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No intuito de delimitar a abrangência dos textos mitológicos, selecionamos para análise a versão mais atual da lenda timorense, escrita por Cardoso (1998, p. 104) do repertório dos mitos de fundação119: O Crocodilo fez-se ilha, protagonizado por uma mulher. O lendário mito do crocodilo é dessa forma contado, trazendo uma mitologia historicizada.

Esta inserção de novos elementos num território lendário universal nos permite verificar suas matrizes, as situações recorrentes do mesmo tipo, ver como elas ficam mais

118 Desconhecemos a origem desta versão mais contemporânea da lenda do crocodilo que apresenta uma mulher

como protagonista. Porém, sabe-se que seu autor, timorense que já viveu exilado em Portugal de 1979 até a independência de seu país, teve a oportunidade de conviver com diferentes grupos, participar de outras realidades e reconhecer diversas línguas, uma vez que seu pai, enfermeiro contratado pelas autoridades da metrópole, levou a numerosa família a várias localidades de Timor. Vide Capítulo I.

119 Os mitos de fundação estão sempre ligados ao mistério de um animal que faz um sacrifício para que essa

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próximas ou mais distantes, que cortes são feitos e, principalmente, como aparece descrita a figura feminina.

Para a análise desse conto lendário, recorremos, portanto, aos paradigmas das narrativas orais no âmbito da semiótica russa estruturalista de Propp, observando que, para o autor, o conto maravilhoso (1997, p. 5) “é uma totalidade em que todos os assuntos estão ligados e condicionados entre si”.

Em sua Morfologia do Conto Maravilhoso (1984), Vladimir Propp ressalta, entre os tantos recursos que enumera, o das funções dos personagens nos contos que define como sendo (1984, p. 26) “o procedimento de um personagem, definido do ponto de vista de sua importância para o desenrolar da ação.” Evidencia também a presença de um herói, sempre buscando e que, a caminho da busca, vai se deparar com obstáculos e vencer no final, com ou sem transgressões.

O autor identifica classes de personagens120, distribuídas segundo sua evolução na narrativa; identifica também funções narrativas para as situações dramáticas do enredo, mas aponta para uma flexibilidade no que concerne à quantidade dessas funções nos contos, quer dizer, o número de funções pode sofrer alterações. Destaca elementos de união, motivações e outros, afirmando serem (1984, p. 89) “estas categorias de elementos [as que] determinam a construção do conto, como também o conto em sua totalidade”.

2.2.2.1 A Lenda do crocodilo O Crocodilo fez-se ilha

Ali também Timor que o lenho manda Sândalo salutífero e cheiroso

Camões

Nunca tinha chovido tanto e de uma só vez naquelas paragens. Como se a monção viesse para nunca mais voltar. As águas subiram, inundaram a terra, aproximaram-se dos céus onde deixaram sementes de caleic (Entada Scandens) germinando trepadeiras, amarrando o mar e a terra ao infinito. Foi o tempo em que tudo se ligou. Uma bola completamente azul pendurada no firmamento rolando no tempo. Os seres misturavam- se e percorriam lugares outrora restritos apenas a alguns. A água fizera mais do que alguma vez os homens ousaram diluindo as fronteiras. Não havia classificação consoante os locais onde habitavam ou de acordo com os seres que digeriam. Eram todos iguais e celestiais, terrenos e marítimos.

120 Segundo a classificação de Propp, estas sete classes seriam: o antagonista; o doador; o auxiliar; a princesa e o

pai; o mandante; o herói e o falso herói. Greimas retomou posteriormente esta categorização e dividiu os personagens da narrativa, a quem chamou de "actantes", em categorias diferentes, como: o protagonista ou herói, o antagonista ou vilão; o objeto de afeto – ou de desejo do protagonista e os "ajudantes" do protagonista.

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Mas foi chuva de pouca dura. O caos e a desordem aproximavam os naturais dos sobrenaturais. A época das chuvas terminou sem ter dado antes um sinal do seu fim próximo. Repentinamente. O mar arrastou-se para os seus limites. Como uma esteira líquida que se dobra. O céu separou-se pelo sopro do vento em busca da extensão dos ares. Uma trepadeira unia a abóboda celestial ao umbigo da terra resistindo à separação do espaço único. Por ela trepavam os mortos e desciam os iluminados. Depois partiu-se com o peso dos mortos e pela fúria dos iluminados. Voltou tudo a ficar com as suas fronteiras definidas. O céu, o mar e a terra separados como antigamente.

Os crocodilos antes do dilúvio viviam no mar e nas extensões das águas que entravam pela terra dentro. Foram os que mais se aproximaram da divindade. No fim da estação das chuvas, quando as águas começaram a recuar, todos os animais movidos pelo instinto de sobrevivência foram recuando para os seus anteriores nichos. Os pequenos crocodilos, movediços e irrequietos, sentindo que o mar recuava, foram deixando os locais onde tinham feito incursões em busca de alimentação mais condimentada que não fosse apenas peixes, barbatanas e espinhas. Mas aquele velho crocodilo que nunca tinha se aventurado para além das poças de água, onde esperava os incautos transeuntes, mostrava-se renitente em abandonar aquele recanto de terra onde corriam cabrito, porco, cão, veado, búfalo e homem. A prole bem tentou demovê-lo dessa teimosia quase divina. Já não queria mais regressar para o seu meio aquático. Por mais que insistissem dizendo que em breve com a seca, morreria de calor e fome, tencionava ficar. Dizia ser a natureza o seu melhor aliado que com ele fora sempre benevolente. Mais do que os da sua espécie que se devoram a si mesmos. Com tal argumento convenceu-os a irem-se embora. Era a sabedoria acumulada ao longo do tempo. O clã entendeu tal atitude como sendo um sinal da sua senilidade e a resignação ao fim próximo. Há um momento único no tempo de cada um para decidir a forma mais conveniente e digna de se ausentar. Um grande sáurio arrasta-se no chão mas nunca no tempo. Os pequenos choraram antecipadamente lágrimas de crocodilo pelo fim do progenitor. Como não estava nenhum outro animal presente, eram genuínas as lágrimas choradas. Arrastaram-se para o mar e o velho crocodilo foi ficando cada vez mais distante e abandonado.

O sol incidiu raios a pique chicoteando a terra. O velho crocodilo sentiu a falta da água. Sufocava. Suava por toda a pele para refrescar o seu corpo. Perdera as forças nas patas e mal agüentava o seu tamanho quando pretendia arrastar-se. Os abanões da cauda nem davam para assustar as moscas zumbindo em seu redor. E por fim chegou a fome. Essa velha senhora que o atiçava a atirar-se contra tudo o que se movia. E nada se movia à sua frente. Nunca passara por tão difícil provação. Chorou com pena própria culpabilizando-se por ter esse espírito rabugento e teimoso não lhe permitindo seguir recomendações dos mais novos considerando-os como sendo imaturos e de geração espontânea. Fez então a sua introspecção como forma de atenuar o seu sofrimento e ter um fim de um verdadeiro ancião réptil. Quando era líder gostava de pregar partidas aos seus correlegionários deixando-os nos caminhos por onde se cruzavam os caçadores de peles para enfeitar a vaidade humana. Em como depois matava os mais fracos para treinar as suas potentes mandíbulas em exercício de terrificação e desta forma reivindicar um território onde só cabia o seu estatuto especial. Em como chorava a valer para chamar a atenção dos transeuntes, mostrando piedade pelas lágrimas julgando serem verdadeiras e ele depois os matava a sangue-frio, às vezes a quente para saciar os seus apetites carnais.

Viu então desenharem-se no horizonte nublado dos seus olhos, vultos de animais que se aproximavam atraídos pelo cheiro da morte de um velho tenebroso. Em rodopio de dança fúnebre e algazarra. Eram cabritos, faziam mé-mé e passavam ao lado. Eram macacos, saltitavam, mostravam os dentes e a língua e passavam ao lado. Eram veados, javalis e homens. Por mais que lamentasse a sua sorte e jurasse comendo areia quente, ninguém o socorreu.

Titi procurava pelos pais depois da descida das águas. Na sua inocência sem saber distinguir o falso do verdadeiro das lágrimas perguntou-lhe se precisava de ajuda.

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- Leva-me até ao mar. Eu prometo levar-te aos teus pais! – rogou o crocodilo com voz de finada.

Triste com a sorte alheia mais do que a própria, aproximou-se. Vendo-o quase desfalecido, pensou somente em salvá-lo. “A vida de quem quer que seja, deveria ser tido em conta para além dos seus actos” - pensou. Um pensamento grande demais para as suas pequenas forças. Havia uma desproporção entre o peso do colosso moribundo e a potência dos seus inexistentes músculos dos braços. Os olhos do crocodilo já não choravam. Titi foi buscar as cordas da trepadeira e enrolou-as ao longo do corpo daquele que reencarnava o horror sobrenatural. Puxou, mas nem um passo adiante. Faltavam-lhe mais forças para arrastar o peso do quase morto. Foi pedir ajuda mas o silêncio dos vingadores apenas foi quebrado pela voz irritante do mandatado macaco: - Que morra aquele que tanto mal fez!!!

Assustou-se com a resposta. Mas não desanimou. Lembrou-se daquele búfalo bravo que amansara para tomar conta dela. Um guardava a outra. Pediu-lhe para a ajudar a pôr um velho moribundo no mar. Quando chegaram ao local o búfalo franziu os olhos, levantou as sobrancelhas e deu uma cornada no ar soltando espumas brancas pela boca de raiva. Parecia o mar revolto.

- Não, tudo menos isso! Ele devorou metade de minha família e também os teus pais! – gritou irritado. E com tamanha indignação que o seu corpo parecia multiplicar-se numa manada de búfalos prontos para a vingança.

Titi não teve outra alternativa senão voltar para junto do crocodilo e lamentar a sua morte. Preparava um canto fúnebre para consolar o espírito do moribundo quando uma luz lhe iluminou o pensamento. “Ninguém deve morrer fora do local onde nasceu. Por onde se nasce por onde se morre”. Foi ter com o seu guardador e argumentando dessa forma foi ajudada. O búfalo só deu pelo engano quando o crocodilo dentro da água começou a revitalizar as suas forças. Afinal, a terra do crocodilo era a água e esta fazia- o renascer. O morto fez-se vivo. O búfalo estava magoado com a menina. Esta traíra a sua amizade. Depois condescendente deslizou a sua acusação para o instinto maternal. Dela e da água. Às vezes, a maternidade, na sua luxúria, gerava a bestialidade.

Foi-se embora. Voltou a ser bravo. A única condição que lhe garantia respeito e sobrevivência.

O crocodilo vendo a cena da amizade desfeita quis recompensar a sua salvadora pela perda de um amigo prometendo ser ele o verdadeiro. Dizia que a imagem que tinham dele não lhe garantia total proveito. Não era tão traiçoeiro como a fama das suas lágrimas.

- Pula para o meu dorso. Eu te levo a conhecer os mares – disse o crocodilo com voz paternal.

Levada pelo encanto de conhecer a profundidade dos oceanos e para fugir ao remorso por ter traído o seu amigo pulou para as placas do grande sáurio. Anoitecera. E sem a vigilância dos olhos dos outros animais e a coberto da distância e da escuridão da noite que com ela trazia os instintos escondidos da natureza de cada um, tencionava comer aquela criança, salgada e temperada pelos ares do mar. A lei da natureza predominava sobre a moral. Está na natureza do crocodilo devorar a sua caça. Mas as forças dos seus músculos foram-se esgotando na jornada. Sentiu que o seu fim chegava. Não conseguiu mexer as patas nem mesmo a cauda. Encalhou no seu destino. Rendido à evidência da morte quis a grandiosidade. As suas patas alongaram-se e cravaram bem fundo nos corais. O corpo distendeu-se e as placas ganharam elevação surgindo florestas, colinas e ravinas, planaltos e planícies. Uma voz surgiu então do ventre do ainda crocodilo quase terra:

- Sou velho e vou morrer. Tu és linda. Serás mulher e cuidarás de mim e das florestas de árvores de sândalo. Brevemente chegarão príncipes. Uns em busca da tua beleza e outros do cheiro do sândalo salutífero e cheiroso.

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2.2.2.2. O Crocodilo fez-se ilha: feminização do mito fundador

Ao escrever esta lenda, publicada em 1998, um ano antes do referendo que trouxe a libertação de Timor-Leste do jugo indonésio, Luís Cardoso bebe nas fontes passadas, tanto orais como escritas. Por esta razão, tomaremos a liberdade de estabelecer um cotejo com o conto de Marçal Andrade (PASCOAL, 1967, p. 258-60), elegendo apenas pontos que imputamos esclarecedores na razão direta do mito fundador, inerente a ambos os contos. Dessa maneira, transcrevemos abaixo o conto O primeiro habitante de Timor:

À volta da fogueira, no sossego de paupérrima aldeia, ou nas noites buliçosas dalgum

estílu, os velhos de Bé-Háli ainda contam esta interessante lenda.

É possível que o famoso reino de Bé-Háli, na zona oeste de Timor, de que tantas vezes se fala na história desta ilha, tenha sido a primeira região desabitada em que se fixaram povos vindos de arquipélagos situados mais ao oriente.

Cada vez menos perceptíveis, vão passando, de geração em geração, hipotéticos vestígios dessas recuadas migrações.

Esta lenda dos velhos de Bé-Háli será, também, um elo dessa ténue cadeia? Reza assim:

Havia, em Macáçar, um crocodilo que se lembrou, certa manhã, de dar um longo passeio. Tudo o convidava a estender as pernas, a ele, pobre hidrosáurio, que só saía das águas lamacentas do coilão para se estiraçar ao sol, nas suas margens, à espera dalguma incauta presa.

No céu nem uma nuvem. Um ar de suave frescura afagava a terra. Das aldeias mais próximas não vinha um ruído sequer. Com tempo tão bom, os seus habitantes haviam- nas desertado, com certeza, para as lides do campo e do mar.

Não encontraria por lá algum descuidado cão ou bojudo cerdo que lhe servisse de opíparo acepipe? Ia tentar, pois quem não se arrisca não petisca...

Absorvido por este pensamento insistente, não reparou que se ia afastando demais. Quando voltou a si, já o sol ia a pino. Resolveu regressar ao coilão. Bem cedo se acabou a sombra das palmeiras e dos coqueiros que orlavam a extensíssima praia. Depois era areia, só areia, tão quente como ferro em brasa. A meio do caminho, viu-se obrigado a parar. Não podia mais. O corpo parecia-lhe de chumbo. Julgou que ia morrer e, para mais, em jejum, sem o sonhado petisco. Oh! Se alguém lhe salvasse a vida, fosse quem fosse, até um apetecido cão, nada mais lhe faria se não mostrar-se grato. Custava-lhe tanto morrer!

Quando estava nestas sérias e aflitivas considerações e bons propósitos, apareceu um rapaz. Ou por ser dotado de excepcional bondade e coragem, ou porque o bicho em apuros era o tótem de sua tribo, arrastou o crocodilo até ao coilão, por lhe parecer que precisava de socorro urgente.

Um cordeiro não teria sido mais manso nem nuns olhos de criança se teria lido maior reconhecimento do que nos do atormentado jacaré.

Mal se viu na água, o crocodilo ofereceu-se ao jovem para o levar no dorso sempre que quisesse banhar-se no coilão ou no mar.

A oferta foi aceite.

Tendo sempre na mente a lembrança de tamanho benefício, o crocodilo foi, por muito tempo, fiel ao compromisso. Era vê-lo rasgar, volta e meia, a superfície queda do coilão ou ligeiramente encrespada do mar, ao inteiro dispor do rapaz, serenamente equilibrado sobre o seu aquático corcel. Mas... a ocasião faz o ladrão. Tanta vez o levou até que um dia , em que não tinha uma só febra de carne no bucho e, portanto, a fome lhe mandava de lá as suas severas e prementes reclamações, sentiu a tentação de o comer.

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Não consentiu logo nela, porque o apetite e a guloseima, dum lado, e a consciência, do outro, entraram em rija luta. Não querendo proceder de ânimo leve em questão de tal ordem, em que estavam em jogo a sua honra e a sua consciência, resolveu ouvir, primeiro, a opinião dalguns peixes e animais que lhe pareciam mais sisudos e atilados. Começou pela baleia. Perguntou-lhe se era digno mostrar-se um indivíduo ingrato para com aquele a quem deve um grande benefício. A bonacheirona da baleia disse-lhe: - De modo algum. Pelo contrário. Deve-se retribuir na mesma moeda.

Um por um, os vários peixes consultados foram dando, mais ou menos, a mesma resposta.

Em pouco diferiu o modo de pensar e de exprimir-se, a tal respeito, de diversos animais a quem ele propôs a mesma melindrosa questão.

Sabendo que o macaco é mariola e talvez o tranqüilizasse de modo a poder fazer a maroteira, decidiu pedir-lhe, também, o seu parecer. Encontrou-o sobre um ramo, a comer, cautelosamente, um fruto. Embora os seus modos irrequietos o não mostrassem, prestou toda a atenção ao que lhe expunha o crocodilo. Todavia, nada lhe disse mas atirou-lhe, com desdém, a casca do fruto, fez uma careta, que mostrava a máxima repulsa pela ingratidão e sentimentos sanguinários do nojento anfíbio, e voltando-lhe as costas, desprezivelmente, desapareceu, em dois pulos, entre a ramaria do bosque. Já não restavam dúvidas ao crocodilo de que teria contra si toda a opinião pública, caso perpetrasse a negra ingratidão de comer o seu benfeitor. Preferiu não ser réu de tal perfídia. Pelo contrário, iria até onde pudesse, pelos mares além, em busca de qualquer estranha aventura para o dedicado rapaz. E foi. Recebeu - o sobre o dorso a primeira vez que ele apareceu na praia e fez-se de longada, sobre as ondas, a caminho das terras onde nasce o Sol, convencido de que por lá haveria coisas tão lindas como esse disco de ouro. O aventureiro rapaz deixou-se ir. Ardia-lhe no peito a ânsia do desconhecido. O crocodilo andou, andou, andou. Exausto, parou , por fim, sob um céu de turquesa, e – oh! prodígio - transformou-se em terra e terra para todo o sempre ficou – terra que foi crescendo, terra que se foi alongando e alteando, sobre o mar imenso, sem perder, por completo, a configuração do crocodilo. O rapaz foi o seu primeiro habitante e passou a chamar-lhe Timor, isto é, Oriente.

a) As duas Lendas do crocodilo

Em O Crocodilo fez-se ilha, tudo começa com um grande dilúvio onde todos os elementos da natureza se juntam e depois se separam. Os crocodilos jovens que povoam a terra correm para a água. Um velho crocodilo decide ficar onde estava com o propósito de se alimentar. Vê passar vários animais que não param até que chega a menina Titi. Interessado em devorá-la, mas sem forças, pede-lhe ajuda para chegar até a água. Titi não consegue levá- lo sozinha e, por sua vez, pede ajuda a outros animais – um macaco e um búfalo, que negam porque o crocodilo era destrutivo. Supondo que ele iria morrer, ela apela novamente ao búfalo e este atende seu pedido. Mas assim que chega na água, o réptil recupera sua energia e o búfalo se enraivece com Titi, acreditando ter sido enganado. O crocodilo ardiloso propõe levar Titi em seu dorso até o mar. Lá chegando, como suas forças o abandonam, ao invés de devorar a menina ele se transforma em ilha, pedindo a ela que cuide da nova terra e se case para povoar aquele território.

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O primeiro habitante de Timor se inicia com uma contação de história no reino dos Bé-Háli, local onde se fixaram vários povos. Neste reino, um crocodilo decide dar um passeio, saindo das águas do coilão. Na esperança de encontrar uma presa, afasta-se demais de seu habitat e não consegue voltar, mas aparece um rapaz que o arrasta até as águas. O crocodilo se oferece, então, para levá-lo a passeio em seu dorso sempre que este o desejasse. O rapaz aceita e ele cumpre com o prometido. Mas um dia sente a tentação de comê-lo e vai pedir a opinião de vários animais sobre essa idéia. Baleia e peixes não concordam, sendo que o macaco demonstra muita repulsa diante dessa intenção do crocodilo. Assim, o réptil decide poupar a vida do rapaz, seu salvador, e o transporta no dorso para mais uma aventura no mar. Toma o caminho das terras onde nasce o sol e lá, aos poucos, transforma-se em terra que

Benzer Belgeler