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Nessa primeira parte da obra, Alberto Pasqualini quer apresentar questões acerca do “Crédito lucrativo e crédito social”. O debate é extenso, mas pode-se destacar na fala do autor que seu interesse, ao falar sobre crédito, é pontuar distinções fundamentais sobre o regime capitalista acima do regime socialista; estabelecer porque o capitalismo torna-se mais apto em nossa sociedade; apresentar as mazelas sociais brasileira e possíveis soluções para as mesmas, indicando, sobretudo, a presença e atuação do Estado nesse contexto.

Para Pasqualini, a existência do capital deve promover “(...) o desenvolvimento da economia, a multiplicação e o aperfeiçoamento dos meios de produção, a fim de que possam atender cada vez melhor às necessidades humanas, ao conforto dos indivíduos e ao progresso social”102.

O autor ressalta que o modelo capitalista visa o lucro, enquanto o socialista visa a satisfação das necessidades, mas o autor retoma seu posicionamento indicando que, de fato, a produção capitalista também se destina à satisfação de necessidades humanas. E, além disso, ele pontua que outros aspectos do socialismo inviabilizam esse sistema de ser o mais apto para as relações de trabalho. A esse respeito diz o autor:

“Mas, a economia capitalista não se distingue da economia socialista apenas quanto à propriedade dos meios de produção e à liberdade de iniciativa. Há entre ambas, pelo menos teoricamente, outro traço diferenciativo de primacial importância e que concerne ao fim: o empreendimento capitalista visa o lucro, ao passo que o empreendimento socialista visa o consumo, isto é, a satisfação de necessidades. Há, no primeiro, predominantemente, um intuito e um interesse privado, individual, enquanto no segundo existe um objetivo coletivo ou social. (...) Sob este aspecto parece manifesta a superioridade da produção socialista, há, entretanto, fatores negativos que tornam, em determinadas circunstâncias, o sistema socialista de produção menos apto para beneficiar o trabalhador e o consumidor e, portanto, para realizar os seus próprios fins”103.

Ao final, fazendo referências aos “fatores negativos” presentes no regime socialista, esses não seriam encontrados no regime capitalista, pois, o capitalismo seria mais benéfico na

capitalista; O socialismo e as Encíclicas; O programa trabalhista às eleições de 19 de janeiro de 1947; A curva e a assíntota (essa última extraída das versões posteriores).

102 PASQUALINI, 1948, p. 5. 103 PASQUALINI, 1948, p. 2.

medida em que reunia o uso da técnica, da inteligência e do braço humano ou, em outra palavra, pelo uso do trabalho do homem104.

Sem aprofundar, ainda, a respeito das questões referentes ao “trabalho”, as palavras do autor dão destaque para as leis vigentes no Brasil, as quais não eram aplicadas de forma correta. Conforme a Constituição brasileira previa (sobretudo os artigos 145 a 147), “todos” teriam direito a uma existência digna, de bem-estar comum e, para esse fim, caberia ao Estado intervir, se necessário, no domínio econômico, monopolizar determinada indústria ou atividade quando necessário.

Em seguida, o autor passa a se referir às necessidades da população brasileira. Pasqualini, em seu texto, quer mostrar que conhece a realidade em que vive e aponta o conjunto de mazelas que aflige na sociedade:

“Ao lado dos que tudo possuem, estão os que vivem na mais completa carência: ao lado do palácio, o cortiço; ao lado do latifúndio, o marginal sem-terra, sem meios de produção e sem a possibilidade de adquiri-los; ao lado dos que dominam o crédito e finança, dos que tem à sua disposição quaisquer fundos para os seus empreendimentos, o trabalhador sem recursos, o pequeno agricultor privado de qualquer possiblidade de obter crédito e explorado pelo intermediário”105.

Segundo ele, o problema econômico e social do Brasil poderia ser reduzido quando se ampliasse a capacidade de consumo do povo, sobretudo da massa camponesa, tendo em vista essa massa representava dois terços da população do país106. Seria necessário, portanto, prevalecer a existência de uma “justiça social” e essa ser mantida em nossa sociedade:

“Um elementar princípio de justiça social exigiria, pois, que o lucro tivesse uma tríplice distribuição: uma parcela ao capitalista, como remuneração de sua inciativa e de sua atividade coordenadora; outra parcela aos trabalhadores, devendo a terceira parcela reverter à coletividade, sob a forma de benefícios de ordem geral”107. Na medida em que o indivíduo tem acesso ao capital ele poderia satisfazer suas necessidades básicas, ele teria assegurada a possibilidade de um mínimo de conforto e bem- estar, participando dos benefícios da civilização e da cultura, pois esse seria o objetivo de “toda organização social”. Para que essa realidade fosse acessível a todos, competiria ao Estado disponibilizar uma oportunidade ao alcance de todos.

104 PASQUALINI, 1948, p. 2. 105 PASQUALINI, 1948, p. 6. 106 PASQUALINI, 1948, p. 19. 107

Mais do isso, a solução pasqualinista para essa realidade consistia, ainda, que nossas relações sociais se subordinassem “a uma nova concepção do capital, de modo que houvesse mais harmonia no desenvolvimento do processo econômico”. Nesse contexto, sob o âmbito capitalista, e não excluindo a figura do Estado, o autor destaca que até mesmo a prática da democracia está associada ao valor dado ao trabalho, ainda não exercido com plenitude em nossa sociedade:

“O trabalho só encontrará a sua valorização no dia em que o trabalhador puder viver uma vida de decência, de conforto e de bem-estar, o dia em que puder satisfazer certas necessidades complementares, que puder instruir-se, elevar o seu nível cultural, adquirir discernimento, tornando-se de fato um cidadão apto a participar da vida política da nação. Porque somente nesse dia teremos, efetivamente, alcançado as condições elementares para a realização e a prática da democracia”108.

Sempre apoiando-se no texto constitucional, o autor estabelece que a figura do Estado é responsável por grande parte do progresso social pelo qual os indivíduos da sociedade precisam passar. Se a Constituição informa que o trabalhador é merecedor de um trabalho que lhe possibilite uma existência digna diz o autor: “É, portanto, dever constitucional do Estado pôr à disposição do indivíduo os meios de realizar uma existência digna”. E que esses meios, porém, poderiam diversificar de acordo com o gênero de vida, aptidões, capacidade e inclinações do indivíduo109.