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Embora a noção de corpus seja originada do campo da linguística, significando um corpo ou uma coleção de textos (BAUER e AARTS, 2011), ela foi estendida para além do nível textual por alguns autores, como Barthes (1967), para abranger materiais diversos de pesquisa. O corpus, nesta tese, é entendido como um conjunto finito de materiais que são

escolhidos previamente pelo analista com uma (inevitável) arbitrariedade (BARTHES, 1967). A noção de corpus é adequada à abordagem qualitativa de pesquisa porque se contrapõe a definições formais de amostragem (BAUER e AARTS, 2011) que poderiam desconsiderar, por exemplo, a arbitrariedade envolvida nas escolhas do pesquisador sobre que dados de pesquisa utilizar.

Para a pesquisa qualitativa, a singularidade das experiências humanas é mais importante

do que sua generalização (NEVES, 2001). Nesse sentido, a técnica de produção22 de dados

para a constituição do corpus de análise buscou a apreensão dessas singularidades. Trabalhei nesta tese com os discursos de empregadas domésticas, considerando que o real é construído por meio das pessoas (aqui, das empregadas) e, por esse motivo, os discursos dessas pessoas já me fornecem elementos para entender sua realidade.

Para a produção desses discursos, realizei entrevistas em partes abertas23, e em partes

semiestruturadas24 com as empregadas, buscando a apreensão de suas artes de viver, resistir,

cuidar e fazer. As entrevistas foram parcialmente abertas porque, na maior parte do tempo, deixei que as empregadas falassem livremente sobre o que eu delas solicitei. E foi em partes semiestruturada porque elenquei apenas oito aspectos amplos para solicitar a elas que falassem a respeito deles. São os seguintes:

1. história de vida;

2. tem algo que você gostaria de ser e não é25;

3. o que significa ser empregada doméstica para você26;

22 Considero que irei produzir ao invés de coletar dados porque, ao entrar em contato com as empregadas

domésticas para ouvir os seus discursos, não só essas empregadas serão afetadas pelo meu interesse em suas narrativas e pelas perguntas que eu as farei, como também elas me afetarão. Nesse sentido, nós afetamos e somos afetados na relação constituída em um momento de constituição de dados. Por esse motivo, esses dados são produzidos e, não simplesmente, coletados. Essa posição se adéqua a uma Análise Critica do Discurso, a qual se relaciona a um posicionamento de se considerar a mútua influência estabelecida entre sujeito de pesquisa e pesquisador (CARVALHO, 2008).

23“A técnica de entrevistas abertas atende principalmente finalidades exploratórias, é bastante utilizada para o

detalhamento de questões e formulação mais precisas dos conceitos relacionados. Em relação a sua estruturação, o entrevistador introduz o tema e o entrevistado tem liberdade para discorrer sobre o tema sugerido. É uma forma de poder explorar mais amplamente uma questão. As perguntas são respondidas dentro de uma conversação informal” (BONI e QUARESMA, 2005, p. 74).

24 Nas pesquisas semiestruturadas, conduzidas por roteiros não rígidos de pesquisa, o “[...] pesquisador deve

seguir um conjunto de questões previamente definidas, mas ele o faz em um contexto muito semelhante ao de uma conversa informal. O entrevistador deve ficar atento para dirigir, no momento que achar oportuno, a discussão para o assunto que o interessa fazendo perguntas adicionais para elucidar questões que não ficaram claras [...]” (BONI e QUARESMA, 2005, p. 75).

25 Essa questão foi realizada com o único objetivo de abordar a perspectiva do cuidado de si de Foucault (1980;

2004a; 2006a), sendo, inclusive, uma sugestão de um dos participantes da banca de qualificação do projeto desta tese.

26 A questão foi realizada para apreensão dos significantes atribuídos ao signo empregada doméstica e, também,

4. conte-me seu cotidiano, como é o seu dia?27;

5. você ficou sabendo algo a respeito da PEC das Domésticas. O quê? Se sim, o que

achou a respeito?28;

6. em termos de cor da pele e/ou aspecto racial, você se vê de alguma maneira? Se sim,

como você se vê? Se não, por quê? Fale sobre isso, por favor.

7. você tem planos e/ou perspectivas para o futuro?

Todos os diferentes momentos proporcionados por esses aspectos elencados foram conduzidos de maneira a deixar as entrevistadas bem à vontade para falar, especialmente quando foram questionadas a respeito de sua história de vida e de seu cotidiano, momento esse no qual se esperava a maior riqueza de narrativas. Boni e Quaresma (2005) afirmam que as entrevistas abertas e as semiestruturadas trazem como vantagem a elasticidade relativa ao tempo de entrevista, o que permite uma abordagem mais profunda dos assuntos necessários. Para os autores, são técnicas que trazem também a possibilidade de respostas espontâneas, maior proximidade entre entrevistador e entrevistado, maior abertura para falar em assuntos delicados e o surgimento de questões não pensadas anteriormente. E, tanto as respostas espontâneas, quanto as questões antes não pensadas fazem parte justamente do processo que mencionei de produção e, não, mera coleta de dados. Afetando e sendo afetada pelas minhas sujeitas de pesquisa, não fico presa a um roteiro de questões, ainda que eu tenha me orientado pelos oito aspectos supracitados.

Foram apenas sete aspectos elencados porque, corroborando o que afirmam Boni e Quaresma (2005), quanto menos estrutura houver em uma entrevista, maior será a interação afetiva estabelecida entre entrevistadores e entrevistados. Como estou lidando com sujeitas de pesquisa que não estão acostumadas a se verem como sujeitas interessantes para uma pesquisa científica, essa interação afetiva estabelecida foi extremamente importante porque, em vários

sujeitas entrevistadas. Aqui, acabo chamando-as todas de empregadas domésticas, sendo mensalistas ou diaristas porque, além de optar pelo termo empregada doméstica, estou me referindo a um significante socialmente atribuído ao signo empregada doméstica, ainda que, em termos legais, a diarista não possa ser considerada uma empregada doméstica, já que não estabelece um vínculo empregatício. No entanto, o que me interessa aqui são os sentidos socialmente estabelecidos a respeito do que é ser empregada doméstica e, não, o significante jurídico atribuído ao signo. Aliás, nenhuma diarista me corrigiu quando questionei a elas o que significava, para elas, ser empregada doméstica.

27 Nessa questão, foi solicitado a elas que contassem seu cotidiano desde a hora em que acordam, pela manhã, até

a hora em que dormem, diferenciando também a rotina dos dias em que trabalham nas residências como domésticas dos dias em que não trabalham fora de casa.

28 Para buscar uma manifestação explícita, por parte delas, a respeito da opinião que construíram a respeito da

PEC das Domésticas, e se têm informações a respeito da mesma e se as alterações recentes na legislação a respeito do trabalho doméstico as afetaram de alguma maneira, já que se entende, nesta tese, que a aprovação e regulamentação da PEC não necessariamente possibilita novas condições de existência.

momentos, elas se sentiram constrangidas em conceder uma entrevista. Para os autores citados, as entrevistas menos estruturadas “[...] colaboram muito na investigação dos aspectos afetivos e valorativos dos informantes que determinam significados pessoais de suas atitudes e comportamentos” (BONI e QUARESMA, 2005, p. 75).

Retomando o conteúdo dos sete aspectos, quando falamos em cotidiano, um foco importante nessas entrevistas foi, então, buscar não só os discursos em geral dessas mulheres, mas também os discursos direcionados a um entendimento acerca de suas práticas cotidianas, práticas estas que também podem ser consideradas discursivas. Nesse sentido, solicitei às empregadas que relatassem seu cotidiano para que suas estratégias e táticas cotidianas fossem apreendidas. Sendo assim, trabalhei, tanto com a dimensão das práticas discursivas, quanto com a dimensão de práticas sociais. Embora eu não tenha trabalhado com as práticas sociais observando-as no momento de sua produção (não fiz observação e acompanhamento pessoal de seu trabalho ou de sua vivência cotidiana), trabalhei com os relatos das empregadas a respeito das práticas sociais que executam cotidianamente. Sendo assim, trabalhei de maneira direta com práticas discursivas e de maneira indireta com práticas sociais.

Tratei, dessa maneira, do cotidiano ordinário que é valorizado por Certeau (1998), buscando conhecer as práticas sociais e o trabalho das empregadas. Ressalta-se que, por

Certeau (1988), se adota não um método de coleta de dados, mas “[...] uma nova relação com

o mundo, com o saber e com os outros” (JOSGRILLBERG, 2008, p. 104), buscando a apreensão de práticas cotidianas que seriam como práticas microbiais. Para Certeau, Giard e Mayol (2009), a memória, a oralidade e as operações são elementos importantes para essa apreensão, elementos estes que poderão ser coletados por meio das narrativas das empregadas.

Para as entrevistas, além do estabelecimento de aspectos a serem falados, minha postura como pesquisadora buscou o que a perspectiva de Certeau (1998) demanda. Coaduno com a defesa de Josgrillberg (2008), para quem, ao estudar M. Certeau, devemos estar abertos ao encontro com o outro, não nos limitando a oferecer aos sujeitos entrevistados uma lista de questões previamente definidas. O autor se afilia à ideia de que podemos aprender com os próprios sujeitos as melhores questões a serem feitas. Nesse sentido, ao entrevistar empregadas domésticas, não podemos ir ao campo, por exemplo, imaginando que somos os intelectuais que ensinarão a elas estratégias para exercerem poderes e/ou táticas que precisam

para resistir aos poderes29. Para Foucault (2006b), os sujeitos sabem perfeitamente quais são

29 E nem eu tenho aqui a pretensão de ensinar aos leitores como se eu propusesse jogos de verdade. O que trago

aqui é a minha localizada e específica interpretação e percepção acerca de determinado fenômeno social. Faço essa observação porque, por certas vezes, fico receosa de que a escrita em primeira pessoa do singular e a minha

essas táticas. Resumindo, então, o intuito dessa coleta de dados é buscar o conhecimento acerca das práticas e dos elementos discursivos e não discursivos (baseando-se em Pierre Foucault) que fazem parte, sobretudo, do âmbito do cotidiano (baseando-se em M. Certeau).

Sendo história de vida o primeiro aspecto escolhido, outro foco importante nas entrevistas realizadas foi a produção de narrativas a respeito das trajetórias de vida das empregadas. Embora eu não tenha trabalhado com mecanismos rígidos que me permitissem afirmar que utilizei a técnica de história oral e meu trabalho de recontar as trajetórias narradas não tenha sido feito de maneira necessariamente uniforme com o objetivo de ter o mesmo padrão de detalhamento de informações colhidas em todas as entrevistas, já que queria dinamizar o momento de produção de dados, alguns elementos dessa técnica estavam presentes30.

A coleta das narrativas me possibilitou reconstruir, em cada entrevista realizada, relações simples e complexas referentes às próprias sujeitas, aos grupos e à sociedade, assim como “[...] reconstruir durações emocionais, afetivas, reflexões racionais que se irradiam, se cruzam em determinados momentos num espaço sócio-histórico de determinadas relações

sociais” (MARRE, 1991, p. 120), tal como as relações de trabalho e a cotidianidade,

potencialidade interessante diante dos objetivos desta tese. A produção de narrativas permitiu também “[...] dar de volta a palavra a quem, durante muitos anos, não tinha ou tinha poucos canais de comunicação para expressar a sua própria experiência humana” (MARRE, 1991, p. 136).

Produzir narrativas a respeito da trajetória de vida de sujeitos de pesquisa permite, para Boje (1995; 2000), a configuração de enredos que fornecem apenas certa coerência historiográfica, em termos lineares. Trata-se apenas de considerar que os sujeitos podem ser contadores de histórias. Nesse sentido, quando eu contar a trajetória de vida das sujeitas de pesquisas, estarei recontando academicamente narrativas que foram contadas em conversas

maneira de escrever possa trazer um tom de alguém que acredita que vai dizer algo que deva ter tomado como

verdade. Por esse motivo, trato de esclarecer que não.

30 Solicitei às empregadas que me contassem sua trajetória de vida, buscando a apreensão e exploração de

determinadas passagens que eram, por vezes, puladas por elas, já que não se pretendia que contassem sua vida da maneira mais rigidamente linear possível. Mesmo ouvindo uma trajetória não linear, busquei ir solicitando narrativas que preenchessem lacunas temporais nas trajetórias então contadas. Outro elemento da técnica de história oral presente foi a realização de mais de uma entrevista com a mesma doméstica, sem que houvesse um número padrão de entrevistas individuais a serem seguidos. Embora essa repetição de entrevistas não tenha também sido realizada de uma maneira exaustiva (ou ideal para os padrões de uma técnica de história oral), a realização de mais de um encontro permitiu uma maior produção de dados, o que foi interessante para a pesquisa, sobretudo considerando que, em um segundo momento, as empregadas estavam mais à vontade para falar sobre sua própria vida para a pesquisadora. E uma exigência também relativa aos estudos historiográficos são a coleta de narrativas de outros sujeitos de pesquisa participantes da história narrada pelo primeiro sujeito a fim de se estabelecer averiguações, o que não é o objetivo desta pesquisa, já que trabalho com a subjetividade das próprias empregadas, independentemente de checar se o que elas dizem acontece/aconteceu ou não de fato.

informais estabelecidas entre mim e as empregadas domésticas, sem uma rigidez historiográfica característica de métodos de história oral.

Esse processo de recontar as histórias das sujeitas de pesquisa, feito aqui dentro de um contexto de busca de narrativas e, não necessariamente, de critérios rígidos de métodos de história oral de vida, produzirá narrativas fragmentadas, já que utilizarei, para recontar as histórias, os trechos que julgar interessantes para a compreensão da trajetória de vida de cada uma das empregadas. Essas narrativas fragmentadas seguirão uma trajetória linear. Mesmo que as empregadas não tenham contado suas trajetórias de maneira linear, para facilitar o entendimento ao leitor, irei recontar de forma linear. Todo esse processo de ajuste para a utilização das narrativas segue as recomendações de Barros e Lopes (2014), que argumentam que o processo de se contar histórias e narrativas de vida pode envolver uma dinâmica de adequação às necessidades e especificidades de cada pesquisa.

Consideramos que, ao narrarem suas histórias, as empregadas trabalhem com a dimensão da memória. E, em um recurso metafórico, a memória é reconhecida, por Certeau (1998) e Van Dijk (1997), como prática ou discurso. A solicitação de narrativas a respeito de suas trajetórias de vida permitiu maior liberdade dissertativa para as entrevistadas e a consideração de que todos os sujeitos têm uma história que é digna de ser estudada, independentemente dos distintivos sociais sob os quais se é percebido (MEIHY, 1996).

O levantamento dessas narrativas ocorreu por meio de entrevistas centradas em depoimentos aprofundados e, em regra, dilatados com vista à reconstrução da trajetória de vida dos sujeitos de pesquisa desde suas infâncias até os dias atuais. Outro momento de interação, além do primeiro, foi estabelecido com as domésticas, para que elas pudessem falar com mais conforto a respeito de suas vidas. Sendo assim, mais de uma entrevista foi realizada com cada sujeita de pesquisa. Na segunda entrevista realizada com elas, pontos que não ficaram muito claros na primeira entrevista eram esclarecidos.

As entrevistas foram realizadas na própria residência das empregadas, na residência em que trabalhavam e/ou na residência da pesquisadora. Seus áudios foram registrados por meio de gravadores, diante da autorização concedida pelas entrevistadas e, posteriormente, transcritos. Em meio a um processo de afetar e de ser afetada pelas sujeitas de pesquisa, as localizações das entrevistas foram aspectos que contribuíram para tal afetação mútua, pois foi interessante para mim, como pesquisadora, estar principalmente nas residências em que elas moravam ou trabalhavam, pois, assim, eu entrava em contato com um universo que ia além do universo discursivo produzido pelas próprias empregadas em interação comigo; eu entrava em

contato com universos imagéticos, dinâmicos e interacionais, pois eu também tinha a possibilidade de entrar em contato com outros sujeitos que fazem parte do cotidiano delas.

No caso das entrevistas realizadas na minha residência, localização que foi preferida pelas respectivas entrevistadas, elas eram mais afetadas pela localização em que estavam do

que eu, já que eram elas que entravam em contato com outro universo discursivo – o da

pesquisadora. Nesse sentido, para mim, as entrevistas que não foram realizadas em minha residência foram mais interessantes do ponto de vista do se abrir para o universo do outro (da outra, neste caso), embora eu também tenha feito esse exercício nas entrevistadas realizadas em minha residência. No entanto, esse esforço se mantinha apenas no nível do discurso falado e do discurso correspondente à expressão corporal das entrevistadas em suas ações e reações ao processo de interação entre pesquisadora e pesquisada. Assim, é importante pontuar que o

corpus compreendeu os discursos falados das empregadas e também suas expressões corporais e, sobretudo, suas reações diante dos assuntos tratados. Para tanto, impressões e anotações que registrei durante e após as entrevistas foram importantes fontes de dados.