condição de permanência nos quadros da universidade, a FAU inicia os cursos pós-graduados em Arquitetura.
Não fora nossa persistência no tentar vencer um desafio e teríamos deixado a docência nesse período. (...)
Não conhecíamos métodos de trabalho e não poderíamos conhecer métodos de aprendizagem. Felizmente, tivemos sempre plena consciência de todos esses problemas e procurávamos um caminho que nos orientasse na função universitária, decidido a deixá-la se nada