1.5. ISIL İŞLEM
1.5.4. Isıl İşlem Uygulanan Ağaç Malzeme Türleri
Na primeira metade dos anos 1970, Chico Buarque sofria a perseguição da Censura Federal em suas composições. Em 1974, Chico, depois de, junto a Ruy Guerra, ter visto frustradas as esperanças de levar Calabar aos palcos, juntou-se ao grupo musical MPB-4 para a realização do show Tempo e Contratempo. Esse espetáculo passaria a ser uma importante referência da mobilização de setores artísticos da esquerda, pois respondia, com a apresentação de canções de Calabar, ao veto da Censura – o título “contratempo” era o tempo imposto pela Censura.204 O show foi dividido em duas partes: na primeira, o MPB-4 interpretava as composições de Chico; na segunda, o próprio Chico, junto ao grupo, apresentava as canções da peça permitidas, mas que não puderam ser encenadas.205 No entanto, se o público pôde assistir ao show, foi, entretanto, impedido de ter acesso à gravação do disco, vetado nesse mesmo ano. A Censura, após o episódio Calabar, recrudesceu sua perseguição a Chico, que teve a ideia, então, de usar pseudônimos em suas composições para driblar os perseguidores. A
204 Conforme análise de HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-
intelectual brasileiro (1975-1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós- graduação em História, 2010, f. 64..
205 Trechos do espetáculo no DVD BASTIDORES. Direção: Roberto de Oliveira. Direção de Produção:
Celso Tavares. Produção: André Arraes, Jorge Machado e Jorge Saad Jafet. Direção de fotografia: João Wainer. Documentação e Pesquisa: Sueli Valente. Música: Canções de Chico Buarque. EMI Music Brasil Ltda. (sob licença exclusiva da R.W.R.), c2005 1 DVD (73 min.), color.
artimanha deu certo no lançamento do LP Sinal Fechado,206 no qual, dentre doze músicas, a única composta por ele, Acorda amor, está assinada por Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. Mas, em 1975, após a burla ter sido desmascarada por uma reportagem do Jornal do Brasil, o compositor se viu novamente boicotado, passando a ocupar o lugar de “inimigo n. 1” nos prontuários e fichas da Ditadura.207 Esse cenário de mandos e desmandos dos censores sobre a produção individual de Chico aumentou sua vontade de divulgar seu trabalho em parceria, ilustrada no convite de Paulo Pontes a ele, para que assinasse a coautoria de Gota d´água, ainda em 1975.
Esse objetivo aproxima novamente o trabalho de Pontes ao de Vianna, já que, no subtítulo das edições de Gota d´água consta ter sido a ideia da encenação inspirada no segundo. Aliás, na época, entre 1975 e 1976, a versão de Chico e Pontes de Medeia gerou polêmica no campo artístico-intelectual, provocando comentários de que o segundo teria usurpado de Vianna o “achado” da adaptação para o teatro. Em entrevista a Miriam Hermeto, Chico relatou:
O início... quer dizer, aconteceram coisas, antes, que eu não sabia. Fiquei sabendo depois, na verdade. O Paulo Pontes me chamou para escrever com ele. Eu não sabia que a ideia original era do Vianinha. Ele tinha escrito... não sei se era minissérie. Um Caso Especial para a TV Globo. E o Paulo era muito amigo e parceiro do Vianinha. Quando Vianinha morreu, o Paulo tomou a gênese da ideia, que era adaptar Medeia para a atualidade do Rio de Janeiro. Agora, não sei, não assisti ao especial, não sei exatamente até que ponto a ideia do Paulo é original, não é. É parte dessa ideia original do Vianinha. Eu não sei o que ele tomou emprestado do Vianinha. A locação, por exemplo, se aquele conjunto habitacional era já do Caso Especial, se não era. Eu não sei.208
Já numa entrevista da época do lançamento da peça, para a Rádio 365, em 1976, Chico respondeu de modo mais incisivo sobre a ideia haver realmente sido de Vianna:
É uma adaptação da Medeia de Eurípedes para um subúrbio carioca. A ideia original é do Vianinha, que chegou a escrever um "caso especial" que passou na televisão. Aí ele não teve tempo de desenvolver a peça para o teatro. O Paulo Pontes resolveu levar adiante o projeto e me procurou para um trabalho a quatro mãos. É claro que estou apaixonado pela peça, ficou pronta agora há pouco. Mas como ninguém conhece ainda, não fica bem eu elogiar o trabalho. Só posso dizer que deu uma tremenda mão-de-obra tudo rimado e
206 BUARQUE, C. Sinal fechado. Rio de Janeiro: Philips 6349.122, 1974.
207 O segundo lugar foi destinado a Caetano Veloso, seguido de Gilberto Gil, Milton Nascimento,
Gonzaguinha e, por último, Ivan Lins. Ver NAPOLITANO, Marcos. A MPB sob suspeita: a música vista pela ótica dos serviços de vigilância política (1968-1981). In: Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, n. 47, p.103-126, 2004.
208 Ver HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-intelectual brasileiro
(1975-1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós-graduação em História, 2010, f. 73.
metrificado como manda o figurino, 4 mil versos e dez canções. Os versos podem até ser ruins, mas 4 mil é um número que impressiona, não é mesmo? [...].209
Esse debate configurou-se numa das maiores pressões internas recaídas sobre os sujeitos envolvidos no projeto da adaptação, com um peso maior sobre Pontes. Tal estado de tensão colaborou para dividir as opiniões acerca de Gota d´água, colocando-a entre o apreço e o desapreço.210 Estava em questionamento se, afinal, teria Pontes usurpado a obra de Vianna, como aponta a mãe Deocéllia Vianna, em seu livro de memórias,211 no qual chama ironicamente a polêmica de Caso Paulo Pontes.
Na primeira edição do livro Gota d´água, de 1975, consta na segunda folha de rosto: “inspirado em concepção de Oduvaldo Vianna Filho”.212 Porém, no cartaz de estreia da peça no Rio de Janeiro, o nome de Vianinha está omitido, o que repercutiu na imprensa da época, com destaque para a matéria intitulada Vianinha, o grande esquecido.213 A partir de 1976, o nome passou a ser referenciado no material de divulgação oficial, indicando o alcance da polêmica.
Entendemos que os autores primeiros do texto que desencadeou a peça foram Chico e Pontes, pois materializaram a sua circulação em diferentes formatos, como nas edições literárias da peça e nos discos com as canções e textos interpretados por Bibi Ferreira e o próprio Chico.214 Assim, concordamos com a autora Mirian Hermeto, que afirma ter sido desses dois autores a origem do “texto-projeto”.215 O que não significa
209 BUARQUE, C. Entrevista concedida à Rádio 365, 1976. Disponível em: www.chicobuarque.com.br.
Acesso em: dez. 2012.
210 HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-intelectual brasileiro (1975-
1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós-graduação em História, 2010, f. 73.
211 Cf. VIANNA, Deocélia. Companheiros de viagem. São Paulo: Brasiliense, 1984.
212 BUARQUE, C.; PONTES, P. Gota d´água. 29. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 16. 213 GUZLK, Alberto. Gota D’Água. Última Hora, São Paulo, 27 abril 1977.
214 Na época da produção da peça, três discos foram lançados com suas obras: No primeiro (ver
BUARQUE, C.; BETHÂNIA, M. Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo. Rio de Janeiro: Philips 836.018-2, 1975), Chico gravou as canções Bem Querer, Flor da idade e Gota d´água. No segundo (ver BUARQUE, C. Meus caros amigos. Rio de Janeiro: Philips 842013-2, 1976), ele gravou Basta um dia. Finalmente, no terceiro (ver BUARQUE, C.; FERREIRA, B. Gota d´água de Paulo Pontes e Chico
Buarque. Rio de Janeiro: RCA Victor 103.0212, 1977), os seguintes textos e canções foram gravados por
Bibi e Chico: Flor da idade (canção interpretada por Chico), Entrada de Joana (texto por Bibi), Bem querer (canção interpretada por Chico), Desabafo de Joana para Jasão (texto por Bibi), Joana e as vizinhas (texto por Bibi), Gota d´água (canção interpretada por Chico), Joana promete (texto por Bibi), Basta um dia (canção interpretada por Chico), Ritual (texto por Bibi), Veneno (texto por Bibi), Morte (texto por Bibi). Para a análise das canções, nos detemos nas gravações de Chico em Meus caros amigos e Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo, às quais tivemos acesso.
215 Cf. HERMETO, HERMETO, M. Olha a Gota que falta: um evento no campo artístico-intelectual
brasileiro (1975-1980). Tese (doutorado) – UFMG / FAFICH / DH / Programa de Pós-graduação em História, 2010, f. 83.
que tenham sido os primeiros a adaptar Medeia. Vianinha já o tinha feito, mas isso não implica que a Medeia desse e a daqueles sejam “a mesma coisa”,216 como “entendeu” Deocélia. São diferentes, pois temas se repetem, obras, não.217 Quando Chico e Pontes adaptaram a Medeia antiga e a Medeia carioca, eles criaram novas personagens e diálogos de acordo com um novo canal midiático, adotaram a estrutura dramática euripidiana e aprofundaram o assunto desigualdade social, discutido por Vianna no Caso Especial, mantendo o enredo intacto em sua maior parte. Nesse processo de transcodificação operado, que se baseia num vínculo não só com a interpretação, mas também com a criação, a obra adaptada adquire autonomia. E esse foi o caso precisamente de Gota d´água. Clara está a omissão do nome de Vianna nas primeiras divulgações gráficas da peça, mas o mesmo não ocorreu, por exemplo, no lançamento do livro. É falsa, portanto, a impressão de falta de lealdade por parte de Pontes (na polêmica, o nome de Chico Buarque foi resguardado) a seu amigo Vianinha ou um possível desmerecimento de Gota d´água. Essa continua sendo uma adaptação, mas, sobretudo, uma obra de coautoria nas novas mãos.
Há que se acrescentar que, na trajetória de Pontes, a qual anteriormente discutíamos, Gota d´água, apesar de todo o debate em torno do direito autoral, significou para ele um salto de projeção em termos intelectuais. Nos anos 1975 e 1976, considerados o auge de sua carreira, a imagem de crítico da realidade brasileira foi sendo reforçada não só devido ao teor do enredo da peça, mas também por seu Prefácio, altamente contundente quanto às mazelas sociais inerentes à “experiência capitalista”218 brasileira.