GRAFISMOS
Considerando as perspectivas teóricas apresentadas anteriormente e as pretensões da pesquisa, início algumas reflexões sobre os métodos para aproximar da paisagem e a arte rupestre presentes na amostra. Em um primeiro momento realizo algumas considerações sobre estilo e, posteriormente, sobre a arqueologia da paisagem para, finalmente, abordá-los de maneira conjunta. Será elucidado a maneira como ambos possuem convergências e implicações teórico-metodológicas que podem ser entendidas em conjunto.
O estilo, conforme visto nas páginas anteriores, pode ser entendido como forma de discurso, se encontrar controlado, selecionado e distribuído por procedimentos que fundam sua possibilidade de existência e que remetem às características próprias do discurso. Para
13 No início de 2015 havia sido aprovado auxílio para minhas atividades de campo. Em meados deste mesmo ano
o governo federal realizou corte de verbas que seriam destinadas a todos os programas de pós-graduação das Universidades Federais. O corte de 75% das verbas que ajudam no custeio de atividades de campo e participação em eventos acadêmicos, prejudicou os alunos que tiveram verbas aprovadas e compromissos já marcados.
54 Troncoso (2002, p.70) o estilo faz referência a uma realidade (própria do sistema de saber- poder) que o origina e se inscreve dentro de um certo horizonte de racionalidade de onde surge sua possibilidade de existência. Sobre o que essa assertiva implica para o estudo da arte rupestre, este autor argumenta que o estilo expressaria pelo menos cinco aspectos: 1) geração de motivos que apresentam algumas regras, um conjunto de representações que incorporam características próprias a seu estilo; 2) técnicas de produção dos referentes que significa que os autores dos grafismos possuem maneiras de compor uma imagem no suporte (pictografado, pintura, gravado); 3) escolhas de quais suportes se deve utilizar; 4) localização espacial específicas nos espaços internos aos abrigos; 5) articulação de motivos em painéis, este último relacionado a uma maneira específica de entender a composição e o espaço do painel. A definição de estilos, se assim o for possível, perpassa inicialmente:
[...] sobre o que é a busca de regularidades, as leis que regulam as agrupações, para posteriormente tentar reconstruir o núcleo de possibilidades aceitas culturalmente. Em outras palavras, requer de uma perspectiva semiológica que observe um sistema desde seu interior para tentar conhecer sua estrutura [...] (TRONCOSO, 2002, p.71).
Neste estudo, tendo como um dos pontos de partida o que o(s) estilo(s) pode expressar, considero ser possível perceber os sistemas simbólicos expressos nos comportamentos humanos ao grafar determinado sítio, painel. Conforme indicam Linke & Isnardis (2010, p.45): “buscar as regularidades nas relações entre os elementos da natureza e os elementos das intervenções gráficas humanas” nos dá suporte para “reconstituir” a lógica operante na distribuição dos grafismos, como eles se comportam em relação a sí e nos diferentes locais em que se manifestam. Desta maneira seriamos capazes de nos aproximar de alguns aspectos dos possíveis comportamentos simbólicos.
Esta abordagem que se caracteriza pela análise da trama de significantes é válida pois são capazes de entender a estruturação das formas de expressão gráfica e nos dá possibilidade para a melhor compreensão de determinados aspectos da cultura dos autores dos grafismos (LINKE & ISNARDIS, 2008, p.31).
O que se tem praticado e demonstrado eficaz são as abordagens cronoestilísticas, que consiste em analisar os grafismos considerando distintos momentos de apropriação dos abrigos e seus suportes. Para isso, faz-se necessário a criação de categorias que classifiquem as pinturas, agrupando-as em conjuntos e atento às relações de sobreposição. A despeito da procura de regularidades nas escolhas e da composição dos grafismos ressalto que os sistemas simbólicos não são herméticos ou incluem somente significantes fixos.
55 Para Boado (1999, p.10-11) as concepções ou representações espaciais reaparecem em alguma medida em todos os âmbitos da ação social, passíveis de serem definidas arqueologicamente por meio da “regularidade espacial”, que corresponde ao padrão comum de organização espacial de uma mesma formação social.
Outra abordagem que tem demonstrado ser bastante eficaz é considerar a análise cronoestilística para além dos elementos que compõem as pinturas ou seus painéis, a exemplo dos estudos realizados por Isnardis (2004),Ribeiro (2006), Linke (2008) e Tobias (2010). Este tipo de análise passa a entender a composição gráfica em conjunto com a paisagem, inserindo elementos espaciais e considerando que seus atributos possam estar relacionados às escolhas feitas pelos autores. A definição de diferentes conjuntos estilísticos considera a localização dos grafismos, características físicas dos sítios, dos suportes e suas relações com o espaço tais como inserção topográfica, proximidade a cursos hídricos e acessibilidade ao sítio.
A identificação de regularidades e de relações recorrentes entre elementos no registro arqueológico em seus contextos podem ser capazes de identificar comportamentos (ISNARDIS, 2004). Esta abordagem possui seus pressupostos no estruturalismo e se caracteriza pela investigação do padrão de escolhas dos autores dos grafismos, perpassa por escolhas (que podem ser inconscientes) referentes aos abrigos, diferentes setores dos sítios, patamares, suportes. Por meio dela é possível ter acesso às relações de compatibilidade que possuem entre si e com outros códigos e práticas de uma formação sociocultural (BOADO, 1999, p.11).
Como foi observado, as aproximações dadas ao estilo e a paisagem embora apresentem diferentes formas de serem entendidas e diferentes abordagens, nas pesquisas recentes as duas perspectivas têm se apresentado fundamentais sobretudo quando vistas a partir do mesmo viés. Estilo se faz mais facilmente compreensível quando são considerados os diversos elementos em que ele é expressado, além de seus aspetos formais. Abordá-los em conjunto com a paisagem pressupõe que as populações poderiam ter apropriado de determinados espaços e deixaram suas particularidades nelas, suas escolhas e relações estabelecidas com o espaço.
As categorias de analises utilizadas na pesquisa fazem parte de critérios subjetivos nossos, mas que são capazes de agrupar e sistematizar suas características; tamanhos, morfologias, localização, tipo de suporte. É importante destacar que, embora os atributos possam obedecer aos nossos critérios e entendimentos acerca de determinada feição, é possível que o nosso entendimento sobre o próprio sítio e de seus “suportes” tenham sido percebidos e compreendidos de maneiras distintas que a dos autores das figurações. As
56 categorias utilizadas nos foram úteis na medida em que, conforme dito acima, organizaram e puderam agrupar características que são compartilhadas nos abrigos com arte rupestre. Este esforço pode ser capaz de identificar possíveis expressões gráficas de grupos que possam ter percebido e apropriado dos espaços internos aos abrigos de maneiras distintas e/ou similares. O mesmo pode ser estendido às demais categorias que consideram os demais atributos da paisagem.
A análise da paisagem do entorno envolveu diversos aspectos tais como vegetação do entorno, acesso ao sítio, relevo de acesso ao sítio (0 a 50m e 50 a 100m), iluminação natural no sítio, posição topográfica no afloramento rochoso (terço superior, médio e inferior). A descrição da hidrografia considerou seu posicionamento com relação ao sítio, distância do sítio com relação ao curso hídrico, se perene ou intermitente. A paisagem foi abordada e relacionada com os grafismos e os conjuntos em seus contextos de inserção.
Nos espaços escolhidos para receber os grafismos os principais atributos14 observados
e descritos foram suas características (caverna, paredão, abrigo, matacão...), as dimensões (pequeno - até 30m, médio - 30 a 50m, grande - 50 a 100m e muito grande - acima de 100m), orientação geográfica (Norte, sul, leste e oeste).
Internamente aos sítios foram descritos o acesso aos suportes15 e aos painéis (Difícil,
moderado, fácil, heterogêneo), o piso do abrigo, presença ou ausência de drenagens. Foram observados no sítio as características físicas e que eventualmente podem ter relações com os grafismos tais como intemperismo físico (desplaquetamento do suporte, descamações, erosões alveolares, relevo), intemperismo químico (exudação mineral, fungos e liquens), porosidade e textura da rocha (relativa à “qualidade”), biopertubações. O mesmo ocorre para os suportes, considerando que grande parte dos sítios aqui estudados possuem muita disponibilidade, mas nem todos foram grafados e certamente foram identificados pelos autores das pinturas.
Nos painéis foram observadas suas dimensões (altura do chão, comprimento e largura, posição no sítio, quantidade de figurações, tratamento anterior dado ao painel (quando houver), aspecto da tinta em considerando sua fixação em rochas de qualidades distintas (diluição da tinta, cor) e pátina, distância entre painéis.
Em cada painel foram realizadas descrições que entendessem a maneira como foram “construídas” por eventos que indicam diacronia ou sincronia, sejam por sobreposições,
14 Boa parte dos atributos analisados tem como referência os trabalhos realizados anteriormente, sobretudo o
desenvolvido por Linke (2008).
15 Suportes são entendidos como espaços que não receberam pinturas, ao contrário de painel, este sim uma
delimitação arbitrária realizada pelo arqueólogo no intuito de sistematizar e facilitar a compreensão dos espaços grafados. A delimitação de um painel leva em conta sua localização, homogeneidade e morfologia da rocha, proximidade com outros painéis.
57 justaposição, proximidade, similaridades e diferenças temáticas, preenchimento das figuras, técnica de realização, relações de pátina, acréscimos e associações. Todos estes elementos dão subsídios para a elaboração de cronologias relativas, a definição de estilos e conjuntos temáticos quando possível.
As figurações foram abordadas em conjunto e separadamente, em cada uma delas foram identificadas cores, pátina, elaboração, técnica e suas relações com as demais. Todos estes elementos descritos acima em algum momento são relacionais e comparáveis uns com os outros. Algumas figurações servem de apoio para possíveis “diagnósticos” no delineamento de conjuntos estilísticos, mas que são delineados sobretudo pela recorrência em conjunto com todos os atributos entendidos como significativos. Fundamental para a construção dos conjuntos estilísticos são as análises dos grafismos a partir da observação dos modos de composição por técnicas distintas, tipo de preenchimento, forma, presença ou ausência de partes do corpo, recorrências, localização nos sítios, articulação de motivos em painéis. Os principais temas encontrados foram agrupados em diversas tipologias: cervídeos, quadrúpedes, aves, sáurios, biomorfos, antropomorfos, geométricos, círculos radiados, alinhamento de bastonetes e pontos, incisões, grades, zig-zags, armas...