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Directorio por hum Decreto...”.

Em fins do século XVIII um novo contexto surge para os índios no Ceará, não só pela implantação da política dos governadores no ano de 1799, em substituição aos Capitães-Mores indicados pelo Governo de Pernambuco. Como visto antes, na Vila Viçosa, e demais vilas indígenas, a execução do Diretório Pombalino gerou uma dinâmica complexa envolvendo nativos, moradores brancos, diretores e Capitães-Mores. De modo geral, no Brasil, índios e não índios vinham mais descumprindo do que obedecendo as leis pombalinas. Como instrumento jurídico-político de controle, e para geração de riquezas ao Estado português, o Diretório não estava preenchendo plenamente estes interesses da Coroa no final dos anos setecentistas.

Desta forma, através da Carta Régia de 1798, a rainha de Portugal D. Maria I extinguiu o Diretório através das seguintes palavras:

Hei por bem abolir e extinguir de todo o directorio dos índios...para que os mesmos indios fiquem sem differença dos outros meus vassallos, sendo dirigidos e governados pelas mesmas leis que regem todos aquelles dos differentes Estados que compoem a monarchia, restituindo os indios aos direitos que lhes pertencem, igualmente aos meus outros vassallos livres1.

Analisando esse trecho da Carta Régia, um de seus principais objetivos era transformar os índios em súditos iguais aos demais. Logo, isso significava que, afora a extinção de práticas sócio-culturais e religiosas indígenas, fazia-se preciso incentivar o processo de miscigenação para a eliminação dos traços físicos que distinguiam índios e europeus. Noutros termos, pretendia-se a assimilação do índio, algo pelo qual o Estado português vinha lutando desde o século XVI, meta veementemente perseguida por Pombal através do Diretório dos Índios.

Quanto à fala de que o índio haveria de ser livre sem distinção do branco, a Carta Régia não apresentava novidades. Aliás, são muitos os pontos

1Carta Régia de 12 de maio de 1798. In: MOREIRA NETO, Carlos de Araújo. Índios da

Amazônia: De maioria a minoria (1750-1850). Petrópolis. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda. Ano, 1988. p. 221.

comuns entre as ordens de D. Maria I e as ideias que estavam contidas no Diretório. O discurso de combate a “natural ociosidade” indígena, por exemplo, continuou tendo sua relevância para fazer prosperar o “real serviço” da Coroa e de “particulares”. Ademais, da mesma forma que o Diretório, a Carta Régia defendia o casamento misto para que se chegasse “ao ponto de se confundirem as duas castas de indios e brancos em uma só de vassalos uteis ao Estado e filhos da Igreja”2.

Contraditória como o Diretório, mas visando a uma nova política, a Carta Régia defendia que a “todos será livre o fazer commercio com os gentios”, ordenando que a “todo aquelle individuo livre que quizer estabelecer- se nas terras e povoações dos gentios, lhe será concedida licença para isso”3.

Com essa medida, a referida carta corroborou, portanto, para usurpação das terras indígenas. Quanto à administração dos índios, como se negava o poder dos diretores, transferia-se às Câmaras o papel de gerenciá-los, retirando-os também da “alçada de suas lideranças”. Segundo Sampaio (2007: p.51), isso gerou insatisfação entre Principais, sendo que a “medida paliativa adotada foi nomeá-los “para os postos militares”, pois como os índios se alistariam nas milícias poderiam assim ser comandados por aqueles. Destarte, todos seriam organizados e vigiados pelas Câmaras.

Em 1812, o governador Manuel Ignácio de Sampaio enviou ofício ao Capitão-Mor dos índios de Viçosa, Ignácio de Sousa Castro, ordenando: “Vmce

passará com a Camara dessa Villa a faserem a proposta dos postos vagos que se acharem no corpo das ordenanças dos Indios do seu commando seguindo em tudo o q‟ se acha determinado pelo regim.to das ord.as e Directorio a qual

me dirigiraõ”4. Cabia ao Principal, portanto, indicar seus comandados aos

postos vagos nas ordenanças indígenas, embora tudo passasse pelo crivo da Câmara, que podia acatar ou não. Logo, nota-se que nenhuma ação, no tocante a decisões militares no interior da vila, questões relativas ao trabalho e outras coisas, dependiam exclusivamente dos nativos. Assim, a liberdade proposta a eles por D. Maria I não existia plenamente, tinham de agir sob

2Id.Ibidem.

3Id.Ibidem.

4APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Série: Registros de Ofícios aos Capitães-

Mores, Comandantes de Distritos e Diretores de Índios. Ofício enviado pelo governador do Ceará, Manuel Ignácio de Sampaio, ao Capitão-Mor dos Índios de Vila Viçosa Real, Ignácio de Sousa Castro. 02/12/1812. Cx. 5. Livro n.º 16 (1812-1813). fl.54/54v.

certas condições, cumprir exigências, enfim, na lógica dominante o sentido de ser liberto na verdade não denotava livre arbítrio. Aliás, as determinações da Carta Régia não foram totalmente cumpridas pelos luso-brasileiros.

Na prática, o Diretório ainda vigorou, os diretores continuavam sendo elementos-chave no interior das vilas de índios. Em contrapartida, os chefes indígenas, que sempre negociaram com a Coroa, continuaram firmes em suas exigências para melhor representar os seus, segundo a lógica política lusa. Em 1804, por exemplo, o índio Antônio A. Barboza (ou Bezerra) requereu ao governador João Carlos Augusto de Oeynhausen Gravenburg que continuasse com a patente de Comandante de Índios da Aldeia de São Pedro de Ibiapina, alegando ter se dedicado à execução dos Serviços Reais. Por uma Ordem de Nomeação de 20 de fevereiro daquele ano, o referido governador autorizou:

...Hei por bem referendar ao dito Antonio Alves Barboza no emprego de commandante dos Indios da referida povoação; com o qual haverá todos os emolumentos puder e percalços que diretamente lhes pertencerem; e será obrigado a cumprir exatamente as Ordens que lhe forem distribuidas pelo Director da referida Povoação, e a manter a Paes, e o socego entre os seus Commandados, e o aplicalos a cultura das terras, e plantaçoens, e principalmente da mandioca na conformidade do Real Directorio, e Ordens posteriores. Pelo que Ordeno ao referido Director por tal o reconheça, honre, e estime; e as pessoas suas subordinadas lhe obedeção e cumprão suas Ordens relativas ao Real Serviço como devem e são obrigados...5

Note-se que o Principal Antônio Alves, como comandante dos índios, teria, entre outras atribuições, a de obedecer ao diretor e incentivar seu séquito ao cultivo da terra, além de procurar manter a paz entre aqueles. Noutras palavras, isto traduz o interesse da Coroa em obter a fidelidade de um chefe indígena para controlar os demais em todos os sentidos.

Em contrapartida, a iniciativa daquele maioral, que reivindicou perante o Governo da Capitania do Ceará o direito de se manter como comandante maior na hierarquia militar indígena, em São Pedro de Ibiapina, traduz sua preocupação em: confirmar-se como tal diante de seus subordinados; gozar de

5APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Série: Registro de Patentes dos Comandantes

de povoações e lugares desta Capitania. “Nomeação de Commandante dos Índios da Povoação de S. Pedro da Biapina referendada a Antonio Alvez Bezerra”. 20/02/1804. Cx. 21. Livro n.º 70 (1804-1828). fl.2v. Observação: No corpo do registro citado, como se vê, o referido índio é chamado de Antonio Alvez Barboza, e não Bezerra, daí resultando a dúvida a respeito de seu último sobrenome. Mas, o fato é que se trata de um chefe indígena da Aldeia de São Pedro de Ibiapina, do Termo da Vila Viçosa Real.

poder para representá-los na referida aldeia, mesmo que na posição de administrado do diretor; e poder continuar fazendo reivindicações às autoridades coloniais.

Embora submetidos às leis da Coroa, no início do século XIX, assim como aconteceu no XVIII, os índios Principais do Termo da Vila Viçosa buscaram exercer o papel de liderança ocupando seus postos militares com legitimação oficial, pois enquanto deste modo fizessem estariam, por conseguinte, mantendo seus grupos como unidades políticas com reconhecimento do Estado, e poderiam assim se valer de certas condições aparentemente favoráveis que lhes eram apresentadas.

Há um paradoxo na ordem de nomeação de comandante de índio para Antonio Alves: ora, como poderia ele seguir as determinações segundo “o Real Directorio, e Ordens posteriores”? Se acatasse de fato as ordens posteriores não haveria de obedecer ao próprio Diretório e, por isso, ao diretor, uma vez que a Carta Régia legalizava o fim destas instituições. Isso reflete, de certo modo, uma contradição, ou indecisão, em relação à legislação indígena naquele ensejo, seis anos após a publicação da dita carta. E sobre a exigência para o Principal “manter a Paes” entre os comandados era algo complexo, pois nem sempre os índios queriam dedicar-se ao “Real Serviço” e/ou de particulares.

Mas em Viçosa, nos primeiros decênios do século XIX, como de praxe os índios foram bastante recrutados aos serviços dos lusos. Certos fazendeiros do Piauí, por exemplo, mantiveram relações estreitas com alguns governantes do Ceará, interessados na exploração do trabalho destes indígenas. Em 1813, Manuel Ignácio Sampaio, que governou a Capitania de 1812 a 1820, ordenava:

Ao Director de Villa Viçosa Real de (dê) ao Coronel Simplício Dias da Silva morador na Villa da Parnaiba todos os Indios de que o mesmo Coronel necessitar para as suas lavouras ou outros quaesquer misteres na forma ategora praticada e seguindo em tudo o que determina o Directorio...6(grifo meu)

O governo de Sampaio foi marcado por sua assídua tentativa de controle dos nativos e outros segmentos sociais. Uma vez que a preguiça era

6APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Série: Registros de Ofícios aos Capitães-

mores, Comandantes de Distritos e Diretores de Índios. “Registo da Portaria ao Dir.or de V.ª

Viçosa p.ª dar todos os Índios q‟ o Cor.el

Simplicio pedir”. 16/08/1813. Cx. 5. Livro n.º 17 (1813). fl. 129/129v.

vista como algo inerente aos índios no modo de ver eurocêntrico, assim como seus antecessores esta autoridade procurou a todo custo discipliná-los pelo viés do trabalho que deveria ser prestado aos brancos.

Não obstante ter sido enviado ao diretor de Viçosa, o documento ora citado revela uma resposta positiva a Simplício Dias para que utilizasse em seus serviços de lavouras, ou “quaesquer misteres na forma ategora praticada”, todos os índios de que precisasse. Da forma como se expressou Manuel Ignácio, subtende-se que era algo bastante comum a exploração dos serviços dos índios desta localidade pelo referido coronel.

Note-se ainda que, pela ordem de Sampaio, se fazia necessário seguir “o que determina o Directorio”. Logo, considerando as determinações daquele governador em 1813, na Vila Viçosa, e no Ceará, a Carta Régia não operou grandes mudanças quanto às relações de trabalho e inserção social da população indígena, dando-se maior relevo, naquele contexto, às diretrizes da política pombalina. Por conseguinte, como na segunda metade do século XVIII índios e diretores conviveram uns com os outros de modo que por várias razões mais se desentendiam do que se entendiam, nos primeiros anos do século XIX não foi diferente a situação entre eles.

Quando o Governo do Ceará ordenou que fosse disponibilizado ao coronel Simplício “todos os Indios” de que precisasse para seus trabalhos, era diretor dos índios na Vila Viçosa o Sargento-Mor Antônio do Espírito Santo Magalhães, sendo Capitão-Mor dos nativos Ignácio de Sousa Castro, descendente de Jacob de Sousa e Castro. Um ano depois, em 1814, problemas de longas datas enfrentados pelos nativos lhes asfixiavam de tal modo que eles, juntamente com os de Ibiapina (aldeia anexa), emitiram um requerimento à Coroa, denunciando, entre outras coisas: o abuso de poder dos diretores; a usurpação das terras indígenas; a exploração demasiada da mão de obra; as péssimas condições de trabalho e formas de pagamentos; as contínuas tentativas de escravização feitas pelos proprietários e pelos próprios diretores; enfim, várias questões desfavoráveis aos mesmos.

Logo de início, no referido documento, indica-se o destinatário e o assunto que seria tratado:

A Soberana e Augusta Rainha Nossa Senhora que Deos Guarde dos Indios Nacionaes da Serra Grande denominada Ibiapaba Villa Viçosa

Real da America das leis que tem feito os Directores contra as ordens de sua Magestade Fidelíssima...7.

Como se nota no trecho acima, o requerimento de 1814 foi destinado à D. Maria I, ou seja, justamente para quem outrora havia declarado extinto o Diretório através da Carta Régia de 1798. Contudo, na verdade cabia ao príncipe regente D. João a incumbência de administrar o Brasil, posto que os problemas de saúde que naquele ensejo afetavam a rainha lhe impediam de exercer na prática esse papel. Porém, simbolicamente, e talvez por estratégia, a dita rainha era citada, pois, destacá-la num documento contrário aos diretores, a propósito em 1814, era o mesmo que relembrar que no passado a soberana havia ordenado a abolição da política pombalina, algo não efetivado plenamente.

Assim, nota-se que uma das questões que os índios procuraram enfatizar se referia ao fato dos diretores virem atuando “contra as ordens de sua Magestade Fidelissima”, quando na verdade não deveriam nem mais existir tais cargos. Desta forma: “Disem os Povos Indios todos juntos abitantes de Villa Viçosa Real da America, que elles supplicantes a cincoenta annos são dos Directores desta Real Villa athé este presente anno de mil oitocentos e quatorse”. Na verdade, considerando que a vila foi institucionalizada em 1759, são mais de 50 anos até aquela data de 1814. Porém, esta imprecisão em relação ao total de anos apontados não diminui a importância da denúncia feita pelos indígenas em relação aos diretores. Evocando o passado, os índios diziam não gozar de “honras nobresas, liberdades, e privilegios dados por sua Magestade o falecido Rei Dom João Quinto” e seus sucessores8.

2.1 “Vexames de Captivos”: os desmandos dos diretores

Ante as análises traçadas até aqui, e tendo em vista a fala indígena ora exposta, embora as imposições da Coroa sempre tenham existido e os jesuítas se dedicado para eliminar os costumes indígenas, com os ditos padres os

7APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Série: Correspondências da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra ao Governo da Capitania do Ceará. Requerimento dos Índios da Vila Viçosa Real à Coroa, 1814. Cx.29. Livro n.º 93 (1812- 1815). fl. s/n.

índios tinham mais autonomia do que quando passaram a conviver com os diretores. Ao fazer essa afirmação, não se tem como objetivo amenizar perdas étnico-culturais e sociais nativas quando da administração dos Soldados de Cristo, mas é impossível estudar a denúncia feita contra os diretores sem se reportar à presença jesuítica entre os índios. O que estes últimos entendiam como “honras”, “nobrezas”, “liberdades e privilégios”, parece estar ligado diretamente ao poder dos Principais quando faziam acordos com os inacianos, que por sua vez legitimavam esse poder. Na Aldeia da Ibiapaba, afora receberem títulos, patentes militares, e poderem administrar seus séquitos coadunados com os padres, os chefes índios tinham os religiosos como aliados contra a violência dos proprietários, enquanto que os diretores eram a própria violência na vida indígena, segundo a versão deles próprios.

Os nativos, ao citar o nome de D. João V, evocavam um contexto que consideravam como tempo de conquistas, intrinsecamente relacionadas com as guerras. À época, juntavam-se aos jesuítas na administração da Aldeia, dentre outros, os Principais: D. Jacob de Sousa, D. Sebastião Saraiva Coutinho (filho de D. Sebastião) e D. José de Vasconcelos (muito possivelmente filho de D. Simão de Vasconcelos). Em 1814, portanto, os índios de Viçosa eram cientes da importância bélica de seus antepassados à Coroa, pois em muitas ocasiões foram recrutados às “batalhas que derão nos Barbaros Gentios deste Brasil”, em particular no Maranhão e Piauí. E se por um lado sabiam perfeitamente da dedicação daqueles, por outro cobravam que os brancos lhes respeitassem, fazendo referência também a uma “Onrada Patente que foi dada aos seos antepassados"9.

A carta patente à qual se referiram foi passada pelo rei D. João V ao Principal e Mestre de Campo D. José de Vasconcelos, nomeado “Governador dos Índios” em 1721, “por falecimento” de D. Jacob de Sousa10, que exercia tal

9Id.Ibidem. 10

“...D. José de Sousa e Castro teria recebido a nomeação de “governador” dos índios de Ibiapaba depois da morte, em 1720, de D. Jacob de Sousa e Castro”. MAIA, Lígio José de Oliveira. Serras de Ibiapaba. De aldeia à vila de Índios: Vassalagem e Identidade no Ceará colonial – Século XVIII. Op., Cit. p.285. Dessa forma, ajudo aqui a esclarecer dúvidas de Maia, pois, como se vê, D. José de Vasconcelos foi nomeado “Governador dos Índios” com a morte de D. Jacob de Sousa e Castro. No entanto, é possível que D. José de Sousa e Castro tenha sucedido a D. José de Vasconcelos em tal posto, quando este último morreu, segundo o requerimento dos índios de Viçosa em 1814: em “guerras que overaõ...miseravelmente sem sacramento algum mostrando ser fiel vassallo de sua Magastade...”. Sobre isso, ver: documento cuja nota de rodapé seguinte faz menção e

posto. Na ocasião em que passou a patente ao índio D. José em 1721, o rei estimou os Tabajara, entre outras coisas, por lutarem contra os “gentios bárbaros” da “Capitania do Ceara e do Piauhi” e por que numa batalha “matarão o Indio Mandu Ladivio (Ladino)” – “hum dos mais crueis inimigos” dos lusos. Por isso, determinava que em tal “posto” o maioral “gosara das horas jurisdição e prehiminencias que lhe tocarem”, bem como “gosara seo antecessor” 11.

Por fim, D. João V ordenava ao seu “governador Capitao General da Capitania de Pernambuco, conheça ao dito Dom Jose de Vasconcellos por Governador dos ditos Indios como tal o honre estime e deixe exercitar o seu posto e gosar as honras que em rasão delle lhe são concedidas”12. Desse

modo, os direitos e glórias indígenas conquistados outrora, que vinham através das guerras ao lado dos lusos, era uma história que fazia parte do presente dos índios de Vila Viçosa em 1814. Os chefes indígenas do passado ocupavam, portanto, um lugar na memória de seus descendentes. Para além de exaltar feitos antigos, ao rememorar suas vitórias os Principais, no início do século XIX, se apresentavam também como continuação de uma linhagem que lhes permitia exigir bons tratamentos da parte dos brancos administradores da vila. Se no decorrer dos anos a Coroa vinha concedendo aos índios Principais patentes e títulos que lhes distinguiam, os de Vila Viçosa queriam na prática gozar de poder, e não ficar refém de uma rígida política de controle adotada pelo Estado como estava ocorrendo. Segundo Koster, que demorou no Ceará do final de 1810 ao início de 1811: à época “o Capitão-Mor indígena” era “muito ridicularizado pelos brancos e, com efeito, um oficial meio nu, com sua bengala de castão de ouro na mão é um personagem que desperta o riso aos nervos mais rijos” (KOSTER: 2002 [1816] p.225). Embora este autor tenha refinado sua fala com alta dose de exagero, o teor do requerimento dos índios de Viçosa ratifica a versão de que como vassalos do rei eles tinham seus direitos bastante desconsiderados pelos não índios.

requerimento dos índios da Vila Viçosa de 1814 – ambos localizados no: APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Cx. 29. Livro n.º 93 (1812-1815). fl. s/n. Doc., cit.

11APEC. Fundo: Governo da Capitania do Ceará. Série: Correspondências da Secretaria de

Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra ao Governo da Capitania do Ceará. Carta Patente pela qual D. João V concedeu o título de “Governador dos Índios” para D. José de Vasconcelos, em 1721, trasladada depois do requerimento emitido pelos Índios de Vila Viçosa Real à Coroa, 1814. Cx. 29. Livro n.º 93 (1812-1815). fl. s/n.

Passando a administrar os indígenas a partir de 1759, ao invés de ratificarem como os jesuítas o poder dos Principais, os diretores procuraram pôr fim na lógica predominante na Aldeia da Ibiapaba. Teoricamente, o Diretório defendeu que os laicos deveriam governar os índios juntamente com os chefes deles, mas não foi isso que ocorreu na prática, e sim uma incessante

Benzer Belgeler