Ekler: Jas Alaş Ve Egemen Kazakistan Gazeteleri Haber Metin Örnekleri (Kazak Türkçesi)
Ek 6: Jas Alaş Gazetesi 28 Mart 2015 Tarihli Haber Metni
Acreditamos que o pensamento político habermasiano apresenta-se como um contruto normativo ideal destoante da complexa realidade contemporânea. Especialmente no que concerne à sua proposta de um direito cosmopolita (como veremos nos últimos capítulos da tese). Mas é aceitável, em parte, que a teoria nunca condiga totalmente com a relidade. Não é à toa que seu normativismo é bastante criticado por algumas tendências do realismo político, especialmente por aqueles que retomam as incisivas argumentações schmittianas sobre a política contemporânea. Carl Schmitt tece uma crítica contundente ao Estado de Direito moderno e ao liberralismo político, critica essa que acaba servindo como um contraponto ao revisionismo teórico ou “reconstrução” teórica, proposto (a) por Habermas, dos princípios do direito político moderno. No nosso entender, o pensamento de Habermas não se afasta dos pressupostos básicos do liberalismo político: Habermas é um pensador liberal, e a crítica schmittiana lhe cabe bem, especialmente a ideia de que o poder político deve ser a expressão do direito e de consenso público.
Na crítica schmittiana ao Estado de Direito moderno e ao liberalismo político, a concepção moderna de Estado de Direito e de ordenamento jurídico correspondem ao projeto político hegemônico da burguesia liberal. A burguesia, desde que surgiu, visou apenas à neutralização da política em favor de seus interesses econômicos e de seu conceito individualista de liberdade. O resultado desse processo foi a completa submissão do Estado e da Política aos princípios individualistas, ou seja, à moral individual e ao cálculo de interesses privados. Para Schmitt, o liberalismo seria, em sua própria essência, inimigo do Estado e, por isso, não foi capaz de desenvolver uma teoria positiva do poder estatal, mas apenas de fazer restrições à sua soberania: à medida que o liberalismo avança, diminui a capacidade de ação política e de intervenção social do Estado. Schmitt rejeita a tese de que a liberdade do indivíduo estabelece um limite à atuação do Estado. Para ele, a Economia assume, no liberalismo, o monopólio das decisões políticas, e isso significa a destituição do Estado como instância política suprema65.
O realismo schmittiano recusa qualquer consideração normativa da política: a política, para ele, deve ser explicada pelo que ela de fato é, e não pelo que ela deve ser. Para Schmitt, o fundamento de toda normatividade objetiva e todos os conceitos normativos somente ganham densidade quando referidos à esfera do político: ele não reconhece nenhuma esfera de validade própria das normas e regras. Contra a ideia de “império das leis” do liberalismo político, ele apregoa uma forma de “personalismo político” que afirma que o poder só pode ser atributo real de entidades concretas como pessoas e grupos, e não de entidades abstratas como leis, normas, razão, etc. A política é, assim, um espaço de relação, de conflito e disputa entre pessoas e grupos de pessoas, e não entre entidades ideais. O político é uma esfera com uma logicidade e critérios próprios – completamente impermeável a critérios morais exógenos.
O conceito de “decisionismo” (termo central na sua obra) expressa a negação radical dos valores liberais e a recusa em definir a política como busca do consenso e compromisso entre grupos através da discussão racional no espaço público. Schmitt fala em decisionimo político (negação de que a política seja fundada na discussão racional dos indivíduos e a afirmação de que o conceito de soberania é fundamental para pensar o político), decisionismo jurídico (crítica a toda forma de legalismo e normativismo jurídico em favor de um conceito político de lei; recusa do constitucionalismo e do conceito liberal de Estado de Direito; para
65 Em oposição ao liberalismo político, Schmitt propõe a noção de “Estado total”. O “Estado total” anuncia o advento de uma nova ordem política que redime o Estado e põe fim à era das neutralizações, submetendo novamente a Economia aos imperativos da política.
ele, o Direito é válido não porque tenha um conteúdo racional, mas, porque foi sancionado pelo Soberano para estabelecer tranquilidade, segurança e ordem) e decisionismo moral e teológico (negação da possibilidade de fundamentação racional das normas e valores morais; as normas resultam de decisões “do nada” e não remetem a nenhum fundamento a não ser à decisão de tomá-las como válidas).
Para Schmitt (1996), a Política é determinada pelo par conceitual amigo/inimigo, do mesmo modo que a Moral é determinada pelos pares de opostos bom/mau, a Estética pela oposição belo/feio e a Teoria do Conhecimento pela distinção entre verdade e falsidade. O político, para ele, delimita o espaço da relação amistosa ou hostil entre grupos humanos. Os seres humanos estão sempre envoltos em conflitos de diferentes naturezas (econômicos, religiosos, morais, estéticos etc.), mas, quando o conflito entre grupos humanos chega ao ponto extremo de eliminar o inimigo, ele representa o confronto Político.
O político constitui a oposição mais intensa e extrema entre grupos humanos. Toda e qualquer associação humana torna-se uma associação política quando: a) uns (amigos) se reúnem contra os outros (inimigos); e b) quando esse conflito envolve a possibilidade real de um combate de vida e morte entre os dois grupos (cf. SCHMITT, 1996, p. 30). O binômio uns com outros/uns contra os outros é constitutivo da existência política. Politicamente, é mister identificar claramente quem pode representar ameaça à sobrevivência do meu grupo. Esse ato implica na criação consciente de uma unidade interna e na disposição de uma ação unitária contra o outro, para atacá-lo ou para defender-se. O inimigo (hostilis) é aquele que pode ameaçar e destruir a minha existência política ou a associação de seres humanos à qual pertenço; ele não se confunde com o adversário pessoal, o rival esportivo ou o concorrente econômico – não é, portanto, um adversário privado, mas um inimigo público. E já que tem uma substância específica, o político pode retirar sua força das diversas oposições da vida social (oposições religiosas, econômicas, morais etc.)66.
Os conceitos políticos são vazios em si mesmos; eles só recebem um significado real quando referidos a grupos que concretamente são atingidos, combatidos ou refutados por meio deles67. A essência do político se manifesta na guerra. A guerra é um conflito excepcional que não se deixa submeter a nenhum regramento superior, nem pode ser dirimido por uma instância imparcial. A guerra confere à existência humana a dimensão política. Um mundo sem guerra é um mundo sem política (cf. SCHMITT, 1996, p. 30). A guerra é o fim da
66 Desse modo, afirma Schmitt, uma igreja com bastante peso político pode exigir do Estado que sejam considerados cidadãos apenas as pessoas que a ela pertencem.
67 Segundo Schmitt, “todas as representações essenciais da esfera espiritual dos seres humanos são existenciais e não normativas” (SCHMITT, 1996, p. 84).
ação política; ela é uma possibilidade real pressuposta no comportamento político (cf. SCHMITT, 1996, p. 34s).
A antropologia schmittiana, por ser negativa, pessimista e exclusivista, nega o universalismo político68. Ele rejeita toda teoria política que afirme a possibilidade de uma igualdade universal da humanidade. A distinção amigo/inimigo implica na negação dessa “ficção igualitarista”. O conceito de igualdade é, segundo ele, um conceito político; e não é, portanto, aplicável universalmente a todos os indivíduos ou a toda a humanidade, mas determinado politicamente a partir da decisão do Estado sobre quem são os iguais e quem são os desiguais (cf. SCHMITT, 1993a, § 17, p. 227). Toda igualdade é política, específica e substancial. Igualdade é um conceito interno de um grupo para se referir ao estatuto político dos indivíduos em seu interior: quem não pertence ao grupo não tem o direito de ser tratado como igual69.
Para Schmitt (1996), o povo (os iguais) se torna uma nação quando adquire consciência política de sua unidade e pretende afirmar sua vontade soberana no “concerto das nações”. Nação significa, segundo ele, um povo organizado com capacidade de ação, com consciência de sua particularidade e vontade para afirmar sua existência política. Nação é, portanto, o povo unido por motivações políticas. O que caracteriza um povo é o pertencimento a uma associação de homens ligados por traços étnicos ou culturais (cf. SCHMITT, 1993a, § 17, p. 231). Segundo Schmitt (1993), a cada nação corresponde um Estado e a cada Estado uma nação. Para ele, o processo existencial de autoafirmação de um povo como nação soberana corresponde ao processo de formação de sua vontade política. Um Estado surge no momento em que um determinado povo busca afirmar sua autonomia, sendo capaz de agir segundo o esquema amigo/inimigo. É desse modo que um grupo humano se qualifica como grupo político.
Para Schmitt, a condição básica para o surgimento do status político ou para a existência do poder estatal é a homogeneidade nacional. O Estado é entendido, por ele, como a entidade ontológica referida pelo conceito de unidade política de um povo. Por meio do Estado se preservam a ordem, a tranquilidade e a segurança, e também os meios para a continuidade da unidade política. Nenhum poder público-jurídico pode ser anterior ou
68Segundo Schimitt, “toda teoria política toma uma posição em relação à natureza do homem e pressupõe que o ser humano ou é „bom por natureza‟ ou é „mau por natureza” (1993c, p. 61).
69 Segundo Schmitt, “qualquer democracia efetiva se baseia não somente em tratar os iguais como iguais, mas também inevitavelmente em tratar os desiguais como desiguais... À democracia pertencem, necessariamente, primeiro a homogeneidade e, segundo – em caso necessário –, a separação ou eliminação do heterogêneo” (SCHMITT, 1993a, § 17, p. 228).
superior a ele em direitos70. Todos os grupos sociais devem submeter-se à ordem pacificamente e reconhecê-lo como detentor legítimo do poder e fonte do direito. Nenhuma esfera de atuação pode concorrer com ele71.
Para Schmitt, cabe ao Estado – devido à necessidade de manutenção da ordem – o direito político de, em situações críticas, determinar o “inimigo” interno e combatê-lo como se estivesse em uma guerra contra outros povos. Já que a política, para ele, envolve a diferenciação amigo/inimigo e implica uma luta de vida e morte, não tem sentido falar em política como luta entre partidos rivais no interior do Estado: uma luta entre partidos seria o mesmo que uma guerra civil. Sendo assim, a existência e sobrevivência do Estado se tornam um valor intrínseco em si mesmo, independente das normas que ele tenha (cf. SCHMITT, 1993a, § 17, p. 22).
Segundo Schmitt (1996), apenas ao Estado pertence o direito ao jus belli (o direito de exigir de que seus membros se disponham a matar ou morrer; o direito de indicar o “inimigo” e decretar-lhe guerra). Um Estado que abre mão desse direito perde a sua existência política. A guerra, por sua vez, é o caso-limite que define o estatuto político e institui o estado de exceção que requer uma decisão soberana. Já que toda unidade política pressupõe a existência de um inimigo e a coexistência de uma outra unidade política, o conceito do político implica uma pluralidade de Estados: o mundo político implica um pluriversum e não um universum. O universalismo kantiano, ou seja, o ideal de uma integração mundial das nações (direito cosmopolita) significa, para ele, a despolitização total da humanidade, e tem como função expandir a economia sobre o Estado e completar a era da completa despolitização, eliminando de vez o conceito do Estado, sua soberania e o direito dos povos à autodeterminação.
Para Schmitt (1993b), o liberalismo é apenas a expressão da ideologia política da burguesia. Os conceitos do liberalismo foram criados ou constituídos a partir da luta que a burguesia passou a travar, na época moderna, com o Estado absolutista. Diante dele, a burguesia foi se impondo e aumentando seu poder de influência, e garantindo legalmente a preservação de seus interesses econômicos. A dominação legal foi a arma utilizada pela burguesia para substituir a dominação pessoal do Soberano e neutralizá-lo no espaço político.
70 Para Schmitt (1996), o Estado preexiste a qualquer ordenamento jurídico: o Direito é apenas um instrumento político a serviço da existência, conservação e manutenção da ordem política. Seu escopo é a manutenção do Estado enquanto unidade política do povo. Não é o Estado que está a serviço do Direito, mas o Direito que está a serviço de suas finalidades políticas.
71 Schmitt (1996) rejeita a noção de pluralismo social ou de que para além do Estado existem outras instâncias sociais relevantes e influentes na tomada de decisões políticas. O Estado, segundo ele, é a única instância de decisão relevante e nenhuma outra instância social pode competir com ele pelo monopólio das decisões políticas.
Segundo Schmitt (1993b), o liberalismo irá postular que o poder estatal deve estar submetido a uma “Constituição” que deverá estar acima da vontade arbitrária do soberano (seja este o príncipe ou o povo, ambos inimigos políticos da burguesia). Para ele, o Estado constitucional-liberal, ao considerar a normatização legal como a expressão suprema da vontade geral, postula que todos os negócios e funções do Estado devem estar submetidos à constituição, e, ao dividir e submeter o poder estatal a um sistema de normas que estabelece sua competência, mascara o elemento pessoal da soberania sob a ficção de que são leis objetivas e não vontades humanas que governam (cf. SCHMITT, 1993b, p. 7). Desse modo, a comunidade política se transforma em comunidade jurídica, e o Direito torna-se (em vez do Estado) o detentor do poder. O constitucionalismo liberal assume uma postura legalista72. Esse legalismo se constitui na negação de toda legitimidade política baseada na autoridade e na vontade, seja do monarca ou do povo.
Para o liberalismo, a constituição é um sistema de garantias da liberdade individual burguesa. O liberalismo, influenciado pelo pensamento de Montesquieu73, tornou a liberdade do indivíduo o ponto arquimédico do Direito e do Estado74. A burguesia procurou, desse modo, fazer do seu conceito particular de constituição (que enfatiza a liberdade individual e a influência política da própria burguesia) o conceito universal de constituição75. A Constituição do Estado de Direito moderno impõe o individualismo burguês e submete o
72 Para o legalismo, a lei é a única fonte do Direito e qualquer ação do poder estatal deve ser justificada com base no sistema de leis e deve estar estritamente circunscrita a ele. Seu objetivo último é, segundo Schmitt, construir um sistema fechado de leis (constituição) que regule toda a ação estatal e elimine o conceito de soberano. Por isso é que legitimidade é a mesma coisa que legalidade para o Estado constitucional-liberal.
73 De acordo com Schmitt (1993b), Montesquieu (Esprit des lois, XI, cap. 5 e 7), ao classificar as constituições segundo sua finalidade, percebeu que algumas têm como finalidade a glória do Estado e outras a liberdade dos cidadãos. Desse modo, Montesquieu percebeu a essência do conflito político moderno: de um lado, a liberdade do indivíduo e, de outro, o poder estatal.
74 Segundo Schmitt (1991b), enquanto Montesquieu tratava de forma equivalente os dois eixos do conflito político moderno (ou seja, a liberdade individual e o poder estatal), o liberalismo tornou o princípio da liberdade individual o principal princípio do Estado de Direito moderno. Essa mudança ocorre em dois estágios: 1º) através de uma crítica moral do Estado pelo Iluminismo (ou estágio moral-humanitário) – onde o pobre indivíduo indefeso é defendido contra as atrocidades do Leviatã, fazendo do indivíduo isolado e autônomo o princípio metafísico último (cf. SCHMITT, 1991b); 2º) através da expansão do parlamentarismo – na metade do séc. XIX – que levou ao fim do absolutismo estatal (estágio econômico). O parlamentarismo é, para Schmitt, o lugar em que os interesses pré-políticos dos grupos sociais (sociedade civil) tentam interferir no processo de decisão política.
75 Cf. SCHMITT (1993, § 4, p. 36), do mesmo modo, Habermas, utilizando-se do conceito de constituição burguesa ou liberal estatal, irá propor – como continuidade desse projeto liberal burguês moderno – uma constitucionalização do direito internacional (direito cosmopolita), onde os valores particularistas da burguesia liberal (e a própria ideia de constituição) devem ser tomados como universais. Esse projeto de via única, na sua efetividade, não respeitaria nunca a pluralidade ou diferença (basta ver que o próprio Habermas comunga do discurso hegemônico ao, também ele, tachar aqueles que defendem a sua própria terra e os próprios valores como “terroristas, totalitários, fanáticos religiosos, intolerantes etc”.
Estado ao seu controle76. Dentro desse contexto, os Direitos Fundamentais são, segundo Schmitt, a expressão da relação “liberdade ilimitada do indivíduo-poder de atuação limitado do Estado”. A liberdade do Estado é posta, desse modo, como posterior e limitada em relação à liberdade individual, que é anterior e ilimitada.
Para Schmitt (1993a), no entanto, o Estado não pode reconhecer – política e juridicamente – nenhuma liberdade e nenhum direito que preexistam e estejam acima dele. Somente ele pode reconhecer os direitos que preservam a esfera individual, tais como liberdade religiosa, inviolabilidade de domicílio, da correspondência e da propriedade individual; já a liberdade de imprensa e a liberdade de associação pertencem a outro tipo de liberdade que pode ter um correspondente político e podem ameaçar a unidade política do Estado. Nesse caso, o Estado não deve tratá-los como direitos individuais, mas dentro da lógica do político (cf. SCHMITT, 1993a, § 14, p. 164s). Apenas enquanto citoyen e não enquanto privatus (Einzelne) o indivíduo tem direitos políticos: para Schmitt (1993a), diferentemente de Habermas, a esfera privada dos interesses individuais é uma ameaça permanente de decomposição do Estado enquanto unidade política77.
O objetivo do liberalismo é regulamentar toda a ação estatal e limitá-la a um funcionamento maquinal, calculado. A doutrina da separação e autonomização dos poderes do Estado é parte desta estratégia de esvaziamento dos poderes do Estado. Ela, segundo Schmitt, dificulta qualquer ação efetiva do poder estatal, já que para qualquer decisão é mister uma “negociação”. Nessa luta política contra o poder estatal, a teoria liberal impôs três pontos básicos para seu conceito de constituição: o reconhecimento dos direitos fundamentais do indivíduo; a separação dos poderes do Estado; e a representação política burguesa no parlamento. O Estado “de Direito” é o status político criado para preservar os interesses da burguesia liberal. Só é reconhecido como Estado de Direito o Estado que assume os princípios liberais (liberdade individual, direitos fundamentais, divisão de poderes etc.). Para o liberalismo burguês, só há Constituição onde se preservam os valores liberais da propriedade privada e da liberdade individual; onde tais valores não são assegurados há despotismo, ditadura, escravidão (cf. SCHMITT, 1993a, § 4, p. 37).
76 “A moderna constituição do Estado de Direito burguês corresponde em seus princípios ao ideal de constituição do individualismo burguês, de tal modo que estes princípios são comumente identificados com a constituição enquanto tal, e „Estado constitucional‟ com Estado de direito burguês... Esta constituição contém, em primeira linha, uma decisão em favor da liberdade burguesa: liberdade pessoal, propriedade privada, liberdade de contratos, liberdade de comércio... O Estado aparece como um empregado da sociedade, submetido ao seu controle estrito...” (SCHMITT, 1993a, § 12, p. 125).
77 Nesse sentido, o sufrágio universal (que Schmitt é contrário) é o reconhecimento da consciência individual como determinante do espaço político.
A ideia de “Estado de Direito”, utilizada pela burguesia, procura desqualificar qualquer outra forma de Estado que não assuma os valores liberais78. A ideia de “Estado de Direito” surgiu da luta política da burguesia para limitar o poder do soberano por meio da ordem jurídica do Estado constitucional e da representação política parlamentar. Mas, já que o Estado é a fonte do Direito, todo Estado necessariamente é Estado de Direito79. Segundo Schmitt (1993b), o Estado constitucional-liberal cria a ilusão de que são as leis e não as pessoas ou autoridade quem dominam (cf. SCHMITT, 1993b, p. 8). Leis, no entanto, não exercem poder porque pressupõem um ordenamento político que garanta sua validade, aceitação e execução. “Exercer poder” é um atributo exclusivo de indivíduos ou grupos de indivíduos, e não de entidades abstratas como normas e leis. A grande contradição do Estado de Direito liberal moderno é que ele elimina o espaço de expressão da vontade soberana ou que opõe a ordem legal à legitimidade política.
De acordo com Schmitt (1993c), o normativismo jurídico é a formulação mais acabada da ideologia política do liberalismo. Por ser uma teoria deontológica, separa ser e dever-ser, fato e norma e elimina da Teoria do Direito toda consideração sociológica e política: o ordenamento jurídico reduz-se apenas a um sistema de normas derivadas de uma norma fundamental80. O normativismo é abstrato (analisa apenas as qualidades intrínsecas dos sistemas de leis sem relação com o campo sociopolítico) e formalista (defende que a validade de um sistema jurídico se mede a partir de critérios lógico-formais internos como consistência, completude, determinação etc.); ele desconsidera que o principal problema da teoria jurídica é o da sua eficácia e aplicação e não o da sua validade: ao separar Política e Direito, o formalismo jurídico esquece que todo sistema de normas pressupõe um ato de vontade política, uma autoridade, um comando (Befehl) para torná-lo válido. Em vez disso, a falsa pretensão de objetividade científica da “Ciência do Direito” procura fundamentar a ordem jurídica na validade impessoal de uma norma impessoal (cf. SCHMITT, 1993c, p. 35).
O conceito schmittiano de lei se opõe ao conceito burguês. Enquanto o conceito burguês remete à tradição grega, concebendo a lei como algo racional-universal, o conceito