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COMPARISON OF OPTIMIZATION METHODS FOR ADDITIVE MANUFACTURING AND MACHINING METHODS

Nesta obra de Gelly, intitulada "Lisan Timor" há duas figuras – a de um homem e de uma mulher, unidas e isoladas sobre um enquadramento de fundo colorido, cujos tons evocam a bandeira nacional, repetida no táis que une os dois personagens.

O quadro é composto de elementos que trazem em seu interior muitas evocações identitárias compostas de imagens e objetos: entidades subjetivas (altares); símbolos históricos (bandeira); geográficos (montanhas, cascatas, casas típicas); culturais (objetos domésticos: cestos, enfeites) e formas artesanais. Juntos, todos estes elementos nos remetem ao país e aos “valores” que o pintor agrega a ele, através da figuração (seus clichês), que permeiam a obra.

Segundo o artista, este desenho lembra outra tela pintada anteriormente e é muito significativo, pois traduz suas idéias sobre a nação. Os personagens compõem o casal do qual provém as gerações. Nas cabeças, ambos trazem o kaebauk. A bandeira de Timor-Leste como fundo, lembra que a sobrevivência da família, representada pelo homem e a mulher, dependem do cusin (ânfora pequena com bico) e do botte (cesto) para água e comida. Os objetos desenhados têm muito significado dentro da composição. O táis é o símbolo da vestimenta em Timor. O alu-lessu (grande pilão), o botte e o lafatik (bandeja de palha), fazem parte dos usos e costumes do país. O cogumelo – kulat - evoca o produto da terra para a alimentação. A grande ânfora, sana-rai, serve como panela para cozinhar mandioca, batatas, milho, raízes em geral. Até 1978, o artista assistia à atividade da avó: cozinhar neste tipo de recipiente, em Ermera. Neste período veio a crise e não havia mais arroz.

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Assim, a bandeira - o táis - une as duas figuras, um homem e uma mulher que compõem o casal tradicional. Seus olhares, sem direção específica, parecem dirigir-se para além da tela, desse espaço delimitado do quadro, para um futuro. Ligando uma cabeça à outra dos personagens há um altar com três cabeças de búfalo e duas casas tradicionais. Uma das casas é típica de Los Palos e outra de Atsabe. As cabeças fazem parte de um “sacrifício”110, para se ter muita colheita. Elas formam uma “trindade” (pai/filho/espírito santo), signo de um sincretismo religioso presente na ilha111. A cachoeira (Mota Bandeira) no meio, encontra-se em Atsabe - lugar entre três montanhas chamado Ramkabian112.

Detalhe ampliado da obra “Lisan Timor”

Nota-se, nesta obra, que o artista transforma os objetos em símbolos, com cuidado e precisão, e lhes atribui valores fundantes de uma ancestralidade mitológica, dos costumes e da cultura do país. Este “valor” do nacional, nativo expresso – que funda uma moral -, leva ao poder da persuasão da importância dos próprios símbolos, enquanto um valor.

110 Como forma de agradecimento, abate-se um búfalo e coloca-se a cabeça dele no altar, prática ritual animista

de Timor-Leste. Menezes ressalta em sua obra (2006, p. 90) que é muito comum encontrarmos várias cabeças de búfalo nas casas situadas em regiões montanhosas.

111 Na pesquisa realizada por Gagliato (2008, p. 56-7), aparece descrita uma procissão ao santuário nacional de

Soibada, onde uma pequena igreja dividia o espaço com uma árvore sagrada, cujas folhas eram discretamente tocadas pelos fiéis, revelando o que ele observou como sendo “um vínculo forte da cultura timorense com a natureza [chamada por eles] de a grande mãe”.

112 As três montanhas são simbólicas. A primeira é Ramelau, a segunda Kablac e a terceira é Matebiam. Durante

a ocupação, os indonésios queriam “tomar” os nomes destas montanhas para barcos. Porém, apenas um barco se chamou Tatamaelau, a avó de todas as montanhas, em língua mambai. O artista, que nunca se exilou, foi marcado por este acontecimento e traduziu, quando jovem, seu sofrimento sob forma de poesia para ilustrar um desenho à lápis.

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Na paisagem, entre as casas, o artista traz de volta a fonte das nascentes de água que vêm das montanhas. A presença delas em seus quadros traduz uma busca da abundância e fertilidade. As árvores secas representam para ele “pessoas que têm que lutar para sobreviver porque uma árvore, uma flor, uma planta sem água morre. Se a raiz entra no chão, procura água, comida para alimentar”. Nas cabeças dos personagens, há um kaibauc, enfeite em forma de meia-lua, e o pano que cobre a cabeça masculina é usado pelos homens antes do enfeite. O céu ao fundo, que reproduz as cores da bandeira de Timor, é a aurora que ele pretendeu marcar.

A Escultura

A obra “Casal” é uma peça esculpida de madeira esfumada, com 35 cm x 7 cm, representando a figura de um homem com chapéu que segura, na parte inferior do corpo, uma mulher. A obra é de autoria do jovem artista Mário Saldanha, nascido em 1976, em Maquili, na ilha de Ataúro. Autodidata, sua primeira escultura data de 2002. As peças que produz revelam uma mudança na relação de gênero, onde casais, quase sempre, são talhados no mesmo espaço da madeira, ora de forma totêmica, ora em atitude de cumplicidade e comunhão.

A escultura é identificada como arte secular e tradicional do povo de Ataúro. As peças de madeira, segundo Menezes (2006, p. 41), podem ser “antropomórficas ou zoomórficas, relativamente toscas e consideradas antigas, que andam associadas à iconografia mágico- religiosa dos timorenses”. Elas encerram energias misteriosas que decorrem dos

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antepassados. Na ilha, a arte se encontra em comunhão com as práticas rituais e míticas, estando ritos e mitos profundamente atrelados. O sagrado é bem presente na vida do homem em Ataúro e confere um sentido de religiosidade à sua vida. As estátuas servem para proteger as casas e não devem sair delas sem a permissão dos ancestrais.

As “Itaras” - ou pequenas esculturas de madeira que não ultrapassam 12 cm de altura - representam casais unidos numa dualidade ancestral. São os “manes” que velam pela felicidade dos lares dos ataúros e representam os antepassados mais proeminentes das famílias. As “sae”, ou sahi, estátuas antropomórficas de madeira, muito altas, representam divindades de fertilidade. Importantes no porte e no significado. Como lembra Menezes (2006, p. 41), elas “se veneram ao ar livre, na sombra misteriosa dos arvoredos e às quais os ataúros pedem chuva e alívio das calamidades e nas desgraças pessoais”.

Para o artista Mário Saldanha:

A peça representa um casal casado, unido em um só corpo. Na cabeça do homem há um chapéu de seis escadas. A de sete escadas é só do liurai, que é uma obra dos antigos e não pode deixar a casa onde está. A madeira escureceu porque ela sempre esteve guardada na cozinha.113

A atitude desta pequena escultura lembra a figura de uma grande “sa’e”, a do “Báku- Mau”, onde, na parte inferior, encontra-se esculpida a figura de um homem pequeno que representa o filho. Aqui, é a mulher que aparece no lugar do filho, sendo protegida pela força e a grandeza do homem. Embora os sinais de heroicidade estejam mais presentes na figura masculina, homem e mulher tomam, por vezes, a mesma forma, podem esboçar o mesmo gesto.

Desse modo, notamos que mesmo inspiradas na fonte inesgotável das matrizes culturais locais, como as “itaras” ou “saé” lendárias, cada qual mantendo, segundo Barros Duarte (1984), uma função determinada dentro dos ritos tradicionais, o artista inova no desenho, no material (outro tipo de madeira) e na união dos gêneros. Já se percebe que as figuras apresentam-se de forma renovada e já não assumem atitudes estáticas como se fossem divindades e revelam atos mais humanos, cotidianos e atuais, como este casal que divide, harmoniosamente, o mesmo espaço no tronco de madeira.

A união dos pares masculino/feminino é cultuada, principalmente, no acervo mitológico da ilha e está presente nos rituais, praticados e preservados pelas diversas etnias

113 A cor esfumada das esculturas deve-se ao fato de que estas são conservadas perto do fogão e tingidas pelo

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que compõem sua população, mantendo-se pela tradição oral e encontrando expressão nas artes plásticas de origem popular, geralmente esculturas, e nas lendas.

Esses mitos históricos dizem respeito à criação, origem, morte, transcendência e outros temas universais. Em vários cantos da ilha, denotam um sistema dualista onde o casal, sob a forma de figuras de homem e mulher, juntos, representa divindades em integração com a natureza, forma a base da vida e confere um sentido sagrado à existência.

Benzer Belgeler