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A comédia não foi o único gênero literário a ter seus fragmentos testemunhados pelos escólios de Acarnenses. A tragédia também foi privilegiada nesse sentido. Aproximadamente vinte fragmentos da tragédia grega contam com o testemunho de Σ Ac., dos quais doze são testemunhados apenas por Σ Ac.

Comecemos pelos fragmentos de Ésquilo, um dos três maiores nomes da tragédia grega do século V a.C. Os escólios de Acarnenses dão testemunho de fragmentos de três tragédias de Ésquilo. O primeiro deles encontra-se junto dos comentários feitos a esse verso de

Acarnenses (883): πρέσβειρα πεντήκοντα Κωπᾴδων κορᾶν (‘Filha primogênita dentre as

cinquenta Copaides’).

Ao comentar esse verso, ΣR Ac. 883 afirma o seguinte: ὁ στίχος Αἰσχύλου πρὸς τὴν Θέτιν “δέσποινα πεντήκοντα Νηρῄδων κορᾶν” (‘O verso de Ésquilo [diz] para Tétis:

“Donzela soberana das cinquenta Nereides.”’) Com base nessa declaração de ΣR Ac. 883,

percebemos que Ac. 883 é uma paráfrase do citado verso de Ésquilo. Segundo a edição de Hermann (2010), o verso parafraseado por Aristófanes corresponde ao fr. 183 de Ésquilo.

Quando está tecendo seus comentários acerca do mesmo verso de Acarnenses, ΣΕΓ Ac. 883 vai um pouco além de ΣR e escreve assim:

Κωπᾴδων: ὁ στίχος ἀπὸ δράματος Αἰσχύλου Ὅπλων Kρίσεως οὕτως

ἐπιγεγραμμένου, ἐν ᾧ ἐπικαλεῖται τὰς Νηρεΐδας τις ἐξελθούσας κρῖναι πρὸς τὴν Θέτιν λέγων “δέσποινα πεντήκοντα Νηρῄδων κορᾶν.”

Copaides: O verso vem de uma tragédia de Ésquilo, intitulada Julgamento das

armas, na qual alguém invoca as Nereides, que tinham partido para julgar, dizendo

para Tétis: “Donzela soberana das cinquenta Nereides.”

Por meio dessa explicação de ΣΕΓ Ac. 883, ficamos sabendo que o fr. 183 H. de Ésquilo

pertence à tragédia Ὅπλων Kρίσις (‘Julgamento das armas’). ΣAld Ac. 883, como

normalmente ocorre, acompanha o comentário de ΣΕΓ. Nenhum outro texto clássico conhecido, além de ΣRΕΓAld Ac. 883, testemunha a existência do fr. 183 H. da tragédia

Julgamento das armas.

Τήλεφος (‘Télefo’) é outra tragédia de Ésquilo que tem um de seus fragmentos testemunhado pelos escólios de Acarnenses. Depois de explicar o verbo εἴσομαι (‘saberei’), presente em Ac. 332, ΣΕΓ acrescenta:

τὰ δὲ μεγάλα πάθη ὑποπαίζει τῆς τραγῳδίας, ἐπεὶ καὶ ὁ Τήλεφος κατὰ τὸν τραγῳδοποιὸν Αἰσχύλον, ἵνα τύχῃ παρὰ τοῖς Ἕλλησι σωτηρίας, τὸν Ὀρέστην εἶχε συλλαβών. παραπλήσιον δέ τι καὶ ἐν ταῖς Θεσμοφοριαζούσαις ἐποίησεν. ὁ γὰρ Εὐριπίδου κηδεστὴς Μνησίλοχος ἐπιβουλευόμενος παρὰ τῶν γυναικῶν, ἀσκὸν ἁρπάσας παρά τινος γυναικὸς ὡς ἂν παιδίον ἀποκτεῖναι βούλεται.

Ele está fazendo piada com os grandes infortúnios da tragédia; pois o Télefo, de acordo com o tragediógrafo Ésquilo, para que encontrasse salvação entre os gregos, também tinha agarrado Orestes. [Aristófanes] também escreveu algo igual nas

Tesmoforiantes. Pois Mnesíloco, o parente de Eurípides, conspirando contra as

mulheres, deseja matar um odre de vinho que arrebatou de alguma mulher, como se este fosse uma criança.

De acordo com esse comentário de ΣΕΓ Ac. 332, Ésquilo apresentou o Télefo agarrando

Orestes como refém. Segundo Hermann (2010, p. 374), o que é mencionado do Télefo faz parte da tragédia homônima de Ésquilo que não foi preservada. Ainda de acordo com Hermann (2010), essa menção corresponde ao fr. 254.

O fr. 254 H. do Télefo de Ésquilo tem somente dois testemunhos: o de ΣΕΓ Ac. 332 e o de ΣAld Ac. 332, que são praticamente idênticos. Excetuando-se esses dois escólios de Acarnenses, não há outro testemunho do fr. 254 H. de Ésquilo.

Além de Julgamento das armas e Télefo, uma terceira tragédia de Ésquilo conta igualmente com o testemunho dos escólios de Acarnenses em relação a um de seus fragmentos. O referido excerto aparece em meio a esta explicação de ΣΕΓ Ac. 75:

ὦ Κραναὰ πόλις: τοῦτο τέτριπται ὑπὸ τῶν παλαιῶν. καὶ Αἰσχύλος γὰρ καὶ

Σοφοκλῆς ἐχρήσαντο τῇ λέξει. Κραναὰς τὰς Ἀθήνας λέγει, ἤτοι τὰς τραχείας. λεπτόγεως γὰρ ἡ Ἀττική. ἢ ἀπὸ Κραναοῦ τινὸς, ὃς ἦν τῶν αὐτοχθόνων εἷς.

Ó cidade de Crânao: Esse [vocativo] foi bastante usado pelos antigos. Tanto

Ésquilo quanto Sófocles usaram essa expressão. [Diceópolis] está chamando Atenas de Κραναάς, certamente fazendo referência a sua rochosidade; pois, a Ática é uma terra árida. Ou [o vocativo] deriva [do nome] de algum Crânao, que era um dos autóctones24.

ΣΕΓ Ac. 75 é bastante claro ao afirmar que Ésquilo fez uso do vocativo ὦ Κραναὰ πόλις (‘ó cidade de Crânao’). De acordo com Nauck (1889), esse vocativo é um fragmento de uma tragédia incerta de Ésquilo. Na edição de Hermann (2010), o tal vocativo corresponde ao fr. 403 de Ésquilo.

Além de ΣΕΓ Ac. 75, somente ΣAld Ac. 75 também dá testemunho do fr. 403 H. dessa tragédia perdida de Ésquilo. Novamente, como nos outros dois casos já mostrados, os escólios de Acarnenses são o único e exclusivo testemunho desse fragmento.

Em relação às tragédias de Sófocles, os escólios de Acarnenses dão testemunho de dois fragmentos: o fr. 596 P. da peça Τριπτόλεμος (‘Triptólemo’) e o fr. 883 P. de uma tragédia incerta. No entanto, somente o segundo deles conta com o testemunho exclusivo dos escólios de Acarnenses. O escólio de Acarnenses que contém o fr. 883 P. de Sófocles foi mostrado ainda há pouco, quando apresentávamos o fr. 403 H. de Ésquilo.

O fr. 403 H. de Ésquilo e o fr. 883 P. de Sófocles são iguais, como evidencia ΣΕΓ Ac. 75:

ὦ Κραναὰ πόλις· τοῦτο τέτριπται ὑπὸ τῶν παλαιῶν. καὶ Αἰσχύλος γὰρ καὶ

Σοφοκλῆς ἐχρήσαντο τῇ λέξει.

Ó cidade de Crânao: Esse [vocativo] foi bastante usado pelos antigos. Tanto

Ésquilo quanto Sófocles usaram essa expressão.

Ambos correspondem ao vocativo citado pelo escoliasta: ὦ Κραναὰ πόλις.

Como já afirmamos em relação ao fr. 403 H. de Ésquilo, além de ΣΕΓ Ac. 75, somente

ΣAld Ac. 75 também dá testemunho do fr. 883 P. de Sófocles. Com exceção de ΣΕΓAld Ac. 75,

nenhum outro texto grego da Antiguidade dá testemunho do referido fragmento de Sófocles. Além de Ésquilo e Sófocles, ainda temos outro tragediógrafo grego cujas tragédias têm diversos fragmentos testemunhados pelos escólios de Acarnenses: Eurípides. Desses três

poetas trágicos, Eurípides é o que mais tem fragmentos citados pelos comentaristas de

Acarnenses. São onze fragmentos citados ou mencionados por Σ Ac., dos quais oito são

testemunhados apenas por Σ Ac.

Os onze fragmentos de Eurípides testemunhados por Σ Ac. pertencem a três peças distintas: Οἰνεύς (‘Eneu’), Τήλεφος (‘Télefo’) e uma tragédia incerta. Da tragédia Eneu, temos apenas um fragmento, o qual é mencionado pelo comentário de ΣΕΓ anexado a Ac. 471-2. Eis o tal comentário:

ὀχληρὸς, οὐ δοκῶν μὲν κοιράνους: τοῦτο πεπαρῴδηται ἀσήμως ἐξ Οἰνέως

Εὐριπίδου. ὁ δὲ Σύμμαχος καὶ ἐκ Τηλέφου φησὶν αὐτό.

“[...] importuno, não supondo que os reis me odeiam”: Isto foi parodiado de forma obscura do Eneu, de Eurípides. Mas Símaco disse que isso também é do

Télefo.

Conforme a edição de Nauck (1889), essa menção do texto euripidiano equivale ao fr. 568 de Eneu, que conta apenas com dois testemunhos: o de ΣΕΓ Ac. 471-2, transcrito acima, e o de ΣAld Ac. 471-2, que é semelhante ao de ΣΕΓ.

No que diz respeito à tragédia Télefo, de Eurípides, há seis fragmentos de cuja existência só temos conhecimento por causa do testemunho dos escólios de Acarnenses. O primeiro deles, por ordem numérica, é o fr. 698 N. que está junto destes dois versos (Ac. 440- 1):

δεῖ γάρ με δόξαι πτωχὸν εἶναι τήμερον, εἶναι μὲν ὅσπερ εἰμί, φαίνεσθαι δὲ μή.

Pois me é necessário aparentar ser um mendigo hoje. Ser precisamente quem sou; mas, não parecer.

Ao comentar Ac. 440-1, ΣL assevera:

οἱ δύο στίχοι οὗτοι ἐκ Τηλέφου Εὐριπίδου. Estes dois versos são do Télefo, de Eurípides.

ΣAld Ac. 440-1, seguindo ΣL, também declara que “Estes dois versos são do Télefo, de Eurípides.” Para Nauck (1889), conforme evidencia ΣLAld, Ac. 440-1 equivale ao fr. 698 N. do

Télefo euripidiano. Esses dois escólios de Ac. 440-1 são os únicos testemunhos desse

fragmento do Télefo.

O próximo fragmento do Télefo está ligado a Ac. 540, que contém o seguinte: ἐρεῖ τις, “οὐ χρῆν”· ἀλλὰ τί ἐχρῆν εἴπατε (‘Alguém pode dizer: “Não era necessário [tudo isso]!” Mas dizei o que era necessário’). Ao comentar esse verso de Acarnenses, ΣΕΓ afirmou:

καὶ τοῦτο ἀπὸ Τηλέφου Εὐριπίδου. ἐρεῖ τις ὅτι οὐκ ἐχρῆν πόλεμον κινῆσαι τοὺς Λακεδαιμονίους. τί οὖν ἐχρῆν αὐτοὺς ποιεῖν, εἴπατε.

Isto também é do Télefo, de Eurípides. É [igual a]: “Alguém pode dizer que não era necessário incitar uma guerra contra os lacedemônios. Então o que era necessário fazer-lhes, dizei.”

Nota-se, por tais palavras do escoliasta, que Ac. 540 também foi retirado por Aristófanes do Télefo, de Eurípides. Trata-se do fr. 708 N. da referida tragédia euripidiana, cujo texto é, obviamente, o mesmo de Ac. 540: ἐρεῖ τις, “οὐ χρῆν”· ἀλλὰ τί ἐχρῆν εἴπατε (‘Alguém pode dizer: “Não era necessário [tudo isso]!” Mas dizei o que era necessário’).

Fundamentando-se em ΣΕΓ Ac. 540, ΣAld defende igualmente que “Isto também é do

Télefo, de Eurípides.” Em relação ao fr. 708 N. do Télefo, esses dois escólios de Acarnenses –

ΣΕΓ Ac. 540 e ΣAld Ac. 540 – também são os únicos testemunhos conhecidos.

Outro fragmento do Télefo pode ser encontrado nos escólios deste verso de Acarnenses (543): καθῆσθ᾽ ἂν ἐν δόμοισιν; ἦ πολλοῦ γε δεῖ (‘Ficaríeis sentados em casa? [Nem] era necessário muito’). Quando está explicando a expressão ἦ πολλοῦ γε δεῖ, presente em Ac. 543, ΣΕΓ diz:

ἀντὶ τοῦ οὐδὲ ὅλως. καὶ τοῦτο ἐκ Τηλέφου. É igual a οὐδὲ ὅλως25. Isto também é do Télefo.

Pela explicação de ΣΕΓ Ac. 543, entende-se que Ac. 543 – igualmente a Ac. 440-1 e Ac.

540 – foi retirado por Aristófanes do Télefo, de Eurípides. Segundo a edição de Nauck (1889), o texto de Ac. 543 corresponde ao do fr. 709 N. da citada tragédia.

Além de ΣΕΓ Ac. 543, há somente mais um testemunho do fr. 709 N. do Télefo euripidiano: ΣAld Ac. 543. Se não fossem esses dois escólios de Acarnenses, não teríamos conhecimento da existência do fragmento em questão.

Ao comentarem ἅπασαν ἡμῶν τὴν πόλιν κακορροθεῖ; ‘Ele está difamando toda a nossa cidade?’ (Ac. 577), os escoliastas de Acarnenses dão testemunho de mais um fragmento do

Télefo. Eis, primeiramente, o que afirma ΣR acerca de Ac. 577:

καὶ τοῦτο ἐκ Τηλέφου.

Este [verso] também é do Télefo, de Eurípides.

ΣΕΓ Ac. 577, que em vários casos parece usar a mesma fonte de ΣR, repete exatamente o que

foi dito pelo primeiro escoliasta.

Com base nessas palavras desses dois escoliastas, concluímos que Aristófanes também retirou do Télefo, de Eurípides, o texto de Ac. 577. Portanto, Ac. 577 é textualmente igual ao fr. 712 N. daquela tragédia euripidiana. Tal informação só saiu da obscuridade por causa do testemunho de ΣRΕΓ Ac. 577.

Os escólios de Ac. 454 contêm outro fragmento do Télefo que gostaríamos de mostrar. Ao explicar o significado do sintagma τοῦδε πλέκους (‘deste cesto’), que se encontra no citado verso de Acarnenses, ΣΕΓ Ac. 454 escreve:

τοῦδε πλέκους: τοῦ σπυριδίου τοῦ πλέγματος. καὶ τοῦτο δὲ παρὰ τὰ ἐκ Τηλέφου

Εὐριπίδου “τί δ᾿ ὦ τάλας σὺ τῷδε πείθεσθαι μέλλεις;”

Τοῦδε πλέκους: [Significa] ‘do cestinho’, ‘da canastra’. Mas este [hemistíquio]

também está em paralelo com estes [versos] do Télefo, de Eurípides: “Mas por que, ó miserável, tu estás a ponto de obedecer a este?”

De forma bastante objetiva, ΣΕΓ Ac. 454 assegura que τί δ᾿ ὦ τάλας σὺ τῷδε πείθεσθαι μέλλεις; ‘Mas por que, ó miserável, tu estás a ponto de obedecer a este?’ faz parte do Télefo. Para sermos mais precisos, o texto citado por ΣΕΓ Ac. 454 equivale ao fr. 717 N. da tragédia em discussão.

ΣAld Ac. 454, como em muitíssimos outros casos, acompanha o comentário de ΣΕΓ. Exceto esses dois escólios de Acarnenses, nenhum outro texto conhecido da Antiguidade serve de testemunho ao fr. 717 N. do Télefo euripidiano.

O último fragmento do Télefo citado pelos escoliastas de Acarnenses aparece no comentário que ΣΕΓ faz sobre a expressão ἄξιον γὰρ Ἑλλάδι (‘digno da Grécia’), presente em

Ac. 8. São estas as palavras de ΣΕΓ Ac. 8:

τοῦτο παρῳδία καλεῖται, ὅτ᾿ ἂν ἐκ τραγῳδίας μετενεχθῇ. ἔστι δὲ τὸ ἡμιστίχιον ἐκ Τηλέφου Εὐριπίδου, ἔχον οὕτως “κακῶς ὄλοιτ᾿ ἄν· ἄξιον γὰρ Ἑλλάδι.”

Isto se chama paródia, porque foi retirado de uma tragédia. O hemistíquio é do

Télefo, de Eurípides, que contém o seguinte: “Que seja destruído de modo ruim!

Pois é digno da Grécia.”

Conforme essa explicação do escoliasta, havia no Télefo euripidiano o seguinte verso: κακῶς ὄλοιτ᾿ ἄν. ἄξιον γὰρ Ἑλλάδι (‘Que seja destruído da pior maneira, pois é digno da Grécia’). Tal verso corresponde ao fr. 720 N. da citada tragédia, o qual conta com apenas dois testemunhos: o de ΣΕΓ Ac. 8 e o de ΣAld Ac. 8. Em S π.715, que também é um escólio de

Acarnenses, existe igualmente a menção de que a expressão “digno da Grécia” foi utilizada

tanto por Eurípides quanto por Aristófanes, mas não há a reprodução textual do fr. 720 N. que foi parodiado por Aristófanes. O texto do fr. 720 N. de Eurípides só é apresentado por ΣΕΓAld

Além de Eneu e Télefo, ainda há outra tragédia de Eurípides que tem um fragmento testemunhado pelos escólios de Acarnenses. Pode-se tomar conhecimento desse fragmento, quando se lê este comentário de ΣR sobre Ac. 119:

παρῳδίᾳ χρῆται. ἔστι γὰρ ἐν τῇ Μηδείᾳ Εὐριπίδου “ὦ θερμόβουλον σπλάγχνον”. οὗτος οὖν σκώπτων Εὐριπίδην προσέθηκε πρωκτὸν παρὰ προσδοκίαν.

Ele está fazendo uso de uma paródia. Pois está escrito na Medeia, de Eurípides: “Ó seio materno, de pensamentos impetuosos.” [Aristófanes], portanto, brincando com Eurípides, escreveu “ânus” como para prosdokian26.

Segundo ΣR Ac. 119, ὦ θερμόβουλον σπλάγχνον (‘Ó seio materno, de pensamentos impetuosos’) é um verso da Medeia, de Eurípides. No entanto, esse verso, tal qual citado pelo escoliasta, não consta de nenhuma das edições de Medeia disponíveis atualmente. A citação, na verdade, corresponde ao fr. 858 N. de uma tragédia incerta de Eurípides. Olson (2002, p. 110) afirma que a referência feita à Medeia foi um equívoco do escoliasta.

Curiosamente, ΣΕΓ Ac. 119, que provavelmente usou a mesma fonte de ΣR, repetiu exatamente o mesmo comentário escrito pelo escoliasta de R. ΣAld também acompanha os outros dois escoliastas. Independentemente, do equívoco na identificação da tragédia, ΣRΕΓAld

Ac. 119 é o único testemunho do fr. 858 N. de Eurípides.

Além de todos os fragmentos de Ésquilo, Sófocles e Eurípides que já enumeramos até aqui, os escólios de Acarnenses ainda apresentam dois fragmentos de tragédias de autoria desconhecida. O primeiro deles, em ordem numérica, é revelado pelos escólios deste verso de

Acarnenses (33): στυγῶν μὲν ἄστυ, τὸν δ᾽ ἐμὸν δῆμον ποθῶν (‘Odiando a cidade e tendo

saudades do meu povoado’).

Ao comentar o supracitado verso de Acarnenses, ΣΕ afirma:

ὁ στίχος ἐκ τραγῳδίας. O verso é de uma tragédia.

Um comentário exatamente igual ao de ΣΕ foi escrito por ΣAld junto de Ac. 33. De acordo com a edição de Nauck (1889), Ac. 33 equivale textualmente ao fr. adesp. 41 (TGF), que conta unicamente com o testemunho de ΣΕAld Ac. 33.

O segundo fragmento trágico de autoria desconhecida é citado pelos escólios de Ac. 3. Quando está explicando a palavra γάργαρα (‘multidão’), presente no composto ψαμμακοσιογάργαρα27, ΣΕΓ Ac. 3 argumenta:

26 Figura de linguagem na qual a palavra que, naturalmente, se espera é trocada por outra inusitada, como no exemplo: “Batatinha quando nasce se esparrama pelo caixão”.

καὶ τὰ γάργαρα δὲ ἐπὶ πλήθους ἐτίθετο· ὡς ἐν Λημνίαις “ἀνδρῶν ἐπακτῶν πᾶσ᾿ ἐγάργαιρ᾿ ἑστία”. καὶ παρὰ Ἀριστομένει ἐν Βοηθοῖς “ἔνδον γὰρ ἡμῖν γάργαρα”. καὶ παρὰ Σώφρονι “ἁ δὲ οἰκία τῶν ἀργυρωμάτων γάργαιρε”. καὶ ἐν τῇ τραγῳδίᾳ “χρημάτων τε γάργαρα”.

Γάργαρα também expressava ‘uma grande quantidade’, como em Lemnianas: “Qualquer casa estava repleta de homens estrangeiros”. Também aparece em

Boethoi, de Aristómenes: “Pois entre nós há uma multidão (γάργαρα)”. Igualmente

em Sófron: “A casa estava repleta de vasos de prata”. Na tragédia também: “Um monte de riquezas”.

De acordo com ΣΕΓ Ac. 3, uma tragédia, cujo título e autoria não foram identificados,

contém a seguinte expressão: χρημάτων τε γάργαρα (‘um monte de riquezas’). Trata-se do fr. adesp. 442 (TGF), que é testemunhado exclusivamente por ΣΕΓAld Ac. 3 e por S ψ.22, que também é um escólio de Acarnenses.

Esses catorze exemplos de fragmentos de poetas trágicos que acabamos de mostrar também comprovam parcialmente a importância intrínseca dos escólios de Acarnenses. Fazemos questão de lembrar que os escólios de Acarnenses são o único testemunho de cada um desses catorze fragmentos trágicos.