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89itü vakfı dergisi

Nos últimos 20 anos, vários estudos têm contribuído para o aperfeiçoamento da teoria contemporânea da metáfora conceptual, e uma dessas contribuições importantes é a Hipótese da Metáfora Primária de Joseph Grady (1997).

Essa nova hipótese tenta explicar alguns pontos controversos da teoria de Lakoff e Johnson (1980), como pobreza de alguns mapeamentos, falta de base experiencial clara entre alguns domínios fonte e alvo, falta de consistência entre os mapeamentos

relacionados e a circularidade na identificação da metáfora conceptual (FRANÇOZO; GIBBS; LIMA, 2001, p. 110-111).

Grady (1997) afirma que a emergência e natureza das metáforas conceptuais são geralmente baseadas em padrões metafóricos mais experienciais, denominados de metáforas primárias ou primitivas, ou seja, a metáfora primária possui base experiencial corpórea direta que serve como alicerce para a produção/geração de metáforas conceptuais.

As metáforas primárias surgem a partir de uma estreita correlação entre dimensões distintas de experiências corpóreas recorrentes e coocorrentes. Essas experiências são de tipos básicos, associadas de forma significativa com as nossas interações com o mundo e independentes das influências culturais. (LIMA; FELTES; MACEDO, 2008, p. 146)

Atualizações metafóricas tais como „Pedro tem fome de reconhecimento‟, „João tem sede de poder‟ e „Marcos tem fome de bola‟ são manifestações linguísticas da metáfora primária DESEJAR É TER FOME, que ocorre simplesmente pelo fato de sempre termos fome e de ao mesmo tempo experienciarmos também o desejo de comer algo, configurando-se, dessa maneira, como uma das metáforas mais próximas das atividades corpóreas.

Lakoff e Johnson (2003) reconhecem a importante contribuição de Grady à teoria da metáfora conceptual.

A major advance in metaphor theory came in 1997 with fundamental insights by Joseph Grady. Grady showed that complex metaphors arise from primary metaphors that are directly grounded in the everyday experience that links our sensory-motor experience to the domain of our subjective judgments. For example, we have the primary conceptual metaphor AFFECTION IS WARMTH because our earlier experiences with affection correspond to the physical experience of the warmth of being held closely.13 (LAKOFF;

JOHNSON, 2003, p. 254-255)

13 Um grande avanço na teoria da metáfora veio em 1997 com os insights fundamentais de Joseph Grady. Grady mostrou que as metáforas complexas surgem a partir de metáforas primárias que são diretamente baseadas na experiência cotidiana que liga a nossa experiência sensório-motora ao domínio de nossos juízos subjetivos. Por exemplo, nós temos a metáfora conceptual primária AFEIÇÃO É CALOR porque as nossas experiências anteriores com afeto correspondem à experiência física de calor por nos mantermos perto/próximos. (Tradução nossa)

Na perspectiva tradicional da teoria contemporânea da metáfora, a compreensão de conceitos mais complexos se dá através de conceitos mais simples, e os domínios fonte e alvo são bastante similares em termos de estruturas (ambos possuem esquemas imagéticos), e a diferença entre esses domínios é estabelecida em termos de familiaridade, complexidade, consciência e abstração.

Na nova perspectiva da metáfora primária, os domínios são díspares por natureza, ou seja, um domínio é definido pelo conteúdo sensorial, o outro é uma resposta ao input sensorial (LIMA, 2006, p. 111-112).

Na teoria da hipótese da metáfora primária, conforme Lima (2006), os domínios são diferentes por natureza, em que o da experiência é mais localizado, com características muito específicas; ou seja, o domínio fonte é definido pelo conteúdo sensorial, ao passo que o domínio alvo é uma resposta ao input sensorial e acolhe os julgamentos e as análises desses inputs.

Primary metaphors arise spontaneously and automatically without our being aware of them. There are hundreds of such primary conceptual metaphors, most of them learned unconsciously and automatically in childhood simply by functioning in the everyday world with a human body and brain. There are primary metaphors for time, causation, events, morality, emotions, and other domains that are central to human thought. Such metaphors also provide a superstructure for our systems of complex metaphorical thought and language.14 (LAKOFF;

JOHNSON, 2003, p. 256-257)

Lakoff e Johnson (1999) aderem à abordagem segundo a qual as metáforas primárias são como átomos, que agrupados formam moléculas: as metáforas complexas. Portanto, as metáforas complexas são estruturas moleculares estáveis e que possuem um papel significativo no sistema conceptual; o que fundamenta os mapeamentos para a metáfora complexa são as metáforas primárias com suas partes, ou seja, o todo é justificado por suas partes.

Pode-se observar, no exemplo retirado de Lakoff e Johnson (1999), que a metáfora complexa VIDA COM PROPÓSITOS É UMA VIAGEM (A PURPOSEFUL LIFE

14 As metáforas primárias surgem de forma espontânea e automática sem que tenhamos consciência delas. Há centenas de metáforas conceptuais primárias, a maioria delas é aprendida inconscientemente e automaticamente na infância através das atividades do dia a dia com o corpo e o cérebro. Há metáforas primárias para tempo, causalidade, eventos, moralidade, emoções e outros domínios que são centrais para o pensamento humano. Tais metáforas também fornecem uma superestrutura para os nossos sistemas de pensamento e linguagem metafóricos complexos. (Tradução nossa)

IS A JOURNEY) é oriunda das metáforas primárias: PROPÓSITOS SÃO DESTINOS e AÇÕES SÃO MOVIMENTOS, pois espera-se que as pessoas tenham propósitos em suas vidas, de modo que deveriam agir de acordo com esses propósitos.

No caso da metáfora TEORIAS SÃO EDIFÍCIOS, de acordo com Grady (1997), trata-se de uma metáfora complexa que é composta pelas metáforas primárias ORGANIZAÇÃO É UMA ESTRUTURA FÍSICA e PERSISTIR É PERMANECER ERETO, sendo justificada pelo fato de apenas uma parte do edifício ser mencionado ao se referir a teorias, uma vez que não se fala em corredores, esgotos ou janelas das teorias. As expressões linguísticas que ilustram essa metáfora são: „essa teoria não se sustenta‟, e „este ponto é o pilar da hipótese dele‟.

Em suas investigações, Grady (1997) reanalisou várias metáforas conceptuais disseminadas na literatura e percebeu que algumas apresentam mapeamentos de natureza mais básica, com forte base experiencial, gerando, dessa forma, expressões metafóricas em várias áreas da experiência humana, enquanto outras são resultados da combinação de metáforas primárias.

De acordo com essa nova hipótese, os domínios fontes são caracterizados da seguinte maneira: a) são definidos pelas sensações ou input sensoriais, então possuem conteúdos imagéticos, ou seja, os esquemas imagéticos são menos abstratos, mais restritos, e não podem incluir conceitos altamente dependentes da cultura; b) referem-se a experiências simples, e não envolve muitos detalhes nem muitas cenas; c) devem estar bem correlacionados com alguns outros domínios experienciais; d) referem-se a elementos universais da experiência humana; e) são relacionais, pois se referem à propriedade das coisas (ex.: peso), a relações entre as coisas (ex.: proximidade) e as ações envolvendo coisas (ex.: cortar), mas não a coisa em si (ex.: copos, facas) (LIMA, 2006, p. 112-113).

Os domínios alvos, de acordo com Lima (2006), possuem as seguintes características: a) não possuem conteúdos imagéticos, e envolvem respostas e avaliações do input sensorial; b) são tão familiares quanto os domínios fontes, desde que sejam comuns, experiências recorrentes; c) referem-se a unidades básicas ou parâmetros da função cognitiva, nos níveis a que nós temos acesso direto e consciente. Diferentemente das construções mais elaboradas, os conceitos alvos parecem estar no nível mais baixo do processamento cognitivo consciente e acessível, ou pelo menos em um nível distinto do nível do esquema imagético.

Outro ponto importante que diferencia a teoria de Lakoff e Johnson (1980) da nova teoria contemporânea da metáfora está relacionado com a construção fundamental, que na visão tradicional foi pensada como sendo o esquema imagético, já na nova perspectiva é a cena primária. Segundo Grady (1997), “a primary scene is a cognitive representation of a recurrent experience type which involves a tight correlation between particular aspects of the experience”.15

Enquanto os esquemas imagéticos são estruturas amplas, as cenas primárias são estruturas mais locais, motivadas por momentos particulares das nossas experiências. Todos os casos de recipientes, por exemplo, podem ser incluídos no esquema imagético de um recipiente, entretanto cada caso envolve muitas cenas primárias, tais como, (a)

entrar em uma sala ou (b) tirar algo de uma caixa, gerando dessa maneira metáforas

distintas. Na cena (a), nós experienciamos entrar em espaços com determinadas características e certos limites, ao passo que, na cena (b), nós temos a experiência de interagir com o recipiente e seu conteúdo (LIMA, 2006, p. 115).

Para que os domínios alvo e fonte sejam unidos cognitivamente, é preciso que eles compartilhem estruturas esquemáticas no mesmo nível. Muito embora, para Grady (1997), tais estruturas não podem ser uma imagem esquemática, uma vez que apenas aqueles conceitos diretamente relacionados às nossas experiências sensórias possuem conteúdo de imagem.

De acordo com Lima, Feltes e Macedo (2008), as metáforas primárias também possuem certo caráter universal, ou seja, traços comuns em todas as línguas. Expressões linguísticas, tais como „Esse ano vai ser muito pesado‟, „Tudo isso tem sido um fardo na minha vida‟ são atualizações da metáfora DIFICULDADES SÃO PESOS, gerada pela correlação entre a percepção de peso e a sensação de desconforto ao encarar/enfrentar uma dificuldade, ao passo que expressões linguísticas, como „O crime violento está

baixando pelo terceiro ano consecutivo‟, „A população mundial continua subindo‟, são

atualizações da metáfora QUANTIDADE É ELEVAÇÃO VERTICAL.

Lakoff e Johnson (1999), a partir dos estudos de Grady no que diz respeito à Hipótese da Metáfora Primária, elencaram alguns exemplos de metáforas primárias. A seguir estão algumas dessas metáforas e suas respectivas manifestações linguísticas:

15 Uma cena primária é uma representação cognitiva de um tipo de experiência recorrente que envolve uma estreita correlação entre aspectos específicos da experiência. (Tradução nossa)

AFEIÇÃO É CALOR: Fui recebido calorosamente pelo grupo de estudantes. DIFICULDADES SÃO PESOS: Ajudando-me nesta tarefa, você tira um peso de

meus ombros.

SIMILARIDADE É PROXIMIDADE: Nossas ideias são muito próximas. AJUDA É SUPORTE: Deus sempre me dá apoio nos momentos difíceis. TEMPO É MOVIMENTO: Os dias passam voando.

ESTADOS SÃO LUGARES: Não consigo sair da depressão.

PROPÓSITOS SÃO DESTINOS: É preciso persistência para chegar lá, fazer acontecer.

CONHECER É VER: Veja bem o que o autor quer dizer com isso. ENTENDER É AGARRAR: Não consigo pegar sua idéia.

Benzer Belgeler